Projeto
20
ATLAS
LINGUÍSTICO DO BRASIL (Projeto ALiB)
Coordenadoras:
Jacyra Andrade Mota - jacymota@gmail.com
Vanderci
Aguilera - vanderciagui@gmail.com
_______________________________________
O Projeto Atlas
Linguístico do Brasil (ALiB), iniciado em
1996, trouxe à luz três volumes: em 2014, o da
Apresentação (v. 1) e o de Cartas (v. 2), e em 2023, o v. 3
contendo análise e descrição das cartas do 2º volume.
Para o quadriênio 2026-2029, propõe a publicação dos
volumes subsequentes envolvendo dados das 25 capitais não explorados nos
volumes anteriores e aqueles coletados nas demais 225 localidades do interior
que compõem a rede de pontos do ALiB.
Diante desse panorama, com o
propósito de promover o encontro de dialetólogos e sociolinguistas do Brasil e de demais países
integrantes da ALFAL, propomos: (i) reunir
pesquisadores que se dedicam a temas relativos aos fatos do Português
Brasileiro; (ii) expor os resultados parciais ou totais dos
temas selecionados para os volumes 6 e subsequentes (dados das localidades do
interior do ALiB); (iii)
discutir comparativamente dados geolinguísticos do Português
Brasileiro com os de Línguas românicas; (iv) comparar resultados obtidos
no âmbito do Projeto ALiB com aqueles registrados em comunidades
tradicionais, como as indígenas e as quilombolas; (v) propiciar um
ambiente de discussão conjunta de outras pesquisas geolinguísticas com dados de atlas estaduais e de
pequeno domínio; (vi) incentivar jovens
pesquisadores para atuarem nas áreas da Geolinguística e da
Dialetologia Pluridimensional.
_______________________________________
XX CONGRESSO
INTERNACIONAL DA ALFAL
Concepción - Chile
22 a 26
de janeiro de 2024
CONVITE
ATLAS
LINGUÍSTICO DO BRASIL
CHAMADA
PARA APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS
Convidamos
os colegas para a apresentação de propostas de
comunicação sobre dados dialetológicos caracterizadores de
áreas brasileiras, no XX Congresso Internacional da ALFAL, a ser
realizado na Universidade de Concepción/Chile, de 22 a 26 de janeiro de
2024.
A
submissão deve ser realizada no site do Congresso, no link https://alfal2024.cl/formulario/. Ao inscrever-se, indicar explicitamente o Projeto 20: “ATLAS
LINGUÍSTICO DO BRASIL”
O XX Congresso Internacional da ALFAL tem
como tema "Discursos ecológicos y significados
esperançosos".
O
Projeto Atlas Linguístico do Brasil (ALiB),
iniciado em 1996 durante o Seminário Caminhos e Perspectivas da Geolinguística no Brasil, realizado na Universidade
Federal da Bahia, publicou, em 2014, os dois primeiros volumes:
Apresentação (v. 1) e Cartas (v. 2) e, em 2023, o v. 3, contendo
os estudos dos temas relativos a aspectos fonéticos, lexicais, morfossintáticos
e prosódicos, coletados nas capitais brasileiras e veiculados nas cartas
do 2º volume.
Para
o quadriênio 2023-2026, propõe a publicação dos
volumes subsequentes envolvendo dados das 25 capitais não explorados no
volume 2 e aqueles coletados nas demais 225 localidades não-capitais que
compõem a rede de pontos do ALiB.
Diante
desse panorama, com o propósito de promover o encontro de
dialetólogos e sociolinguistas do Brasil e de
demais países integrantes da ALFAL, propomos: (i) reunir pesquisadores
que desenvolvem temas relativos aos fatos do Português Brasileiro
apresentados no volume 2 do ALiB; (ii) expor os resultados parciais ou totais dos temas
selecionados para o volume 4 (dados das capitais) e volumes subsequentes (dados
das não-capitais); (iii) discutir
comparativamente dados geolinguísticos do
Português Brasileiro com os das Línguas românicas; (iv) incentivar jovens pesquisadores para atuarem nas
áreas da Geolinguística e da
Dialetologia Pluridimensional.
INFORMAÇÕES GERAIS:
(a)
Os resumos das comunicações devem ser redigidos em fonte Times
New Roman 12 e ter no máximo 300 palavras. Devem ser especificados: o
tema, os objetivos, a metodologia, a fonte de dados e os resultados obtidos na
análise.
(b) O resumo deve ser enviado também
aos coordenadores do Projeto 20: jacymota@gmail.com; vanderciagui@gmail.com
(c) Dados para as
apresentações:
Comunicação (20 minutos de
exposição e 10 minutos para perguntas)
Pôster digital (1 x 0.80)
(d) DATAS IMPORTANTES:
Data
para o envio de propostas: 05 de agosto a 30 de setembro de 2023
Data
limite para notificação do aceite: 30 de outubro de 2023.
Aguardando a manifestação dos
colegas, atenciosamente
Jacyra Andrade Mota
Vanderci de Andrade Aguilera
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XIX Congresso Internacional
ALFAL
2021
8 a
13 de agosto
Remoto

____________________________________________________
CONVOCAÇÃO
XIX Congresso da ALFAL
La Paz - Bolívia
TEMA PROPOSTO: A
GEOLINGUÍSTICA NO SÉCULO XXI
O Projeto 20-Atlas Linguístico do Brasil
desenvolverá atividades no XIX Congresso da
ALFAL, que se realizará em La Paz, Bolívia, entre
10 e 14 de agosto de 2020.
Temos o prazer de convidar todos os membros do
Projeto ALiB, assim como outros pesquisadores que queiram se associar a essa
programação.
Para a participação:
1.
Devem enviar um resumo, até 15 de novembro seguindo
as normas divulgadas pela organização do Congresso, diretamente
para alib@ufba.br, com
cópia para Jacyra Mota (jacymota@gmail.com) e Vanderci Aguilera (vanderciagui@gmail.com), indicando no
assunto “Resumo para Projeto 20-Congresso da ALFAL”, de modo a
atendermos à data limite de 24 de novembro 2019 - 31 de janeiro de 2020, fixada pela organização.
2.
Os
temas a serem abordados podem vincular-se à Geolinguística em
geral ou, especificamente, a atlas linguísticos, com enfoque em
quaisquer dos níveis de abordagem da língua.
3.
Os
trabalhos podem ser apresentados sob a forma de comunicação oral
ou de pôster.
4.
Os
resumos serão apreciados por uma comissão constituída pelo
Projeto.
5.
Carta
de aceite será enviada aos participantes.
Contamos com a participação dos
colegas.
Jacyra Andrade Mota e Vanderci de Andrade Aguilera
Coordenadoras do Projeto 20
____________________________________________________
XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ALFAL
Bogotá D.C. - Colômbia
24-28 de julho de 2017
PROGRAMAÇÃO
1º. DIA – Terça-feira, 25, 09:00h - 12:00h
1. Aline Farias (UFRJ); Dinah
Callou (Orientadora, UFRJ). Sobre duração vocálica e
apagamento do rótico em coda silábica: uma análise
acústica
2. Ingrid Oliveira (UFRJ);
Carolina Serra (UFRJ). Apagamento do r em coda silábica
externa: a Região Sul do Brasil
3. Dinah Callou (UFRJ); Aline
Farias (UFRJ); Bruna Martins (UFRJ) A propósito da concordância
verbal e das origens do português brasileiro
4. Josane Moreira de Oliveira
(UEFS). O imperativo verbal no Nordeste brasileiro: um caso de
variação e mudança linguística
2º. DIA – Quarta-feira, 26, 09:00h - 12:00h
1. Mayra Santana (UFRJ); Karilene da Silva Xavier (UFRJ). Variação e
prosódia no corpus do ALiB: uma análise dos róticos
em coda nas capitais do sul do Brasil
2. Priscila Francisca dos
Santos (UFRJ). A variação entonacional no Rio Grande do Sul: as
interrogativas totais
3. Beatriz Aparecida Alencar
(UFMS). Denominações para 'bolinha de gude' no estado de
São Paulo a partir de dados do Projeto ALiB: panorama e análise
4. Marcela Moura Torres Paim
(UFBA). Os fraseologismos no campo semântico convívio e
comportamento social nas capitais do Brasil
3º.
DIA - Quinta-feira, 27, 09:00h - 12:00h
1. Conceição de
Maria de Araujo Ramos/UFMA; José de Ribamar Mendes Bezerra/UFMA;
Flávia Pereira Serra/UFMA. Um
estudo da variação denominativa da banana gêmea com
base nos dados do ALiB.
2. Fabiane Cristina Altino
(UEL). As denominações de
pão francês nas Regiões Sul e Sudeste.
3. Georgiana Márcia
Oliveira Santos (UFMA). A
variação no campo semântico-lexical vestuário
e acessórios: uma abordagem geossociolinguística com base no corpus constituído para o ALiMA
4. Vanderci de Andrade Aguilera
(UEL/CNPq). Uma análise da
variação lexical no campo da vida urbana.
RESUMOS
Aline Farias (alinejfarias@gmail.com)
Orientadora: Dinah Callou (dcallou@gmail.com)
Universidade
Federal do Rio de Janeiro
SOBRE
DURAÇÃO VOCÁLICA E APAGAMENTO DO RÓTICO EM CODA
SILÁBICA: UMA ANÁLISE ACÚSTICA
O trabalho
busca estabelecer uma correlação entre o fenômeno do
apagamento variável do rótico em posição de coda
silábica final e a configuração fonológica da
sílaba no português brasileiro. A amostra utilizada faz parte do corpus do Projeto ALIB (https://alib.ufba.br/) e compõe-se de
elocuções de fala espontânea de quatro falantes de
Teresina/PI e quatro de Correntes/PI, com até o 5º ano do ensino
fundamental. Além de confirmar hipóteses sobre a influência
de fatores linguísticos e sociais na aplicação da regra
variável de apagamento do rótico — dentro da perspectiva da
sociolinguística variacionista (LABOV, 1994) — propõe-se
uma análise acústica, por meio da qual serão analisadas as
unidades de duração da sílaba (moras), visando a responder
a como se daria a (re)organização temporal da sílaba
quando ocorre a queda do segmento. Hyman (1985) postula que uma sílaba
pesada possui duas unidades temporais: uma mora que estaria associada ao onset
+ núcleo e outra que estaria relacionada à consoante em coda.
Caberia indagar se, quando ocorre a queda do segmento em coda, (i) a unidade
temporal seria mantida, através de um possível alongamento
compensatório da vogal, ou (ii) esta unidade temporal desapareceria.
Estudos acústicos sobre a aquisição do constituinte coda
revelam que o “alongamento compensatório” é uma
estratégia de reparo temporal, em que o falante alonga a vogal que
antecede o segmento em coda, com o objetivo de manter a unidade temporal da
sílaba (MEZZOMO, 2003). Busca-se verificar se tal comportamento se
reflete na fala espontânea de indivíduos adultos. Os resultados
preliminares, relativos aos falantes nascidos em Teresina, apontam para um
possível prolongamento da vogal: a média duracional da vogal da
sílaba em que rótico é foneticamente realizado, é
de 0,185 segundos, enquanto a
média da vogal, quando se dá o cancelamento do segmento, é
de 0,261 segundos, ou seja, a
duração da vogal sem a preservação do R é 41% maior.
Beatriz
Aparecida Alencar (bia83_12@hotmail.com)
Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul
DENOMINAÇÕES
PARA 'BOLINHA DE GUDE' NO ESTADO DE SÃO PAULO A PARTIR DE DADOS DO
PROJETO ALIB: PANORAMA E ANÁLISE
A importância dos entretenimentos infantis e,
consequentemente do lúdico, manifesta-se por meio de jogos e
diversões infantis que, por sua vez, revelam aspectos da cultura de uma
comunidade de falantes, inclusive na norma lexical desse grupo social. Este
estudo tem como objetivo analisar as denominações para o conceito expresso na pergunta “como
se chamam as coisinhas redondas de vidro com que os meninos gostam de
brincar?” – pergunta 156 que integra a área semântica
dos jogos e diversões infantis do Questionário Semântico-Lexical do Projeto ALiB (Atlas
Linguístico do Brasil). Para tanto são examinados os dados
coletados pelo Projeto ALiB nas 37 localidades relativas à rede de
pontos no Estado de São Paulo, além dos oriundos das 10 cidades
limítrofes com a fronteira de São Paulo (uma em Mato Grosso do
Sul, três no Paraná, quatro em Minas Gerais e duas no Rio de
Janeiro), região neste estudo considerada área de controle.
Foram, enfim, examinadas as respostas fornecidas por 192 informantes, quatro de
cada uma das localidades situadas no interior e oito na capital paulista, de
ambos os sexos, de duas faixas etárias (10-30; 50-65), com grau de
escolaridade universitário na cidade de São Paulo e até o
ensino fundamental completo, no interior e na capital. O estudo pauta-se em
pressupostos teóricos da Dialetologia e da Lexicologia, ancorando-se
também em fundamentos da Semântica, da Etnolinguística e da
Antropologia Linguística. A análise busca demonstrar, com base no
recorte da questão investigada, a inter-relação entre
léxico, cultura e a história social que singulariza o Estado de
São Paulo, além de traçar possíveis áreas
dialetais de uso das variantes lexicais documentadas.
Conceição de Maria de Araujo
Ramos (conciufma@gmail.com)
José de Ribamar Mendes Bezerra (comendesufma@gmail.com)
Flávia Pereira Serra (flaviapserra@gmail.com)
Universidade
Federal do Maranhão
UM ESTUDO
DA VARIAÇÃO DENOMINATIVA DA BANANA
GÊMEA COM BASE NOS DADOS DO ALiB
Este trabalho enfoca o léxico sob uma
perspectiva dialetal, com base em dados orais coletados in loco, para a elaboração do Atlas
Linguístico do Brasil (ALiB). Tomamos o questionário
Semântico-Lexical do ALiB (QSL), mais especificamente o campo
temático atividades agropastoris,
com o objetivo geral de mapear as denominações referentes ao
conceito expresso na pergunta 43 – “Como se chamam duas bananas que
nascem grudadas?”. Objetivamos, ainda, analisar essas
denominações não só do ponto de vista
diatópico, mas também diastrático. A análise das
unidades lexicais extraídas das respostas dos informantes selecionados
fundamenta-se nos princípios da Geolinguística, da Dialetologia e
da Lexicologia. Dicionários gerais da língua portuguesa e obras
regionais também subsidiam a análise. O estudo apresenta formas
variantes que fazem parte do léxico ativo de sujeitos naturais das 25
capitais brasileiras integrantes da rede de pontos do ALiB. Considerando a
totalidade dos dados, a forma gêmeas
(~ gêmis), presente nas cinco
regiões brasileiras, representa mais da metade das respostas obtidas,
sendo seguida pelas variantes filipe
(~ filipinho), cõen (~ cõins),
mabaça, pregada (~ pegada), colada, grudada. Essa diversidade de formas registradas pelo ALiB ratifica
a inestimável contribuição que os atlas
linguísticos podem dar para que tenhamos um conhecimento mais
circunstanciado do léxico do português brasileiro.
Dinah Callou (dcallou@gmail.com)
Aline
Farias (alinejfarias@gmail.com)
Bruna
Martins (brunalara100@hotmail.com)
Universidade
Federal do Rio de Janeiro
A PROPÓSITO DA CONCORDÂNCIA VERBAL E DAS ORIGENS DO
PORTUGUÊS BRASILEIRO
Neste trabalho observa-se a
variação da concordância verbal (os meninos estudam/ os
meninos estudaØ) na fala
de indivíduos com diferentes graus de escolaridade (maior ou menor que 9
anos), em 17 capitais do Brasil. A amostra foi extraída de entrevistas
informais do corpus do Projeto ALIB,
distribuídos por faixa etária e gênero. A análise
busca identificar marcas de concordância dos verbos na 3ª pessoa do
plural e, para isso, baseamo-nos no aparato teórico-metodológico
da sociolinguística quantitativa laboviana (Labov, 1994), fazendo uso do
programa Goldvarb2001.
Esse tema, amplamente analisado, é utilizado
na discussão sobre o estabelecimento das origens do português
brasileiro e pretende-se aqui contribuir para
mostrar que a dicotomia “deriva secular” (variação
seria embrionária no PE) versus “contato” (resultante
do intenso contato linguístico, por transmissão irregular da
língua) acaba por deixar de lado alguns questionamentos e
não faz jus à complexidade sociohistórica da
implantação da língua portuguesa no Brasil. O apagamento
da marca mostrou-se sensível a condicionamentos linguísticos
e extralinguísticos, tais como, grau de animacidade do sujeito,
distanciamento do sujeito para o verbo, posição do sujeito na
oração, saliência fônica, faixa etária e
região.
O caráter inovador do trabalho reside em
procurar relacionar o percentual de ocorrência do processo a indicadores
demográficos e história social das comunidades. É necessário verificar se as características atestadas no
português brasileiro, que o afastam do português europeu,
estão presentes em todas as áreas do nosso território ou
só naquelas em que predominou a presença africana. Até o
momento, o que vimos comprova que o processo apresenta comportamento e regras
semelhantes de uso, na chamada fala culta e não-culta, no país
todo, com diferenças apenas nos índices percentuais.
Fabiane Cristina Altino (fabiane_altino@uol.com.br)
Universidade Estadual de Londrina
AS DENOMINAÇÕES DE PÃO
FRANCÊS NAS REGIÕES SUL E SUDESTE
Os
primeiros 50 anos da Geolinguística no Brasil consolidaram os estudos
dialetológicos. Avanços metodológicos, pesquisas que
recobrem o território nacional e a publicação dos
primeiros volumes do Atlas Linguístico do Brasil – ALiB trouxeram
o reconhecimento para a Geolinguística brasileira e propiciaram um salto
quantitativo e qualitativo nos estudos da área. Publicados os primeiros
dados do Projeto ALiB, é hora de “debruçar-se” sobre
os registros, analisá-los e devolver os resultados para a
apreciação da comunidade. Esta comunicação
insere-se nesta perspectiva e busca fazer o levantamento das
designações dadas pelos informantes das Regiões Sul e
Sudeste para a questão 186 do Questionário Semântico Lexical,
na área semântica da Alimentação e Cozinha que
verifica as denominações para o conhecido pão francês. O objetivo geral delimitado para esta
pesquisa é o de apresentar a cartografação da
distribuição diatópica das variantes para o pão feito com farinha branca e de
formato oblongo. Para esta comunicação, são
estabelecidos os seguintes objetivos específicos: (i) descrever e
analisar as variantes registradas sob a perspectiva da Geolinguística
Pluridimensional (THUN, 1998). As variantes serão analisadas e descritas
com base nas variáveis estabelecidas pelo projeto: sexo e faixa
etária. Para o interior o ALiB estabelece apenas a escolaridade
fundamental dos informantes. (ii) cotejar os dados registrados nas capitais
referentes às escolaridades selecionadas no projeto (fundamental e
superior). (iii) verificar a lexicalização das formas
linguísticas coletadas nas localidades estudadas. (iv) verificar a
resistência de variantes, observada a partir da dimensão rural X
urbana. Os resultados parciais apontam para a diversidade de variantes
motivadas pela religião ou pela colonização. Desse modo,
espera-se estabelecer um panorama da variação linguística
na fala do português brasileiro no que se refere ao item selecionado nas
regiões destacadas para esta apresentação.
Georgiana
Márcia Oliveira Santos (gsantos_23@yahoo.com.br)
Universidade
Federal do Maranhão
A VARIAÇÃO NO CAMPO SEMÂNTICO-LEXICAL VESTUÁRIO
E ACESSÓRIOS:
UMA ABORDAGEM GEOSSOCIOLINGUÍSTICA COM BASE NO CORPUS CONSTITUÍDO PARA O ALIMA
A
língua é um fenômeno sociocultural heterogêneo em
função da ação de fatores como idade, sexo,
localidade, escolaridade, etc. Nessa perspectiva, o Atlas Linguístico do
Maranhão – ALiMA vem investigando amplamente a
variação no português maranhense a partir de estudos, por
exemplo, sobre o aspecto semântico-lexical, uma vez que esse aspecto
reflete, de forma especial, a vital heterogeneidade de uma língua. Para
enriquecer os estudos já desenvolvidos pelo ALiMA, esta pesquisa, em
andamento, com base nos pressupostos teórico-metodológicos da
Dialetologia e da Geossociolinguística, tem o objetivo de investigar o
léxico maranhense no campo Vestuário
e Acessórios constitutivo tanto do Questionário
Semântico-Lexical – QSL do ALiMA quanto do ALiB aplicado no
Maranhão. Assim, o corpus
deste trabalho é constituído pelas respostas dadas às
questões 212 a 220 do QSL desses Atlas e a análise dos dados tem
permitido evidenciar a variação lexical maranhense ocorrida nesse
campo e identificar fatores diatópicos, diastráticos e
diageracionais que influenciam a ocorrência dessa variação.
Dessa forma, esta pesquisa já evidencia a interferência, por
exemplo, do fator diageracional na variação desse campo, a
propósito da recorrência da variante rouge no grupo da faixa etária II (50 a 65 anos), e blush, no grupo da faixa I (18 a 30 anos). Além disso, este
trabalho contribuirá para o desenvolvimento de estudos comparativos no
que concerne aos resultados obtidos nesse campo em outros estados. Seguindo a
metodologia do ALiB e do ALiMA, os informantes desta pesquisa são
mulheres e homens, das faixas etárias I e II, de, inicialmente, 05
municípios maranhenses.
Ingrid Oliveira (oliver.ingrid@hotmail.com)
Orientadora:
Carolina
Serra (carolserraufrj@gmail.com)
Universidade
Federal do Rio de Janeiro
APAGAMENTO DO R EM CODA
SILÁBICA EXTERNA:
A REGIÃO SUL DO BRASIL
A partir
de dados do projeto AliB, focalizamos neste trabalho o fenômeno
variável de apagamento do R, em posição
de coda silábica final (dizeR), confrontando o comportamento
linguístico de indivíduos de três cidades do interior da
região sul: Criciúma (SC), Caçapava do Sul (RGS) e
Guarapuava (PR). Serão utilizadas amostras de fala (discurso semidirigido)
de indivíduos com baixo grau de escolaridade (até a quarta
série do Ensino Fundamental), de ambos os gêneros e de duas faixas
etárias distintas -- de 18 a 30 anos e de 50 a 65 anos. Nosso objetivo
principal é verificar o avanço do cancelamento do rótico
em coda silábica externa no Sul do país. Nos dialetos dessa
região a consoante mantém-se ainda como uma vibrante
ápico-alveolar; nossa hipótese portanto é a de que
há uma frequência ainda baixa de cancelamento em coda, se
comparada a de cidades como Rio de Janeiro e Salvador, que apresentam
pronúncias do R mais posteriorizadas (fricativa
velar/fricativa laríngea), e onde o apagamento em posição
de coda final é quase categórico (CALLOU; SERRA, 2012). Com base
no aparato teórico-metodológico da sociolinguística
quantitativa laboviana (Labov, 1994) E da teoria da hierarquia prosódica
(NESPOR; VOGEL, 1986), pretende-se investigar a atuação de
fatores linguísticos e sociais na aplicação do processo,
além do seu encaixamento na estrutura prosódica da língua:
quanto mais alta a fronteira prosódica maior seria a tendência
à preservação, o que poderia explicar a diferença
de índices de apagamento em fronteiras interna e externa à
própria palavra (CALLOU; SERRA, 2013; CALLOU; SERRA, 2015). Resultados
preliminares apontam, para a cidade de Criciúma, um índice de
apagamento do R de 94% em verbos e 3% em não-verbos. O comportamento
em Caçapava do Sul foi semelhante, com 88% de apagamento em verbos e 9%
em não-verbos.
Josane Moreira de Oliveira (josanemoreira@hotmail.com)
Universidade Estadual de Feira de Santana /
Universidade Federal da Bahia
O IMPERATIVO VERBAL NO
NORDESTE BRASILEIRO: UM CASO DE VARIAÇÃO E MUDANÇA
LINGUÍSTICA
A
expressão do imperativo verbal é variável no
português do Brasil, podendo ser realizada com formas de subjuntivo (pegue, traga, venha) ou com
formas de indicativo (pega, traz, vem). Embora a prescrição gramatical associe as
primeiras formas ao pronome você
e as segundas formas ao pronome tu, o
que se observa é que ambas as formas ocorrem em áreas dialetais
em que também ambos os pronomes estão em variação.
Os resultados de pesquisa feita a partir de dados das capitais brasileiras,
coletados nos inquéritos realizados pelo Projeto ALiB, apontam que o
imperativo com a forma de indicativo predomina no português brasileiro
(65% de um total de 2535 ocorrências) e que o imperativo com a forma de
subjuntivo – considerada conservadora – subsiste nas capitais do
Nordeste (com exceção de São Luís), em Porto Velho
e em Curitiba (OLIVEIRA, 2016). Com o objetivo de mapear essa
variação no Brasil, que é ao mesmo tempo dialetal e
sociolinguística, e avançando a pesquisa pelas cidades do
interior do Brasil, apresentam-se aqui os resultados da análise dos
dados de cidades do Nordeste do Brasil, que integram a rede de pontos do
Projeto ALiB. O estudo, a partir do quadro teórico-metodológico
da Sociolinguística Variacionista (LABOV, 1972, 1994, 2001, 2010), além
da variável diatópica, considera também as
variáveis extralinguísticas ‘sexo’ e ‘faixa
etária’ e as variáveis linguísticas
‘polaridade da sentença’, ‘paradigma verbal’ e
‘extensão fonológica do verbo’. Os resultados apontam
para um processo de mudança em curso, condicionado por fatores
estruturais, sociais e diatópicos.
Karilene
da Silva Xavier (karilened@gmail.com)
Mayra
Santana (mstn18@yahoo.com.br)
Universidade
Federal do Rio de Janeiro
VARIAÇÃO E PROSÓDIA NO CORPUS DO ALiB:
UMA ANÁLISE DOS RÓTICOS EM CODA NAS CAPITAIS DO SUL DO
BRASIL
Neste
trabalho, pretende-se realizar uma análise complementar do comportamento
variável dos róticos em coda medial e final, nas capitais da
região Sul do Brasil, partindo-se dos resultados apresentados nas cartas
F04C1, F04C2, F04C4, F04C5 e F04C6 do
2º volume do Atlas Linguísticos do Brasil (CARDOSO et al., 2014). As amostras de fala
utilizadas fazem parte do corpus do
Projeto ALiB (estratificado por gênero, faixa etária, nível
de escolaridade e localidade de origem do falante), e foram selecionadas de todos
os trechos da entrevista em que havia conversa entre inquiridor e falante,
constituindo-se de fluxos maiores de fala, o que é imprescindível
à análise prosódica e sociolinguística que se
pretende realizar. Faz-se uso do aparato teórico-metodológico da
Sociolinguística Quantitativa Laboviana (LABOV, 1994), buscando testar a
atuação das variáveis linguísticas: classe
morfológica, dimensão do vocábulo, contexto antecedente,
contexto subsequente, consoante subsequente, tonicidade da sílaba; e das
variáveis sociais tradicionalmente testadas, e sua relação
com o tipo de realização do segmento. Focalizando a coda final,
lança-se mão ainda da teoria da hierarquia prosódica
(SELKIRK, 1984; NESPOR; VOGEL, 1986/2007), para testar possível
condicionamento prosódico ao fenômeno, a depender da
localização do rótico em relação às
fronteiras de palavra prosódica, sintagma fonológico ou sintagma entoacional
(SERRA; CALLOU, 2013, 2015). A hipótese é de que quanto mais alta
a fronteira prosódica maior a tendência à preservação
do segmento, o que poderia explicar a diferença de índices
diferenciados de apagamento em fronteira interna (coda medial) e externa (coda
final) à própria palavra. Em relação à coda
medial, intenta-se também verificar a atuação do
léxico para o cancelamento e a taxa de frequência dos itens
lexicais no corpus. A hipótese
é de que itens frequentes são mais suscetíveis a
mudanças sonoras (BYBEE, 1995), pois a
repetição gera automatização dos gestos
articulatórios e, então, redução de segmentos.
Marcela Moura Torres Paim (marcelamtpaim@yahoo.com.br)
Universidade
Federal da Bahia
OS FRASEOLOGISMOS NO CAMPO SEMÂNTICO CONVÍVIO E COMPORTAMENTO SOCIAL NAS CAPITAIS DO BRASIL
Resumo: Vinculado
ao Projeto VALEXTRA (Variação lexical: teorias, recursos e
aplicações): do condicionamento lexical às
constrições pragmáticas, convênio CAPES/COFECUB
838/15 celebrado entre a Universidade Federal da Bahia e a Universidade Paris
13 (Laboratório LDI – Lexiques, Dictionnaires, Informatique), este
trabalho objetiva, a partir do material coletado pela pesquisa do Projeto Atlas
Linguístico do Brasil, apresentar um estudo sobre a presença de
fraseologismos nos dados referentes ao campo semântico convívio e comportamento social
nas capitais brasileiras. O termo fraseologismo está sendo aqui
concebido, conforme Tristá (1988), que considera esse campo do estudo da
linguagem como um ramo da Linguística que tem por objeto de estudo a
análise de combinações de palavras as quais formam novas
unidades lexicais ou têm o caráter de expressões fixas,
como se ilustra com mão de vaca,
unha de fome (variantes de pessoa
sovina); mulher de vida fácil, mulher
de programa (variantes de prostituta)
dentre outras. Parte-se do princípio de que por unidade
fraseológica se entende toda e qualquer frase ou expressão
cristalizada, cujo sentido geral não é literal, utilizada pelos
falantes em situações comunicativas específicas e cujo
significado do todo não resulta da soma do sentido das partes. No que
diz respeito aos fraseologismos analisados podem-se fazer algumas
considerações preliminares: as criações lexicais analisadas
contemplam a polilexicalidade; as unidades fraseológicas refletem a estabilidade no sentido
atribuído por Tristá (1988) de relação tão estreita entre os elementos que os
leva a perderem o significado primário para adquirirem um novo sentido.
Assim, as designações enfocadas possibilitam
a visualização da diversidade lexical e geolinguística do
português falado no Brasil.
Priscila Francisca dos Santos (prisciladossantoss@hotmail.com)
Universidade
Federal do Rio de Janeiro
A VARIAÇÃO ENTONACIONAL NO RIO GRANDE DO SUL: AS
INTERROGATIVAS TOTAIS
Esta
pesquisa prevê a análise dos aspectos prosódicos de
enunciados interrogativos totais de 10 municípios do Rio Grande do Sul:
Bagé, Chuí, Três Passos, Erechim, Passo Fundo, Vacaria,
Santana, São Borja, Flores da Cunha e Santa Cruz do Sul a fim de
descrever as suas características melódicas intrínsecas.
Para tal, utilizar-se-ão como suporte teórico os
princípios da Fonologia Entoacional, encontrados em Pierrehumbert
(1980), Ladd (1986) e Prieto (2003), e da Fonologia Prosódica,
encontrados em Nespor e Vogel (1986). O corpus
utilizado para a feitura da pesquisa provirá do Atlas
Linguístico do Brasil (doravante ALiB), o qual se fundamenta nos
princípios gerais da Geolinguística, priorizando a
variação espacial ou diatópica. Através desta
pesquisa, busca-se verificar se os padrões melódicos descritos
por Moraes (2008), para as interrogativas totais neutras do Português do
Brasil (doravante PB), e por Silva (2011), para as interrogativas totais do Rio
Grande do Sul, também se farão presentes nos munícipios
interioranos do estado em foco. Serão ouvidos quatro informantes em cada cidade, dois
homens e duas mulheres distribuídos equitativamente por duas faixas
etárias: 18-30 anos e 50-65 anos. Os enunciados selecionados devem
obedecer aos seguintes critérios: a) constituir um único sintagma
entoacional (I), de acordo com a hierarquia prosódica apresentada em
Nespor e Vogel (1994); b) apresentar uma elocução neutra, isto
é, desprovida de manifestações de foco ou ainda de expressões
de sentimento ou atitude; e c) possuir uma qualidade sonora adequada para a
segmentação silábica e medição dos valores
da Frequência Fundamental. A análise dos dados será feita
com o auxílio do programa computacional Praat.
Vanderci de Andrade Aguilera (vanderciagui@gmail.com)
Universidade Estadual de Londrina/CNPq
UMA ANÁLISE DA VARIAÇÃO LEXICAL NO CAMPO DA VIDA
URBANA
Para
o Campo da Vida Urbana, o Questionário Semântico
Lexical do Atlas Linguístico do Brasil traz nove questões das
quais selecionamos as respostas para: semáforo
(194), lombada (195), calçada (196), meio-fio (197), rotatória (198) e terreno
(199). Este trabalho tem como objetivos: (i) descrever o quadro de variantes
das capitais por estado e por região; (ii) fazer uma análise
motivacional das variantes coletadas (CONTINI, 2007; ALINEI, 1995) e (iii)
verificar se há interferência de alguma variável
extralinguística no caso de denominações predominantes na
localidade ou região. O corpus
constituído indica que a maioria das questões acima não
propiciou respostas polimórficas, exceto as de nº 197 e 198. No
cômputo geral das respostas dadas, a propósito da Questão
197, meio-fio lidera, ocorrendo,
porém, variantes regionais, como sarjeta, guia, cordão, coxia e fio-de-pedra, entre outras; a
Questão 198, a mais polimórfica, apresenta 25 variantes, mas
apenas quatro (retorno, rotatória,
contorno e rótula) apresentaram índices mais elevados. Quanto
às demais, temos: (a) para a Questão 195, foram registradas as
variantes lombada e quebra-molas; (b) para a Questão
196, obtivemos 216 registros dos quais se destacam calçada e passeio;
(c) sobre a Questão 199, destacamos apenas as variantes terreno e lote. Os dados das capitais para semáforo constam do volume 2 do ALiB (CARDOSO et al, 2014). Os dados apontam, também, que a metáfora parece ser
o recurso mais utilizado na criação de nomes para os novos
referentes urbanos. Da mesma forma, observamos que as diferenças
dialetais no Brasil, no que se refere ao léxico, ocorrem não
só no plano diatópico, mas também diastrático, uma
vez que denominações menos frequentes foram registradas junto a
falantes do nível fundamental de ensino.
____________________________________________________
XVIII CONGRESSO
INTERNACIONAL DA ALFAL
Bogotá D.C. - Colômbia
24-28 de julho de 2017
CONVOCATÓRIA
O Projeto 20 Atlas Linguístico do Brasil desenvolverá atividades
no XVIII Congresso da ALFAL e temos o prazer de convidar todos os membros do
Projeto ALiB e os que queiram se associar a essa programação.
Para tanto:
1.
Devem enviar um resumo, nos prazos determinados (até 10 de dezembro de 2016) e seguindo as normas divulgadas
pela organização do Congresso, diretamente para alib@ufba.br,
com cópia para Jacyra Mota (jacymota@gmail.com) e para
Suzana Cardoso (suzalice@gmail.com),
indicando no assunto “Resumo para Projeto 20-Congresso da ALFAL”.
2.
Os temas a serem abordados devem vincular-se à Geolinguística em
geral ou a atlas linguísticos especificamente, com enfoque em quaisquer
dos níveis de abordagem da língua.
3.
Os trabalhos podem ser apresentados sob a forma de comunicação
oral ou de pôster.
4.
Os resumos serão apreciados por uma comissão constituída
pelo Projeto.
5.
Carta de aceite será enviada aos participantes.
Contamos com a participação dos
colegas.
Suzana
Cardoso e Jacyra Mota
____________________________________________________
XVII
Congreso Internacional
Asociación
de Lingüística y Filología de América Latina
Associação
de Linguística e Filologia da América Latina
(ALFAL)
14 a 19 de julho de 2014
João Pessoa (Paraíba, Brasil)
ATIVIDADES DURANTE O XVII CONGRESSO
PROJETO 20
PROJETO ATLAS LINGUÍSTICO DO BRASIL
Coordenação
Suzana
Alice Marcelino Cardoso (UFBA/CNPq)
Jacyra
Andrade Mota (UFBA/CNPq)
As atividades do Projeto 20 - Atlas
Linguístico do Brasil foram estruturadas em cinco níveis:
conferências, sessões de comunicação, minicurso,
sessão de pôsteres e reunião do Comitê Nacional que
dirige o Projeto.
Conferências - As conferências versaram sobre os temas Contribuição do Projeto ALiB
aos estudos geolinguísticos de língua portuguesa e Dialectologia urbana: mapeando a
variação do futuro verbal no português do Brasil, sob a
responsabilidade, respectivamente, de Suzana Alice Marcelino Cardoso
(UFBA/CNPq) e Josane Moreira de Oliveira (UEFS).
Sessões
de comunicação - Nas
sessões de comunicação foram apresentados os seguintes
trabalhos:
·
Ana Regina Teles (UFBA) - A
identificação de localidades de atlas linguísticos
publicados: o cuidado na transposição para os mapas atuais.
·
Aparecida Negri Isquerdo (UFMS/CNPq) -
Descrevendo a norma lexical do português do Brasil a partir dos dados do
Projeto ALiB.
·
Silvana Soares Ribeiro (UFBA) - Brinquedos e
brincadeiras infantis na área dos falares baianos.
·
Edmilson José de Sá (UFPB) -
Atlas Linguístico de Pernambuco: da metodologia aos resultados.
·
Simone Negrão de Freitas (UFPA),
Marilúcia Barros de Oliveira (UFPA) - Palatalização das
consoantes oclusivas alveolares /t/ e /d/ em falares do Norte e do Nordeste do
Brasil.
·
Jacyra Mota (UFBA/CNPq) - As vogais
pretônicas nas capitais brasileiras a partir dos dados do ALiB.
·
Maria do Socorro Silva de Aragão
(UFPB/UFC) - Ditongação e Monotongação nas capitais
brasileiras.
Minicurso - Sob
a responsabilidade da Profa. Dra. Josane Moreira de Oliveira (UEFS) foi
oferecido o minicurso Introdução
ao GoldVarb X, com uma carga horária de sete horas, tendo como
objetivos: a) conhecer e utilizar a ferramenta GoldVarb X; b) codificar,
processar e analisar dados linguísticos e c) desenvolver habilidades
para a interpretação dos resultados emitidos pelo GoldVarb X. O
conteúdo programático tratou dos seguintes tópicos: (i) A
sociolinguística quantitativa; (ii) O corpus; (iii) O GoldVarb X - Origem, Instalação, Uso,
Interpretação dos resultados; (iv) Apresentação dos
resultados - tabelas e gráficos.
Sessão
de pôsteres - Foram expostos na
sessão geral de pôsteres, mas com tema vinculado ao Projeto 20,
dois trabalhos:
·
Amanda
dos Reis Silva (UFBA) - Variação fonética em capitais
brasileiras: a ditongação diante de /s/ e as
realizações do /s/ em coda.
·
Élide
Elen da Paixão Santana - Morfemas de gênero no estado da Bahia:
formas de feminino para “alemão”, “chefe”,
“ladrão” e “presidente”.
Reunião
do Comitê Nacional - Como sucede
em todos os congressos, aproveita-se a presença de pesquisadores membros
do Comitê Nacional que dirige o Projeto e realiza-se mais uma
reunião de coordenação. Para essa, que se identifica como
a XXXVIII reunião, foi proposta e discutida a seguinte pauta: (i)
Informes; (ii) Complementação da constituição do corpus; (iii) Balanço da
publicação dos volumes 1 e 2; (iv) Programação do
volume 3, com estabelecimento de novos prazos; (v) Programação do
XII WORKALiB e (vi) O que ocorrer.
No que concerne ao planejamento para os próximos anos, depois de avaliado o
andamento do Projeto e fixados prazos para finalização de etapas
já estabelecidas, destacam-se dois tipos de ação: (i)
implementação da publicação de novos volumes que deverão
voltar-se para a análise de dados referentes à totalidade dos
estados e ao conjunto de pontos previstos em cada um; e (ii) a
incorporação de pesquisadores, com suas equipes, de outras
universidades que não aquelas já vinculadas, mediante acordo
firmado. Nesse campo específico, destaca-se, ao lado do acolhimento de
outros pesquisadores, a abordagem de novos temas ou a ampliação
do campo de investigação já em curso.
Por fim, cabe uma breve palavra no campo da
avaliação da proposta de abrir espaços para projetos
acolhidos pela ALFAL. O fato de se ter introduzido na programação
oficial dos Congressos de ALFAL um espaço para os mais diversos
projetos, constitui-se num ganho porque (i) dá a esses projetos uma
maior visibilidade, (ii) permite o diálogo entre pesquisadores
vinculados ao tema do projeto e de diferentes regiões; (iii) assegura a
possibilidade de organizar um conjunto de apresentações que
possam atender a reclamos da coletividade dessa área específica.
____________________________________________________
Projeto 20: “PROJETO ATLAS LINGUÍSTICO DO BRASIL (Projeto ALiB)”
Coordenadoras: Suzana Alice Marcelino
Cardoso e Jacyra Andrade Mota
suzalice@ufba.br
jacymota@ufba.br
XVII
Congreso Internacional ALFAL
14 a 19 de julho de 2014
João Pessoa (Paraíba, Brasil)
PROGRAMAÇÃO
Dia 16 de julho
|
14 hs. |
Conferência Suzana Cardoso - UFBA A contribuição do Projeto ALiB aos estudos
geolinguísticos de língua portuguesa |
|
|
Comunicações |
|
14:45 hs. |
Ana Regina Teles - UFBA A identificação de localidades de atlas
linguísticos publicados: o cuidado na transposição para
os mapas atuais. |
|
14:45 hs. |
Aparecida Negri Isquerdo - UFMS Descrevendo a norma lexical do português do Brasil a partir dos
dados do Projeto ALiB |
|
16 hs. |
Conferência Josane Moreira Oliveira Dialetologia urbana:
mapeando a variação do futuro verbal no português
brasileiro. |
|
|
Comunicações |
|
17 hs. |
Geisa Borges da Costa - UFRB Diversidade linguística do item lexical “diabo”:
uma análise a partir dos dados do Projeto ALiB. |
|
17:30 hs. |
Silvana Soares Ribeiro - UFBA Brinquedos e
brincadeiras infantis na área dos falares baianos. |
|
18:30 hs. |
Edmilson José de Sá - UFPB Atlas Linguístico de Pernambuco: da metodologia aos resultados. |
DIA 17 de julho
|
|
Comunicações |
|
14 hs. |
Dircel Aparecida Kailer - UEL,
Édina de Fátima de Almeida - UEL Variantes do /r/ em coda silábica no interior paranaense |
|
14:30 hs. |
SimoneNegrão de Freitas -
UFPA), Marilúcia Barros de Oliveira - UFPA Palatalização das consoantes oclusivas alveolares /t/ e /d/
em falares do Norete e do Noprdeste do Brasil |
|
15 hs. |
Marigilda Antônio Cuba - UEL Desafios da coleta
de dados para um atlas topodinâmico: a questão do perfil dos
informantes |
DIA 18 de julho
|
|
Comunicações |
|
14 hs. |
Maria Silvana Militão - UFC Os róticos em
coda silábica em localidades do interior cearense: dados do ALiB |
|
14:30 hs. |
Jacyra Mota - UFBA As vogais pretônicas nas capitais brasileiras a partir dos dados
do ALiB |
|
15 hs. |
Maria do Socorro Silva de
Aragão - UFPB/UFC Ditongação e Monotongação nas capitais
brasileiras |
|
16 hs. |
REUNIÃO DO COMITÊ NACIONAL DO PROJETO ALIB |
CONVOCATORIA
O Projeto 20-Projeto Atlas Linguístico do Brasil
desenvolverá atividades que constituem a Programação
prevista para esse XVII Congresso Internacional da ALFAL, voltadas para dois
grandes eixos:
A Programação consiste em palestras, sessões de
comunicação, minicurso e sessão de pôsteres,
organizada como a seguir se indica:
1. Sessão de
comunicações I - Teses
e Dissertações em andamento no campo da Geolinguística
Brasileira.
2. Sessão de
comunicações II - O
Projeto ALiB: resultados parciais.
3. Debate: Atlas linguísticos em curso: caminhos
metodológicos.
4. Conferência: Suzana
Alice Marcelino Cardoso, Contribuição
do Projeto ALiB aos estudos geolinguísticos de língua portuguesa.
5. Conferência: Josane
Moreira de Oliveira, Dialectologia
urbana: mapeando a variação do futuro verbal no português
do Brasil”.
6. Minicurso: Introdução ao GoldVarb, ministrado
por Josane Moreira de Oliveira
7. Sessão de
pôsteres.
A apresentação de comunicação e de
pôsteres é aberta a todos os interessados na área e os
trabalhos devem ser relacionados aos temas propostos. Para inscrever um
trabalho no Projeto 20 devem os interessados seguir as instruções
divulgadas pela organização do congresso.
____________________________________________________
ATIVIDADES DURANTE O XVI CONGRESSO
(Alcalá de Henares)
Avaliação do
funcionamento do Projeto 20 - Atlas Linguístico do Brasil durante do XVI
Congresso da ALFAL
O
Projeto 20 - Atlas Linguístico do Brasil - reuniu-se, pela segunda vez,
nos espaços de congressos da ALFAL. Em relação ao primeiro
encontro, ocorrido por ocasião do XV Congresso, em Montevidéu,
observou-se uma menor participação de pesquisadores, o que se
explica pelos locais de realização desses congressos, uma vez que
a vizinhança com o Uruguai favoreceu a presença de pesquisadores.
O encontro de Alcalá contou com a participação de onze
pesquisadores, com ausência de estudantes, diferentemente do que sucedeu
em Montevidéu, e com a apresentação de dez trabalhos.
Os
trabalhos apresentados constituíram-se em comunicações que
caminharam em duas direções: (i) avaliação da
metodologia do Projeto com análise crítica da
realização de inquéritos e da aplicação dos
diferentes questionários - fonético-fonológico,
semântico-lexical, morfossintático e discursivo, com exame das
questões semidirigidas -, e (ii) apresentação de
análise de dados do corpus do
Projeto, com focalização de aspectos do léxico e da
prosódia.
O
tempo destinado ao Projeto 20 - três turnos de quatro horas cada um - foi
suficiente para o desenvolvimento da programação que, além
das sessões de apresentação e discussão de
trabalhos, contou com a realização da XXXII Reunião do
Comitê Nacional, à qual estiverem presentes cinco dos nove membros
do Comitê e mais seis membros de quatro das Equipes Estaduais
(Maranhão, Ceará, Bahia e Rio de Janeiro).
Acredita-se
que a destinação de espaço para Projetos é uma
idéia a ser mantida, verificando-se, porém, a necessidade de
ajustes na forma de organização de modo a expandir a
possibilidade de participação e fomentar a
interação entre projetos que apresentem objetivos afins ou
similares.
Salvador,
30 de junho de 2011.
Suzana Alice Marcelino Cardoso (Diretora-Presidente do Projeto ALiB)
Jacyra Andrade Mota
(Diretora Executiva do Projeto ALiB)
____________________________________________________
Actividades del Proyecto en el XV Congreso de la ALFAL
Coordenadoras: Suzana Alice Marcelino Cardoso e Jacyra Andrade Mota
Programação:
DIA 19 - agosto de 2008 - das 16:30h
às 20:30h
Palestra: O Projeto ALiB - das origens ao momento atual (Suzana Alice Marcelino Cardoso, Universidade Federal
da Bahia/CNPq/Brasil)
Painel: A metodologia do Projeto ALiB
Ø A construção da pesquisa: rede de
pontos, questionários, informantes, técnicas de
realização de inquéritos (Jacyra Andrade Mota, Universidade Federal da Bahia/CNPq/Brasil)
Ø A rede de pontos: uma reflexão sobre a
história social das capitais de estado que integram o Projeto ALiB (Aparecida
Negri Isquerdo, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/Brasil)
Sessão de comunicações
·
De Nascentes
ao ALiB: um estudo de dados (Fabiane
Cristina Altino, Universidade Estadual de Londrina/Brasil)
·
Variação
lexical em Minas Gerais (Mário
Zágari, Universidade Federal de Juiz de Fora, Ana Paula Rocha,
Universidade Federal de Ouro Preto/Brasil)
Apresentação de
pôsteres
DIA 20 - agosto de 2008 - das 16:30h
às 19:30h
Painel: A
Geolingüística brasileira
Ø Um passeio histórico pelos caminhos da
geolingüística no Brasil (Maria do Socorro Silva de Aragão, Universidade Federal da
Paraíba/Universidade Federal do Ceará/Brasil)
Ø A informatização de dados
geolingüísticos (Abdelhak
Razky, Universidade Federal do Pará/Brasil)
Ø A entoação e os estudos dialetais (Cláudia Souza Cunha;Universidade Federal do
Rio de Janeiro/Brasil)
Sessão de comunicações
·
Crenças
e atitudes lingüísticas: o que sentem os falantes sul-paranaenses? (Greize
Alves da Silva, Universidade Estadual de Londrina/Brasil)
Apresentação de pôsteres
DIA 21 - agosto de 2008 - das 16:30h
às 20:30h
Painel: Os caminhos do ALiB
Ø A documentação dos dados no Projeto
ALiB: primeiros resultados (Vanderci de
Andrade Aguilera, Universidade Estadual de Londrina/CNPq/Brasil)
Ø Uma análise, em tempo aparente, de dados
geolingüísticos
(Mário Zágari, Universidade Federal de Juiz de Fora)
Ø A cartografia dos dados (Silvana Ribeiro, Ana Regina Teles, Universidade
Federal da Bahia/Brasil)
Ø O estágio atual do Projeto ALiB (Jacyra Andrade Mota, Universidade Federal da
Bahia/CNPq/Brasil)
Sessão de comunicações
·
Contatos lingüísticos na fronteira do
Brasil com o Paraguai documentados pelo ALiPP (Regiane Reis, Universidade Estadual de Mato Grosso do
Sul/Brasil)
·
O português de contato com o espanhol no sul do
Brasil: empréstimos lexicais (Patrícia
Graciela da Rocha, Universidade Federal de Santa Catarina/Brasil)
Reunião aberta do Comitê Nacional do Projeto ALiB
Apresentação de
pôsteres
_______________________________________
O PROJETO
ALIB - DAS ORIGENS AO MOMENTO ATUAL
Suzana Alice Marcelino Cardoso
(Universidade Federal da
Bahia/CNPq/Brasil)
UMA BREVE CONSIDERAÇÃO
HISTÓRICA À GUISA DE INTRODUÇÃO
Começamos por uma breve
consideração de caráter histórico para situarmos o
nosso projeto no tempo, no espaço e nas preocupações dos
lingüistas e dialectólogos brasileiros.
O Projeto Atlas Lingüístico do Brasil (Projeto ALiB), é um projeto de
caráter nacional, inter-institucional, com a participação
de 15 instituições de ensino superior e de pesquisa, mediante
convênio firmado por iniciativa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e
iniciado em 1996, por ocasião da realização do Seminário Nacional Caminhos e
Perspectivas para a Geolingüística no Brasil.
Embora venha a ser impulsionado no final do
século XX, a idéia e o desejo de um atlas lingüístico
do Brasil estavam em cogitação nos meios acadêmicos desde
meados do século XX e nos objetivos do Governo Federal que, ao promulgar
o Decreto 30.643/20.03.1952, assentava no Art. 3°, como principal
finalidade da Comissão de Filologia da Casa de Rui Barbosa, a
elaboração do atlas lingüístico do Brasil, como se
lê no texto legal:
3º - A Comissão de Filologia
promoverá pesquisas em todo o vasto campo de filologia
portuguesa-fonologia, morfológicas, sintáticas, léxicas,
etimológicas, métricas, onomatológicas, dialetológicas
bibliográficas, históricas, literárias, problemas de
texto, de fontes, de Autoria, de influências, sendo sua finalidade
principal a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil
(grifo nosso).
Razões de ordem acadêmica, sobretudo,
impediram a consecução do desejo governamental de uma
descrição geral do português do Brasil, seguindo as trilhas
da geografia lingüística, na época de
promulgação do Decreto. Dificuldade de contar com equipes de
especialistas em todo o país, precariedade de estradas que levavam aos
diferentes pontos da rede, custos e inexistência de financiamento que
garantisse a empreitada são dificuldades registradas. Antenor Nascentes
(1958) chama a atenção para tais obstáculos naquele
momento e conclui as suas reflexões recomendando que se façam
atlas regionais, cuja execução reduziria os óbices a serem
vencidos e, gradativamente, se conseguiria dar uma visão integral da
realidade brasileira, como se lê nas suas Bases para a
elaboração do atlas lingüístico do Brasil (1958, p.
7):
Embora seja de toda vantagem um atlas feito ao mesmo
tempo para todo o país, para que o fim não fique muito
distanciado do princípio, os Estados Unidos, país vasto e rico e
com excelentes estradas, entregou-se à elaboração de atlas
regionais, para mais tarde juntá-los no atlas geral.
Assim também devemos fazer em nosso
país, que é também vasto...
O reconhecimento das dificuldades advindas sobretudo
da extensão territorial do país e da precariedade das vias de
comunicação fizeram com que o seu conselho fosse seguido e
determinaram a opção inicial dos estudos
geolingüísticos no Brasil: empreender-se o trabalho
começando pelos atlas regionais.
Partiram, assim, os dialetólogos brasileiros
para a execução de atlas regionais, o primeiro dos quais, o Atlas Prévio dos Falares Baianos, de
autoria de Nelson Rossi, Dinah Isensee e Carlota Ferreira, publicado em 1963,
atingindo-se, na atualidade, o total de nove atlas publicados aos quais se
somam duas teses de doutorado (atlas da Amazônia e atlas do litoral
potiguar).
A necessidade de efetivação de um atlas
geral do Brasil decorre da sua própria realidade histórica. A
sócio-história do português brasileiro aponta, nas suas
origens, para um tripé, base da conformação
lingüística que assume no território nacional a
Língua Portuguesa: o português transplantado - o português
europeu -, as línguas indígenas existentes à época
do descobrimento e as que se conservam até o presente, e as
línguas africanas trazidas e os vestígios que delas remanescem. O
conhecimento dessa realidade, assim configurada, importa não apenas aos
estudos atinentes à ciência da linguagem, mas se constitui
fundamento para um melhor entendimento da história do Brasil e das
características sócio-culturais de que se reveste.
As três vertentes, responsáveis pela
configuração lingüística do País - a
indígena, a portuguesa e a africana -, oferecem amplo campo para estudo
não só na perspectiva das teorias que se relacionam diretamente
às línguas, mas também no tocante à história
da Nação brasileira.
No que diz respeito à língua portuguesa,
o fato de ser uma língua transplantada a um outro continente, onde
estabelece relações de contato as mais diferenciadas, sinaliza
para reflexões no campo dos estudos lingüísticos stricto
sensu, que envolvem: (i) os mecanismos de difusão
lingüística; (ii) o caráter conservador ou inovador que
assume a língua; (iii) a continuidade, ou não, de uma deriva que
acompanha a língua desde as suas origens; (iv) a contribuição
recebida de línguas com as quais passa a conviver em solo brasileiro e
os reflexos desse contato na variedade ou nas variedades de uso, que se
desenvolvem; (v) as implicações sociais e políticas das
diferentes modalidades que caracterizam os utentes do português a que se
soma o potencial que oferece, como documentação viva, dos
caminhos do povoamento nas formas e usos que, rastreados, portam
elucidações relevantes para a sócio-história
brasileira.
Assim,
passados cerca de cinqüenta anos e com a clareza de visão da
realidade nacional, retoma-se a idéia de realização de uma
atlas lingüístico do Brasil no que tange à língua
portuguesa, motivada (i) pela urgência de descrever o português
brasileiro antes que se percam dados e fatos capazes de esclarecer aspectos da
história lingüística do país (ii) e pelo papel relevante que, no
momento, a Geografia Lingüística assume nos estudos
lingüísticos, no exterior e no Brasil.
Concebe-se, para a concretização do
desiderato, o Projeto Atlas Lingüístico do Brasil (Projeto ALiB),
cujas bases se lançam no já citado Seminário Caminhos e
Perspectivas para a Geolingüística no Brasil, realizado na
Universidade Federal da Bahia, em novembro de 1996 e promovido pelo Grupo de
pesquisadores em Dialectologia dessa Universidade, o qual contou com a
participação de representativo número de pesquisadores da
área no Brasil, entre eles a presença de autores de todos os
atlas até então publicados e de representantes de atlas em
andamento, e com a presença do Prof. Dr. Michel Contini, do Centre de
Dialectologie de Grenoble, Diretor do Atlas Linguistique Roman e membro
do Comitê Diretor do Atlas Linguarum Europae, dois dos principais atlas
lingüísticos em fase de publicação, na Europa.
O PROJETO ATLAS
LINGÜÍSTICO DO BRASIL (Projeto ALiB)
Razões para a sua
realização
O Projeto ALiB centra-se no estudo da
língua portuguesa no Brasil cuja implantação, na
América, data do século XVI, atingindo, assim, cinco
séculos de uso. O curso do tempo, as mudanças sociais operadas na
sociedade, o perfil dos contactos com outras línguas, a
distribuição demográfica do País e a própria
constituição dos núcleos populacionais, a natureza do
desenvolvimento implantado e implementado, a estrutura social e o confronto
cidade-campo, rural-urbano são aspectos da história do Brasil que
têm ampla repercussão na língua aqui, majoritariamente,
falada. Essa visão está na base do Projeto ALiB e a compreensão da significância de cada
um desses aspectos fundamenta o reconhecimento e a definição dos
problemas a serem abordados.
A unidade da língua - País continental - muitos Estados ultrapassam a
dimensão de países europeus, por exemplo -, oferece o Brasil uma
significativa e até mesmo surpreendente, para muitos, unidade
lingüística. Identificar, descrever e caracterizar as bases dessa
unidade é uma primeira questão que se põe.
A diversidade de usos - Consagrada pela frase tantas vezes repetida, “possuidor da
unidade na diversidade”, o português brasileiro consegue, de
maneira inequívoca, manter a sua unidade sistêmica no conjunto de
possibilidades de usos que se documentam no território nacional.
Identificar a variação lingüística,
descrevê-la, dimensionar a repercussão social de cada uma delas
apresenta-se como uma questão para a qual ainda não se formularam
as respostas devidas, nada obstante o esforço que vem sendo desenvolvido
por pesquisadores da área, constituindo-se, assim, em questão
pendente de resolução.
Política de tratamento da diversidade de usos - As diferentes variedades do português
brasileiro demandam um tratamento político da questão. O
Ministério da Educação - MEC - tem esboçado
abordagem nessa direção, como a criação, em 2004
(para citar, apenas, a mais recente), de uma comissão nacional - a Comissão
para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem,
Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa-COLIP - para
refletir sobre a situação da língua portuguesa e do seu
ensino e, conseqüentemente, fazer proposições. Nada obstante
iniciativas dessa natureza, ainda não se firmou uma política
nacional que refletisse, com base em dados empíricos e com
fundamentação nas teorias lingüísticas atuais, a situação
e para ela apontasse caminhos.
O Projeto ALiB caminha na direção
desse problema uma vez que busca identificar a realidade e dar subsídios
para a definição das bases fundamentais para uma
ação das políticas institucionais no campo do ensino-aprendizagem
da língua materna.
A produção de material didático -
A produção nesse campo
voltada para o ensino-aprendizagem da língua portuguesa, por fixar-se na
“unidade nacional” ou por não reconhecer devidamente a
pertinência e a relevância da “diversidade de usos”,
está, por vezes, crivada de problemas que resultam da visão que
se tem da questão. Para a solução dessa dificuldade, o
conhecimento fundado em dados empíricos apresenta-se como forma de
vencer tal obstáculo.
A formação de professores - Em decorrência dos problemas levantados,
põe-se a formação adequada de profissionais do ensino,
particularmente daqueles voltados para o ensino da língua materna. Para
estes, o desconhecimento da realidade lingüística do país,
fundada no conhecimento cientifico, torna-se um óbice à
consecução do objetivo pretendido: um corpo de profissionais do
ensino altamente qualificado. Um melhor conhecimento da realidade lingüística
nacional, como se espera ver como resultante do projeto ALiB, constitui-se em
relevante contribuição para a formação de
professores nos diferenciados níveis.
O Projeto ALIB aborda, assim, um aspecto
altamente relevante para a Nação brasileira: as
implicações políticas, sociais e institucionais da
língua majoritariamente falada, a língua portuguesa. Ao se voltar
para a questão, busca fornecer dados que permitam equacionar os
problemas decorrentes de tal inter-relação e apontar caminhos que
contribuam para a sua solução.
A concepção do Projeto
Um projeto voltado para a língua,
especificamente a língua materna de um país, impõe-se,
pela sua própria natureza, como um modo de serviço à
Nação de onde advêm diferentes formas de contribuição,
que pressupõem uma base preliminar. Esse pressuposto básico e
fundamental consubstancia-se no entendimento de que a realidade de uma
língua precisa ser descrita para tornar-se conhecida a fim de permitir a
assimilação e a absorção das vantagens que tal fato
possa propiciar. A consciência desse valor, que provém do
conhecimento da realidade lingüística, levou J. Grimm, o fundador
da filologia germânica, ao afirmar (Apud POP, 1950, p. XXXI) que
‘Toute individualité doit être tenue pour sacrée,
même dans le langage [...]” (“Toda individualidade deve ser
reconhecida como sagrada, mesmo na linguagem”).
Nessa citação clássica de Grimm,
dois aspectos tornam-se evidentes: o respeito às individualidades
lingüísticas, ou seja, à diversidade de que se reveste toda
e qualquer língua, a que se acrescenta o entendimento de que todos os
dialetos sejam preservados, porque cada um deles tem o seu valor.
Com essa compreensão, o estudo da realidade
lingüística do Brasil, no tocante à língua
portuguesa, que se propõe realizar o Projeto ALiB impõe-se
como contribuição social e pelo aporte que pode trazer ao
processo de ensino-aprendizagem da língua portuguesa.
As relações dos estudos
geolingüísticos com a sociedade usuária da língua
descrita explicitam-se por meio de diferentes formas de
contribuição, identificadas, com os objetivos do Projeto ALiB,
como a possibilidade de:
Permitir o conhecimento da realidade espacial
do domínio do português, explicitando as diferenças e
convergências que se registram no território nacional.
Identificar áreas
lingüísticas e relacionar áreas dialetais a áreas
socioculturais.
Oferecer ao sistema organizado de
ensino-aprendizagem da língua materna dados da realidade
lingüística que venham a contribuir para o aperfeiçoamento
do ensino do português.
Contribuir para o entendimento da
variação lingüística como fenômeno peculiar a
toda e qualquer língua, de forma a eliminar preconceitos e
discriminações sociais decorrentes de uma falsa interpretação
da realidade da língua no país.
Mostrar como convivem diferenças e
convergências, reconhecendo, porém, a validade da existência
de um padrão culto necessário à comunicação
oficial, à ministração do ensino, à
efetivação do discurso formal e às opções de
grupos de falantes.
Fornecer elementos para a
construção da história da língua portuguesa no
Brasil, quer pela indicação dos caminhos seguidos, quer pela
natureza das opções de mudança feitas, quer pelo estabelecimento
de camadas caracterizadas lingüística, social e geograficamente,
quer, ainda, pela referência a resultados de contato com outras
línguas ou à adoção de empréstimos
lingüísticos.
Permitir a atualização de
dicionários da língua portuguesa.
Contribuir para a construção de
uma gramática voltada para a realidade do português brasileiro.
A essa contribuição de cunho social
acrescenta-se uma potencial contribuição de natureza
econômica que não se quantifica em moeda, mas que se fará
sentir no curso da história. Assim, e a título de
ilustração, a melhoria do ensino é um agente de progresso
e um dos grandes responsáveis pela qualidade da produção e
pelo aperfeiçoamento da mão-de-obra qualificada, e para
atingir-se essa meta a contribuição dos estudos
geolingüísticos é de fundamental valia.
Agrega-se às razões apontadas, o caráter multi e interdisciplinar do
Projeto Atlas Lingüístico
do Brasil, na sua essência um projeto lingüístico,
porque busca documentar, descrever e interpretar a realidade do português
brasileiro e tem, exatamente por esse caráter, uma evidente interface
com diferentes ramos do conhecimento organizado, decorrente do fato de que a
história de uma língua é a história do
próprio povo que a fala.
Esse caráter de que se reveste o Projeto
ALiB tem duas evidentes implicações: por um lado, inspira e
fundamenta a sua concepção na pluralidade do conhecimento; por
outro, permite que, dos resultados que venha a oferecer, se beneficie amplo
espectro das ciências na atualidade.
No que se refere ao
primeiro dos aspectos, a concepção do projeto conduziu a que se
recorresse a diferentes campos do conhecimento. A definição da
rede de pontos - o conjunto de 250 localidades para serem documentadas - para levantamento
de dados requereu aprofundado conhecimento no campo da História, da
Antropologia, da Demografia, da Geografia, física, humana e
política sobretudo, dos Estudos Culturais, da economia de cada
região, do desenvolvimento social e político, do aspecto
religioso. A seleção de localidades reflete não apenas o
interesse lingüístico, mas o perfil sócio-histórico
das zonas a serem mapeadas e se, por um lado, é um indicador de
importância para a visão de língua, por outro, encerra um
relevante feixe de correlações
sócio-histórico-culturais. No tocante à
seleção de informantes a serem documentados, fez-se
necessário um estudo da formação demográfica do
Brasil, da constituição da sociedade, dos aspectos
sociológicos e antropológicos que marcam a
composição da população brasileira, a que se
acrescenta um conhecimento da realidade social na qual se inserem os
entrevistados. Isso levou a que se buscasse harmonizar diferentes
variáveis sociais - como idade, gênero, escolaridade - para que se
possa vir a obter uma amostra lingüística representativa da
realidade do país. O Projeto ALiB nasce, assim, profundamente
correlacionado a outros ramos do conhecimento científico.
Com essa fundamentação, o Projeto
ALiB oferece, pela própria natureza dos dados que se propõe
reunir, uma ampla interface com outros ramos das ciências o que lhe
assegura o caráter multi e interdisciplinar, como se procura, a seguir,
ilustrar, ainda que não de forma exaustiva.
No que concerne ao tipo de recolha previsto, os dados
vão evidenciar diferentes formas de comportamento
lingüístico correlacionadas ao tipo de discurso. A postura
lingüística que assume o falante, a depender da natureza da sua
elocução, oferece aos estudos no campo da psicologia e da
sociologia vasto material de análise para o conhecimento do
comportamento humano. As respostas não dadas e as
restrições que muitas vezes ficam claras na fala dos informantes,
bem como o recurso a metáforas e a circunlóquios, permitem
reflexões no campo dos estudos culturais, em geral, que evidenciam tabus
existentes, construídos no curso da história e motivados por
impulsos diferenciados. O conjunto de dados que um atlas
lingüístico espelha, na sua amplitude maior, pode (i) mostrar
coordenadas seguidas no povoamento do país, desfazendo dúvidas
sobre roteiros de penetração ou oferecendo elementos
comprobatórios de levas de povoamento fixadas nesses locais ou que por
eles transitaram; (ii) assinalar o papel de acidentes geográficos na
difusão de hábitos lingüísticos - como se pode ver
examinando, por exemplo, o papel dos rios - ou no isolamento de fenômenos
que se detêm por trás de montanhas ou incrustados em vales; (iii)
fornecer elementos específicos para estudos pontuais como no campo da
medicina, mostrando nomes de doenças, diagnósticos e curas que
estão na sabedoria popular e que afloram em perguntas nessa
direção, ou no campo da geologia, com a
caracterização e denominações para tipos de
terreno, por exemplo, ou ainda na forma de designar os elementos do mundo
biossocial, vasto campo para os psicanalistas. Com a educação,
é altamente significativa a relação do Projeto ALiB,
cujos resultados propiciarão um melhor equacionamento do
ensino-aprendizagem à realidade de cada região, uma vez que,
descritas as peculiaridades de cada área e caracterizada a variedade de
uso da língua ali dominante, pode-se construir um modelo de ensino do
vernáculo mais eficaz.
A esses aspectos relacionados, com os quais não
se pretendeu esgotar a indicação das possibilidades de
interdisciplinaridade do projeto, mister se faz destacar o que advém de
um atlas para os estudos lingüísticos especificamente nos seus
diferentes campos - semântica, lexicologia, sintaxe, morfologia,
fonética/fonologia, pragmática, discurso.
O sentido do Atlas
Lingüístico do Brasil para os estudos do português brasileiro
Nesse campo, dois aspectos merecem destaque: a
contribuição para o conhecimento da realidade nacional no tocante
à língua portuguesa e o fornecimento de dados que permitam uma
divisão dialetal do Brasil com base em dados empíricos recolhidos
in loco.
No tocante ao primeiro aspecto, o português do
Brasil não possui, ainda, uma descrição geral que permita
a intercomparação de dados entre as diversas regiões do
país a partir de um levantamento único da realidade
lingüística em todo o território nacional. Há estudos
esparsos, seja na perspectiva dialectológica, seja numa visão
sociolingüística, mas todos eles circunscritos a áreas
determinadas ou focalizando fenômeno específico, o que permite,
sem dúvida, um estudo comparativo, mas numa micro visão. Projetos
mais amplos, como o Projeto NURC-Projeto de Estudo Conjunto e Coordenado da
Norma Lingüística Culta no Brasil, que se ocupa de cinco capitais
brasileiras (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto
Alegre), não chegam a se envolver com todo o território nacional,
embora tenham a vantagem de aplicar a mesma metodologia em todos os pontos
pesquisados. Temos, assim, uma efervescência de esforços na busca
do conhecimento sistemático do português brasileiro, seja na linha
da Dialectologia, com inúmeros trabalhos publicados e com teses e
dissertações aprovadas, seja na linha da
Sociolingüística que tem florescido vivamente em nossos centros de
pesquisa. A macro visão, um retrato global da realidade
lingüística no tocante ao português brasileiro inexiste. E
isso se constitui em uma lacuna da qual precisamos nos desvencilhar.
O ALiB vem, assim, em boa hora, preencher este vazio
uma vez que busca, com a aplicação de uma metodologia
homogeneamente utilizada, recolher dados de diferentes pontos e representativos
de todas as regiões os quais, submetidos a análise,
fornecerão, sem dúvida, um perfil da realidade do português
aqui falado, abrindo caminhos para considerações as mais diversas
sobre a sua formação, a variação que nele se
registra, as mudanças que se operam de um sítio a outro, de um
tipo de falante para outro, enfim, apontando coordenadas para a
construção da sua sócio-história e para a
interpretação das diferenciadas bases que interferiram na sua
conformação.
O percorrer desse caminho levará, sem
dúvida, ao que considero o segundo aspecto da sua atualidade: fornecer
elementos para uma divisão dialetal do Brasil, fundada em dados
empíricos.
Sabemos, todos, que temos apenas uma única
divisão dialetal do Brasil, feita com base em fatos
lingüísticos: a divisão de Nascentes (1953). Trabalho
magnífico, se considerarmos as circunstâncias e o momento de sua
execução, mas a divisão necessita, passados mais de
cinqüenta anos, ser retomada, a partir de dados coletados in loco, para
que se verifiquem as transformações
sócio-históricas havidas e as conseqüências delas
advindas para o comportamento lingüístico da
população de cada área, e com isso apurar-se atualidade
dessa divisão ou detectarmos outros limites que, certamente,
encontrarão justificativa nas transformações sociais,
políticas e econômicas ditadas pelo curso da história. E
essa contribuição, sem dúvida, será dada pelo atlas
do Brasil, uma vez que a rede de pontos estabelecida o foi pensando-se,
também, na investigação de limites dialetais e na
investigação das diferenças que possam gerar os limites de
área geograficamente identificada.
Para concluir
Nesta
apresentação do Projeto ALiB imperou a preocupação
de apresentar as linhas gerais do Projeto, a sua contribuição
para a constituição da sócio-história do
português brasileiro e o lugar que ocupa nos estudos
lingüísticos brasileiros. O detalhamento da metodologia seguida, a
sua estrutura de funcionamento e o estágio atual em que se encontram
constituem-se em objeto de apresentações que se seguirão
nesta programação do Projeto ALiB na ALFAL.
Referências
Atlas Linguarum Europae (ALE). Assen-Maastricht: Van Gorcum, 1983-1990.
v. 1-4. Roma: Istituto Poligrafico e Zecca dello Stato, 1998. v. 5.
Atlas
Linguistique Roman (ALiR). Roma: Istituto
Poligrafico e Zecca dello Stato; Libreria dello Stato, 1996. v. 1, 1996, v. 2,
2002.
BRASIL. Decreto n.° 30.643, de 20
de março de 1952. Institui o Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa
e dispõe sobre seu funcionamento.
NASCENTES, Antenor. O linguajar carioca. 2. ed. Rio de
Janeiro: Organização Simões, 1953.
NASCENTES, Antenor. Bases para a elaboração do
Atlas Lingüístico do Brasil. Rio de Janeiro: MEC, Casa de Rui
Barbosa, vol. I, 1958, vol. II. 1961.
POP, Sever. La dialectologie. Aperçu historique
et méthodes d’enquêtes linguistiques, I-II. Louvain:
Chez l’ Auteur-Gembloux, Ducolot, 1950.
ROSSI, Nelson et al. (1963). Atlas Prévio dos Falares Baianos.
Rio de Janeiro, Ministério de Educação e Cultura -
Instituto Nacional do Livro.
PAINEL: A METODOLOGIA DO PROJETO ALIB
A CONSTRUÇÃO DA
PESQUISA:
REDE DE PONTOS, QUESTIONÁRIOS,
INFORMANTES,
TÉCNICAS DE
REALIZAÇÃO DE INQUÉRITOS
Jacyra Andrade Mota
(Universidade Federal da Bahia/CNPq/Brasil)
1. Introdução
A elaboração de um Atlas
lingüístico do Brasil havia sido determinada, em 20 de março
de 1952, através do Decreto no. 30.643, que fixava esse
projeto como uma das principais finalidades do Centro de Pesquisas da Casa de
Rui Barbosa, então recém-criado. Mas, em razão de
dificuldades de diversos tipos, entre as quais a amplitude do projeto e a ausência
de condições imprescindíveis ao seu desenvolvimento, como
observa Silva Neto (1957), apenas em 1996, decorridos mais de 40 anos, durante
o Seminário Nacional Caminhos e Perspectivas para a
Geolingüística no Brasil, realizado na Universidade Federal da
Bahia, em Salvador, retomou-se o projeto, constituindo-se um comitê
nacional, que se responsabilizaria pela sua execução.
O Comitê Nacional, integrado pelos autores de
atlas lingüísticos publicados e por um representante dos atlas em
andamento, foi constituído por Suzana Cardoso (Diretora Presidente),
Jacyra Mota, Diretora Executiva, ambas da UFBA, Maria do Socorro Aragão
(UFPb/UFC), Mário Roberto Zágari (UFJF), Vanderci Aguilera (UEL)
e Walter Koch[1] (UFRS), Diretores Científicos.
Ao se iniciar o Projeto ALiB foram fixados como
principais objetivos:
a) Descrever
a realidade lingüística do Brasil, no que tange à
língua portuguesa, com enfoque prioritário na
identificação das diferenças diatópicas
(fônicas, morfossintáticas, léxico-semânticas e
prosódicas) consideradas na perspectiva da Geolingüística.
b) Estabelecer
isoglossas com vistas a traçar a divisão dialetal do Brasil.
c) Oferecer
aos estudiosos da língua portuguesa, aos pesquisadores de áreas
afins e aos pedagogos subsídios para o aprimoramento do
ensino/aprendizagem e para uma melhor interpretação do
caráter multidialetal do Brasil.
d) Examinar
os dados coletados na perspectiva de sua interface com outros ramos do
conhecimento - história, sociologia, antropologia, etc. - de modo a
poder contribuir para fundamentar e definir posições
teóricas sobre a natureza da implantação e desenvolvimento
da língua portuguesa no Brasil.
e) Oferecer,
aos interessados nos estudos lingüísticos, um considerável
volume de dados que permita aos lexicógrafos aprimorarem os
dicionários, ampliando o campo de informações; aos
gramáticos atualizarem as informações com base na
realidade documentada pela pesquisa empírica; aos autores de livros
didáticos adequarem a sua produção à realidade
cultural de cada região; aos professores aprofundar o conhecimento da
realidade lingüística, refletindo sobre as variantes de que se
reveste a língua portuguesa no Brasil e, conseqüentemente,
encontrando meios de, sem desprestigiar os seus dialetos de origem, levar os
estudantes ao domínio de uma variante tida como culta.
f) Contribuir
para o entendimento da língua portuguesa no Brasil como instrumento
social de comunicação diversificado, possuidor de várias
normas de uso, mas dotado de uma unidade sistêmica.
Do ponto de vista teórico, ressalta-se a
opção pela Geolingüística Pluridimensional,
perspectiva que, no final do século XX, veio substituir a
monodimensionalidade até então predominante nos atlas lingüísticos
e que determina a busca de um novo perfil de informantes e a
utilização de questionários mais diversificados quanto ao
tipo de discurso que pretendem documentar
Quanto à apresentação dos dados
finais, o ALiB pretende apresentar, também, ao lado da versão
impressa, uma versão digital, com utilização dos recursos
da Internet ou de mídias como
CD e DVD, como nos “atlas falantes” ou atlas de 3ª.
geração. E, como nos chamados atlas de 2ª.
geração, análises interpretativas dos dados cartografados.
2. A metodologia do ALiB
2.1 A rede de pontos
A rede de pontos levou em conta, prioritariamente, a
densidade demográfica de cada região e de cada estado e a
distribuição espacial das localidades, com os ajustes
necessários, tanto nos casos das áreas que apresentavam densidade
abaixo de 1.0, como naquelas de densidade populacional muito grande, tendo-se
chegado a 250 localidades, distribuídas por todo o País.
Para a seleção das localidades foram
considerados: (a) a rede de pontos apresentada por Nascentes (1958); (b) as
redes dos atlas regionais até então publicados; (b) dados
históricos e socioculturais das localidades; (d) limites estaduais e
internacionais.
No decorrer da pesquisa, foram necessárias
substituições, uma vez que algumas localidades, quando examinadas
de perto pelos pesquisadores, revelaram aspectos que desaconselharam a sua
inclusão (como a grande presença de indivíduos de outras
áreas, com pouca possibilidade de se encontrarem informantes com o
perfil requerido, por exemplo, como ocorreu com a cidade de Caldas Novas, em
Goiás, substituída por Catalão).
2.2 Os informantes
Como é norma em trabalhos de natureza
geolingüística, os informantes devem ser naturais da localidade e
filhos de pessoas também da mesma área lingüística.
Embora não se busquem, hoje, indivíduos
sedentários como os dos primeiros trabalhos de Geolingüistica, em
fins do século XIX e até em grande parte do século XX,
devem ser evitados os que se afastaram da localidade por períodos muito
longos e contínuos. Estudos geo-sociolingüísticos, no
nível fonético-fonológico e no nível
morfossintático, têm mostrado a influência do contato com
falantes de outras áreas, principalmente se esse contato coincide com os
primeiros anos de vida do indivíduo (fase de aquisição da
linguagem), ou com o período imediatamente anterior ao da
realização do inquérito.
Quanto à fase de aquisição da
linguagem, a teoria clássica admite que o indivíduo, de modo
geral, conserva os traços lingüísticos (sobretudo
fonéticos) adquiridos até a adolescência, aventando, assim,
a possibilidade de se analisarem, em tempo aparente, a partir de falantes de
diferentes faixas etárias, fases anteriores de uma mudança em
curso.
A realização aberta ou fechada das
vogais médias, a variante oclusiva dento-alveolar ou africada palatal
diante de /i/, as variantes vibrantes (inclusive retroflexas) ou as
realizações alveolares ou palatais para o /S/ em coda
silábica, exemplificam, freqüentemente, a manutenção
de variantes adquiridas no contato com as pessoas responsáveis pelo
indivíduo em sua fase de aquisição da linguagem
(aproximadamente até os 5 anos) e com o seu grupo etário.
A importância dos afastamentos por
períodos mais longos, a depender do falante, tem sido detectada, por
exemplo, no estudo das variantes para o /S/ em coda silábica, tendo em
vista que esse fato é caracterizador de subáreas no
português brasileiro. A propósito, cita-se o caso de um falante de
Salvador, de faixa etária 2, filho de pais soteropolitanos, que
não pôde ser aproveitado como informante do ALiB por haver
trabalhado na Petrobrás durante algum tempo, em áreas de
realizações palatais, e afastar-se, sensivelmente, da
média encontrada para essas variantes em Salvador, de acordo com
trabalhos anteriores e com a análise de outros informantes da mesma
faixa etária. Chamou a atenção dos pesquisadores,
principalmente, a grande freqüência das palatais em final de palavra
(casaS, colegaS, companheiroS, cavaloS, etc.), contexto desfavorecedor para as
realizações palatais na fala de Salvador.
Para atender à perspectiva pluridimensional, os
informantes do ALiB se distribuiem pelos dois gêneros, por duas faixas
etárias - faixa 1, de 18 a 30 anos, e faixa 2, de 50 a 65 anos - e, nas
capitais de Estado, por dois graus de escolaridade - ensino fundamental
incompleto e universitário, obtendo-se, assim, variantes
diagenéricas, diageracionais e diastráticas.
A respeito desse perfil de informantes, explicam-se a
ausência de uma faixa intermediária, entre 30 e 50 anos, e a
restrição do parâmetro estrático às capitais
de Estado pela necessidade de reduzir-se o número de informantes, de
modo a viabilizar a execução do Projeto, face às
dimensões continentais do Brasil e as dificuldades de se atingirem
determinadas áreas, sobretudo no Norte e no Centro-Oeste do País.
Com relação à variável escolaridade, soma-se
à primeira justificativa, a possibilidade pequena, em alguns casos,
nula, de se encontrarem indivíduos de grau universitário, em
todas as localidades selecionadas, que atendessem ao perfil procurado.
Um outro aspecto que merece comentário é
o fato de a variação estrática basear-se apenas nas
diferenças de escolaridade, sem levar em conta dados socioculturais ou
socioeconômicos, embora esses dados sejam controlados pelas fichas de
informante, sistematicamente preenchidas. Com relação a esse tipo
de classificação estrática, freqüentemente utilizado
em trabalhos sociolingüísticos, a análise dos inquéritos
do ALiB têm confirmado, de modo geral, a sua adequação.
2.3 Os questionários
Os
questionários lingüísticos do ALiB foram preliminarmente
testados em inquéritos experimentais, com utilização de versões
preliminares que, após avaliadas, foram publicadas, em versão
definitiva, em 2001.
Os questionários dirigem-se aos diferentes
níveis de estudo da língua, subdividindo-se em:
fonético-fonológico (QFF), com 159 questões e mais 11
questões de prosódia; léxico-semântico (QSL), com
202 questões; morfossintático (QMS), com 49 questões.
Contêm, ainda, 04 questões de pragmática (QP), 04 temas
para o registro de discurso semidirigido (TDS), 06 perguntas de natureza
metalingüística (PM) e um texto para leitura.
Exemplificam o QFF as questões a seguir, que
visam à obtenção dos vocábulos televisão, tesoura, elétrico,
tomate, borboleta,
coração - destinados ao registro da
variação entre vogais médias abertas (é, ó)
ou fechadas (ê, ô), em posição pré-acentuada,
fato que, de acordo com Nascentes (1953), divide os falares brasileiros em
falares do Norte (com predominância de vogais abertas) e falares do sul
(com maior freqüência de vogais fechadas) - e os vocábulos casca, costas, rasgar, sal, azul, alta,
calor, perdão, que procuram documentar a
variação consonantal em coda silábica, de modo a delimitar
diferentes subáreas.
1.
Como se chama aquele aparelho onde se pode ver novela,
jogo, programas...? (QFF, 004)
2.
Como se chama o objeto com que se corta tecido? (QFF, 046)
3.
Antigamente, para passar a roupa, usava-se ferro a
brasa. Hoje, qual o tipo de ferro que se usa? (QFF, 011)
4.
Como se chama aquilo vermelho que vende na feira e que
se usa para preparar o molho do macarrão? (QFF, 030)
5.
Como se chama aqui um bichinho que voa e tem as asas
bonitas e coloridas? (QFF, 046)
6.
Qual o nome da parte do corpo que, se parar, a pessoa
morre? (QFF, 119)
7.
Para comer uma banana, o que é que se tira? (QFF, 031)
8.
Aqui (mostrar) é a frente, e aqui (mostrar)? (QFF, 067)
9. Fazer assim (mímica)
em um papel é ___ ? (QFF, 088)
10.
O que é preciso colocar na carne para temperar? (QFF, 016)
11.
Que cor é esta? Mostrar. (QFF,
089)
12.
O que se diz de uma pessoa que mede 1 metro e 90 cm, 2
metros? (QFF, 134)
13.
No inverno faz frio. E no verão? (QFF, 061)
14.
Quando se comete uma falta grave, o que é que
se pede a Deus? (QFF, 110)
São exemplos do QSL e do QMS:
1.
De noite, muitas vezes, pode-se observar uma estrela que se desloca no céu, assim (mímica)
e faz um risco de luz. Como chamam isso? (QSL, 031)
2.
Como se chamam as frutas menores que a laranja, que se
descascam com a mão e, normalmente, deixam um cheiro na mão. Como elas são? (QSL, 039)
3.
Como se chama a área que é preciso ter
ou comprar para se fazer uma casa na cidade? (QSL199)
4.
Quando se vê um amigo com uma mala e se quer
saber para onde ele vai, como é que se pergunta? (QMS 024)
As quatro questões de pragmática
apresentam a estrutura a seguir, variando, em cada uma delas, os dois
interlocutores do diálogo imaginado: Um
objeto (carteira, lenço, chave) caiu do bolso de um rapaz jovem e ele
não viu. Como um outro rapaz jovem chama a atenção desse
rapaz? (QP, 01).
Nos quatro temas previstos para o registro de discurso
semidirigido, o informante é levado a relatar uma experiência
pessoal marcante em sua vida, a comentar programas de televisão, a
descrever a sua atividade de trabalho e a contar um fato de que tenha ouvido
falar ou que tenha ocorrido com uma outra pessoa.
A utilização de gravuras é um
outro recurso utilizado na aplicação dos questionários com
duplo objetivo: ajudar na identificação do referente, por parte
do informante, assegurando respostas mais rápidas e mais seguras e,
especialmente no QMS, auxiliar na obtenção de respostas menos
monitoradas.
Os diferentes tipos de discurso que se documentam com
esses questionários têm-se mostrado importantes fontes para o
estudo da variação diafásica, principalmente quando se
confrontam as respostas às perguntas feitas para obtenção
de variantes fônicas, semântico-lexicais ou morfossintáticas
e o discurso emitido de modo menos tenso, ao final do inquérito, a
propósito de temas sugeridos ao informante.
A variação diafásica pode ser
exemplificada através do confronto entre as respostas às
questões 027 (fervendo) 052 (remando) e 148 (dormindo) do QFF, onde se documentam, em geral, as variantes
padrão, e as ocorrências de formas gerundivas no discurso livre.
Nesses ou em trechos de fala não monitorada, obtidos no decorrer do
inquérito, é freqüente a ausência do morfema
identificador do gerúndio, em elocuções como ferveno, remano ou dormino,
inclusive em falantes de escolaridade alta.
A variação diastrática e
diageracional, nos inquéritos do ALiB pode ser verificada também
através das solicitações de outras
denominações, insistentemente feitas durante o desenvolvimento do
QSL e que trazem, freqüentemente, observações do tipo
“os mais antigos falavam assim”, “ouvia minha vó
dizer”, “antigamente não se falava assim, não”,
“o pessoal ignorante fala assim”, “ouço dizer”.
A variação diagenérica é
percebida, em algumas áreas, em análises quantitativas,
indicando, em geral, a preferência dos falantes femininos pela variante
de maior prestígio, de acordo com o que admite Labov (2001) para as
chamadas mudanças de cima para baixo. Exemplifica esse fato a maior
freqüência, em Aracaju, de realizações palatalizadas
para o /t, d/ diante da vogal alta /i/ (tio,
dia), em informantes femininas, como
observa Mota (2007), no trecho:
Em Aracaju, os informantes masculinos quase não
utilizam as variantes palatais (5% e 0,10 de peso relativo), ao
contrário das informantes femininas que apresentam na fala 35% de
freqüência dessas variantes, correspondentes ao peso relativo de
0,54. Nas outras localidades [Recife, Maceió e Teresina] é
pequena a diferença entre os dois gêneros. (p. 5).
Para a análise do que se identifica como
variação diarreferencial, incluem-se seis questões de
natureza metalingüística sobre o modo de falar local, as pessoas
que, segundo o informante, “falam de modo diferente” na localidade
ou em outras áreas brasileiras, o falar de épocas anteriores,
solicitando-se exemplos dessas variantes, como na questão:
Tem gente que fala diferente aqui em _____ (citar
a cidade onde está)? Se
houver, identificar os grupos “que
falam diferente”. (PM, 02)
Pode-se, assim, confrontar a percepção
do falante sobre outras variantes e outros falares, verificando até que
ponto fatos identificados como característicos de outro estrato social,
de outra geração ou de outras áreas estão presentes
em sua fala, tendo em vista que, conforme atestam as pesquisas
sociolingüísticas, a avaliação subjetiva do falante a
respeito de um determinado fato nem sempre coincide inteiramente com a sua
própria realização lingüística.
A insatisfação do falante face à
introdução de novos hábitos lingüísticos pode
também estar presente nessas falas, como se pode observar, por exemplo,
em inquérito experimental, realizado em São Luís com uma
jovem de 19 anos:
Inq.- Tem gente que fala diferente aqui em São
Luís?
Inf. - Aqui em São Luís tem as
pessoas que QUEREM FALAR diferente.
Inq. - Como são essas pessoas que querem falar
diferente?
Inf. - São as pessoas que tentam puxar um...
um sotaque que, na verdade, não existe aqui.
A decisão
metodológica de aplicar-se, em todas as localidades, os mesmos
questionários, com a redação prévia das perguntas,
teve o objetivo, que já se pode considerar alcançado, de obter
maior uniformidade e resultados intercomparáveis inteiramente
confiáveis.
2.4 Técnicas de
realização dos inquéritos
A realização dos inquéritos
requer, além da preparação do inquiridor e dos
instrumentos de trabalho (questionários, fichas, aparelhos, etc.) a
intervenção de uma pessoa da própria localidade a ser
pesquisada, se possível, através de contato prévio. Esses
“facilitadores” têm ajudado a encontrar os informantes dentro
do perfil requerido e têm contribuído para reduzir ou eliminar as
desconfianças que, muitas vezes, os entrevistados demonstram, face ao
inusitado da proposta de pesquisa e os problemas presentes na época
atual.
A gravação de
dados é realizada in loco com cada um dos informantes,
separadamente, evitando-se, na medida do possível, a
intervenção de outras pessoas (familiares, amigos ou curiosos).
Em situação ideal, o inquiridor principal se faz acompanhar de um
inquiridor auxiliar que, além de manejar os aparelhos, controla o
desempenho do informante, assinalando em ficha própria, as
questões não respondidas por desconhecimento e aquelas esquecidas
no momento do inquérito, que deverão ser repetidas, ao final do
inquérito.
O registro é feito,
em geral em mini discs (MD) ou fitas
magnetofônicas (aparelhos do tipo cassete), e, freqüentemente, com
utilização simultânea dos dois tipos de aparelho, de modo a
evitar que se perca inteiramente o inquérito, em caso de acidente com um
deles.
Ao lado das gravações de fala,
registram-se ainda dados sobre os informantes através da “Ficha de
informante”, sistematicamente preenchida, às vezes também
gravada, dados das localidades através de informações
fornecidas por escolas, prefeituras ou pelos próprios habitantes e
fotos.
A ficha para anotação de dados de
informantes tem por objetivo não apenas identificar o falante alvo da
gravação mas também situá-lo
sociolingüisticamente. Desse modo, incluem-se informações
sobre a sua profissão (assim como dos pais e cônjuge), sua renda
individual ou familiar, o contato que mantêm com os meios de
comunicação (TV, rádio, jornal, revista), suas
preferências e diversões, sua participação em
atividades religiosas, com a finalidade de caracterizá-lo melhor e
estabelecer as possíveis relações com os seus usos
lingüísticos.
2.5.
Tratamento dos dados
As amostras obtidas “in loco” são
posteriormente catalogadas, copiadas (se necessário) e arquivadas,
situando-se, no Instituto de Letras da UFBA, o arquivo nacional de dados do
Projeto ALiB, que será arquivado, também em meio digital, no
Centro de Processamento de Dados dessa mesma Universidade.
Os dados são transcritos fonética e
grafematicamente, passando por duas revisões sucessivas.
Implementa-se, no momento, a
estruturação de um Banco de Dados, que vai possibilitar a
elaboração das cartas lingüísticas, impressas e em
meio digital, e a abertura à consulta dos dados do ALiB aos pesquisadores
interessados.
3. Considerações finais
A metodologia seguida para constituição
e desenvolvimento do Projeto ALiB, como vimos, apesar de incluir-se nos
princípios da Geolingüística Pluridimensional
Contemporânea, teve de levar em conta as restrições
impostas pela extensão territorial a cobrir e todas as dificuldades
disso advindas, reduzindo os parâmetros a considerar, o número de
informantes e os próprios questionários. Desse modo, o Projeto
ALiB propõe-se a fornecer uma macro-visão da realidade
brasileira, delineando áreas e subáreas dialetais, mas não
substitui as pesquisas regionais, que, circunscritas a áreas mais
reduzidas, poderão ampliar o leque de variáveis e os fatos a
documentar.
Referências
BRASIL. Decreto n.° 30.643, de 20
de março de 1952. Institui o Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa
e dispõe sobre seu funcionamento.
COMITÊ NACIONAL.Atlas
Lingüístico do Brasil. Questionários. Londrina:
Ed. UEL, 2001.
COMITÊ NACIONAL. Projeto
Atlas Lingüístico do Brasil. Salvador: Instituto de Letras,
1998 e 2003.
LABOV, William. Principles of
linguistic change. v. 2: Social factors. Massachusetts: Blackwell, 2001.
MOTA, Jacyra. Falar baiano
versus falar nordestino: o que
revelam os dados do Atlas Lingüístico do Brasil.
Comunicação apresentada no I Forum Internacional da Diversidade
Lingüística, 2007, Porto Alegre. Texto entregue para
publicação em Atas.
NASCENTES, Antenor. O linguajar carioca. 2. ed. Rio de
Janeiro: Organização Simões, 1953.
NASCENTES, Antenor. Bases
para a elaboração do atlas lingüístico do Brasil.
Rio de Janeiro: MEC, Casa de Rui Barbosa, v. I, 1958.
SILVA NETO, Serafim da. Guia para estudos dialectológicos. 2.
ed., Belém: Conselho Nacional de Pesquisa/Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia, 1957.
PAINEL: A METODOLOGIA DO PROJETO ALIB
A REDE DE PONTOS: UMA REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA SOCIAL
DAS CAPITAIS DE ESTADO QUE INTEGRAM O PROJETO ALIB.
Aparecida Negri Isquerdo
(Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico - Brasil)
Introdução
Como um dos procedimentos metodológicos
fundamentais nas pesquisas geolingüísticas, a rede de pontos
assegura a representatividade da documentação da
variação espacial da língua, a comparação
posterior dos dados e a sua respectiva distribuição num
determinado espaço geográfico por meio de cartas
lingüísticas. No pensar de Nascentes (1958; 1961), “a boa
determinação dos pontos dos inquéritos influi grandemente
na perfeição de um atlas”. Adverte ainda o autor: “os
pontos devem ser fixados no meio das regiões mais características
do tipo de linguagem”.
Já Mouton (1996, p. 65) define rede de pontos
como o conjunto de localidades onde será realizada a pesquisa, que
são escolhidas segundo diversos critérios e que devem representar
todo o território estudado - a rede inclui mais lugares em terras onde
as diferenças dialetais são mais interessantes, em zonas
isoladas, em áreas de fronteira e menos pontos onde haja maior
uniformidade lingüística. Inicialmente evitava-se a inclusão
de cidades dentre na rede de pontos, uma vez que se buscava o caráter
arcaizante da linguagem, fenômeno mais evidenciado em lugares distantes
dos centros mais avançados em termos tecnológicos (atlas rurais).
Esse critério tem sido revisto e na atualidade os estudos
geolingüísticos atingiram as cidades, inclusive, os grandes
centros, surgindo assim os atlas urbanos.
Desta forma, a questão da
definição da rede de pontos nas pesquisas
geolingüísticas remete a duas outras: a densidade da rede e o grau
de abrangência da pesquisa geolingüística. No Brasil, um
país de dimensões continentais, a questão da densidade da
rede de pontos torna-se particularmente complexa. Daí a tendência
nacional de produção de atlas com redes de pontos menos densas.
Mesmo dentre os atlas regionais já publicados no Brasil não se
observa uma rede carregada de pontos, se considerada a relação
entre o número de pontos e a dimensão territorial do País.
Associada à questão da densidade da rede de pontos situa-se o
domínio espacial do atlas a ser produzido, outro fator determinante na
seleção dos pontos de inquéritos e diretamente relacionado
aos objetivos do projeto. Em termos de Brasil, a questão da densidade da
rede de pontos em trabalhos geolingüísticos configura-se como uma
decisão que demanda muitos questionamentos, considerando-se, para tanto,
temas como viabilização da pesquisa em termos financeiros e de
cronograma de execução, objetivos do atlas a ser confeccionado,
equipe de pesquisa, dentre outros.
Nascentes (1958), após viajar por todo o
Brasil, propôs um total de 605 localidades para um futuro atlas
lingüístico do Brasil, proposta que ainda orienta trabalhos
geolingüísticos brasileiros e que foi tomada como parâmetro
para a definição da rede de pontos do Atlas
Lingüístico do Brasil. Entretanto, à época, o
dialetólogo brasileiro já reconhecia as dificuldades que seriam
enfrentadas pelos pesquisadores que se aventurassem a tamanha empreitada e
recomendava que se confeccionassem inicialmente atlas regionais para,
posteriormente, elaborar-se um atlas nacional. Essa postura também foi
adotada por outros estudiosos e anteriormente defendida por Serafim da Silva
Neto (1957, p. 12), ao ponderar o quanto seria “difícil e
demorada, com a imensa extensão do Brasil, com as dificuldades de
comunicação e sem as tomadas prévias, a
realização de um atlas lingüístico”.
A lição dos mestres foi acatada e no
Brasil, em situação inversa a da Europa, pelo menos nos Estados
da Federação que já contam com atlas publicados e/ou
projetos em desenvolvimento, os atlas regionais foram produzidos antes de um
atlas nacional. Esses atlas regionais documentaram um maior volume de dados
relativos à língua falada nos espaços regionais
pesquisados, o que não acontecerá com o Projeto ALiB que se
enquadra na categoria dos atlas de grande domínio e que por isso
documentará fatos lingüísticos mais gerais e
passíveis de serem intercomparados, em âmbito nacional. Este
trabalho discute a rede de pontos do Projeto ALiB, no que se refere às
capitais, com ênfase para a história social relacionada a cada uma
delas (momento e causas da criação, importância no conjunto
do processo de povoamento e desenvolvimento do Brasil) e para a natureza da
nomenclatura geográfica dessas capitais.
1. A rede de pontos do Projeto ALiB:
critérios de seleção e distribuição
A definição da rede de pontos do Projeto
ALiB tomou como pressuposto o estudo sistemático da realidade
brasileira, do processo de povoamento e do desenvolvimento socioeconômico
de cada área. Para tanto, contou-se com o assessoramento de
antropólogos, historiadores e geógrafos e, também, com a
colaboração de indigenistas.
Para o estabelecimento do número de pontos,
distribuídos em cada Estado, levou-se em consideração,
prioritariamente, a densidade demográfica dos 26 Estados da
Federação, distribuídos pelas 05 regiões
brasileiras, fazendo-se os ajustes necessários nos casos de densidade
abaixo de 1,0 - como os estados do Acre, de Roraima, do Amapá e do
Tocantins; de pequena densidade demográfica em grandes áreas -
como é o caso do Mato Grosso (densidade 3,6) e do Amazonas (densidade
3,8), e de maior densidade populacional - como no caso do Rio de Janeiro
(densidade 22), de Minas Gerais (densidade 27) e de São Paulo (densidade
55).
A definição da rede considerou a
análise da proposta de Nascentes (1958), a rede dos atlas regionais
já publicados e os objetivos do Atlas Lingüístico do Brasil,
proposto em 1996, pelos dialetólogos brasileiros. Além disso, o
projeto considerou também a realidade brasileira atual, as prioridades
estabelecidas pelo projeto, definidas em função das
condições de produção do atlas, em termos
econômicos e de recursos humanos. A seguir especificamos a
distribuição das 250 localidades[2] da rede em termos de regiões administrativas
do IBGE e de estados da Federação.
A região
Norte, a mais extensa das regiões brasileiras, tem uma área
de 3.769.900 km2 (45% do território nacional) e uma
população de 14.892.013 habitantes (7% do total brasileiro). Com
uma densidade demográfica de 0,2, é dividida em 07 estados da
Federação: Amazonas, capital Manaus;
do Acre, capital Rio Branco; do
Tocantins, capital Palmas; de
Rondônia, capital Porto Velho,
de Roraima, capital Boa Vista; do
Pará, capital Belém e
do Amapá, capital Macapá.
Dessas capitais, 06 integram a rede de pontos do ALiB, tendo sido
excluída Palmas a capital do estado de Tocantins em virtude da sua
criação recente (1989), em decorrência do desmembramento
pelo Governo Federal do Brasil do estado de Goiás em duas unidades da
Federação, decisão que deu origem ao Estado de Tocantins
(1988). A rede de pontos do Projeto AliB, na região Norte, abrigou,
pois, 24 pontos, assim distribuídos: Acre - densidade demográfica 0,8 - 02 localidades; Amapá - densidade
demográfica 0,6 - 02 localidades; Amazonas
- densidade demográfica 3,8 - 05 localidades; Pará - densidade demográfica 8,0 - 10 localidades; Rondônia - densidade
demográfica 1,6 - 02 localidades; Roraima
- densidade demográfica 0,4 - 01 localidade e Tocantins - densidade demográfica - 1,7 - 02 localidades.
Já a região
Nordeste concentra uma área de 1.584.803 km2 (18% da
área territorial do Brasil) e uma população de 51.380.117
habitantes (29% da população brasileira), apresentando uma
densidade demográfica de 23 habitantes por Km2. Formada por
09 estados - Maranhão, capital São
Luiz; Piauí, capital Teresina;
Ceará, capital Fortaleza; Rio
Grande do Norte, capital Natal;
Paraíba, capital João
Pessoa; Pernambuco, capital Recife;
Alagoas, capital Maceió;
Sergipe, capital Aracaju e Bahia,
capital Salvador -, a região
Nordeste concentrou 78 localidades da rede de pontos do Projeto ALiB: Alagoas - densidade demográfica
8,0 - 04 localidades; Bahia -
densidade demográfica 11 - 22 localidades; Ceará - densidade demográfica 4,1 - 12 localidades; Maranhão - densidade
demográfica 3,9 - 09 localidades; Paraíba
- densidade demográfica 5,2 - 06 localidades; Pernambuco - densidade demográfica 11,5 - 12 localidades; Piauí - densidade
demográfica 4,0 - 05 localidades; Rio
Grande do Norte - densidade demográfica 2,7 - 05 localidades e Sergipe - densidade demográfica
19,2 - 03 localidades.
A região Centro-Oeste,
por sua vez, dentre as 05 regiões brasileiras, é a segunda em
extensão territorial, com uma área 1.612.077 km2 (19%
do total brasileiro) e uma população de 13.169.420 habitantes (7%
do total nacional), com uma densidade demográfica de 04 habitantes por
Km2. É formada por 03 Estados e o Distrito Federal: Mato
Grosso, capital Cuiabá; Mato
Grosso do Sul, capital Campo Grande e
Goiás, capital Goiânia,
além do Distrito Federal, com a capital Brasília. No Centro-Oeste, o Projeto ALiB está recolhendo
dados em 24 localidades: Goiás
- densidade demográfica 7,2 - 09 localidades; Mato Grosso - densidade demográfica 3,6 - 09 localidades; Mato Grosso do Sul - densidade
demográfica 3,2 - 06 localidades.
Já a região
Sudeste é a mais densamente povoada e economicamente mais importante
do Brasil, com uma área 927.287 km2 (11% do total brasileiro)
e uma população de 79.122.849 habitantes (42% da
população brasileira), é formada por 04 estados:
São Paulo, capital São
Paulo; Minas Gerais, capital Belo
Horizonte, Espírito Santo, capital Vitória e Rio de Janeiro, capital Rio de Janeiro. Em decorrência da sua alta densidade
demográfica (55 habitantes por Km2), contempla 80 das 250
localidades da rede de pontos do Projeto ALiB: Espírito Santo - densidade demográfica 4,5 - 05
localidades; Minas Gerais -
densidade demográfica 27,2 - 23 localidades; Rio de Janeiro - densidade demográfica 22 - 14 localidades e
São Paulo - densidade
demográfica 55 - 38 localidades.
Por fim, a
região Sul, considerada a
Europa brasileira em virtude da concentração de imigrantes
europeus no povoamento do seu território, reúne uma área
de 577.214 km2 (07% do total brasileiro) e uma
população de 27.173.918 habitantes (15% da
população brasileira), com uma densidade demográfica de 31
habitantes por Km2. É formada por 03 estados: Paraná,
capital Curitiba; Santa Catarina,
capital Florianópolis e Rio
Grande do Sul, capital Porto Alegre
e, no projeto ALiB, abriga 44 localidades: Paraná
- densidade demográfica 14,5 - 17 localidades; Santa Catarina - densidade demográfica 7,8 - 10 localidades
e Rio Grande do Sul - densidade
demográfica 15,5 - 17 localidades.
Os dados apresentados acerca da
distribuição da rede de pontos do Projeto ALiB demonstram o peso
exercido pelo critério da densidade demográfica na
definição e na distribuição das localidades, segundo
os Estados de cada região geográfica brasileira. Basta
observarmos a relação entre os índices relativos à
área territorial e à população para constatarmos a
realidade brasileira em termos de densidade demográfica, fator que se
refletiu na definição do número de pontos do ALiB para os
Estados das cinco regiões administrativas brasileiras. A região
Norte, por exemplo, que concentra a maior área territorial dentre as
regiões brasileiras (45%), retém apenas 7% da
população brasileira e registra uma densidade demográfica
de 0,2 habitantes por Km2. Em contrapartida a região Sudeste
que representa apenas 11% do total da área geográfica do Brasil
abriga 43% da população nacional com uma densidade
demográfica de 55 de habitantes por km2.
Além da densidade demográfica regional,
para a escolha das localidades, em cada um dos Estados do País, foram
considerados os seguintes critérios: a) as zonas dialetais já
determinadas por meio de pesquisas anteriores, por pesquisadores da
área; b) a distribuição espacial das localidades, para que
um ponto não ficasse colado noutro e se mantivesse, em cada Estado, um
distanciamento mais ou menos simétrico. Procurou-se, nesse caso, conjugar
o critério de eqüidistância versus densidade demográfica; c) a importância da
localidade, se em zona fronteiriça por causa do bilingüismo e/ou
diglossia, se em zona limítrofe interestadual (quando de muito
movimento), ou se em zona onde ainda se evidencia uma cultura e/ou
presença indígena e, d) as localidades apresentadas por Antenor
Nascentes, em 1958, quando de suas Bases para Elaboração de um
Atlas Lingüístico do Brasil.
Nota-se, pois, que diferente do que tem sido feito,
tradicionalmente, em trabalhos de natureza dialetal, foram pontuados, mas
não se consideraram prioritários, critérios como
antiguidade e grau de isolamento das localidades em relação a centros
mais desenvolvidos.
Assim, cidades de grande e médio porte,
inclusas aí as capitais (com duas exceções), foram objeto
de trabalho de natureza sociolingüística, pela primeira vez no
âmbito de um Atlas Lingüístico na América Latina. As
capitais, onde o inquérito não se fará são a de
Tocantins, Palmas, por sua recente criação (1989) e não
ter, por conseqüência, informantes nativos, e Brasília que,
inaugurada em 1960, vive ainda uma miscigenação de falares, por
receber brasileiros de todas as partes e não ter tido tempo, do ponto-de-vista
lingüístico, para formar a sua norma lingüística. Essa
razão explica a inclusão de Belo Horizonte, Goiânia e Campo
Grande que, há pouco centenárias, já apresentam, contudo,
um nivelamento lingüístico que as torna, por seu falar
característico, diversa dos falares que as rodeiam.
Desnecessário frisar que, para a
definição da rede de pontos, os dados fornecidos pelo IBGE
(Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)
foram fundamentais. Além disso, foi realizada ampla leitura da
História do Brasil, dos primeiros viajantes e suas narrativas até
teses recentes sobre desbravamento e povoação.
2. As capitais brasileiras - uma
visão sócio-histórica
O Volume I do Atlas Lingüístico do Brasil
apresentará, no seu fascículo 2, o mapeamento dos dados
geolingüísticos documentados em 26 capitais brasileiras, já
que Palmas e Brasília não foram incluídas na rede pelas
razões anteriormente expostas.
As capitais dos 26 Estados da Federação
e a capital do Brasil estão assim distribuídas, segundo o
século de fundação, considerando-se, para tanto, como
critério as notícias do primeiro povoamento e não a data
oficial de criação da capital:
1.século
XVI: 26% das capitais brasileiras,
distribuídas entre as regiões Nordeste - Salvador, Natal, Recife,
João Pessoa - e Sudeste - Rio de Janeiro, São Paulo e
Vitória;
2.século
XVII: 26% das capitais brasileiras,
distribuídas entre as regiões Norte - Belém e Manaus;
Nordeste - Aracaju, Fortaleza, Maceió e São Luiz; e Sul -
Curitiba;
3.século
XVIII: 14,8% das capitais brasileiras,
distribuídas entre as regiões Norte - Macapá; Centro-Oeste
- Cuiabá; Sudeste - Belo Horizonte e Sul - Florianópolis;
4.século
XIX: 22,2% das capitais brasileiras,
distribuídas entre as regiões Norte - Boa Vista e Rio Branco;
Nordeste - Teresina; Centro-Oeste - Campo Grande e Goiânia - e Sul -
Porto Alegre;
5.século
XX: 11% das capitais brasileiras,
distribuídas entre as regiões Norte - Porto Velho e Palmas e
Centro-Oeste - Brasília.
Como se pode perceber, essa distribuição
das capitais brasileiras segundo o século da fundação
demonstra que 70,5% das capitais tiveram origem no Brasil Colônia
(séculos XVI a XVIII) e apenas 29,5% surgiram no período
republicano. Em face disso, para a compreensão desse fenômeno,
faz-se mister uma retomada de dados acerca do processo de povoamento do Brasil,
ou seja, as correntes migratórias que foram responsáveis por esse
povoamento, nas diferentes regiões brasileiras.
Consultando Caio Prado Júnior (2006, p. 36-38)[3], vamos verificar que no final do século XVIII
a população brasileira somava cerca de 3.000.000 de habitantes,
excluindo-se aproximadamente 800.000 índios “não
domesticados”. Essa população distribuía-se
irregularmente por todo o território da então colônia.
Segundo esse historiador, vários fatores contribuíram para a essa
dispersão do povoamento: i) “a extensão da costa que coube
a Portugal na partilha de Tordesilhas”, fator determinante para a
colonização simultânea em diferentes pontos da
colônia como uma estratégia de defesa, o que resultou na
divisão do território em capitanias, medida que garantiu à
coroa portuguesa a posse das terras ao longo do litoral (p. 37); ii) o
“bandeirismo preador de índios e prospector de metais e pedras
preciosas” que avançou o povoamento para o interior da
colônia; a exploração das minas a partir do final do
século XVII fixou núcleos populacionais no interior da
colônia - Minas Gerias, Goiás e Mato Grosso (p. 37); iii) a
ação das missões católicas evangelizadoras do
gentio no Extremo-Norte (bacia Amazônica), “seguidas de perto pela
colonização leiga, provocada e animada pela política da
metrópole [...], sustentada pela exploração dos produtos
naturais da floresta amazônica: o cacau, a salsaparrilha e outros”
(p. 37) e, iv) consumo de carne oriunda dos rebanhos que avançavam pelo
sertão nordestino, um dos “maiores centros agrícolas do
litoral da colônia, Bahia e Pernambuco” (p. 37-38).
Ainda conforme o mesmo historiador, o
território que viria a constituir o Brasil fixou-se na verdade desde os
meados do século XVIII, época em que quase 2.000.000 de
habitantes havia se fixado na faixa litorânea. Em face disso,
esse desequilíbrio entre litoral e interior exprime muito bem o
caráter predominante da colonização: agrícola -
donde a preferência pelas férteis, úmidas e quentes
baixadas da marinha; e comercialmente voltada para o interior, onde
estão os mercados para seus produtos. Localizado aí de
início, o povoamento só começa a penetrar no interior,
propriamente no segundo século (PRADO JÚNIOR, 2006, p.39).
Associando-se esses dados históricos às
datas dos primeiros povoamentos que deram origem às capitais dos estados
brasileiros no Brasil Colônia, encontramos justificativas para o fato das
52% das capitais que surgiram nos séculos XVI e XVII situarem-se em
áreas litorâneas, exceto São Paulo, uma vez que
de ocupação efetiva do interior,
à parte o caso excepcional de São Paulo, plantado de
início no planalto e arredado da costa, encontramos apenas a marcha
progressiva das fazendas de gado do sertão nordestino e a lenta e
escassa penetração na bacia amazônica (PRADO JÚNIOR,
2006, p.39).
Reportando-nos novamente
ao século XVI notamos que o surgimento dos 07 povoados que se
transformaram em grandes centros urbanos elevados à categoria de capital
- Salvador, Natal, Recife, João
Pessoa, Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória - traduzem fortemente a política
colonizadora lusitana.
Na localidade onde foi fixada a cidade de Salvador, por exemplo, há
registro da presença de habitante branco desde 1510 - Diogo
Álvares que era tripulante de um navio francês que naufragara no
local. Em 1536 chegou à região Francisco Pereira Coutinho, o
primeiro donatário que recebeu capitania hereditária de El-Rei
Dom João III, fundando o Arraial do Pereira. Em 1949 Tomé de
Souza funda por ordens do rei de Portugal a
cidade-fortaleza chamada São Salvador,
nascendo assim a cidade de Salvador, com estuto de cidade e de capital, sem
nunca ter sido província. Comprova-se, pois, que a
fundação da capital Salvador no litoral representou uma
ação do governo português em defesa do território[4].
Caminhos similares marcaram o surgimento das outras capitais seiscentistas
da região Nordeste. A primeira população que deu origem a Recife, por exemplo, surgiu em 1561, em
decorrência de um ancoradouro (largo canal situado entre os arrecifes de
arenito e a península), que abrigava pesados veleiros que ali vinham
refrescar-se em local abrigado pelas sombras dos arrecifes. Nesse local, as
águas do mar misturavam-se às dos rios Capibaribe e Beberibe.
Já João Pessoa surge
em 1585, com o nome de Nossa Senhora das Neves, quando chegou à Paraíba Martim Leitão,
Ouvidor-Geral da Bahia, chefiando uma expedição que deveria
restaurar os fortins da barra e desalojar os franceses que ali vinham se
fixando. Com o Ouvidor-Geral chegaram também várias
famílias, por isso ele teve que providenciar a construção
de fortes, igrejas e casas de moradia.
Por fim, a Cidade do Natal, nome assim registrado na Constituição
Estadual, teve origem em 1599, na capitania do
Rio Grande do Norte, cuja história tem início em 1535 com a
chegada de uma frota comandada por Aires da Cunha, a serviço do
donatário João de Barros e do Rei de Portugal, que tinha como
meta a colonização das terras da região.
Ao longo do litoral, só que na região
Sudeste da Colônia, outras 03 capitais seiscentistas surgem como
decorrência das mesmas estratégias do governo imperial, qual seja
as de proteger as fronteiras e de expandir o processo de povoamento do
território.
Vitória, por exemplo, foi criada em virtude dos constantes ataques
indígenas, franceses e holandeses à Vila Velha, que era a capital
da capitania do Espírito Santo, o que levou os portugueses a mudarem a
capital para uma ilha próxima ao continente, a Ilha de Guanaaní,
e batizá-la de Ilha de Vitória. A nova capital foi fundada em
1551 com o nome de Cidade de Vitória, em referência à
vitória conquistada numa grande batalha comandada por Vasco Fernandes
Coutinho, donatário da capitania, contra os índios Goitacases.
Já São Paulo
emerge como missão jesuítica, reunindo em seus primeiros
territórios habitantes de origem européia e indígena. Do ponto de vista da segurança, a
localização topográfica de São Paulo era perfeita,
por situar-se numa colina alta e plana, que facilitava a defesa contra ataques
de índios hostis. Com o tempo, o povoado acabou
caracterizando-se como entreposto comercial e de serviços de relativa
importância regional. Essa característica de cidade comercial e de
composição heterogênea vai acompanhar a cidade em toda a
sua história. A vila de
São Paulo de Piratininga foi fundada em 25 de janeiro de 1554 com a
construção de um colégio jesuíta pelos padres
Manoel da Nobrega e José de Anchieta entre os rios
Anhangabaú e Tamanduateí, ao redor do qual se iniciou a construção das primeiras
casas de taipa, que dariam origem ao povoado de São Paulo de Piratininga
que em 1560 ganhou foros de vila.
A Cidade do Rio
de Janeiro, por seu turno, foi fundada em 1565 por Estácio de
Sá, com a missão de servir como núcleo fortificado com
vistas a defender a baía da Guanabara, após a expulsão dos
franceses. Essa localidade algumas décadas depois se configurou como um
porto exportador do açúcar do recôncavo fluminense. Outro
fator que deu destaque à cidade do Rio de Janeiro foi a sua
elevação à capital do território em 1763. Com a
vinda da família real para o Brasil em 1808, a capital foi fortalecida
do ponto de vista político-administrativa e como centro econômico.
Apesar da mudança da capital para Brasília, em 1960, o Rio de
Janeiro continuou sendo importante pólo turístico, cultural e
comercial do Brasil.
No século XVII, surgem mais 08 capitais
brasileiras também motivadas pelas mesmas razões que
impulsionaram o surgimento de povoados no primeiro século do Brasil
Colônia e ainda predominam as cidades litorâneas e em
regiões de fronteira marcadas por grandes rios navegáveis.
É nesse século, por exemplo, que surgem as primeiras capitais
situadas na região Norte do Brasil: Belém
e Manaus.
A capital do atual estado do Pará, Belém, foi edificada em terras
dos povos Tupinambá. O surgimento do núcleo primitivo dessa
cidade remonta ao contexto da conquista da foz do rio Amazonas, à
época da Dinastia Filipina, quando da fundação do Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo do Presépio de
Belém (Forte do Presépio), às margens da baía de Guajará, em 1616.
Inicialmente denominada de Feliz
Lusitânia, a povoação que se
formou ao redor do Forte do Presépio foi também denominada como Santa
Maria do Grão Pará, como Santa Maria de Belém do
Grão Pará e, por fim, Belém. Entre o final do século XIX e
começo do século XX, no chamado Ciclo da Borracha, a cidade
alcançou grande importância comercial e cultural, passando a ser
cognominada de Paris N`América. Isso atraiu grandes levas de imigrantes
oriundos de diversos continentes e de migrantes de vários estados
brasileiros, sobretudo dos do Nordeste que para lá se abalaram em busca
de riqueza com a extração do látex da seringueira (Hevea
brasiliensis).
A exemplo de Belém, Manaus
também ergueu-se com o objetivo de defesa de território. Em 1669,
tem início a história da colonização
européia na região de Manaus com a construção de um
pequeno forte em pedra e barro, com quatro canhões: o Forte de São José da Barra do
rio Negro. Esse forte foi construído para garantir o
domínio da coroa portuguesa na região, principalmente contra a
invasão de holandeses. Próximo ao forte habitavam os povos
indígenas barés, banibas, passés e manaós que
ajudaram na sua construção e passaram a morar a sua volta. Em
1755 foi criada por meio de Carta Régia a Capitania de São
José do Rio Negro, com sede em Mariuá, atual cidade de Barcelos.
Todavia, em 1791, temendo as invasões espanholas, o governador Lobo D'Almada passou a sede
novamente para o Lugar da Barra, em razão da sua
localização estratégica - confluências dos rios
Negro e Amazonas. Em 1832, o Lugar da Barra passou à categoria de vila
com o nome de Vila de Manuas, passando depois a ser denominada de Cidade da
Barra do Rio Negro (1848) e por fim Cidade de Manaus (1856).
Não é demais lembrar que
Manuas, a capital do Amazonas, era um lugar esquecido e praticamente
inexistente nos mapas até o Ciclo da Barrocha (1879 a 1920), quando a indústria européia passou a
utilizar o látex extraído das seringueiras. O mesmo ocorria com Belém que, distante dos
núcleos decisórios das regiões Nordeste e Sudeste do
Brasil e fortemente ligada a Portugal, reconheceu a Independência do
Brasil, apenas a 15 de agosto de 1823, quase um ano após a sua
proclamação.
Já no Nordeste
foram criadas no século XVII os povoados que deram origem às
capitais Aracaju, Fortaleza,
Maceió e São Luiz.
A exploração das terras onde se localiza a atual capital de
Sergipe, Aracaju, e a
fundação do primeiro núcleo populacional remontam à
época da chegada do colonizador português em terras brasileiras.
Inicialmente o território estava sob a jurisdição da
Capitania da Bahia de Todos os Santos, fator que atraiu povoadores de origem
portuguesa à região. O processo
de povoamento da região prosseguiu lentamente, sendo certo que, em 1602,
Pero Gonçalves ali obteve concessão de sesmarias. Somente em 1855
o povoado de Santo Antônio de Aracaju foi elevado à categoria de
cidade com o nome de Aracaju, cidade que a partir de então passou a
ocupar o status de capital da
Província de Sergipe.
O
núcleo populacional que deu origem à capital Fortaleza foi fundado por meio da Ordem Regia de 13 de fevereiro
de 1699, que criou a primeira vila no Ceará, origem do atual
Município de Aquiraz, instalado em 1700, na sua primitiva sede - o
núcleo de Fortaleza. Por Resolução Régia de 9 de
março de 1725, é criado o município de Fortaleza, com sede
no núcleo do mesmo nome, então elevado à categoria de
vila. Já a categoria de cidade lhe é conferida em 1823.
Já os registros de primeiras
povoações no território onde se situa Maceió datam de 1611 quando uma sesmaria de 800
braças foi concedida a Manuel Antônio Duro. Em 1673, D. Pedro II
ordena a povoação e a fortificação do porto de
Jaguará, com vistas a combater o comércio ilegal de pau-brasil. A
vila de Maceió foi criada em 1815 e instalada em 1817, sendo elevada
à categoria de cidade e de capital da Província de Alagoas em
1839. Por fim, a cidade de São
Luís, capital do Maranhão, situada na península que
avança sobre o estuário dos rios Anil e Bacanga, foi fundada em
1612, pelos franceses Daniel de La Touche e Fraçois de Rasilly. A cidade
foi incorporada ao domínio português em 1615, mas sucumbiu, ainda
no decorrer do século XVII, ao domínio holandês. Em 1645 os
holandeses foram expulsos pelos portugueses, quando efetivamente tem
início a colonização portuguesa da antiga Upaon Açu ou Ilha Grande, a denominação tupinambá para a
Ilha de São Luís.
É o século XVII que também
registra o surgimento da primeira capital na região Sul do Brasil,
já como conseqüência do ciclo da exploração do
ouro que levou ao descobrimento dos Campos de Curitiba, também chamados
de Sertão de Paranaguá. As levas de garimpeiros subiam o rio
Ribeira e atingiam o rio Assungui e se deparavam ao sul com os Campos de
Curitiba, onde vários deles se fixaram com suas famílias. Outros
vindos do litoral galgaram a Serra do Mar e se estabeleceram no planalto. A
primeira notícia de bandeirantes nesses campos data de 1661: uma carta
de sesmaria a favor de Baltazar Carrasco dos Reis, dando-lhe posse no Barigui. Curitiba foi erguida numa região
de floresta exuberante onde reinavam as araucárias.
Todavia, motivos diversos aos que desencadearam o
surgimento dos povoados que deram origem às capitais seiscentistas e
setecentistas impeliram o surgimento dos aglomerados humanos que adquiriram o
estatuto de capital no século XVIII. Ao contrário dos dois
primeiros séculos de colonização, quando o processo de
povoamento priorizou a área litorânea, o século XVIII vem
marcado por novos processos de colonização, decorrentes, sobretudo,
do ciclo do ouro que tange, para o interior do território, grandes levas
de bandeirantes em busca de ouro e pedras preciosas. Instauram-se os movimentos
das entradas e bandeiras[5] e posteriormente o das monções[6] que
impulsionam o povoamento do Centro-Oeste do Brasil. Em face disso, a
fundação de muitas cidades foi uma conseqüência do
arrojo dos bandeirantes paulistas que, empenhados a principio na captura de
índios para os trabalhos da lavoura, e atraídos depois pelas
minas de ouro e diamantes, vieram a desbravar os sertões brasileiros. A
criação das capitais Cuiabá
(MT) e de Belo Horizonte (MG) foi
motivada pela influência do movimento de entradas e bandeiras.
Cuiabá, por exemplo, tem sua origem em um
povoado fundado entre 1673 e 1682, por Manoel de Campos Bicudo, nas
proximidades do rio Coxipó, rico em pedras preciosas, onde o rio
deságua no rio Cuiabá. O afluxo de
gente a esse novo Eldorado foi extraordinário e, apesar das dificuldades
de comunicações, o seu desenvolvimento foi espantoso. Em 1726, o
Capitão-General de São Paulo, Rodrigo Cesar de Menezes, mandou
erigir em vila o povoado, sob a invocação de Nosso Senhor Bom
Jesus de Cuiabá. Em virtude da dificuldade de a Capitania de São
Paulo administrar os distritos de Cuiabá e de Mato Grosso, em 1748, foi
criada a Capitania de Mato Grosso e Cuiabá. Em 1752 a sede de governo
foi transferida para o município de Mato Grosso, para a recém-fundada
Vila Bela da Santíssima Trindade,
às margens do rio Guaporé. Dada a sua posição
geográfica central, Cuiabá conservou sua hegemonia, apesar de
destituída dos foros de capital. Elevada à categoria de cidade,
em 1818, passou a capital em 1825. Sua evolução
sócio-econômica foi tolhida durante mais de um século por
agitações internas e dificuldades de toda a espécie, das
quais a menor era a distância que a separava da capital do País.
Na região Norte, no século XVIII,
desponta Macapá, a capital do
estado do Amapá. Os primeiros habitantes do Estado foram os casais de
açorianos que, no século XVIII, enfrentaram uma arriscada viagem
pela selva para chegar à "Costa de Macapá", nome que na
época identificava o canal norte do Rio Amazonas. Essas famílias
ocuparam as terras amapaenses no ano de 1751, depois de fugirem da guerra entre
cristãos e mulçumanos. Além do mais, havia o interesse de
Portugal na região como mais um ponto de colonização. A fundação de Macapá
se prende à defesa e à fortificação das fronteiras
do Brasil Colônia, quando ali foi estabelecido um destacamento militar,
criado em 1738. Posteriormente, na praça São Sebastião em
1758 era levantado o pelourinho e fundada a Vila de São José de
Macapá. A partir de então, foram surgindo
edificações, até hoje preservadas, que constituem em
verdadeiro patrimônio cultural, como a Fortaleza de São
José de Macapá. Macapá é a única capital da
região Norte banhada pelo rio Amazonas.
A cidade de Belo Horizonte, por
sua vez, se originou de um pequeno arraial chamado Curral del Rei, fundado por João
Leite da Silva Ortiz, famoso bandeirante e guarda-mor das Minas de Goiás.
Era irmão do também célebre Bartolomeu Pais de Abreu que achou o clima da região
agradável, e ali se estabeleceu com a Fazenda do Cercado. No local, nas
fraldas da Serra do Curral, em 1750, por ordem da Coroa, foi
criado o distrito de Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral del-Rei,
então sede da freguesia do mesmo nome, instituída de fato em
1718, em torno de capela ali construída por Francisco Homem del-Rei. A
freguesia foi oficializada em 1748. No final do século XIX, a então capital de Minas Gerais, a cidade de Ouro
Preto, apresentava dificuldades em termos de expansão urbana, devido
à sua localização. Isso gerou a necessidade da
transferência da capital para outra localidade. O território foi
desmembrado de Sabará e
inicialmente a localiddae foi denominada Cidade de Minas. A capital do Estado
foi oficialmente transferida em 1897, durante o governo de Crispim Jacques Bias Fortes,
já com o nome de Belo Horizonte.
Já o povoamento da Ilha de Santa Catarina tem
início por volta de 1765, com a chegada do bandeirante Francisco Dias
Velho com sua família e agregados que funda a localidade de Nossa
Senhora do Desterro (atual
Florianópolis). Intensifica-se o fluxo de paulistas e vicentistas na
região e, em 1726, Nossa Senhora do Desterro é elevada à
categoria de vila e desmembrada do municio de Laguna. No século XIX
tornou-se capital da província de Santa Catarina (1823). A população da cidade é
majoritariamente de origem portuguesa, com destaque para os colonos
açorianos que colonizaram a região em meados do século
XVIII.
O século XIX, por sua vez, documenta o
surgimento de 06 capitais brasileiras, distribuídas nas regiões
Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul. No Norte nascem Rio Branco e Boa Vista,
decorrentes de movimentos econômicos que marcaram a região nesse
século. A primeira foi fruto da atividade extrativista, uma vez que teve
como primeiro núcleo populacional o Seringal Volta da Estrela, situado à margem direita do rio Acre. Além disso,
foi um dos primeiros povoados a surgir nas margens do rio Acre. Conta a
história que, em fins de 1882, numa pronunciada volta do rio Acre, uma
frondosa árvore, a Gameleira, chamou a atenção de
exploradores que subiam o rio e levou-os a abrir novos seringais ali mesmo.
Já a criação de Boa Vista foi motivada pela
pecuária. O municipío de Boa Vista formou o primeiro povoamento
caracteristicamente urbano da região do atual estado de Roraima. O Forte
São Joaquim, localizado a 32 quilômetros da capital, fundado em
1775, deu considerável importância à região. A
capital foi fundada em 1830 pelo capitão Inácio Lopes de
Magalhães e originou-se de uma das inúmeras fazendas de gado
situadas ao longo dos rios que compõem a bacia do rio Branco pertencente
à então Província São José do Rio Negro,
atual Amazônia. É a única capital brasileira localizada totalmente ao norte da linha do Equador, na fronteira com a Venezuela. Foi elevada à
categoria de vila em 1858 com o nome de freguesia de Nossa Senhora do Carmo
do Rio Branco e erigida à
sede do município em 1890, com o nome de Boa Vista do Rio Branco. Em 1944, tornou-se a capital do recém-criado
Território Federal do Rio Branco (1943). Em 1962 houve a mudança
do território para Roraima e em 1988 foi criado o estado de Roraima,
tendo Boa Vista como capital.
Teresina foi a única capital do Nordeste despontada no
século XIX. Trata-se da única capital nordestina que não
se localiza no litoral. A origem da cidade está ligada ao rio Poti, que
deu nome à Vila Nova do Poti, depois denominada Teresina em homenagem
à Imperatriz Teresa Cristina. Em 1832 o povoado atingiu a categoria de
vila e distrito, em 1842 surge a Vila Nova do Poti e em 1852 foi elevada
à categoria de cidade e de capital, com a denominação
Teresina, quando a sede administrativa da Província do Piauí foi
transferida da cidade de Oeiras para a atual capital, Teresina.
Já Campo
Grande, capital da região Centro-Oeste, nasce com o nome de Arraial
de Santo Antônio de Campo Grande, em 1877, por obra do mineiro
José Antônio Pereira, e o distrito foi criado em 1889. Em 1977 foi
sancionada a lei que criava o Estado de Mato Grosso do Sul e elevava Campo
Grande à condição capital do estado recém-criado. A
capital adquiriu nova feição, passando a apresentar um novo ciclo
de progresso, assinalado por maiores estímulos à sua
expansão urbana, social, cultural e política.
A fundação de Goiânia, por sua vez, decorreu da necessidade de
mudança da capital do Estado com vistas a melhor localizá-la, de
acordo com os interesses econômicos e sociais de todos os
municípios goianos. A primeira capital goiana, Vila Boa, tinha sido escolhida, quando a Província era
aurífera. Posteriormente, ficou demonstrado que a criação
do gado e a agricultura passaram a ser fatores preponderantes no
desenvolvimento do território. Assim, em 1932, foi nomeada uma
comissão que, sob a presidência de Dom Emanuel Gomes de Oliveira,
então bispo de Goiás, tinha a incumbência de escolher o
local onde seria edificada a nova Capital do Estado, sendo escolhida a
localidade de Campinas, núcleo populacional existente desde as primeiras
décadas do século XIX, como Arraial de Campinas. Em 1853 foi
elevado à categoria de Freguesia e em 1914 a município, status que perdeu em 1935 em
razão da sua incorporação ao município de
Goiânia. Somente em 1937 ocorre a transferência definitiva da
capital estadual de Vila Boa, atual Cidade de Goiás, para a de
Goiânia.
Fechando o ciclo de capitais criadas no século
XIX surge Porto Alegre, capital localizada às margens do rio
Guaíba, na região Sul do Brasil. Três sesmarias foram
marcos históricos da colonização da região, dentre
elas, a de Jerônimo de Ornelas, cuja carta de doação fora
recebida em 1740. Esse ato representou ponto inicial da capital gaúcha,
sendo Ornelas iniciador do seu povoamento, já que às margens do
rio Guaíba, desde 1732, na fazenda de criação de gado e
pouso de Ornelas havia surgido um pequeno ancoradouro utilizado por
embarcações que atendiam a recém-fundada
povoação da Capela Grande do Viamão, razão por que
ficou conhecido como Porto de Viamão. Em 1772 foi criada a freguesia do
Porto dos Casais, anexando Viamão à nova freguesia. O povoado foi
elevado à categoria de vila, em 1808, que ganhou foros de cidade em
1822, quando a vila de Porto Alegre atingiu o status de cidade e de capital da Província de São
Pedro do Rio Grande do Sul, com a denominação de Cidade de Porto
Alegre. Exerceu importante papel na formação da nova capital a
chegada de 60 casais açorianos, com cerca de 300 pessoas, em 1752. Essa
leva de migrantes se instalou nas imediações do Porto de
Viamão, que passou a ser conhecido pelo nome de Porto dos Casais. Em
meados do mesmo ano nova leva de casais açorianos ancora no Porto de
Viamão que, juntando-se aos que ali haviam chegado no mês de
janeiro do mesmo ano, dão especial impulso ao povoamento da capital
gaúcha.
O século XX, por seu turno, é
contemplado com o surgimento de apenas 03 capitais: Porto Velho e Palmas na
região Norte e Brasília no Centro-Oeste[7].
A capital Porto Velho está cravada numa
região que durante séculos foi uma das mais isoladas e
desconhecidas do território brasileiro, ligada ao restante do
país por meio dos grandes rios. Duas
estradas: a Estrada de Ferro Madeira Mamoré, construída no
início do século XIX, e a rodovia BR-29 (atual BR-364), nas
décadas de 60 e 70 do mesmo século romperam esse isolamento. Assim,
a cidade de Porto Velho foi criada a partir das
instalações portuárias, ferroviárias e residenciais
da Madeira-Mamoré, em 1914. Nos seus
primeiros 60 anos, o desenvolvimento da cidade esteve ligado às
operações da ferrovia e enquanto a borracha apresentou valor
comercial significativo, houve crescimento e progresso. Nos períodos de
desvalorização da borracha, devido às
condições do comércio internacional e à
inoperância empresarial e governamental, a capital viveu momento de
estagnação e pobreza. Em 1919 a povoação da comarca
de Porto Velho é elevada à categoria de cidade; em 1943 assume o
estatuto de capital do recém-criado Território Federal do
Guaporé. Em 1956 o território do Guaporé passa a ser
designado de Território Federal de Rondônia que é
transformado em Estado em 1982, tendo Porto Velho como capital.
Essas digressões históricas acerca da
história social das capitais brasileiras que integram a rede de pontos
do Projeto ALiB dão mostras da dinâmica que motivou a
criação das capitais, movida pela política de governo
instaurada nas diferentes fases da história do Brasil. Na
seqüência são tecidas considerações acerca da
nomenclatura geográfica dessas capitais.
3. Os nomes das capitais brasileiras
- algumas tendências
Examinando agora os nomes das capitais brasileiras,
sob a perspectiva da natureza lingüística dos seus designativos,
procuramos verificar em que proporção a nomenclatura
geográfica dessas capitais reflete o pensamento dominante no Brasil
Colônia e traduz tendências da toponímia do Brasil ainda
hoje manifestas no sistema onomástico brasileiro. Nesse particular
não podemos desconsiderar o papel e a força da igreja
católica no período colonial. A forte influência das
missões jesuíticas no pensamento do homem da época
reflete-se na nomenclatura geográfica que registra uma significativa
produtividade de nomes oriundos do hagiolório católico.
Observemos os dados. Originalmente 15 capitais têm nome de base
religiosa, predominando os formativos Nossa
Senhora e Maria (07 capitais): Santa
Maria do Grão Pará > Santa Maria de Belém do
Grão Pará > Belém; Freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Rio
Branco > Boa Vista do Rio Branco > Boa Vista; Fortaleza de
Nossa Senhora da Assunção > Fortaleza; Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba > Curitiba;
Nossa Senhora do Desterro > Florianópolis; Porto dos Casais >
Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre > Porto Alegre e Nossa Senhora
das Neves > João Pessoa.
Na seqüência, registra-se a presença
de nomes geográficos que homenageiam santos perenes do catolicismo: São José: Forte de São José
do Rio Negro > Manaus; Vila de São José de Macapá > Macapá e São José de Ribamar do Aquiraz >
Fortaleza; Santo Antônio:
Arraial de Santo Antônio de Campo Grande e Santo Antônio do Aracaju
> Aracaju; São Paulo:
São Paulo de Piratininga; São
Sebastião: São Sebastião do Rio de Janeiro. O Senhor Bom Jesus também se faz
representar na toponímia colonial: Vila Real do Senhor Bom Jesus de
Cuiabá > Cuiabá. Elementos ligados ao divino,
hierotopônimos (topônimos relativos aos nomes sagrados de
diferentes crenças)[8], também se fazem representar nos nomes
originais das capitais: Natal e Belém.
Na atualidade outro quadro se afigura, uma vez que em
sua grande maioria os nomes de natureza religiosa foram substituídos
e/ou omitidos para darem lugar a nomes de outras categorias. Considerando o
panorama atual da macrotoponímia das capitais brasileiras, constatamos
as seguintes características, em termos da natureza dos designativos dos
nomes geográficos: a) nomes que remetem a sentimento religioso:
São Paulo, Salvador, Belém e Natal; b) nomes descritivos do ambiente físico da flora brasileira - Curitiba, Campo Grande, Cuiabá,
Macapá; da fauna - Aracaju; de
correntes hídricas:
Maceió, Rio de Janeiro, de formações
rochosas: Recife. Além disso,
há uma significativa produtividade de nomes que homenageiam vultos históricos: João Pessoa,
Rio Branco, Teresina, São Luís, Florianópolis; nomes que
traduzem estados anímicos
eufóricos do denominador frente ao referente nomeado: Boa Vista,
Vitória, Belo Horizonte; nomes que
remetem a grupos étnicos:
Goiânia e Manaus, e, nomes indicativos de locais de trabalho e pontos de encontro dos membros de uma comunidade:
Porto Alegre e Porto Velho.
Olhando agora para esses nomes geográficos sob
a perspectiva da base lingüística dos elementos formativos que lhe
deu origem, constamos que 25,9% são de base indígena e 74,1% de
base portuguesa, o que reflete a tendência geral do léxico do
português do Brasil que incorporou um significativo acervo de palavras de
base indígena.
Considerações finais
Este trabalho procurou focalizar a história
social relacionada às capitais brasileiras que integram a rede de pontos
do Projeto ALiB, sua importância no conjunto do processo de povoamento e
desenvolvimento do Brasil e a natureza da nomenclatura geográfica dessas
capitais. Pelo que foi possível discutir no âmbito do
espaço deste trabalho, pôde-se perceber algumas faces do processo
de povoamento do Brasil e a sua conseqüente influência no surgimento
das capitais. Já à guisa de conclusão vale acrescentar as várias
levas de migrações internas que operaram no Brasil no
século XX, na décadas de 1950-1970; 1970-1990; 1990 e 2000 que
provocaram um fluxo migratório intenso, sobretudo de nordestinos para o
Sudeste, Centro-Oeste e Norte, de paulistas e sulistas para o Centro-Oeste e
Norte e mais recentemente o retorno de nordestinos de São Paulo para a
sua terra de origem (SIMIELLI, 2006).
As características iniciais do povoamento do
Brasil somadas às migrações internas tão
características no território brasileiro determinam modos
singulares de cultura que se refletem na norma lingüística dos
brasileiros que habitam os 26 estados da Federação, cada um com
formas próprias de ver o mundo e de representá-lo por meio da
linguagem. É justamente essa realidade lingüística
tão peculiar ao português do Brasil que, apesar da sua
heterogeneidade garante a comunicação entre os habitantes das
diferentes regiões, que o projeto ALiB está documentando.
Referências
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ALiB. Atlas Lingüístico do
Brasil: Questionários 2001. Londrina: EDUEL, 2001.
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PAINEL OS CAMINHOS DO ALiB
UM PASSEIO HISTÓRICO PELOS
CAMINHOS DA GEOLINGÜÍSTICA NO BRASIL
Maria do Socorro Silva de Aragão
(Universidade Federal da Paraíba, UGC)
INTRODUÇÃO
O Brasil não tinha, a
exemplo de países da Europa, grande tradição em estudos
dialetais, de modo geral, e de geografia lingüística, em
particular.
Porém, nos últimos
vinte anos, a Dialetologia e a Geolingüística no Brasil, apesar das
dificuldades pelas quais têm passado, especialmente com a pouca
quantidade de pessoal qualificado dedicado a estes estudos, da falta de
interesse das instituições e da conseqüente falta de
recursos, continua a se expandir, não só quantitativamente, mas
qualitativamente, incluindo em seus estudos, além dos aspectos
diatópicos, os aspectos diastráticos e diafásicos.
Outro fato a ressaltar é
o surgimento de grande interesse pelos estudos dialetais e, como
conseqüência, muitos trabalhos, em forma de teses,
dissertações, monografias, conferências e
comunicações em seminários e congressos de
lingüística têm sido publicados, numa
confirmação desse interesse.
A situação atual
dos estudos de Dialetologia e de Geografia Lingüística em nosso
país, de modo geral, ainda não pode ser considerada ideal, mas
já conseguimos alguns resultados e suas perspectivas futuras podem vir a
ser as melhores possíveis.
Como resultado dessas pesquisas
o Brasil já possui, até o momento, dezenove Atlas
Lingüísticos concluídos, dos quais nove publicados. Os Atlas
Lingüísticos estaduais brasileiros publicados são: o Atlas Prévio
dos Falares Baianos (1963), o Esboço de um Atlas Lingüístico
de Minas Gerais (1977), o Atlas Lingüístico da Paraíba
(1984), o Atlas Lingüístico de Sergipe (1987), o Atlas
Lingüístico do Paraná (1994), o Atlas
Lingüístico de Sergipe II (2002), o Atlas Lingüístico
Sonoro do Estado do Pará (2004) e o Atlas Lingüístico do
Mato Grosso do Sul (2007). O Atlas Lingüístico Etnográfico
da Região Sul (2002), é o único Atlas Regional brasileiro.
Os últimos Atlas
elaborados, mas ainda não publicados, são o Atlas
Lingüístico do Ceará, o Atlas Lingüístico do
Amazonas, tese defendida na UFRJ em 2004, o Atlas Fonético do Entorno da
Baia da Guanabara, dissertação defendida na UFRJ em 2006, o Atlas
Geolingüístico do Litoral Potiguar, tese defendida na UFRJ em 2007,
o Atlas Lingüístico do Paraná II, tese defendida na UEL em
2004, o Atlas Lingüístico Rural do Município de
Ponta-Porã - Mato Grosso do Sul, dissertação defendida na
UFMS em 2006, o Atlas Lingüístico da Ilha de São Francisco
do Sul - SC, tese defendida na UEL em 2008, o Atlas Lingüístico da
Ilha de Marajó, dissertação defendida na UFPA, [s.d.],
Atlas Lingüístico de Adrianópolis-PR, dissertação
defendida na UEL, [s.d.] e o Atlas Lingüístico de Ortigueira - PR,
dissertação defendida na UEL, [s.d.].
Outros tantos Atlas estaduais
encontram-se em fase avançada ou inicial de elaboração,
como o Atlas Lingüístico Sonoro do Estado do Rio de Janeiro, O
Atlas Lingüístico de São Paulo, o Atlas Lingüístico
do Acre, o Atlas Lingüístico do Mato Grosso, o Atlas
Lingüístico do Espírito Santo, o Atlas
Geo-Sociolingüístico do Pará, o Atlas
Lingüístico do Maranhão, o Atlas Lingüístico do
Rio Grande do Norte e o Atlas Lingüístico do Piauí.
Outros Atlas em
elaboração como teses ou dissertações são o
Micro Atlas Fonético do Estado do Rio de Janeiro, em
preparação como tese, na UFRJ; o Atlas Lingüístico do
Oeste Potiguar, em realização como tese, na UFC; o Atlas
Lingüístico do Iguatu-CE, como dissertação, na UFC, o
Atlas Lingüístico da Mata Sul de Pernambuco como
dissertação, na UFPB, o Atlas Lingüístico do Oeste
Paulista como dissertação na UEL, e o Esboço de um Atlas Lingüístico
de Mato Grosso: um registro da língua falada na mesorregião
Sudeste, como dissertação, na UFMS.
Assim, apesar dos pesares, o
sonho de Antenor Nascente e Serafim da Silva Neto vai aos poucos sendo
realizado, prevendo-se sua completa realização com o Atlas
Lingüístico do Brasil, em fase inicial de elaboração.
1.
RETROSPECTIVA
Os estudos
dialetológicos, em sentido amplo, e a Geografia Lingüística,
em particular, não têm ainda tradição muito firmada
no Brasil.
Apesar do esforço de um
grupo de pioneiros, como os professores Serafim da Silva Neto, Antenor
Nascentes e Cândido Jucá Filho inicialmente e, posteriormente, dos
professores Sílvio Elia, Celso Ferreira da Cunha, Nelson Rossi e Heinrich
Bunse, poucos são os cursos de Dialetologia e Geografia
Lingüística em nossas universidades.
Como resultado dos cursos
ministrados e da pregação do prof. Silva Neto, o Centro de
Pesquisas da Casa de Rui Barbosa, através de sua Comissão de
Filologia, propôs como um de seus objetivos a elaboração do
Atlas Lingüístico do Brasil. Para a consecução desse
objetivo, e a convite da Casa de Rui Barbosa, esteve no Rio, em 1954, o
Professor Sever Pop, que ministrou um curso, a partir do qual se esperava que
surgissem pessoas interessadas em desenvolver pesquisas dialetológicas,
o que não ocorreu.
O professor Antenor Nascentes,
outro dos precursores da Geografia Lingüística no Brasil, publicou
as “Bases para Elaboração do Atlas Lingüístico
do Brasil”, em duas partes. A primeira, em 1958 e a segunda, em 1961.
Nesses trabalhos, o autor apresenta diretrizes gerais para a escolha de localidades, de informantes e para a
elaboração do questionário lingüístico, e
propõe, muito claramente, a elaboração de atlas regionais.
Em 1957, os professores Serafim
da Silva Neto e Celso Ferreira da Cunha, no III Colóquio Internacional
de Estudos Luso-Brasileiros, em Lisboa, apresentaram a idéia de um Atlas
Lingüístico-Etnográfico do Brasil, por regiões,
tarefa que agora começa a ser cumprida, com a pesquisa do Atlas
Lingüístico do Brasil - AliB.
Por não termos, em nosso país, dados
técnicos confiáveis definindo as características da
língua portuguesa falada em todo o território nacional, a
realização do Atlas Lingüístico do Brasil é
tarefa importante e urgente.
Os estudos dialetais realizados no passado,
analisando, principalmente, as diferenças lexicais, e os estudos de
natureza monográfica, abrangendo uma determinada área, a exemplo
dos trabalhos de Amadeu Amaral, Antenor Nascentes e Mário Marroquim,
entre outros, têm o caráter introdutório ou
exploratório das características específicas dessas
áreas e regiões estudadas. Apesar da importância desses
trabalhos, eles não abrangem todas as áreas dialetais do
país sendo necessária, assim, uma descrição mais
ampla e sistemática, cobrindo todo o território nacional, a fim
de que se tenha uma visão de conjunto da realidade
lingüística do País.
Mário Marroquim, em seu trabalho, já
dizia que o estudo do dialeto brasileiro ainda não tinha sido feito,
afirmação que nos parece, em pleno século vinte e um,
estar perfeitamente atualizada. Diz ele:
Não está ainda feito o estudo do dialeto
brasileiro. A enorme extensão geográfica em que o português
é falado no Brasil dá a cada região peculiaridade e
modismos desconhecidos nas outras, e exige, antes da obra integral que fixe e
defina nossa diferenciação dialetal, trabalhos parcelados, feitos
com critério e honestidade, sobre cada zona do país.[9]
Portanto, o primeiro movimento para a
elaboração de um atlas lingüístico do Brasil
começou com trabalhos monográficos isolados tendo se iniciado
oficialmente em 1952, quando, através do Decreto no. 30.643,
Art. 3o. de 20 de março, determina-se como principal
finalidade da Comissão de Filologia da Casa de Rui Barbosa a elaboração do atlas
lingüístico do Brasil. O Decreto foi regulamentado pela
Portaria nº. 536, de 26 de maio do mesmo ano, a qual dá
instruções quanto à execução do decreto de
criação do Centro de Pesquisas Casa de Rui Barbosa e estabelece
como finalidade principal, entre as pesquisas a serem planejadas, a
própria elaboração do atlas lingüístico do
Brasil.[10]
A esse respeito diz Cardoso, em sua justificativa ao
Projeto Atlas Lingüístico do Brasil, que, a partir dessas
dificuldades é possível, tendo-se conhecimento delas, partirmos
para a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil na
atualidade, seguindo as prioridades das tarefas urgentes já apontadas
por Serafim da Silva Neto.
Silva Neto diz ainda que o atlas nacional deve ser precedido de atlas regionais e de estudos
monográficos, além das sondagens
preliminares, comentando logo a
seguir (1957: 11- 12) que “A ele [isto é, ao atlas nacional]
havemos de chegar, mas temos de partir do começo, se o quisermos
realizar com segurança”. O
autor define como passos iniciais e fundamentais para a
realização do Atlas Nacional: estudos preliminares que devem
envolver não só sondagens experimentais, com a
aplicação de questionários, como também estudos de
natureza sócio-econômico-histórica sobre a região a
ser abordada; a elaboração de trabalhos de cunho
monográfico, explorando, assim, aspectos da realidade que será
amplamente investigada; e finalmente os atlas regionais que deverão
conduzir ao atlas nacional.
2. OS ATLAS LINGÜÍSTICOS
REGIONAIS BRASILEIROS
2.1. ATLAS
PUBLICADOS
2.1.1. Atlas
Prévio dos Falares Baianos
O Atlas Prévio dos
Falares Baianos se constitui em um marco nos estudos da Geografia
Lingüística no Brasil não só por ter sido o primeiro
trabalho a ser publicado, mas por sua fundamental importância para o
conhecimento do falar regional da Bahia e, por extensão, de grande parte
do falar nordestino.
Publicado em 1963, constitui-se
de dois volumes: o primeiro, compreendendo as cartas, em folhas soltas, e o
segundo, encadernado, com a introdução, questionário
comentado e elenco das respostas transcritas.
A metodologia está assim
organizada: 50 localidades, cobrindo todo o estado da Bahia; 99 informantes de
faixa etária entre 25 a 84 anos; nível de instrução
de analfabeto a semi-alfabetizados; sexo masculino e feminino. O
Questionário contém 164 questões nos Campos
Semânticos: agricultura, pecuária, anatomia e fisiologia humana,
culinária e alimentação, geografia e astronomia. As cartas
são em número de 209, compreendendo 11 de
identificação, 154 fonéticas e léxicas e 44 cartas
resumo. Os termos vêm transcritos no interior da própria carta ou
com legendas e símbolos, em preto e branco e coloridos. Algumas cartas
apresentam dados etnográficos, inclusive com ilustrações.
Na parte inferior esquerda das cartas há comentários informativos
sobre a aplicação do questionário.
2.1.2. Esboço de um Atlas
Lingüístico de Minas Gerais
O segundo Atlas
Lingüístico publicado no Brasil é o de Minas Gerais,
resultado do trabalho de um grupo de professores do Departamento de Letras da
Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais: José Ribeiro,
Mário Roberto Lobuglio Zágari, José Passini e Antonio
Pereira Gaio.
A metodologia para a
realização do ALMG foi a seguinte: 116 localidades, cobrindo todo
o estado de Minas Gerais; 83 informantes de faixa etária entre 30 e 50
anos; de nível de instrução entre analfabeto a primário
completo; sexo: masculino e feminino. O questionário constou de 415
questões, abrangendo os campos semânticos a terra e folguedos
infantis. As cartas, em número de 78, são 05 de
identificação, 21 léxicas, 24 fonéticas, 03
isófonas e 25 cartas isoléxicas. Os termos vêm com
símbolos e legendas. Na parte extrema esquerda das cartas constam os
vocábulos de freqüência mínima e na direita, os
vocábulos de alta freqüência, ficando no interior do mapa
apenas os símbolos, círculos e triângulos cheios e vazios.
2.1.3. Atlas Lingüístico da
Paraíba
O terceiro Atlas
Lingüístico publicado no Brasil é o da Paraíba,
resultado do trabalho de uma equipe de professores do Departamento de Letras
Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal da Paraíba,
sob a coordenação das Profas. Maria do Socorro Silva de
Aragão e Cleusa Palmeira Bezerra de Menezes. O Atlas compreende
três volumes, dos quais dois já publicados.
A pesquisa se estruturou do
seguinte modo: 25 municípios base e 75 municípios
satélite, cobrindo todo o Estado; 107 informantes da faixa etária
entre 30 a 75 anos; com nível de instrução entre
analfabeto a primário completo; sexo: masculino e feminino. O
Questionário, com 877 questões, dividido em geral e
específico. O questionário geral tem os campos semânticos:
a terra, o homem, a família, habitação e utensílios
domésticos, aves e animais, plantação e atividades
sociais; o questionário específico: mandioca,
cana-de-açúcar, agave, algodão e abacaxi.
O primeiro volume do Atlas
é composto de cartas léxicas e cartas fonéticas,
intercaladas. Assim, por exemplo, a carta léxica nº. 030 da
pergunta 29, arco-íris,
é seguida pelas cartas fonéticas nºs. 031, 032 e 033,
correspondentes às variantes fonéticas de arco-íris, arco-celeste
e olho-de-boi.
O segundo volume traz uma
descrição detalhada da metodologia utilizada, os dados
histórico-geográficos, geo-econômicos e
sócio-culturais das localidades, a ficha dos informantes, os informantes
por localidade, e a análise das formas e estruturas
lingüísticas encontradas sob os aspectos
fonético-fonológicos e morfossintáticos.
O Atlas apresenta, ainda, um
glossário, com 363 verbetes dicionarizados em sentido diferente do uso
geral ou não dicionarizados.
2.1.4. Atlas Lingüístico de Sergipe
O Atlas
Lingüístico de Sergipe foi elaborado pelos pesquisadores
Carlota Ferreira, Jacyra Mota, Judith Freitas, Nadja Andrade, Nelson Rossi,
Suzana Cardoso e Vera Rollemberg, alguns dos quais fizeram parte da equipe
responsável pelo Atlas Prévio dos Falares Baianos. O
material, pronto desde 1973, por uma série de problemas, inclusive
financeiros, somente foi publicado em 1987.
A pesquisa foi assim
estruturada: 15 localidades, cobrindo todo o Estado; 30 informantes; faixa
etária: 25 a 65 anos; nível de instrução:
analfabetos e semi-analfabetos; sexo: masculino e feminino. O
questionário contém 700 questões; campos semânticos:
terra, homem, animais, vegetais.
Foram elaboradas 180 cartas,
sendo 11 introdutórias e 169 cartas léxicas com
transcrição pormenorizada e numerosos dados etnográficos,
tendo em vista a quantidade de notas que acompanham as cartas. Em cada carta há
a remissão à carta correspondente no Atlas Prévio dos
Falares Baianos. Há no ALS,
ainda, uma série de cartas conjuntas Bahia-Sergipe, com dados da Bahia,
não apresentados no APFB.
2.1.5. Atlas
Lingüístico do Paraná
O Atlas
Lingüístico do Paraná é um trabalho da Professora
Vanderci de Andrade Aguilera, da Universidade Estadual de Londrina,
Paraná, apresentado inicialmente como Tese de Doutorado e posteriormente
publicado pelo Governo do Paraná e Universidade Estadual de Londrina.
Compreende dois volumes: um com a Apresentação e o outro com as
Cartas.
A pesquisa foi estruturada do
seguinte modo: 65 localidades, cobrindo todo o Estado; 130 informantes; faixa
etária: 25 a 65 anos; nível de instrução:
analfabeto e primário completo; sexo: masculino e feminino. O questionário
com 325 questões nos Campos semânticos: I - Terra - a) natureza,
fenômenos atmosféricos, astros, tempo; b) flora: árvores,
frutos; c) plantas medicinais; d) fauna. II - Homem - a) partes do corpo,
funções, doenças; b) vestuário e calçados;
c) agricultura, instrumentos agrícolas; d) brinquedos e jogos infantis;
e) lendas e superstições.
O Atlas contém os
seguintes tipos de cartas: cartas de identificação - 06; cartas
léxicas - 92; cartas fonéticas - 70; cartas isoléxicas -
19; cartas isófonas - 10; cartas anexas com a distribuição
geográfica do povoamento do Paraná, do século XVII a XX -
06. No verso de cada carta há notas explicativas e de análise do
material coletado.
2.1.6. Atlas
Lingüístico-Etnográfico da Região Sul do Brasil -
ALERS
O Atlas Lingüístico-Etnográfico da Região Sul,
resultado de um projeto coordenado pelo Professor Walter Koch, envolve os
três Estados do Sul do país: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e
Paraná e foi realizado com equipes locais em cada Estado. Foi iniciado em 1980 e teve seus dois primeiros volumes
publicados em 2002. O volume 1 compreende a Introdução e o volume
2 contém as Cartas Fonéticas e Morfossintáticas.
A pesquisa foi assim
estruturada: Localidades: área rural - 275 pontos: 100 no Paraná,
80 em Santa Catarina e 95 no Rio Grande do Sul; área urbana - 19 pontos:
6 no Paraná, 6 em Santa Catarina e 7 no Rio Grande do Sul. Informantes:
dois por cada ponto das zonas rurais e seis por cada ponto das zonas urbanas;
sexo: masculino e feminino; faixa etária: 28 a 58 anos; graus de
escolaridade: analfabetos ou com até a 4ª série do
Fundamental.
O Questionário: 735
questões de caráter geral, subdivididas em mil itens, das quais algumas coincidem com os outros atlas já publicados, complementadas por questionário
específico em cada estado; O questionário Semântico
Lexical contém oitocentas questões, cobrindo os campos
semânticos: acidentes geográficos, fenômenos
atmosféricos, astros e tempo, sistema de pesos e medidas, flora,
atividades agro-pastoris, fauna, corpo humano, cultura e convívio,
ciclos da vida, religião e crenças, festas e divertimentos,
habitação, alimentação e cozinha, vestuário;
O questionário Morfossintático, com 75 perguntas, inclui
gênero, pluralização, flexão verbal,
concordância nominal e verbal, grau de adjetivo e formas de tratamento; O
Fonético - Fonológico conta com 26 questões de
caráter geral e 24 específicas para as regiões de
colonização não portuguesa.
O Atlas contém um total de 176 cartas, sendo 70
de fonética e fonologia, 104 de morfossintaxe e duas cartas auxiliares
(microrregiões homogêneas e rede de pontos). Após cada
conjunto de cartas vêm apêndices de itens sem carta, com o item, o
número de ordem, o símbolo, a variante, a freqüência e
o ponto onde ocorreu.
2.1.7. Atlas
Lingüístico de Sergipe II
O Atlas Lingüístico
de Sergipe II foi elaborado, inicialmente, como tese da Professora Suzana Alice
Cardoso, defendida no final de 2002, na Universidade Federal do Rio de Janeiro,
e publicado pela UFBA.
A pesquisa foi assim
estruturada: 15 localidades, cobrindo todo o Estado de Sergipe. As localidades
são as mesmas do Atlas Lingüístico de Sergipe I com um
recorte para o campo semântico homem. 30 informantes; faixa
etária: 25 a 65 anos; nível de instrução:
analfabetos e semi-analfabetos; sexo: masculino e feminino. O
Questionário Semântico-Lexical contém 700 questões.
Campos semânticos: terra, homem, animais, vegetais.
O Atlas compõe-se de dois
volumes, com três tomos e um CD, com amostras dos questionários
aplicados a 15 informantes. O Volume I contém uma
introdução, o tema numa perspectiva histórica, uma
fundamentação teórica, a metodologia e uma bibliografia. O
Volume II contém dois tomos, sendo o primeiro dedicado à
introdução das cartas, com os inquéritos, o
questionário da área semântica homem, os
critérios de apresentação das cartas, referências
bibliográficas, índice de formas transcritas e índice
onomasiológico. O segundo tomo do Volume II é dedicado às
cartas, em número de 108, das quais, três são de
identificação. As cartas semântico-lexicais são
compostas com legendas coloridas e marcas diferenciadoras da
realização masculina e feminina. Na parte inferior direita
há histogramas com percentuais de ocorrência masculina e feminina.
No verso estão as variantes fonéticas dos itens lexicais,
seguidas de notas e comentários.
2.1.8. Atlas Geo-Sociolingüístico do
Pará - ALISPA
Este Atlas é o resultado
de um projeto do Professor Abdelhak Razky, da Universidade Federal do
Pará, e parte do Atlas Geo-Sociolingüístico do Pará,
que se encontra em fase avançada de realização.
A pesquisa foi assim
estruturada: 10 localidades pertencentes às seis Mesorregiões do
Estado do Pará; 40 informantes; faixas etárias: 18 a 30 e 40 a 70
anos; nível de instrução: até a 4ª série
do primeiro grau; sexo: masculino e feminino. O Questionário
Fonético- Fonológico contém 157 questões. O mesmo
questionário do Projeto ALiB, com adaptações.
O Atlas é o primeiro Atlas sonoro do Brasil e
utiliza o software PRAAT 4.0, de Paul
Boresma e Paul Wenink.
Contém 600 cartas lingüísticas e o
Menu apresenta os seguintes itens: a) Entrevistas; b) Informantes; c)
Realização; d) Análise Acústica; e) Palavras.
Através desses itens pode-se buscar as cartas por localidades, por
informantes, por faixas etárias, por sexo, podendo-se ouvir as
realizações fonéticas produzidas pelos informantes, para
cada item do questionário, além da possibilidade de uma busca
automática da variação fonética, em certos
contextos, e sua relação com os fatores
sociolingüísticos. Pode-se, também, ouvir as entrevistas
integrais dos 40 informantes.
2.1.9. Atlas Lingüístico
do Mato Grosso do Sul
Este Atlas foi elaborado sob a
organização do Prof. Dr. Derci Pedro Oliveira, da Universidade
Federal do Mato Grosso do Sul. Está assim organizado:
A Rede de Pontos é constituída por
32 localidades, distribuídas por cinco setores, cujos municípios
principais são Três Lagoas, Corumbá, Aquidauana, Campo
Grande e Dourados. A escolha das localidades teve por base aspectos
demográficos, históricos e sociais do Estado.
Os informantes são em número de 128,
sendo sessenta e quatro homens e sessenta e quatro mulheres, nas faixas
etárias de 18 a 30 e 45 a 70 anos, homens e mulheres, com grau de
instrução analfabetos ou até a 4ª série do
Fundamental
O questionário
contém 557 perguntas, subdivididas entre o questionário
fonético e léxico-semântico. O aspecto morfossintático foi estudado a partir das narrativas
feitas pelos informantes, sobre fatos que tenham marcado suas vidas. Os campos
semânticos das questões são: acidentes geográficos;
fenômenos atmosféricos; tempo; flora; fauna; corpo humano;
doenças mais comuns; funções do corpo humano;
características físicas; ciclos da vida; religiões e
crenças; vestuários e objetos de uso pessoal; brinquedos e diversões;
sistema de pesos e medidas superstições, simpatias e lendas.
As cartas lingüísticas foram elaboradas
por meio do programa computacional SPDGL (Sistema de Processamento de Dados
Geolingüísticos), e, posteriormente, editadas em programa de
computação gráfica. As cartas são do tipo: Cartas
Fonéticas; Cartas Semântico-lexicais; Cartas
Morfossintáticas.
2.2. ATLAS CONCLUÍDOS
2.2.1. Atlas
Lingüístico do Amazonas
O Atlas Lingüístico
do Amazonas é resultado da tese de Maria
Luíza de Carvalho Cruz, defendida em 2004, na UFRJ, estando ainda
inédito.
A pesquisa foi assim
estruturada: 09 localidades, cobrindo todo o Estado e distribuídas pelas diferentes microrregiões do Estado. 54 informantes; faixa etária: 18 a 35;
36 a 55; mais de 56 anos; nível de instrução:
alfabetizados, com no máximo, a 4ª série do Fundamental;
sexo: masculino e feminino. O questionário, com 329 questões.
Campos semânticos: A natureza, o Homem.
O Atlas está organizado
em dois volumes. No primeiro, estão a Apresentação, Introdução e Fundamentação
teórico-metodológica. O segundo, contém as cartas, que
são do seguinte tipo: 107 cartas
fonéticas, com notas e comentários explicativos, além de
gráficos com os percentuais de ocorrência dos fatos analisados, e
150 cartas semântico-lexicais, também comentadas e algumas delas
com ilustrações. No final do primeiro volume há uma
bibliografia.
2.2.2. Atlas
Lingüístico do Ceará
O Atlas Lingüístico
do Estado do Ceará, em fase de publicação, é o
resultado do trabalho de um grupo de professores do Departamento de Letras
Vernáculas da Universidade Federal do Ceará, coordenados pelo
Prof. José Rogério Fontenele Bessa, assessorado por professores
visitantes daquela instituição.
A pesquisa foi assim
estruturada: 69 municípios selecionados dentro das microrregiões
homogêneas, com características físicas, sociais e
econômicas semelhantes; 268 informantes da faixa etária: 30 a 60
anos; nível de instrução: analfabeto ou até a
4ª série do Fundamental, sexo: masculino e feminino. O
questionário contém 306 questões, compreendendo 583 itens,
nos Campos semânticos: natureza (tempo, o homem, parentesco, partes do
corpo, funções do corpo, doenças); o homem
(características físicas, tipos sociais, jogos, objetos de uso
pessoal, atividades e utensílios domésticos, comida,
religião, animais, outro).
Foram elaboradas 223 cartas, das
quais 75 lexicais e 148 fonéticas, constando, entre elas, as cartas de
ocorrência única e de variação zero. O ALECE
deverá constar de três volumes: no primeiro, haverá uma
introdução com os antecedentes, a orientação
teórica, os objetivos, a metodologia do trabalho e uma bibliografia
dialetal cearense. O segundo volume trará as cartas léxicas e
fonéticas e o terceiro, um glossário e um apêndice com o
registro das formas ou expressões encontradas e que não se
enquadram em itens lexicais predeterminados pela pesquisa.
2.2.3. Atlas
Geolingüístico do Litoral Potiguar
O Atlas
Geolingüístico do Litoral Potiguar é resultado da tese de Maria das Neves Pereira,
defendida em 2007, na UFRJ, estando ainda inédito.
Localidades: 05 localidades,
cobrindo todo o litoral riograndense do norte e distribuídas pela região do litoral do Estado.
Informantes: 24 nas faixas
etárias de 18 a 31; 45 a 59 anos. Nível de
instrução: alfabetizados, com no máximo a 7ª
série do Fundamental no interior e com ensino superior, na capital.
Sexo: masculino e feminino.
Questionários: foram
utilizados os questionários do ALiB: Semântico-lexical;
Fonético-Fonológico; Morfossintático.
O Atlas está organizado
em dois volumes. No primeiro está a Apresentação, Introdução, Fundamentação
Teórico-Metodológica e análise dos dados e uma bibliografia.. O segundo,
contém as cartas, que são do seguinte tipo: 08 cartas
geográficas, 35 cartas
fonéticas, com gráficos de percentuais de ocorrência dos
fatos analisados, 09 cartas morfossintáticas e 35 cartas
semântico-lexicais. No final do segundo volume há anexos com as
fichas de levantamento dos dados.
2.2.4. Atlas Fonético do
Entorno da Bahia de Guanabara
O Atlas Fonético do Entorno da Bahia de
Guanabara é resultado de uma Dissertação de Luciana Gomes
de Lima, defendida em 2006, na UFRJ, estando ainda inédito.
Localidades: 04 localidades,
cobrindo o entorno da Bahia de Guanabara: Nova Iguaçu, Duque de Caxias,
Magé e Itaboraí.
Informantes: 24 nas faixas
etárias de 18 a 35; 36 a 55; 56 anos em diante. Nível de
instrução: analfabetos ou com no máximo a 4ª
série do Fundamental; sexo: masculino e feminino.
Questionários: foram
utilizadas 160 questões.
O Atlas está organizado
em dois volumes, no primeiro, estão a Apresentação, Introdução, Fundamentação
Teórico-Metodológica e análise dos dados e, no final há uma bibliografia..
O segundo, contém as cartas fonéticas, em número de 308.
2.2.5. Atlas
lingüístico do município de Ponta-Porã-MS: um
registro das línguas em contato na fronteira do Brasil com o Paraguai.
O Atlas lingüístico do município de
Ponta-Porã-MS: um registro das línguas em contato na fronteira do
Brasil com o Paraguai é o resultado da dissertação de
Regiane Coelho Pereira Reis, na UFMS, em 2006.
2.2.6. Atlas Lingüístico
do Paraná II
O Atlas Lingüístico do Paraná II
é o resultado da tese de Fabiane Cristina Altino, defendida em 2007 na
UEL. A autora estabeleceu o duplo propósito de (i) mapear os dados
relativos às XXX questões não aproveitadas por Aguilera
(1994) e (ii) fazer um estudo dialectométrico das variantes paranaenses,
envolvendo ambos os atlas. O ALPR II conta com cartas de natureza lexical e
inova, em relação ao anterior, na apresentação dos
mapas que incluem os acidentes geográficos (rios e rodovias),
gráficos de freqüência e distinção entre a fala
feminina e a masculina.
2.2.7. Atlas Lingüístico
da de São Francisco do Sul-SC
O Atlas Lingüístico de São
Francisco do Sul – SC é o resultado da tese de Tânia Maria
Braga Guimarães, defendida em 2008, na UEL e teve como objetivos: (i)
elaborar um atlas lingüístico de São Francisco do Sul; (ii)
descrever aspectos fonético-fonológicos e
semântico-lexicais caracterizadores do falar francisquense; (iii) fazer
um levantamento das semelhanças e diferenças
lingüísticas com base no fator diatópico, isto é, em
relação à rede de pontos lingüísticos; (iv)
verificar em que medida as variáveis sexo e faixa etária podem
justificar a ocorrência de variantes e (v) comparar os dados do ALSFS com
os apresentados em cartas fonéticas do ALERS I. Contém 9 pontos
com trinta e seis informantes, selecionados com base nas variáveis sexo
e faixa etária, todos no nível fundamental de escolaridade.
São 53 cartas fonético-fonológicas e 42
semântico-lexicais.
2.3. ATLAS EM
REALIZAÇÃO
Alguns dos Projetos de Atlas estaduais já
estavam em desenvolvimento anteriormente ao ALiB, como é o caso do Atlas
Lingüístico de São Paulo, do Atlas Lingüístico
do Acre e do Atlas Etnolingüístico dos Pescadores do Estado do Rio
de Janeiro, que não foram concluídos. Outros se iniciaram depois
do Projeto AliB, que, sem dúvida, deu uma nova vida aos estudos
dialetais e geolingüísticos em nosso país.
2.3.1. Atlas Lingüístico do Estado de
São Paulo
O projeto de
realização do Atlas Lingüístico de São Paulo
surgiu em 1980 durante o curso de Introdução à
Dialetologia, ministrado pelo Prof. Dr. Pedro Caruso, no Curso de
Pós-Graduação em Letras do Departamento de Lingüística
do Instituto de Letras, História e Psicologia da Universidade Estadual
Paulista, Campus de Assis, São
Paulo.
A pesquisa está em
desenvolvimento, com um novo grupo de professores, liderados pela Profa. Dra.
Vanderci Santana.
2.3.2. Atlas Lingüístico do Acre
Projeto original de Professores
da Universidade Federal do Acre, coordenado pela Profa. Dra. Luíza
Galvão Lessa, desenvolveu uma série de atividades, tendo
publicado muitos estudos, especialmente do léxico daquela região.
A equipe inicial se desfez e agora um novo grupo, liderado pelas Professoras
Dras. Maria do Socorro Silva de Aragão e Lindinalva Messias Chagas
está dando início a um novo projeto, dentro dos métodos e
técnicas empregados pelo projeto AliB.
2.3.3. Atlas Lingüístico do
Maranhão
O Atlas Lingüístico
do Maranhão - ALIMA, coordenado pela Profa. Dra. Conceição
de Maria de Araújo Ramos, está em sua fase inicial de
realização, seguindo os parâmetros teórico-metodológicos
do projeto AliB.
2.3.4. Atlas Lingüístico do Rio Grande
do Norte
O Atlas Lingüístico
do Rio Grande do Norte - ALIRN, coordenado pela Profa. Dra. Maria das Neves
Pereira, está em sua fase inicial de realização, seguindo
os parâmetros teórico-metodológicos do projeto AliB.
2.3.5. Atlas Lingüístico do Mato
Grosso
O Atlas Lingüístico
do Estado do Mato Grosso - ALiMAT, coordenado por uma equipe do Prof. Dr. Derci
Oliveira, está em sua fase inicial de realização, seguindo
os parâmetros teórico-metodológicos do Projeto AliB..
2.3.6. Atlas Lingüístico do
Espírito Santo
O Atlas Lingüístico
do Estado do Espírito Santo - ALES, coordenado pela Profa. Dra. Catarina
Vaz Rodrigues, está em fase adiantada de realização,
já tendo sido feita a pesquisa de campo, estando em inicio a elaboração
das cartas.
2.3.7. Atlas Lingüístico do
Piauí
O
Atlas Lingüístico do Estado do Piauí – AliPI,
coordenado pelos Professores Dra. Maria do Socorro Silva de Aragão e
Luiz Egito de Souza, está em fase inicial de implantação,
seguindo os parâmetros teórico-metodológicos do Projeto
AliB.
2.3.8. Atlas Lingüístico
do Oeste Potiguar
O Atlas Lingüístico do Oeste Potiguar
é o projeto de tese de Moisés Batista da Silva na Universidade
Federal do Ceará, sob a orientação da Profa. Dra. Maria do
Socorro Silva de Aragão, em fase inicial de elaboração.
2.3.9. Atlas Lingüístico
do Iguatu
O Atlas Lingüístico do Iguatu é o
projeto de dissertação de Fabiana dos Santos Lima, na
Universidade Federal do Ceará, sob a orientação da Profa.
Dra. Maria do Socorro Silva de Aragão, em fase inicial de
elaboração.
2.3.10. Atlas Lingüístico
da Mata Sul de Pernambuco
O Atlas Lingüístico da Mata Sul de
Pernambuco e o projeto de dissertação de Edilene Almeida na
Universidade Federal da Paraíba, sob a orientação da
Profa. Dra. Maria do Socorro Silva de Aragão, em fase inicial de
elaboração.
2.3.11. Micro-Atlas Fonético
do Estado do Rio de Janeiro
O Micro-Atlas Fonético do Estado do Rio de
Janeiro é o projeto de tese de Fabiana da Silva Campos Almeida na UFRJ,
em fase adiantada de elaboração.
2.3.12. Atlas Lingüístico
do Oeste de São Paulo
O Atlas Lingüístico do Oeste de São
Paulo é o projeto de dissertação de Ariane Cardoso dos
Santos na UEL, em fase de elaboração.
Cada um dos Atlas Lingüísticos
Brasileiros, estaduais e o regional, aqui analisados, a seu modo, utilizou a
metodologia que lhe pareceu mais importante e de acordo com os objetivos a que
se propunham seus autores. As metodologias têm sempre em comum itens como
escolha das localidades, cobrindo as áreas e sub-regiões do
estado e que têm marcas lingüísticas específicas do
falar do estado; informantes com características de faixa etária,
sexo e escolaridade que, além das variações
lingüísticas, podem mostrar variações
sociolingüísticas. Alguns campos semânticos, também,
são comuns, tais como o homem e a terra.
Apesar do número de Atlas
publicados, concluídos ou em elaboração, permanecem
bastante atuais as palavras de Mário Marroquim quando, já em 1934
dizia:
Não está ainda
feito o estudo do dialeto brasileiro. A enorme extensão
geográfica em que o português é falado no Brasil dá
a cada região peculiaridade e modismos desconhecidos nas outras, e
exige, antes da obra integral que fixe e defina nossa
diferenciação dialetal, trabalhos parcelados, feitos com
critério e honestidade, sobre cada zona do país.[11]
Tal fato tem se refletido
negativamente no ensino da Língua Portuguesa em nosso país, por
não haver, em termos das variantes diatópicas e
diastráticas, um maior conhecimento da realidade lingüística
regional e nacional, pois concordamos com Tarallo (1985), quando diz que:
O Atlas lingüístico
de uma comunidade pode, por exemplo, fornecer dados valiosíssimos para o
estudo de variação fonológica ou mesmo lexical.[12]
3. O ATLAS LINGÜÍSTICO DO
BRASIL
A Geolingüística brasileira, após a
realização de todos estes atlas, tem agora as
condições técnicas para a realização de sua
tarefa mais importante que é a elaboração do atlas
lingüístico do Brasil.
As condições históricas,
geográficas, políticas e sócio-econômico-culturais
do país, atualmente, são bastante diferentes daquelas da
década de 1950, quando os pioneiros da Geolingüística
pretendiam iniciar a tarefa para a elaboração do Atlas
Lingüístico do Brasil.
Os limites políticos, geográficos,
históricos, e sócio-econômico-culturais desapareceram por
conta da ampliação e facilidade de comunicação e a
conseqüente globalização das informações
transmitidas pelo rádio, a televisão e pela internet; as
facilidades dos meios de transporte tornaram o universo uma “aldeia
global”, fazendo do cidadão um homem sem fronteiras, pondo em
contato diuturnamente populações, costumes e usos
lingüísticos diferenciados.
A situação brasileira, como uma
sociedade multilingüística, multissocial e multicultural exige um
maior conhecimento de sua realidade lingüística a fim de oferecer
subsídios para um ensino da língua portuguesa que leve em conta
essa realidade do país. A Dialetologia brasileira, neste início
de milênio, tem as condições técnicas para a
realização dessa tarefa, através da realização
do atlas lingüístico do Brasil.
Segundo Suzana Alice Cardoso, Diretora e Presidente do
Comitê Nacional do Projeto AliB, na apresentação do
projeto:
O Atlas
Lingüístico do Brasil, ao tempo em que prioriza a
identificação espacial dos fenômenos, se propõe
não só manter sob controle certas variáveis sociais dos
informantes, como também fornecer comentários e estudos
interpretativos que acompanharão as cartas e, ainda, tentar estabelecer,
via Internet, um sistema de consulta à distância que faculte ao
leitor o conhecimento de formas ou usos linguageiros e também lhe
dê a possibilidade de ouvir, de viva voz, as realizações
daquela área cartografada e selecionada para audição. Do
ponto de vista da orientação teórica, pretende ser o ALiB
um atlas de terceira geração, reunindo, assim, às
informações lingüísticas cartografadas, estudos e
comentários às cartas e oferecendo as facilidades de acesso aos
dados vivos por meio do que os franceses identificam como um atlas informatisé et parlant.[13]
O Comitê Nacional foi
criado no final de 1996 com o objetivo de elaborar o Projeto e conduzir a
realização da pesquisa para o Atlas Lingüístico do
Brasil. Esse Comitê é constituído por seis professores e
pesquisadores de Universidades brasileiras, sob a coordenação da
professora Suzana Alice Cardoso e Jacyra Mota, da Universidade Federal da
Bahia, Maria do Socorro Silva de Aragão, da Universidade Federal do
Ceará, Vanderci de Andrade Aguilera, da Universidade Estadual de
Londrina, Mário Roberto Zágari, da Universidade Federal de Juiz
de Fora, Cléo Altenhofen, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Abdelhak Razky da Universidade Federal do Pará e Aparecida Negri
Isquerdo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Cada membro do Comitê
é Diretor Científico e responsável por determinadas
áreas, e em cada Estado há uma coordenação e uma
equipe local.
O Comitê vem se reunindo
sistematicamente, para traçar as diretrizes, métodos e
técnicas a serem utilizadas, e para o treinamento dos pesquisadores.
Para isso, estão sendo realizados workshops e reuniões de trabalhos
do Comitê Nacional, em diferentes cidades do país.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pelo que se pode observar, a
partir da rápida análise acima realizada, num país como o
Brasil, com 26 Estados e o Distrito Federal, é muito pouco o que foi
realizado ou está sendo realizado, no que concerne à Geografia
Lingüística.
Contudo, complementando esses
atlas, teses, dissertações, trabalhos monográficos e
apresentações em Congressos nacionais e internacionais,
analisando os mais diferentes aspectos da língua portuguesa no Brasil,
com enfoque dialetal e sociolingüísticos, têm surgido com
grande freqüência no momento atual.
Assim, a
realização das pesquisas para a elaboração do Atlas
Lingüístico do Brasil, será, sem qualquer dúvida, um
marco na história dos estudos dialetais e geolingüísticos no
Brasil. A concretização de tal empreitada pode ser assegurada por
fatores de dois tipos:
Ø Infra-estrutura
e vontade política
·
O
país oferece as condições de transporte e infra-estrutura
para que se possa cruzá-lo de norte a sul e de leste a oeste;
·
Há
a vontade política das universidades para apoiar tal tipo de pesquisa;
·
Os
diversos segmentos das áreas de Letras e Lingüística do
país estão convencidos da importância e da necessidade da
realização da pesquisa.
Ø Condições
técnicas
·
Há,
em diferentes universidades brasileiras, pessoas competentes e dispostas a
realizarem o trabalho para a elaboração do Atlas
Lingüístico;
·
Há
bibliografia com trabalhos teóricos e práticos de Dialetologia e
Geolingüística, não apenas estrangeira, mas, acima de tudo,
nacional que podem fornecer o apoio documental de que se necessita;
·
O
país já conta com um sistema de computação e
informação via internet, que permite a realização
de um Atlas de terceira geração, como pretende ser o AliB.
Apesar de todos os contratempos,
carências e problemas até aqui apontados, cremos que a
situação atual é das mais promissoras por termos
atualmente 34 atlas publicados, concluídos e em
realização, já contarmos com modernos métodos de
pesquisa, equipamentos e, acima de tudo, com recursos humanos bem treinados e
motivados, levando-nos a esperar que os estudos de Geografia
Lingüística no Brasil venham em futuro próximo a assumir o
papel de relevância que lhes cabe no âmbito dos estudos da
Língua Portuguesa.
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PAINEL OS CAMINHOS DO ALiB
A DOCUMENTAÇÃO DOS
DADOS NO PROJETO ALIB: PRIMEIROS RESULTADOS
Vanderci de Andrade Aguilera
(Universidade Estadual de Londrina/CNPq/Brasil)
Introdução
O Projeto do Atlas Lingüístico do Brasil -
ALiB - depois de percorrer uma extensa caminhada, ao longo de dez anos, para:
(i) definir e articular a equipe; (ii) escolher e sedimentar a metodologia e os
procedimentos metodológicos; (iii) buscar incansavelmente meios de financiamento
para as diversas etapas; (iv) preparar os pesquisadores de campo e acompanhar o
desempenho deles; (iv) discutir e definir as formas de
transcrição e de armazenamento dos dados, começa a se
preparar para colocar à luz os primeiros resultados.
Concluídos os trabalhos nas vinte e cinco
capitais, o Comitê Nacional está atuando em três frentes:
duas delas com vistas à publicação dos primeiros volumes
do atlas, iniciando com as cartas de natureza fonética e à das
análises das Questões Metalingüísticas. A terceira
diz respeito à preparação de cartas lexicais em
caráter experimental. Sobre estes três tópicos, pois,
desenvolvemos nosso texto, iniciando pelas considerações acerca
das cartas fonéticas.
1. Preparação das cartas
fonéticas
As equipes regionais, nesta etapa da pesquisa,
dedicam-se à análise dos fatos fônicos mais salientes,
capazes de definir áreas dialetais ou limites de isoglossas. Depois de
definido o quadro de símbolos a ser adotado, os trabalhos foram
distribuídos entre os diretores científicos e se referem a: (i)
vogais pretônicas (Cardoso e Zágari); (ii) /S/ em coda
silábica (Mota); (iii) /l/ em
coda silábica (Margotti); (iv) consoantes palatais laterais e nasais
(Razky et alii); (v) róticos
(Aguilera); (vi) /t, d/ em contextos de palatais (seguido de /i/ ou precedido
de /j/) (Mota); (vii) iotização do –nh- e do –lh-
(Mota); (viii) vogais finais (Isquerdo); (ix) vogais postônicas
não finais (Aragão e Araújo); (x) ditongação
em sílaba terminada por sibilante (Altenhofen e Mota); (xi)
monotongação (Zágari e Razky) e (xii) diferenças
prosódicas das assertivas (Cunha).
Neste particular, algumas cartas experimentais foram
elaboradas e apresentadas no III Workshop do ALiB (UFBA: 2008), quando
discutimos a distribuição das variantes de prateleira, que responde à questão 033, dos
Questionários do ALiB (2001) e verificamos que, nos casos de
metátese, o nível fundamental de escolaridade é mais
favorável à ocorrência de contextos com o rótico em
coda silábica (20%). As regiões Norte e Nordeste mostram-se menos
suscetíveis à metátese e, quando isto ocorre, predomina o
/r/ glotal. Na região Centro-Oeste, o rótico em coda é
preenchido pelo retroflexo em Campo Grande e pelo glotal em Goiânia.
Já na região Sudeste coocorrem ambas as variantes (com e sem
metátese) e, no caso de transposição do rótico,
predomina o glotal em Vitória e Belo Horizonte e o tepe em São
Paulo. Na região Sul, a metátese ocorre em Curitiba (com tepe e
retroflexo) e em Florianópolis com o velar. Quando a variável
escolaridade é preenchida por falantes de nível superior, a
ocorrência de metátese é menos produtiva (6%), registrada
apenas na região Nordeste (4%), com o glotal, e na região
Centro-Oeste e Sudeste, com o retroflexo (2%).
Outro estudo preliminar, sobre os róticos em
coda silábica interna, com base nos registros de gordura, resposta da questão 22 do QFF, permitiu verificar,
na fala dos informantes do nível fundamental, a hegemonia do glotal em
todas as capitais das regiões Norte, Nordeste e, na região
Sudeste, entre os falantes de Belo Horizonte e Vitória. A variante velar
é mais produtiva em Florianópolis, na região Sul enquanto
o retroflexo é mais freqüente no Centro-Oeste (Cuiabá,
Goiânia, Campo Grande), e em Curitiba, região Sul, onde ambas
concorrem com o tepe. Em Porto Alegre, no entanto, predomina absoluto o tepe.
Quando a variável escolaridade seleciona o nível superior, os
resultados praticamente não variam: as regiões Norte, Nordeste e
Belo Horizonte e Vitória, na região Sudeste, continuam
privilegiando a glotal. A velar permanece em Florianópolis e o tepe em
São Paulo e Curitiba. A região Centro-Oeste não elege uma
única variante, oscilando entre retroflexa, tepe e velar.
Um terceiro estudo, embora preliminar, sobre o
comportamento da proparoxítona em abóbora
questão 031 do QFF, mostra que, quando a variável escolaridade
seleciona o nível fundamental, a variante paroxítona, com a
síncope da pós-tônica, se distribui por todas as capitais
com um índice de 22%, mas cai para 9% entre os informantes de
nível superior. Esses três estudos foram feitos em caráter
experimental para serem aprofundados até a publicação das
cartas fonéticas do ALiB.
2. Questões
Metalingüísticas
Neste segundo tópico, tratamos da pesquisa
sobre as seis Questões metalingüísticas dos
Questionários ALiB 2001 que foram tema de meu estágio doutoral
realizado na Universidad de Alcalá - Espanha, sob a orientação
do Dr. Francisco Moreno Fernández, e foram discutidas em três
artigos. O primeiro diz respeito às respostas para a pergunta n° 1:
Que língua você fala? feita para os 200 informantes das vinte e
cinco capitais. Sobre esta questão, Aguilera (2008) conclui:
“Analisados os depoimentos de 200 informantes,
moradores de 25 capitais brasileiras, relativos às Questões
Metalingüísticas constantes dos Questionários do Atlas
Lingüístico do Brasil e, particularmente, que dizem respeito
à Questão 1, verificamos que a grande maioria (92%) acredita
falar o português ou a língua portuguesa. Outras
manifestações minoritárias (o falar brasileiro, o
cuiabano, o nativo) eram corrigidas na reformulação da pergunta
em favor da crença majoritária”.
Ainda sobre estas respostas, verificamos que “a
faixa etária é definidora da incerteza e da
vacilação no momento de o informante expor sua crença
sobre a língua que fala: os mais idosos demonstram essa oscilação
com muito mais ênfase que os da faixa I, entre 18 e 30 anos. No entanto,
pode-se concluir que a faixa etária não atua sozinha, pois
está associada ao nível de escolarização. O pouco
tempo de permanência na escola ou o fato de ter se distanciado dela por
muitos anos, podem ter colaborado para essa vacilação na hora de
denominar a língua que fala. As mulheres, por sua vez, demonstraram
menos oscilação que os homens, independentemente do nível
de escolaridade. Relativamente à origem do informante, os naturais das
regiões Norte e Nordeste demonstraram uma tendência maior à
incerteza sobre a crença de falar o português. Essa
tendência pode, também, estar associada à variável
nível de escolaridade”.
O segundo artigo foi apresentado no Seminário
do Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo,
Aguilera (2007), sob o título: Crenças e atitudes
lingüísticas: o que dizem os falantes das capitais brasileiras.
Sobre o tema a autora tece as seguintes considerações:
“As questões 2 e 3 - Você sabe se aqui nesta cidade há pessoas que falam
diferente e se poderia dar exemplo desses prováveis falares diferentes
- ensejaram as mais diversas manifestações que foram analisadas
à luz de variáveis extralingüísticas, como faixa
etária, nível de escolaridade, sexo e região de origem.
As informações obtidas sobre o sistema
de crenças a propósito da fala de outros brasileiros permitiram
verificar que tipo de atitudes positivas ou negativas procede de tais
crenças. Os dados informaram sobre a existência de numerosos fatos
lingüísticos estigmatizados e poucos de prestígio. Aqueles,
na maioria das vezes, estão camuflados, são subliminares, que se
materializam nos adjetivos disfóricos atribuídos ao dialeto de
outras localidades e, conseqüentemente, aos seus usuários.
Conforme expusemos de início, o ALiB, ao
inserir no instrumento de recolha de dados, pela primeira vez na
história da geolingüística do Brasil, Questões
Metalingüísticas que levam a respostas sobre crenças e
atitudes lingüísticas, dá um passo à frente nessa
área do conhecimento e abre perspectivas de aprofundamento de estudos a
partir da base que ora oferece aos interessados no assunto”.
Naquele texto concluímos acreditar que a
“inserção de questões dessa natureza possa motivar
futuros autores de projetos geo-sociolingüísticos a contemplar em
suas investigações um tema cujos resultados podem indicar a
direção da mudança lingüística que se processa
em dada comunidade, bem como esclarecer em que medida os fatos
lingüísticos valorizados ou estigmatizados podem interferir nessa
mudança”.
O terceiro texto - O que um atlas
lingüístico nacional pode revelar sobre as crenças e
atitudes de falantes das regiões Centro-Oeste e Sul do Brasil (Aguilera:
2007b), foi apresentado no Fórum Internacional da Diversidade
Lingüística, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, em 2007. Sobre o tema, tecemos alguns comentários, tais como:
“O estudo das crenças e atitudes
lingüísticas, em que se compararam duas regiões distintas,
mas ligadas por uma história recente, revela que o alvo da
observação ou da crítica da fala do outro está mais
centrado no papel que aquele grupo representa dentro da comunidade. O
“invasor” não é poupado, principalmente aquele que
preserva tradições arraigadas e diametralmente opostas à
cultura da comunidade receptora.
Os naturais da região Centro-Oeste acreditam
que, sobretudo, gaúchos, cariocas, nordestinos, mineiros e baianos falam
diferente da norma centro-oestina. Com um número menor de
referências aparecem goianos, paranaenses, paulistas, mato-grossenses,
sul-mato-grossenses, nortistas e pernambucanos. Da mesma forma, os sulistas
elegem, nas três primeiras colocações, cariocas,
nordestinos e gaúchos, seguindo-se paulistas, catarinenses e mineiros.
Com um número menor estão baianos, paraenses, litorâneos e
os nascidos em Santos, cidade litorânea paulista.
Os dados levam à reflexão sobre as
pronúncias regionais mais salientes e sobre a motivação
dessa indicação. Os do Centro-Oeste apontam, em primeiro lugar,
os gaúchos, que chegam ao Centro-Oeste em grandes levas de agricultores,
desmatando, plantando soja, abrindo cidades, fazendas, mudando a paisagem
local, introduzindo novos hábitos, costumes, tradições,
alimentos, bebidas, vestuários e, principalmente, um novo dialeto. Os
das capitais do Sul também apontam os gaúchos, mas por motivos
diversos, o contato pela vizinhança e pelas diferenças dialetais.
Os cariocas são citados em ambas as regiões e a
explicação pode ser dada tanto pelo falar característico, cheio de manha e de gestos, que se
diferencia dos demais, bem como pela divulgação na mídia
televisiva, conforme declararam vários informantes que não
conhecem o Rio de Janeiro, mas ouvem os cariocas nos programas de
televisão. Os nordestinos são lembrados, nas três capitais
do Centro-Oeste, e também em Brasília, pela presença na
música, cinema e televisão. No Sul, pela presença de
nordestinos em vários setores artísticos (atores de novela e de
cinema, cantores, bandas) e pela caricaturização em novelas e
filmes.
Nesse estudo, também buscamos verificar que
adjetivos são mais freqüentemente atribuídos aos falantes de
outras regiões. A questão 4 traz em seu enunciado o adjetivo diferente que serviu para qualificar
quase todos os naturais de outros estados. Falam diferente, para os naturais do Centro-Oeste: gaúchos,
cariocas, paulistas, baianos, pernambucanos, sul-mato-grossenses e
mato-grossenses; e para os do Sul: nordestinos, gaúchos, cariocas,
mineiros, paulistas e catarinenses. Mais dezoito adjetivos foram usados pelos
informantes do Centro-Oeste para qualificar os diversos brasileiros e seus
dialetos, e doze adjetivos identificam os do Sul.
No Centro-Oeste, para expressar sua atitude em
relação ao outro, envolvendo a observação da fala,
verifica-se que os gaúchos são os mais adjetivados, por falarem puxado, engraçado, arrastado
e cantado. Esses qualificativos
são atribuídos, em sua maioria, pelos mato-grossenses de
nível superior, tanto os da Faixa I e II, como os homens e as mulheres.
A informante 8 de Goiânia, porém, considera o dialeto
gaúcho o mais bonito. Os
mineiros foram lembrados também pela fala puxada, engraçada
e cantada. Seguem-se os goianos que,
além de arrastado e cantado, falam errado.
Por sua vez, na Região Sul, os dialetos e seus
falantes mais adjetivados são os cariocas, que falam cantado, chiado (ou com a forma carinhosa chiadinho), puxado, cheio de manha e carregado. Na seqüência,
vêm os catarinenses com o dialeto cantado,
até cantadinho, chiado, puxado,
rápido e espaçoso, seguidos dos paulistas, lembrados por falarem cantado, chiado, curioso,
incompreensível, mas também misturado, quase igual aos gaúchos que, por sua vez se
caracterizam pela fala cantada, puxada,
com /s/ acentuado, mas também correta.
Os sulistas focalizam sua atitude
lingüística sobre os cariocas, pela maior exposição
na mídia e pelos traços fonéticos da fala; sobre os
paulistas, devido ao intercâmbio entre a Região Sudeste e Sul, nos
últimos anos, além da ligação histórica
remanescente dos primeiros séculos de colonização
européia. Os sulistas também não deixam de observar a fala
dos vizinhos catarinenses, mas não se incomodam com os paranaenses, que
sequer foram lembrados.
Ao tratarmos dos aspectos lingüísticos
mais lembrados pelos falantes da Região Centro-Oeste e da Região
Sul, constatamos que, em ambas as regiões, os aspectos
lingüísticos detectados na fala dos habitantes de outras
localidades dizem respeito à fonética, ao vocabulário, aos
aspectos morfológicos e às expressões, na maioria dos
casos, interjetivas ou de vocativo.
Dentre os aspectos fonéticos mais lembrados
pelos informantes do Centro-Oeste, constam:
(a) o paulista puxa o /s/ alveolar e o /r/ retroflexo;
(b) o goiano ditonga o mas > mais;
(c) o cuiabano troca o j- pelo dj- e o ch-
pelo tch- e não gostam de ser imitados;
(d) o carioca puxa o /r/; põe muito /r/ e puxa
o /S/
(e) o mineiro puxa o /s/ alveolar, prolonga a
sibilante e o /r/ caipira;
(f) o mato-grossense do sul tem /r/ caipira;
(g) o gaúcho não faz o alçamento
do /e/ átono final.
Sobre os aspectos fonéticos mais lembrados
pelos informantes do Sul:
(a) o carioca puxa o /r/ e o /S/;
(b) o gaúcho não tem o /r/ vibrante
intervocálico ou em início de vocábulo: caroça e
tem três /s/ (sibilante).
Há um desequilíbrio entre o
número de traços fonéticos lembrados pelos centro-oestinos
e os sulistas, mas os dois grupos lembrados são comuns (carioca e
gaúcho) bem como os traços fonéticos que identificam o
primeiro: o /r/ posterior e a africação do /s/ na fala carioca.
Para tentar explicar a ocorrência de um elenco maior de variantes
fonéticas apresentado pelos informantes do Centro-Oeste, pode-se pensar
em comunidades mais heterogêneas nesta Região, e mais
homogêneas no Sul, nas quais se verifica a intensa
emigração de sulistas e o caráter de relativa
acomodação das comunidades ocidentais autóctones.
Quanto aos aspectos lexicais mais lembrados pelos
informantes do Centro-Oeste, ocorrem:
(a) gaúcho diz cobrir para rebuçar;
motoca para moto; fazer
inalação para tomar
orosol; piá para menino; rancho para compras; guria para moça e tem uma dança chamada vanerão;
(b) mineiro diz cobrir
para rebuçar; pernilongo para mosquito; trem para qualquer objeto ou
coisa.
(c) nordestino, mangar
para zombar; mouco para surdo; birilo para ramona, grampo de cabelo.
(d) curitibano: encabulado
significa envergonhado em Curitiba e admirado em Goiânia.
(e) mato-grossense: guri para menino por
influência gaúcha.
(f) goiano: a expressão não dar conta é usada no sentido de não conseguir.
Os aspectos lexicais mais lembrados pelos informantes
do Sul em relação aos demais brasileiros:
(a) nordestino: muriçoca
para pernilongo; macaxeira para mandioca.
(b) catarinense: bumba
para tiziu.
(c) paulista do interior: arribar para erguer; merendar
para comer.
(d) paraense: mangar
para zombar; angu para mingau.
No nível do léxico, os informantes do
Centro-Oeste parecem ter mais o que relatar sobre a fala dos outros, seja
devido à intensa miscigenação de brasileiros de
vários pontos nessa região, por meio de casamentos, seja pelo
contato maior com os diversos grupos, nas relações de amizade, de
lazer e de trabalho.
Dentre os aspectos morfológicos mais lembrados
pelos informantes do Centro-Oeste, verificamos que o gaúcho usa o tu em vez de você. Os informantes de Curitiba e Florianópolis
observam também que o gaúcho usa o tu por você e o
nordestino abusa de diminutivos: mainha,
bichinho. Os gaúchos estranham
o uso de você por tu na fala carioca. Dessa forma, os
aspectos morfológicos não parecem estar no nível de
consciência dos falantes, sendo lembrados apenas dois deles: o emprego do
pronome pessoal e do diminutivo.
Quanto às expressões mais lembradas
pelos informantes do Centro-Oeste, relacionamos:
(a) nordestino: ó,
xente! My God! Bichim!
(b) baiano: cabra
safado! Cabra da muléstia!
(c) pernambucano: cabra
safado!
(d) gaúcho: tchê!
Te cuida, guaíba!
(e) paulista: Vamos
comer uma pizza, meu!
(f) mineiro: uai!
Uai, sô!
Os informantes do Sul, porém, observam as
seguintes expressões nos que falam diferente:
(a) nordestino: ó,
xente! Cabra da peste! Ó sujeito arretado! Bichinho!
(b) baiano: Bichinho!
(c) gaúcho: trilegal!
Bah!
(d) paulistano: Se
liga, ô meu!
(e) mineiro: Uai!
Ei, bichinho!
(f) catarinense: pois,
e agora?
(g) paraense:
bichinho!
As expressões referidas pelos informantes de
ambas as regiões caracterizam-se por aquilo que chamamos de
estereótipos, veiculados pela mídia, como o cinema e a
televisão. Tanto os patronímicos como as expressões usadas
são muito semelhantes em ambos os grupos.
Nesse estudo, concluímos que as
informações obtidas sobre o sistema de crenças a
propósito da fala de outros brasileiros permitiram verificar que tipo de
atitudes positivas ou negativas procede de tais crenças. Os dados
informaram sobre a existência de numerosos fatos lingüísticos
estigmatizados e poucos de prestígio. Aqueles, na maioria das vezes,
estão camuflados, são subliminares, que se materializam nos
adjetivos disfóricos, atribuídos ao dialeto de outras localidades
e, conseqüentemente, aos seus usuários.
O estudo das crenças e atitudes
lingüísticas, em que se compararam duas regiões distintas,
mas ligadas por uma história recente, revela que o alvo da
observação ou da crítica da fala do outro está mais
centrado no papel que aquele grupo representa dentro da comunidade. O
“invasor” não é poupado, principalmente aquele que
preserva tradições arraigadas e diametralmente opostas à
cultura da comunidade receptora” (Aguilera: 2007).
O terceiro tópico, que nos propusemos discutir
quanto aos primeiros resultados do ALiB, diz respeito aos estudos e às
cartas preliminares sobre o léxico nas capitais.
3. Cartas lexicais experimentais
Destacamos os trabalhos realizados, em nível de
Iniciação Científica, por Pastorelli e Aguilera (2007) e
Romano e Aguilera (2008).
Pastorelli e Aguilera (2007) apresentam um estudo
prévio sobre as variantes obtidas em duas questões 089
(pálpebra) e 105 (pomo-de-adão) do Questionário
Semântico Lexical (QSL) dos Questionários do ALiB, registradas nos
inquéritos, aplicados in loco,
para a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil em
treze das capitais brasileiras. O estudo permitiu, por isso mesmo, formular
apenas algumas conclusões parciais, que aqui se explicitam: (i) é
alta a freqüência de formas populares, representadas por
criações metafóricas, como é o caso de capela e pele para pálpebra; e adão, nó, caroço,
maçã para gogó; (ii) verifica-se a maior produtividade
da forma padrão, de maior prestígio, como a variante
léxica pálpebra e
gogó; (iii) registra-se a dificuldade de certos informantes em
separar e nomear partes do corpo como acontece nas respostas pele, olho, sobrecílios,
cílios, garganta, papo e pestana; (iv) é notória a
insegurança de alguns em apresentar uma forma não prestigiada,
preferindo abster-se; (v) por meio do
levantamento das variantes regionais pôde-se verificar as
ocorrências comuns a cada uma das localidades possibilitando o
traçado de isoglossas verificáveis a partir da
cartografação dos dados; (vi) foi possível observar
que as variáveis sociais: sexo, faixa etária, localidade e grau
de escolaridade exercem influência sobre a produtividade de certas
variantes em detrimento de outras.
O estudo de Romano e Aguilera (2008) sobre as
variantes lexicais obtidas nas respostas para a questão 039, para tangerina, apresentadas nas 25 capitais,
permitiu tecer as seguintes considerações:
“(i) tangerina
é a forma mais produtiva e mais freqüente que se distribui
diatopicamente por quase todas as regiões, embora não
apareça como a primeira resposta em algumas delas, sobretudo em capitais
onde prevalecem as formas dialetais, como tanja,
bergamota, laranja-cravo e mimosa;
(ii) as variantes distribuem-se de modo muito
próximo ao que preconizou Nascentes (1958) ao propor a divisão
dialetal do Brasil em falares do Norte e do Sul, de modo que tangerina se realiza como variante mais
produtiva no Norte e mexerica no
Sul/Sudeste/Centro-Oeste;
(iii) nem todas as variantes regionais constam dos
seis dicionários consultados, como ocorre com laranja-cravo, poncã, mimosa e tanja;
(iv) os dicionários elegem a forma laranja + a
variante como a forma padrão: laranja-tangerina,
laranja-mimosa, laranja-cravo que depois, na linguagem oral e informal, se
reduz ao segundo termo;
(v) a maioria dos lexicógrafos faz
referência às variantes regionais, embora não as localizem
nas respectivas regiões.
(vi) dicionários mais antigos não trazem
as formas regionais, como mimosa, que
vão aparecer somente nas edições mais recentes como
Houaiss (2001) e Ferreira (2004);
(vii) destaca-se a importância dos estudos
geolingüísticos como fonte segura para os
lexicógrafos”.
Considerações finais
Neste artigo trouxemos à luz alguns resultados
obtidos pelo Projeto do Atlas Lingüístico do Brasil - ALiB, nos
dados coletados em vinte e cinco capitais brasileiras. Para tal, desenvolvemos
a análise em três tópicos: os estudos fonéticos que
precedem a elaboração das cartas dessa natureza, a serem
publicadas nos primeiros volumes do atlas; os estudos realizados sobre as
Questões Metalingüísticas que envolvem a temática das
crenças e atitudes lingüísticas; e a
preparação de cartas lexicais em caráter experimental.
Embora os estudos fonéticos e os lexicais aqui apresentados tragam
resultados preliminares e provisórios, é possível
verificar, pela distribuição diatópica, as
diferenças que se estabelecem na língua portuguesa falada nas
diversas regiões brasileiras. A variedade se afirma devido aos fatores
lingüísticos e extralingüísticos (sexo, faixa
etária, escolaridade) mas também e, principalmente, por
razões sócio-histórico-econômicas que determinam o
uso de variantes de róticos e de itens lexicais distribuídos
espacialmente. Por outro lado, a unidade lingüística permanece
preservada pelas instituições responsáveis pelo seu
controle, como a escola, por exemplo. Finalmente, o estudo dos dados
procedentes das Questões Metalingüísticas coloca para a
comunidade científica os embates das crenças e das atitudes
gerados pelos contatos de grupos e, com certeza, com repercussões
significativas sobre o ensino e a aprendizagem.
Referências
AGUILERA,
Vanderci de Andrade. Crenças
e atitudes lingüísticas: o que dizem os falantes das capitais
brasileiras. Texto apresentado ao 55°
Seminário do GEL. Franca: UNIFRAN, 2007a.
AGUILERA,
Vanderci de Andrade. Crenças e atitudes lingüísticas: quem
fala a língua brasileira? In: RONCARATI, Cláudia;
ABRAÇADO, Jussara (orgs.). Português
brasileiro II: contato lingüístico, heterogeneidade e
história. Niterói: EdUFF, 2008.
AGUILERA,
Vanderci de Andrade. O que um
atlas lingüístico nacional pode revelar sobre as crenças e
atitudes de falantes das regiões Centro-Oeste e Sul do Brasil. Texto apresentado ao I Fórum Internacional da
Diversidade Lingüística, Porto Alegre: UFRGS, 2007b.
COMITÊ Nacional do projeto
ALiB. Atlas lingüístico do Brasil: questionário 2001. Londrina:
Ed. UEL, 2001.
PASTORELLI,
Daniele Silva; AGUILERA,
Vanderci de Andrade. Estudos lexicais sobre o
campo semântico do corpo humano em capitais brasileiras. Relatório de IC.
Londrina: UEL, 2007.
ROMANO, Valter Pereira; AGUILERA, Vanderci de Andrade. Um estudo lexicológico sobre as
variantes lexicais para a tangerina. Trabalho apresentado na UNOPAR.
Londrina: UNOPAR, 2008.
PAINEL OS CAMINHOS DO ALiB
A CARTOGRAFIA DOS DADOS DO PROJETO ALIB
Ana Regina Teles e Silvana Ribeiro
(Universidade Federal da Bahia)
Durante a 1ª reunião da Comissão de
Informatização e Cartografia do ALiB, promoveu-se uma ampla
discussão sobre cartografia e a experiência dos lingüistas
sobre o tema subsidiada por uma apresentação introdutória
na mesma temática. Diante da necessidade de nivelar lingüistas e
pessoas de outras áreas do conhecimento (engenheiros e analistas de
sistemas) e promover uma perfeita integração da equipe de
característica multidisciplinar, o conteúdo da
apresentação foi organizado no artigo Apresentando a cartografia aos lingüistas: o Projeto ALiB,
publicado em Documentos 2 - Projeto Atlas
Lingüístico do Brasil, cujos dados estão em parte
retomados e descritos neste trabalho. Destacam-se os seguintes: conceito de
atlas, mapa temático e carta lingüística;
preparação de base cartográfica como ponto de partida para
as cartas-base do mapa nacional e dos regionais, bem como outras cartas-base
específicas para confecção de mapas de conteúdos
especiais (mapas de isoglossas, mapas de síntese ou mapas comparativos,
por exemplo) e, sobretudo, vantagens na utilização de um Sistema
de Informações Geográficas - SIG. Ainda durante a 1ª
reunião da Comissão, discutiu-se amplamente a natureza dos mapas
do próprio ALiB, optando-se pelas versões analógica (em
papel) e digital. Estão em estudo as possibilidades de incorporar os
dados sonoros dos informantes, no que se refere às respostas obtidas
para o questionário fonético-fonológico - QFF. Buscam-se
também formas de divulgação do produto final, na
versão digital. As opções já pesquisadas
são: mídia do tipo DVD e internet.
Atualmente a Comissão de
Informatização e Cartografia (CIC) trabalha na modelagem do banco
de dados e na forma de entrada dos dados lingüísticos e na
elaboração das cartas-base a serem utilizadas. A constituição
de banco de dados informatizado bem estruturado tem como vantagem proporcionar
a divulgação mais imediata e rápida dos resultados da
pesquisa em andamento. É possível iniciar a
publicação de mapas e cartas lingüísticas de parte
dos dados coletados e transcritos, organizando-se a publicação em
volumes. Devido ao caráter continental
do Brasil, da densidade de pontos em algumas regiões e do tempo
necessário para a realização integral da pesquisa,
serão organizados volumes com informações contendo resultados
já disponíveis referentes a estágios intermediários
da pesquisa (estudo com as capitais dos estados, estudo por regiões
etc). O volume introdutório contará ainda com cartas gerais que
apresentarão informações etnográficas, sociais e ou
culturais além de mapas de localização da região
pesquisada (estado, micro-regiões etc).
Um software
específico para o ALiB, que está em desenvolvimento, prevê
a alimentação do banco de dados por todos os grupos de
pesquisadores distribuídos pelo Brasil através da internet. O uso da mesma ferramenta
pelos diversos grupos de pesquisa no país implicará na
redução do índice de erros e falhas na carga dos dados. A
ferramenta permitirá consultas aos registros pelas equipes regionais, facilitando
circulação da informação e servirá de matriz
para o uso do software de cartografia.
Para realizarmos a cartografia dos dados
lingüísticos, as etapas de Coleta, Transcrição,
Análise e Tratamento dos dados lingüísticos devem estar
concluídas assim como as que envolvem a preparação e
definição das cartas-base.
A elaboração de um mapa de qualquer
natureza requer planejamento e várias perguntas devem ser respondidas
antes do início da sua execução. As respostas a elas
norteiam a definição do projeto cartográfico propriamente
dito.
Da mesma forma que a delimitação do corpus (com a definição da
rede de pontos e do perfil dos informantes), a escolha da metodologia aplicada
à pesquisa de campo e à organização do material
foram respostas a questionamentos feitos durante a etapa preparatória do
projeto sob a ótica lingüística, há necessidade de
dar outras respostas, desta feita sob a ótica cartográfica,
quanto ao Atlas a ser elaborado, enquanto documento cartográfico: a
forma de apresentação, o formato (dimensões), se uso de
cores, definição dos documentos associados (tabelas, encartes),
formas de disponibilização dos resultados e temas agregados
(vegetação, hidrografia, circulação) já que,
dados geográficos não existem sozinhos no espaço -
tão importante quanto localizá-los é descobrir e
representar as relações entre eles.
A
contribuição da Cartografia enquanto ciência se dá,
basicamente, em propiciar a representação espacial dos objetos de
estudo dos pesquisadores (no caso, os lingüistas), aos quais compete
analisar os problemas, elaborar as sínteses e construir as teorias.
Com
o desenvolvimento dos modernos procedimentos e com as novas
concepções, o avanço e aprimoramento tecnológico
dos equipamentos de medição e recursos gráficos e
computacionais, o papel científico da Cartografia assume uma nova
dimensão. O mapa deixa de ser apenas uma simples
ilustração para ser, também, um meio de armazenar e de
tratar uma documentação espacial.
O
termo Cartografia foi criado em 1839 pelo historiador português Manuel
Francisco de Barros e Sousa (1791-1856), o Visconde de Santarém, que
enviou uma carta a Francisco Adolfo Varnhagem (historiador brasileiro),
indicando a idéia de um traçado de mapas e cartas, na qual se
lia: “... invento esta palavra já que aí se tem inventado
tantas.”
O
desenvolvimento da Cartografia, desde épocas remotas até hoje,
acompanhou o próprio progresso da civilização,
experimentando-se novas técnicas na aquisição e tratamento
de dados, no armazenamento e manipulação destes dados e na suas
representações, chegando nos dias atuais a configurar-se como um
verdadeiro sistema de informação geográfica, compreendendo
seus próprios bancos de dados, suportes lógicos de
aplicação e equipamentos. Os SIG (Sistemas de
Informações Geográficas) revolucionaram os conceitos e as
técnicas de pesquisa, de análise e de manipulação
dos dados, permitindo coletar, armazenar, atualizar, manipular, analisar e
apresentar visualmente todas as formas de informações
georeferenciadas. Para tal, envolvem equipamentos de computação (hardware), programas aplicativos (softwares), dados georeferenciados e
pessoal especializado (peopleware).
Os
SIG, portanto, são sistemas que têm recursos de análise e
funções de busca no espaço a partir de dados
alfanuméricos, relações topológicas
(relações espaciais entre os objetos geográficos) e
operações de sobreposição temática. Dependem
de uma base de dados de características alfanuméricas (tabelas) e
espaciais (arquivos de características gráficas - mapas).
A
cartografia automatizada associada a um SIG, permite a produção
de forma bem rápida de um grande número de documentos variados a
partir de um mesmo elenco de dados registrados e armazenados. Os dados obtidos
das recolhas dos inquéritos do ALiB e não cartografados num
primeiro momento, mesmo após muitos anos estarão
disponíveis à comunidade lingüística e
permitirão, além da geração de novas cartas, outras
formas de representação e análises decorrentes de novos
dados sócio-econômicos que poderão ser, a qualquer
época atualizados e novamente agregados.
Um
Atlas pode ser definido como um
conjunto de mapas ou cartas geográficas, de um conjunto de dados sobre
determinado assunto, sistematicamente organizados e servindo de
referência para a construção de informações
de acordo com a necessidade do usuário.
Um mapa temático (ou uma carta
temática) é a representação dos fenômenos
localizáveis de qualquer natureza e de suas correlações,
não se limitando apenas à representação do terreno.
Permite, dessa forma, que sejam feitas análises sobre o tema (ou
assunto) cartografado e que estas possam ser relacionadas a outras
informações obtidas através de outros instrumentos (por
exemplo, dados de Censos ou de outros tipos de cadastros, simplesmente).
Já um cartograma, é
definido pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)
como sendo um esquema representativo de uma
superfície ou parte dela, sobre a qual são apresentadas
informações quantitativas e qualitativas, de eventos
geográficos, cartográficos e socioeconômicos.
Com
isso percebe-se, assim, que a maioria dos atlas lingüísticos
até o momento publicados são conjuntos de cartogramas, já
que lhes faltam informações essenciais para que possam ser
enquadrados como conjuntos de mapas ou cartas: orientação,
sistema de projeção, sistema de referência para as
coordenadas e escala. Nestes casos, sem invalidar o mérito
científico do estudo lingüístico, apenas o tema pode ser
analisado, sem que se possa usá-los nem para a extração de
outras informações importantes tais como distâncias,
direções, altitudes e localizações
geográficas exatas nem para o cruzamento com dados obtidos de outras
fontes e que usem referências distintas.
Desse
modo, hoje, busca-se, acima de tudo, a possibilidade de obtenção
de múltiplas respostas e alternativas a partir de um mesmo conjunto de
dados, aliando-se aos requisitos básicos que conferem o grau de
qualidade das cartas, outros fatores que, atualmente, têm grande peso nas
decisões que envolvem a escolha de técnicas e métodos de
levantamentos para a geração e atualização de bases
cartográficas (custo baixo, rapidez na execução e retorno
rápido e eficiente tanto das informações quanto dos
investimentos feitos).
O ALiB será, portanto, um Atlas temático composto por
cartas lingüísticas e destas poderão ser feitas
medições, avaliações quantitativas e qualitativas
do tema lingüístico sobre uma base cartográfica gerada para
esse fim. Principalmente pelo tempo despendido na sua elaboração
(incluindo-se neste desde as primeiras reuniões preliminares até
o momento presente) como também pelo grande número de
pesquisadores e recursos públicos envolvidos, o ALiB será
desenvolvido segundo os conceitos mais modernos de cartografia e banco de
dados, limitado apenas por questões de cunho financeiro, visto que as
instituições envolvidas dependem de recursos públicos e
estes podem não vir a atender plenamente às demandas.
A principal característica da versão
analógica do AliB será a de não se tratar de um conjunto
de cartogramas e sim, de conjunto de cartas que conterão, além
das informações lingüísticas, todas as
informações necessárias ao reconhecimento e à
recuperação, em qualquer época, das
informações geográficas e sócio-econômicas
nele representadas.
A novidade é que esta versão será
resultante do seu desenvolvimento num ambiente SIG, conforme citado
anteriormente. O fato de já ser desenvolvida neste ambiente,
permitirá a disponibilização de uma versão digital
e, a depender das decisões dos gestores do Projeto, o acesso ao banco de
dados e a manipulação monitorada destes dados.
Num
SIG os dados e informações são espacializados, têm
referência física (são georeferenciados), além de
possuírem atributos. Como sem a base cartográfica digital o
geoprocessamento torna-se inviável, a base cartográfica deve se
adequar a estas novas necessidades.
Definindo base cartográfica e carta-base
A qualidade de uma
carta é determinada basicamente pela precisão, pela exatidão
e pela fidelidade. Além
destas, para cumprir com plenitude o seu papel de comunicação o
mapa deve apresentar expressividade
(quando atrai convenientemente a atenção do leitor para os mais significativos aspectos
do tema tratado), legibilidade (quando permite que uma informação procurada possa ser
facilmente encontrada, diferenciada entre outras e memorizada sem
esforço) e eficácia
(quando é perfeitamente adaptado ao seu objetivo, nos limites de sua
escala e de seu sistema de projeção).
Um mapa deixa de ser
legível quando não se consegue, no nível dos detalhes,
isolar à primeira vista a informação desejada nem captar,
no nível do conjunto, as relações existentes entre as manchas
elementares. Para ser eficaz deve ser conciso, completo e verdadeiro.
Em
relação à qualidade da base de dados, os indicadores
são, conforme definidos por Teixeira e Christofoletti (1997): a acurácia (proximidade dos
resultados em relação aos valores aceitos como reais), a confiabilidade (grau de
confiança que o usuário demonstra com relação aos
seus dados, programas e equipamentos), a consistência
(grau de precisão, atualização e segurança) e a integridade (confiabilidade dos dados
armazenados ou processados, no sentido de não haver perda ou
distorção na qualidade da informação).
Diante
de tudo que foi apresentado até o momento, depreende-se que o processo
cartográfico é o conjunto de atividades realizadas sobre dados e
informações de uma determinada área, com o objetivo de
produzir uma representação gráfica da realidade
através da associação de símbolos e outros recursos
gráficos que caracterizam a linguagem cartográfica.
Como
a clareza e legibilidade, dentre outras, são condições
essenciais em um mapa, não é aconselhável que o tema seja
colocado sobre a carta topográfica, já que esta é rica em
informações de detalhes do terreno e poderia tornar confusa a sua
leitura. A partir dela, suprimem-se algumas informações dando
origem a uma base cartográfica que é essencial para todo e
qualquer tipo de mapeamento temático. A este processo dá-se o
nome de generalização que consiste, dessa forma, em distinguir entre o essencial e o não
essencial, conservando-se o útil e se abandonando o dispensável. A
simplificação da base
cartográfica dá origem à carta-base, elaborada para receber um tema específico,
só apresentando as informações relevantes e
necessárias à representação do tema.
No
Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE se
constitui no principal provedor de dados e informações do
país, que atendem às necessidades dos mais diversos segmentos da
sociedade civil, bem como dos órgãos das esferas federal,
estadual e municipal, oferecendo uma visão completa e atual do
País, através do desempenho de suas principais
funções, dentre elas: a produção e análise de informações
estatísticas e a coordenação e consolidação
destas informações, a produção e análise de
informações geográficas e a coordenação e
consolidação destas informações, a
documentação e disseminação de
informações e a coordenação dos sistemas
estatístico e cartográfico nacionais.
Deste modo, foram tomadas decisões no
sentido de trabalhar com base nas informações fornecidas pelo
IBGE, já que, desta
forma, todas e quaisquer alterações ocorridas - tanto nas
questões relativas à formação territorial quanto
nas questões referentes às normas cartográficas -
são integralmente controláveis.
Foi
escolhida como base cartográfica a Base Cartográfica Digital
Integrada ao Milionésimo - bCIMd - v. 2.0, no formato compatível
para utilização no software
ArcGis - ESRI - v. 8.2.
Os
procedimentos iniciais consistiram na identificação das 250
localidades com base na escolha feita quando da elaboração do
Projeto e a associação destas mesmas localidades aos
topônimos oficiais registrados na Base Territorial Brasileira do IBGE. Em
seguida, foi feita a localização dos 250 pontos na bCIMd, todos
associados ao geocódigo adotado pelo IBGE.
A
partir daí, passou-se a trabalhar na generalização desta
base, com a eliminação das informações
desnecessárias, a redução nas informações
apresentadas e a definição dos elementos a serem representados.
A
base cartográfica apresenta vários níveis de
informação, sendo que para a elaboração da
carta-base foram usados, inicialmente, os níveis de limites - estaduais
e internacionais, localidades e hidrografia.
De
todos os três níveis citados foram suprimidas
informações de forma que: os limites remanescentes fossem os
estaduais e parte dos internacionais (apenas dos países
limítrofes), as localidades fossem restringidas aos 250 pontos ALiB e a
hidrografia só representasse as massas d´água
representativas no contexto nacional. Para os mapas regionais ou estaduais,
outras cartas-base serão criadas e adequadas às novas
necessidades.
Outras
decisões devem ainda ser tomadas:
·
no formato analógico, o formato para
impressão (tamanho) que implica diretamente na definição
da escala (ou a escolha da escala, que condiciona o tamanho do mapa), a forma
de apresentação (encadernado ou em folhas soltas), o uso de cores
ou não, a inserção de encartes, a quantidade de volumes e
a forma de arquivamento, dentre outros;
·
no formato digital, o formato da mídia (CD, DVD),
o uso de software (de domínio
público ou de uso restrito), a disponibilização ao
usuário (visualização apenas, acesso aos dados e tabelas),
se suporta recursos de som, imagem, tabelas e banco de dados e a quem compete a
gestão da informação;
·
inserção de encartes, tabelas e
gráficos;
·
representação das variáveis
sociais;
·
escolha das convenções
cartográficas, inserção de legendas e
informações marginais.
A toponímia merece
atenção especial e nem sempre é fácil o estudo de
topônimos. No caso brasileiro, a maior dificuldade está nos nomes
de origem indígena e, numa escala um pouco menor, nos de origem africana.
É importante, do ponto de vista
toponímico, que toda a nomenclatura, antes de entrar para o mapa, seja
submetida a uma análise, com o exame das origens de cada vocábulo
(ibérica, tupi-guarani, africana, religiosa, etc.), bem como o
significado de cada um, a fim de chegar-se, finalmente, ao ponto decisivo de
sua ortografia. Deve-se consultar o Índice de Topônimos da Carta
do Brasil ao Milionésimo, de 1970, publicação do IBGE
já que não existe outra publicação oficial mais
recente, embora este órgão esteja desenvolvendo o Banco de Nomes
Geográficos.
O posicionamento dos topônimos num mapa deve ser
feito de forma a não cobrir outros detalhes importantes.
Definida então a carta-base, retoma-se a
questão da representação do tema, que irá envolver,
conjuntamente, os especialistas da cartografia e da lingüística,
num trabalho de contínuas discussões e ponderações
até se chegar ao objetivo: representar os fenômenos
lingüísticos a contento da sua comunidade de especialistas sem
fugir dos princípios científicos e normatizados da cartografia.
Antes de se abordar a questão do
conteúdo, resta apresentar algumas observações
complementares e imprescindíveis para que a expressividade, a
legibilidade e a eficácia sejam conquistadas.
Condicionada pela escala e pela
generalização feitas, a simbologia (convenções
cartográficas) é de extrema importância. Os elementos
gráficos normalmente usados na representação são os
pontos, círculos, traços, polígonos, cores, hachuras, etc.
A variedade e a quantidade estão em função da escala.
Uma convenção deve ser simples e
também distinta, pequena e fácil de desenhar e permitir a
redução sem que se torne ilegível. O uso de cores ajuda
muito a se distinguir as convenções. Como se pode deduzir do que
foi exposto, a carta final apresentará sempre múltiplas e
variadas convenções que devem ser listadas e explicadas ao
leitor, de forma que as informações nela contidas possam ser
lidas e interpretadas sem dúvidas.
Como então representar os fenômenos
identificados na análise de modo a permitir uma ampla e boa leitura da
carta? As cartas deverão se ater ao fenômeno
lingüístico estudado, podendo ser enriquecidas com informações
adicionais indicadas no verso delas. Por exemplo, pode-se optar por: indicar a
forma lingüística através de símbolos e apresentar a
transcrição fonética no verso ou indicar na carta apenas a
primeira resposta, remetendo para o verso as demais. Outras
informações que podem constar no verso são: gráficos,
tabelas e notas.
As convenções são normalmente
representadas na legenda (ou quadro de convenções), dentro de uma
moldura, na parte inferior da carta. Na legenda de uma carta temática a
representação tem que reproduzir a convenção da
forma exata de como está representada na carta e somente aquelas que
nela aparecem.
Além da legenda, outras
informações importantes são inseridas nas cartas com o
intuito de completar e esclarecer: são as informações
marginais. As mais comuns são: o título, a projeção
cartográfica usada e os dados a ela associados, fontes das
informações usadas na execução, data, escalas
(gráfica e numérica), diagrama de articulação das
folhas (se for o caso) e um mapa de localização da área em
relação a uma área maior ou hierarquicamente mais
importante contendo os principais limites administrativos nela contidos.
A depender da escala e do sistema de coordenadas
adotado, poderão ainda ser representadas as redes de meridianos e
paralelos ou quadriculado das coordenadas plano-retangulares.
As informações listadas acima
correspondem àquelas que devem aparecer nas cartas de um modo geral. No
caso da cartografia temática, como a ênfase está no tema
representado, muitas delas são dispensáveis, a exemplo da escala
gráfica e da articulação das folhas.
Por fim, é fundamental que seja definido o
formato que o mapa terá, principalmente se o produto final for impresso.
O formato de um mapa depende da forma da
área a representar, o que pode apresentar problemas, já que
existem convenções e normas para inserção de
informações complementares, letreiros, legendas e molduras,
dentre outras.
O Brasil, pelas suas dimensões nos
sentidos Norte-Sul e Leste-Oeste (aproximadamente 4.400 km nos dois sentidos -
ligeiramente mais extenso no sentido Leste-Oeste), insere-se praticamente em um
quadrado. Esta forma geométrica é um pouco ingrata em termos
cartográficos, uma vez que praticamente qualquer
informação a ser acrescentada ao mapa só pode ser inserida
ou no Oceano Atlântico ou no recuo existente na Região
Centro-Oeste, limitando a escala, uma vez que, em se tratando de um trabalho
científico, deve-se adotar um dos padrões definidos pela
Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) - todos
retangulares.
Retomam-se adiante as questões relativas ao
conteúdo. De posse da carta-base (pré-determinada e caracterizada
anteriormente), iniciaram-se as tentativas e experiências de
representação, uma vez que os dados lingüísticos a
serem cartografados possuem características lingüísticas
diferentes. No processo de trabalho surgiram algumas perguntas.
1) Que
representar nas cartas lingüísticas?
Considerando que o AliB possui um questionário
composto por perguntas agrupadas em subtipos (Questionário
Fonético-Fonológico - QFF, Questionário
Semântico-Lexical - QSL, Questionário Morfossintático - QMS
além de questões referentes à pragmática, ao
registro de discursos semi-dirigidos, ao registro de natureza
metalingüística e de um texto para leitura), podemos de
antemão prever algumas possibilidades.
a) Agrupamento por variáveis
§
lingüísticas:
*
Variáveis
fonéticas
*
Variáveis
morfossintáticas
*
Variáveis
semântico-lexicais
*
Outros dados
§
sociais
*
Variável
gênero
*
Variável
faixa etária
*
Variável
escolarização
Para as varáveis fonéticas,
elaboração de cartas baseada em fenômenos fonéticos,
agrupando respostas a várias perguntas numa mesma carta, como por
exemplo:
§ /S/ em
coda silábica
§ /l/ em
coda silábica
§ Róticos
§
/t, d/ em contextos de
palatais (seguido de /i/ ou precedido de /j/)
§ Iotização
do / nh /
§ Iotização
do / lh /
§ Vogais
pretônicas
*
Anteriores
*
Posteriores
§ Vogais
postônicas
*
Finais
*
não finais
§
Ditongação
em sílaba terminada por sibilante
§ Monotongação
b) Agrupamento por respostas
às perguntas do questionário
Em um agrupamento desta natureza, seriam organizados
os dados a partir do questionário, produzindo-se cartas com o resultado
das respostas fornecidas pelos informantes para cada pergunta. Um agrupamento
deste tipo é pouco recomendável.
Independentemente do agrupamento escolhido,
também será necessário definir se a cartografia
será feita com base na primeira ocorrência encontrada, na
associação com as demais ocorrências fornecidas pelo
informante, na ocorrência de maior número ou de todas as
ocorrências. Isto só será possível diante da
análise dos dados. Para formas diferentes poderão ser adotados
critérios diferentes.
Se uma forma for categórica no país e
não apresentar variação, não será
necessário expressá-la em cartas, mas se as formas encontradas em
cada localidade, mesmo que em segunda ocorrência, forem reveladoras de
variação (diatópica, diageracional, diagenérica,
diastrática etc.) deverão ser cartografadas. Por exemplo, no
Brasil, ocorre a forma estilingue a
propósito da pergunta 157 do QSL (Como se chama o brinquedo feito de uma
forquilha e duas tiras de borracha, que os meninos usam para matar
passarinho?), mas também ocorrem as formas badoque, baladeira, funda, setra. O levantamento de todas as ocorrências nas 250
localidades poderá revelar outras formas e também poderá,
se contabilizadas as ocorrências em segunda e terceira respostas, revelar
que uma delas é categórica em todo o país.
2) Quais
serão os tipos de cartas a serem preparadas?
Sobre a representação dos dados em
mapas, pode-se ter, como apresentado por Altenhofen (2008), os seguintes tipos de mapas:
“Tipos de mapas:
Mapas ponto-símbolo
(fenotípicos etc.)
Mapas ponto-dado transcrito
Mapas ponto-dado sonoro
Mapas pluridimensionais
Mapas sintéticos
simples ponto-símbolo
Mapas sintéticos com
traçado de isoglossas
Mapas poligônicos
Mapas em série
(princípio do filme)”
3) Como
demostrar a variação em gênero, faixa etária e
escolarização? isoladamente? em conjunto?
Um desafio que se apresenta para a cartografia dos
dados lingüísticos é a definição sobre a forma
de representar a variação social. Encontra-se nos atlas
publicados e em trabalhos monográficos a apresentação de
dados através de cruz.
Para o ALiB estão consideradas três
variantes sociais: gênero, faixa etária e
escolarização. As variantes representadas em forma de cruz e consideradas em sua totalidade
gerariam mapas praticamente ilegíveis. Um estudo de cada fenômeno
poderá definir que o uso de representação em cruz se dará apenas para
fenômenos específicos e para variantes isoladas. O cruzamento de
todas as variantes poderá ser expresso em gráficos que devem ser
apresentados no verso das cartas, quando necessário.
Referências
ALTENHOFEN,
C. V. Cartografia Lingüística. VI WORKALiB - Workshop
do Projeto AliB - Atlas Lingüístico do Brasil. UFBA, 2008.
(apresentação em mesa-redonda).
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Básicas de Cartografia. Manuais Técnicos em
Geociências. n. 8. Rio de Janeiro: IBGE, 1999. 130 p.
TEIXEIRA, A.; CHRISTOFOLETTI, A. Sistemas de Informação
Geográfica. (Dicionário Ilustrado). São Paulo: Hucitec, 1997. 244 p.
TELES, A. R. T. F. Noções
de Cartografia. Departamento de Transportes da Escola
Politécnica, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2001. 64 p.
(Apostila).
TELES, A. R.
T. F. A
cartografia do ALiB. VI WORKALiB - Workshop do Projeto AliB - Atlas
Lingüístico do Brasil. UFBA, 2008. (apresentação em
mesa-redonda).
TELES, A. R.
T. F e RIBEIRO, S. S. C. Apresentando
a cartografia aos lingüistas: o Projeto ALiB. In: CARDOSO, Suzana e
MOTA, Jacyra (orgs.) Documentos 2 -
Projeto Atlas Lingüístico do Brasil. Salvador: Quarteto
Editora, 2006. p. 207-226.
PAINEL OS CAMINHOS DO ALiB
O ESTÁGIO ATUAL DO PROJETO ALiB
Jacyra Andrade Mota
(Universidade Federal da Bahia/CNPq/Brasil)
1.
O que é o Projeto Atlas Lingüístico
do Brasil
O projeto Atlas
Lingüístico do Brasil (ALiB) é um projeto interinstitucional
que tem por meta a realização de um atlas geral no Brasil no que
diz respeito à língua portuguesa. Iniciou-se em novembro de 1996,
por ocasião da realização, em Salvador, no Instituto de
Letras da Universidade Federal da Bahia, do seminário Caminhos e Perspectivas para a
Geolingüística no Brasil.
É coordenado por um Comitê Nacional que
envolve, atualmente, nove pesquisadores[14], de diferentes universidades brasileiras, a saber:
Suzana Alice Marcelino Cardoso (Presidente) e Jacyra Andrade Mota (Diretora
Executiva), ambas da Universidade Federal da Bahia; Abdelhak Razky
(Universidade Federal do Pará), Ana Paula Antunes Rocha (Universidade
Federal de Ouro Preto), Aparecida Negri Isquerdo (Universidade Federal de Mato
Grosso do Sul), Cléo Altenhofen (Universidade Federal do Rio Grande do
Sul), Maria do Socorro Silva Aragão (Universidade Federal da Paraíba
e Universidade Federal do Ceará), Mário Roberto Lobuglio
Zágari (Universidade Federal de Juiz de Fora), Vanderci de Andrade
Aguilera (Universidade Estadual de Londrina), Diretores Científicos.
Além
das universidades a que pertencem os membros do Comitê, mais oito
instituições participam do Projeto ALiB mediante a assinatura de
convênio: Universidade Federal do Maranhão, Universidade Estadual
do Ceará, Universidade Estadual de Campinas, Universidade Potiguar,
União Metropolitana de Educação e Cultura, Centro de
Ensino Atenas Maranhense, Centro Federal de Educação
Tecnológica da Paraíba e Fundação Casa de
José Américo.
Do ponto de vista metodológico, o Projeto ALiB
pauta-se pelos pressupostos da Geolingüística Pluridimensional
Contemporânea, contemplando, de modo sistemático, não
só a dimensão diatópica, característica dos
trabalhos dessa natureza, mas também outras dimensões como a
diagenérica ou diassexual, a diageracional e a diastrática. Para
atender a essa pluridimensionalidade, os informantes distribuem-se igualmente pelos
dois gêneros, por duas faixas etárias e, nas capitais de Estado,
por dois graus de escolaridade. Os diferentes tipos de questionário
permitem, ainda, a análise diafásica e diarreferencial das
amostras de fala, registradas em 250 localidades brasileiras.
2.
Etapas do desenvolvimento do Projeto ALiB
·
Primeira etapa - iniciada em novembro de 1996, com a implantação e
estruturação do Projeto. Nessa etapa fixou-se a metodologia a ser
seguida e foram desenvolvidos os instrumentos necessários à
pesquisa de campo, especialmente os questionários, cuja última
versão foi publicada em 2001.
·
Segunda etapa - iniciada com a realização do 1º. inquérito
lingüístico, no ponto de número 126 da rede do ALiB
(Quirinópolis, Goiás), em 1º de junho de 2001[15]. Essa etapa compreende a realização dos
inquéritos lingüísticos em todo o território nacional
e, apesar de bastante adiantada, ainda se encontra em andamento, devendo
estender-se até 2009.
·
Terceira Etapa - iniciada em 2004 e prevista para terminar em 2009, essa etapa
compreende a preparação das amostras coletadas para a
análise lingüística, com transcrição
grafemática e fonética, e a própria análise desses
dados, assim como a constituição de um banco informatizado de
dados.
·
Quarta etapa - prevê a preparação de cartas
lingüísticas, editoração e divulgação
dos resultados, com apresentação gráfica (em cartas
lingüísticas) e sonora (em CDs, DVDs e via internet), devendo estender-se até 2009.
3.
Estágio atual do Projeto
Vencida a etapa inicial,
desenvolvem-se, hoje, no Projeto ALiB três fases, concomitantemente,
relacionadas aos itens abaixo relacionados:
3.1 Constituição do corpus
O registro “in
loco” para a constituição do corpus do Projeto ALiB conta, presentemente, com a recolha integral
em 144 das 250 localidades previstas, o que corresponde a um percentual de
57,6%.
Vale destacar que, nesse
percentual, incluem-se 08 Estados com a documentação
concluída, alguns deles representados por apenas duas localidades (como
Acre e Amapá) e outros com um significativo número de pontos,
como São Paulo, estado em que, em razão de sua grande densidade
demográfica, se concentra o maior número de pontos (38) da rede
do ALiB.
Os Estados com
documentação concluída são: Acre, Alagoas,
Amapá, Mato Grosso do Sul, Paraná, Roraima, São Paulo e
Sergipe.
Em vista da decisão
tomada na XIII reunião do Comitê Nacional (Recife, 16-17 de julho de 2003)
de dedicar às capitais de Estado o volume 1 do ALiB, deu-se prioridade
ao registro nessas capitais, tendo-se completado, em todas elas, o trabalho de
campo.
Considerando o número
de informantes (08, nas capitais e 04, nas demais localidades), chega-se a um
total de 676 informantes dos 1.100 previstos, o que representa um percentual de
61,45% do total.
3.2 Transcrição
dos dados lingüísticos
As equipes regionais
coordenadas pelos membros do Comitê Nacional vêm realizando,
sistematicamente, a transcrição grafemática e
fonética dos dados referentes à documentação
coletada por cada grupo. Após a transcrição, em geral a
cargo de graduandos, bolsistas de Iniciação Científica, os
inquéritos passam por duas revisões, atendendo a critérios
previamente fixados em reuniões nacionais.
De acordo com os
relatórios apresentados durante o VI Workshop
do ALiB, que ocorreu em Salvador, em abril passado, as amostras das capitais
já se encontram transcritas, assim como grande parte dos
inquéritos das demais cidades.
A revisão final da
parte fonético-fonológica dos inquéritos realizados nas
capitais, distribuída entre os coordenadores das equipes regionais, deve
ficar pronta até o fim de 2008.
3.3
Análise de dados lingüísticos
A análise vem se
desenvolvendo, paralelamente ao levantamento e à
transcrição dos dados, atendendo, prioritariamente, aos fatos
fônicos referentes às capitais de Estado, para
elaboração do fascículo 2 do 1º volume do ALiB,
dedicado às cartas fonético-fonológicas.
Em cumprimento a um dos
principais objetivos do Projeto ALiB e de acordo com decisão tomada na
XI reunião do Comitê Nacional (Londrina, 11 a 15 de novembro de
2002), as análises fonético-fonológicas têm-se voltado,
sobretudo, para fatos que possam contribuir para a demarcação das áreas dialetais brasileiras e
possibilitar uma nova proposta de divisão dialetal do Brasil, em
substituição ou complementação à de
Nascentes (1953).
3.3.1. Fatos
fonético-fonológicos
São os seguintes os fatos
fonético-fonológicos em análise:
·
Vogais pretônicas
·
Vogais postônicas finais
·
Vogais postônicas não finais
· Ditongação em sílaba terminada
por sibilante
·
Monotongação
·
/S/ em coda silábica
·
/l/ em coda silábica
·
Consoantes palatais laterais e nasais
·
Iotização do -lh
·
Róticos
· /t, d/ em contextos de palatais (seguido de /i/ ou
precedido de /j/)
·
Diferenças prosódicas das assertivas
Resultados preliminares, referentes a algumas
áreas brasileiras, têm sido discutidos em Workshops do ALiB e em outros seminários e congressos, como,
entre outros: (a) Mota (2007a), Mota e Santos (2007) e Mota e Souza (2007), a
respeito das diferenças entre os falares identificados por Nascentes
(1953) como baiano e nordestino, a partir das realizações do / t, d /, diante da vogal alta palatal (/i/),
em vocábulos como tio, tarde, e depois da semivogal palatal
(/j/), como em muito, doido, em Salvador, Aracaju, Recife,
Maceió e Teresina; (b) Mota (2007b) e Mota e Oliveira (2007), com a
análise do valor estilístico de variantes estigmatizadas no
português do Brasil, como a realização despalatalizada ou
iotizada da consoante lateral palatal, em mulé,
véio (em lugar da
pronúncia padrão mulher,
velho), e a ausência dessa
mesma consoante, em fia (por filha), variantes que, em certas
elocuções, adquirem um valor estilístico, em seis capitais do Nordeste brasileiro
(Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, Teresina e João
Pessoa); (c) Mota e Jesus (2007), com o estudo do /S/ em coda silábica
no Nordeste, em formas como estrada, caspa, luz, fato que distingue subáreas sibilantes e chiantes, no
português do Brasil; e (d) Aragão (2008), com o estudo da
“Variação diatópica e diastrática na
língua portuguesa do Brasil”.
3.3.2. Fatos morfossintáticos ou
léxico-semânticos
Apesar da prioridade dada aos fatos fonéticos,
outros níveis vêm sendo analisados, no sentido de preparar os
fascículos seguintes do 1º volume do ALiB. A título de
exemplo, podem-se citar Cardoso (2007), com “A expressão
existencial do português do Brasil: Ter,
Haver e Existir”; Cardoso e Correia (2007), com “O estudo do
léxico de capitais brasileiras a partir de dados do Projeto Atlas
Lingüístico do Brasil”, em que se analisam as
denominações para arco-íris;
e Isquerdo (2007), com “Traços de ruralidade no vocabulário
de homens de grandes centros urbanos: uma tentativa de
caracterização”.
3.3.3. Questões
Metalingüísticas
A percepção que os falantes têm da
diversidade lingüística brasileira, que se busca apurar
através de 06 questões de natureza metalingüística
que integram os questionários do ALiB, foi objeto de análise realizada por Vanderci
Aguilera, na Universidad de Alcalá de Henares, Espanha, em 2006, em nível de
pós-doutorado. Nesse trabalho, intitulado “Crença e
atitudes lingüísticas: um estudo no português
brasileiro”, a autora procura descrever como os 200 informantes das 25
capitais brasileiras julgam a fala de outras áreas do País.
Os resultados dessa análise têm sido
divulgados em comunicações a congressos e outras reuniões
científicas, como, por exemplo, em “O que um Atlas nacional pode
revelar sobre crenças e atitudes de falantes das regiões
Centro-Oeste e Sul do Brasil”, “Crenças e atitudes
lingüísticas: o que dizem os falantes das capitais brasileiras
sobre os que falam diferente na localidade” e “Crenças e
atitudes lingüísticas: o que dizem os falantes das capitais
brasileiras”. (Cf. Aguilera, 2007a, 2007b, 2007c, respectivamente).
3.4 Constituição
de um Banco de Dados e preparação dos originais para
publicação
A constituição de um Banco de Dados e os
procedimentos necessários para a preparação de originais
para publicação estão a cargo da Comissão Nacional
de Informatização de Cartografia (CIC), presidida por Silvana
Ribeiro. Essa Comissão, instalada em Salvador, na Universidade Federal
da Bahia, em 1º de setembro de 2005, teve como objetivos:
·
Reunir
um grupo de pesquisadores de diferentes instituições
universitárias, com experiência em informatização de
dados lingüísticos e produção de cartas
lingüísticas a partir de Banco de Dados;
·
Definir
os pressupostos para o tratamento informatizado dos dados do ALiB;
·
Discutir
preliminares para a produção de mapas lingüísticos.
·
Na
ocasião, foram também apresentados programas anteriormente
utilizados na elaboração de atlas lingüísticos, como
o Atlas Lingüístico Sonoro do
Pará (Razky, 2004) e o Atlas
Lingüístico-Etnográfico da Região Sul do Brasil (Koch; Klassman; Altenhofen, 2002).
Os procedimentos
cartográficos e sua adequação a trabalhos de natureza
lingüística discutidos durante o V Workshop Nacional do Projeto ALiB, em Salvador, de 29 a 31 de
agosto de 2005, constam do texto “Apresentando a cartografia aos
lingüistas: o Projeto ALiB”, de Teles e Ribeiro (2006).
Atualmente, os pesquisadores
que integram a Comissão Nacional de
Informatização de Cartografia vêm-se reunindo semanalmente no Centro de Processamento de Dados
da UFBA, com vistas à apresentação de uma proposta de
Banco de Dados que atenda às necessidades de um projeto da
dimensão e complexidade do ALiB, considerando-se a extensão do
país, a densidade demográfica de algumas áreas, o
número de dados e de variáveis a considerar, etc.
Ao lado disso, a proposta da
base cartográfica que deverá receber os dados
lingüísticos, a cargo de Ana Regina Teles, encontra-se em fase
adiantada de elaboração.
4
Considerações finais
Decorridos mais de 10 anos
de sua implantação, o Projeto ALiB pode contabilizar, hoje,
saldos altamente positivos tanto do ponto de vista de um maior conhecimento do
português do Brasil, quanto do desenvolvimento da área de estudos
geolingüísticos no País, com o surgimento de diversas
equipes voltadas para essa área, a elaboração de
inúmeros atlas regionais - alguns publicados, outros apresentados sob a
forma de teses de Doutorado - reuniões científicas voltadas ao
estudo da diversidade do português do Brasil com base em dados
empíricos e mesmo o apoio (embora ainda insuficiente) das
instituições nacionais financiadoras de pesquisa.
O quadro que hoje se
delineia no Brasil, com relação à Dialectologia, e, mais
especificamente, à Geolingüística, justifica, segundo
Cardoso e Mota (2006) a proposição de uma 4ª. fase no
desenvolvimento da Dialectologia brasileira, que se somaria às
três fases já propostas por Cardoso e Ferreira (1994), tendo como
marco divisor o ano de 1996, ano em que se iniciou o Projeto ALiB.
Referências
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um atlas nacional pode revelar sobre as crenças e atitudes de falantes
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Portuguesa do IP-PUC/SP - 3º Congresso Internacional de Lusofonia, Resumos. São Paulo: PUC-SP, 2008.
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CARDOSO, Suzana; FERREIRA, Carlota. A Dialectologia no Brasil. São
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KOCH, Walter; KLASSMAN, Mário; ALTENHOFEN,
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Brasil. V. I - Introdução, V.
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versus falar nordestino: o que
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207-226.
VARIANTES HISPÂNICAS NO
PORTUGUÊS RURAL DA REGIÃO
SUL DO BRASIL - EMPRÉSTIMOS
LEXICAIS[16]
Patrícia Graciela da Rocha
(PGL - Universidade Federal de Santa Catarina)
1. Introdução
A divisão do português brasileiro em
áreas lingüísticas tem sido proposta por bom número
de pesquisadores, especialmente a partir da primeira metade do século
XX, quando até decreto oficial houve para a elaboração de
um “Atlas Lingüístico do Brasil”. Nessa época
destacaram-se os estudos de Antenor Nascentes[17], nos quais o autor divide o “falar brasileiro em seis
subfalares”, reunidos em dois grupos: “falar do norte” e
“falar do sul”. Desde então, vários pesquisadores se
dedicaram a estudos geolingüísticos para testar empiricamente as
hipóteses de Nascentes. Alguns desses estudos, como os de Cardoso (1986,
1996) no centro-nordeste, têm apontado fortes coincidências de
resultados com as linhas traçadas por Nascentes.
No entanto, não é intenção
aqui discutir a validade da divisão do falar brasileiro proposta por
Nascentes, mas deter-nos no falar da Região Sul, mais diretamente ligado
à área de estudo do ALERS no eixo da arealidade, priorizado pelos
geolingüistas, ou seja, uma descrição da
variação diatópica.
De acordo com Altenhofen (2002, p. 121), ao
delimitarmos áreas lingüísticas, delimitamos, também,
hipoteticamente, fatores extralingüísticos determinantes dessas
áreas, em virtude da possibilidade de correlação existente
entre a “variante do português em estudo” e “os
traços extralingüísticos do meio geográfico”,
tais como origem e etnia da população, atividades econômicas,
densidade demográfica e redes de comunicação,
migrações históricas, grau de isolamento e de
urbanização, características do espaço em termos de
relevo, vegetação e hidrografia, entre outros.
A Região Sul do Brasil tem uma pluralidade
social, cultural e geofísica rara, que lhe confere um status particular no estudo do
português brasileiro. Koch (2000, p. 59) destaca quatro fatores que
seriam os principais determinantes externos das variantes do português
falado na Região Sul: 1) a presença de açorianos no leste
de Santa Catarina; 2) a existência de fronteiras políticas com
países de fala hispânica no extremo sul e o contato
português-espanhol derivado dessa situação; 3) o contato
entre paulistas e gaúchos em dois fluxos migratórios opostos e o
papel das rotas dos tropeiros paulistas no comércio do gado; e 4) a
existência de áreas bilíngües expressivas, originadas
da instalação, nas (antigas) zonas de floresta, de imigrantes
europeus não lusos a partir do século XX.
Além disso, podemos acrescentar a
ocupação da área norte do Paraná por paulistas e a
relevância das migrações internas no processo recente de
ocupação da região.
Altenhofen (2002, p. 133) levanta algumas
hipóteses evidenciadas pelas fotografias geolingüísticas do
ALERS[18] e delimita oito áreas lingüísticas
principais na configuração diatópica do português
falado na Região Sul do Brasil. Nessa delimitação, o autor
distingue, além de áreas bilíngües e de
transição, três “corredores de projeção
de traços” e três “zonas laterais”: 1)
área de transição (Leque
Catarinense, postulado por KOCH, 2000); 2) corredor central de
projeção paranaense; 3) corredor oeste de projeção
riograndense; 4) corredor leste de projeção riograndense (feixe riograndense, na
interpretação de KOCH, 2000); 5) zona lateral
açoriano-catarinense; 6) zona lateral do Paraná do norte (feixe paranaense, na
interpretação de KOCH, 2000); 7) zona lateral da fronteira
sul-rio-grandense; e 8) áreas bilíngües de português
de contato.
Mais especificamente, a fronteira sul do Rio Grande do
Sul com o Uruguai, de acordo com Altenhofen (2002, p. 128), guarda
traços de momentos históricos diversos de ocupação
da área e oscilações das fronteiras históricas com
o espanhol. Isso se observa mais nitidamente no léxico, como atestam
Koch (1995), Bunse & Klassmann (1969) e Rodriguez (1998), os quais
registram uma série de hispanismos antigos que podem ser caracterizados
como formas de preservação de marcas de substrato por terem
sobrevivido à dominação posterior pelo português. De
acordo com esses autores, são exemplos dessa preservação
as palavras jugo = canga, planchar = passar a ferro, piola = barbante, esquilar = tosar, dentre outros. Além do nível
léxico, os autores apontam preservação nos planos
fonéticos e morfossintáticos, pois a maioria das isoglossas[19] analisadas por eles estende-se até o
centro-norte do Estado, não se limitando apenas à zona lateral
fronteiriça, como acontece no caso de ê e é
diante de /s/ em final de sílaba, como em três e dez, que
nessa zona oferecem maior resistência à ditongação.
Nesse sentido, esse trabalho é parte de uma
pesquisa vem dar seqüência a uma série de trabalhos
geolingüísticos e sociolingüísticos que vem sendo
desenvolvidos através do banco de dados do ALERS, do Varsul, do
BDSPampa, entre outros, os quais têm explorado aspectos fonéticos
e morfossintáticos, na sua maioria, no espaço geográfico
da Região Sul do Brasil. Neste trabalho, pretendemos estudar variantes
lexicais do português falado no Sul do Brasil que se concretizam como
empréstimos do espanhol nessa região.
2. Metodologia de análise
O método utilizado para o levantamento e
apresentação dos dados é o da geolingüística
tradicional, utilizado pelo ALERS.
As variantes apresentadas a seguir percorreram a
seguinte trajetória de análise: 1) Verificação
visual dos mapas a fim de verificar se havia alguma arealização
dos itens que se aproximasse das regiões de fronteira do Sul do Brasil
com os países hispânicos vizinhos; 2) Verificação
dos significados das variantes no Dicionário da Real Academia Espanhola
(DRAE); 3) Verificação dos significados das variantes no Novo
Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa; 4)
Verificação dos significados encontrados em outros dicionários
regionalistas brasileiros e/ou hispânicos com comentários
relevantes para a descrição mais apurada de algumas variantes (Dicionário Gaudério;
Vocabulário Pampeano - pátrias - fogões - legendas;
Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul; “Doctus”
Nuevo Diccionario Castellano; El Habla del Pago; Diccionario Lunfardo[20] entre outros) e,
por fim, 5) Verificação dos fatores culturais, históricos,
sociais, econômicos, étnicos que podem ter influenciado a
arealização ou a existência dessas variantes
hispânicas em determinados lugares, além de comentários de
nativos hispanofalantes sobre os itens referidos[21].
Para que pudéssemos sugerir que, neste
trabalho, uma palavra usada na Região Sul do Brasil (falante de
português brasileiro) é empréstimo ou não do
espanhol, seja ele platino, americano ou europeu, elegemos alguns
critérios, são eles: 1) Formar uma arealização
geolingüística clara na Região Sul do Brasil em
direção à fronteira com os países hispanofalantes
vizinhos (Uruguai, Argentina e Paraguai); 2) Estar registrada nos
dicionários espanhóis e 3) Constar na bibliografia consultada
como empréstimos do espanhol.
Como mencionado anteriormente, são consideradas
variantes hispânicas, neste trabalho, aquelas palavras que formam uma
arealização diatopicamente clara e relevante na Região Sul
do Brasil em direção à fronteira com os países
hispanofalantes vizinhos (Uruguai, Argentina e Paraguai) e que são
encontradas em dicionários espanhóis e/ou aparecem na
bibliografia consultada como originárias do espanhol platino ou europeu,
ou como empréstimos dessa língua.
A literatura consultada apontava, entre outros
vocábulos, as palavras coxilha, sanga, planchar, piola, esquilar, cerro, rastilho e jugo como tomados do espanhol platino.
De fato, podemos afirmar que encontramos, nos dados do ALERS, outras variantes
hispânicas que são, além de cerro, coxilha, sanga, rastilho e jugo já descritas pela
literatura, galpão, bagual,
coiúdo (colhudo), pastor, borrego, guampudo, aspa, guampa, cola,
garrão, chicochoelo, rengo, lunanco, bolita, bodoque, pandorga
(pandolga, bandorga), rinha de galo, carreira, jogo da/de tava, guisado,
borracho e bolicho, consideradas,
nesse trabalho, como indícios claros de empréstimos do espanhol.
Além dessas palavras acima mencionadas, encontramos outras variantes
supostamente hispânicas e cognatas, ou seja, palavras que já estão
largamente difundidas no português brasileiro, ou então, palavras
que pertencem aos dois idiomas e que resistem (ou não foram
substituídas por outras variantes lusas), nas regiões de
fronteira, pela semelhança. São elas: ladeira (ladeirão), taipa (de pedra), bergamota, lavrar, carreta
(de duas rodas), apear (pear, apinhar), machorra, corvo, jugo, pêlo
(cabelo duro), caloteiro, repouso (materno), raia, crioulo, corpinho (corpim),
carpim, chibo (chibarro), astilhar, rengo, bidu e pucho.
No entanto, devido ao pouco espaço destinado a
artigo, analisamos mais detalhadamente apenas o item lexical Jogo de/da tava.
3.1 O caso do Jogo de /da
tava
Com a intenção de levantar variantes
lexicais usadas para designar jogo do
osso, o ALERS fez a seguinte pergunta: O
jogo em que se atira um osso para ver quem tem sorte?
Como pode ser examinado no mapa do ALERS n° 323, a
palavra que se destaca na Região Sul é jogo do osso, que
corresponde a mais de 50% das respostas na Região, distribuindo-se
principalmente no Centro e Leste do Rio Grande do Sul (embora haja muitas
respostas prejudicadas neste e nos outros estados). Já em Santa Catarina
as variantes mencionadas foram jogador,
jogo da sorte e jogo de/ da galinha, variante
esta constatada também em alguns pontos do Paraná.
No
entanto, o que chama a atenção na configuração
desse mapa é a distribuição das variantes jogo de/ do osso e jogo de/ da tava no espaço que delimita o Estado do RS, pois
é possível traçar uma isoléxica clara que parte do
extremo sul do Estado, em Santa Vitória do Palmar, e se desloca em
direção ao Oeste do Estado, passando por Dom Pedrito, Santiago,
São Luís Gonzaga até chegar ao Noroeste do Estado na
cidade de Santo Augusto. Ou seja, a configuração do mapa da
figura 22 é diatopicamente relevante para esta pesquisa, pois
reforça a hipótese de que o contato com o espanhol intenso e
efetivo nessa região do Estado do RS deixou marcas no português
falado na zona rural nessa região.
Quanto à origem do termo, jogo de/ da tava (taba), o DRAE sugere que taba é do árabe hispânico ká‘ba e este do
árabe clássico ka‘bah
que significa jogo em que se atira ao ar una taba de carneiro, ou outro objeto
similar, e se ganha ou se perde segundo a posição em que caia
aquela.
O Aurélio considera tava, variante de taba,
vindo do espanhol platino taba.
Brasileirismo do Rio Grande do Sul que constitui o osso do jarrete da rês
vacum e é ao mesmo tempo um jogo gaúcho, que consiste em se
atirar ao ar o tava com um lado chato
e outro redondo, vencendo aquele que fizer tombar a parte chata (sorte) para
baixo.
Garcia (1953) afirma que taba, em espanhol,
é o mesmo que astrálago e também, o jogo do osso.
Além disso o autor traz expressões como menear taba (na América, Argentina, quer dizer charlar, dar
à trela) e menear (uno) las tabas
(no sentido figurado significa andar com muita pressa).
Braun (1998) acrescenta
ainda que Jogo da tava é o
mesmo Jogo de osso, conhecido, em toda a vasta campanha. É o mesmo
jogo de tava, ou carnicol em castelhano. E o autor prossegue
[...] trazido ao solo pampeano pelos andejos da
Espanha, que o guasca, cheio de manha, agauchou com perícia dando mais
arte e malícia no chão de nossa campanha. E o guasca o levou
consigo às rudes tabas
selvagens, onde os índios, personagens barbarescas deste chão, o
fizeram diversão nas suas disputas brabas, Talvez daí o nome tabas dado ao osso do garrão. E o
astrágalo da rês foi sendo chamado taba que o selvagem falquejava desquinando cada lago, um deles bem
achatado, outro com reintrância forte, é a cara chamada sorte e o culo
é o lado aplainado (coroa). Consiste o jogo em lançar a tava no ar, girando, duas ou três
voltas dando na direção da “raia” conforme o lado que
caia o jogador perde ou ganha. É o jogo que, na campanha dá
peleia a la gandaia. Houve um tal de João das Pedras, no meu pago
Missioneiro, indiosito carpeteiro, mais feio do que um macaco, mas que na tava era taco. Que eu vi, num dia de
olada, botar quarenta “clavada” dentro do mesmo buraco. (BRAUN,
1998, p. 206-207).
Nunes & Nunes (2003) confirmam a versão de
Braun (1998) e acrescenta que o Jogo da tava é um jogo muito
usado na fronteira, principalmente pela baixa camada social. O autor descreve
ainda mais detalhadamente as regras e o espaço destinado ao jogo
Vancê sabe como se joga o osso? / Ansim: /
Escolhe-se um chão parelho, nem duro, que faz saltar, nem mole, que
acama, nem areento, que enterra o osso. / É sobre o firme macio que
convém. A cancha com uma braça de largura, chega, e três de
comprimento; no meio bota-se uma raia de piola, amarrada em duas estaquinhas ou
mesmo um risco no chão, serve, de cada cabeça da cancha é
que o jogador atira, sobre a raia do centro: este atira daqui pra lá, o
outro atira de lá pra cá. / O osso é a taba, que é
o osso do garrão da rês vacum. O jogo é só de culo ou suerte. / Culo é
quando a taba cai com o lado
arredondado pra baixo: quem atira assim perde logo a parada. Suerte é quando o lado chato fica
embaixo: ganha logo e sempre. / Quer dizer: quem atira culo perde, se é suerte
ganha logo e arrasta a parada. / Ao lado da raia do meio fica o coimeiro que é o sujeito
depositário da parada e que a entrega logo ao ganhador. O coimeiro
também é que tira o barato - para o pulpeiro. Quase sempre
é algum aldragante velho e sem-vergonha, dizedor de graças. /
É um jogo brabo, pois não é? / pois há gente que se
amarra o dia inteiro nessa cachaça e parada a parada envida tudo: os
bolivianos, os arreios, o cavalo, o poncho, as esporas. O facão nem a
pistola, isso, sim, nenhum aficionado joga; os fala-verdade é que
têm de garantir a retirada do perdedor sem debocheira dos ganhadores ...
e, cuidado ... muito cuidado com o gaúcho que saiu da cancha do osso de
marca quente!...” (LOPES NETO apud NUNES & NUNES, 2003, p. 253-254).
Vê-se nessas descrições que jogo da tava/taba se refere a um jogo de
gaúchos, os quais podem ser os homens do campo de qualquer país
da América do Sul, pois vejamos o que dizem dois hispanofalantes sobre
esse item: “a taba é um jogo de gaúchos, se usa um osso do
joelho da vaca, se lança ao ar e deve cair em ‘cara ou
coroa’” (Informante 1, argentino de Buenos Aires). Jogo da tava
é o “jogo de gaúchos chilenos do sul, se joga com ossos de
bois (Informante 2, chileno de Concepción).
Dessa forma, é perfeitamente
compreensível que em quase toda a área do estado do Paraná
e em algumas áreas de Santa Catarina e Norte do Rio Grande do Sul, esse
item não tenha sido registrado, ou seja, as pessoas que responderam ao
inquérito do ALERS não conhecem esse jogo e por isso não o
nomearam. Trata-se então de uma palavra que representa uma cultura de um
povo, de uma determinada região, que não é constatada em
outro.
4. Áreas lexicais de
influência hispânica
A partir dessa pesquisa foi possível delimitar
áreas lexicais e isoléxicas na Região Sul do Brasil que se
distribuem em áreas junto às fronteiras com o Uruguai e Argentina
e que, ora avançam do Sul do Rio Grande do Sul em direção
ao Oeste de Santa Catarina e Paraná (acompanhando a rota de migração
dos gaúchos rumo à exploração do Centro-Oeste do
país) e ora avançam do sul em direção ao Centro de
Santa Catarina e Paraná (acompanhando a rota estabelecida pelo caminho
dos tropeiros).
Quanto ao grau de interferência do espanhol no
português devemos concordar com
Thun (2000), quando afirma que, no Uruguai, a influência do contato com o
português é heterogênea, pois na faixa imediatamente
limítrofe à fronteira o português segue se fortalecendo graças
ao contato contínuo com o Brasil ao passo que, mais longe da fronteira,
na zona distante, a vitalidade do português diminui. Sendo assim, podemos
afirmar que o mesmo se aplica ao português de contato com o espanhol, nas
áreas limítrofes aos países hispânicos, já
que, quanto mais longe das fronteiras, menor é a interferência das
variantes de origem hispânica.
No entanto, era esperado que, nos lugares de contato
mais intenso, ocorresse maior influência da língua espanhola no
léxico do português, formando áreas lexicais mais
homogêneas. Nessa perspectiva, imaginava-se que na fronteira de Santa
Catarina com a Argentina, houvesse pouca influência, assim como em
algumas regiões do RS. Mais uma vez nossa hipótese se confirmou,
porém, em parte, pois, embora a fronteira de Santa Catarina tenha pouco
contato (geográfico, comercial, turístico etc.) ela sofre a
influência dos migrantes gaúchos que se deslocam em
direção ao Centro-Oeste do país.
5. Considerações finais
É possível concluir que a difusão
de empréstimos do espanhol varia quanto ao modo e quanto à
intensidade. Há casos cuja diatopia se restringe a áreas de
fronteira, em particular às fronteiras meridionais com o Uruguai e
Argentina: rastilho, coiúdo
(colhudo), chicochoelo, borracho, jogo da tava. Outras variantes,
além de serem largamente usadas nas regiões próximas
às fronteiras, alcançaram grande difusão, ocorrendo,
inclusive, em regiões de baixo ou nenhum contato com o espanhol, entre
as quais estão: galpão,
bolita e bodoque.
Há também casos de variantes registradas
em alguns pontos de fronteira, mas não em outros, avançando,
ás vezes, pelo território, em áreas afastadas da
fronteira, como é o caso de sanga,
coxilha, garrão, aspa. As causas da maior ou menor difusão
são diversas, mas o deslocamento de populações na
Região Sul, seja em razão do comércio de gado, seja devido
a migrações internas em busca de novas terras, tem alta
relevância, pois com os falantes, também desloca-se a
língua, ou deslocam-se as línguas.
No entanto, devemos admitir
que podem ter escapado aos nossos olhos muitos vocábulos de
influência espanhola, pois é comum ao pesquisador se acostumar aos
dados e imaginar que eles não servem, ou então que eles são
perfeitos. Sendo assim, acabamos sendo subjetivos embora tenhamos que ser
objetivos. Porém, não temos a intenção de acabarmos
aqui com todas as discussões acerca dos empréstimos lexicais do
espanhol no português brasileiro, pelo contrário, nos sentimos
quase pioneiros na área e acreditamos que discussões mais
aprofundadas sobre o tema enriqueceriam muito a dialetologia brasileira.
Como se sabe, o
português falado no Sul do Brasil e, mais especificamente nas
regiões de fronteira, onde o contato com o espanhol é mais
intenso, apresenta centenas de outras palavras atribuídas a esse
contato. Isso é facilmente comprovado na interação
lingüística com habitantes desses lugares e na literatura, tanto em
textos em prosa (ver, por exemplo, Rapa
de tacho v. I, II e III de Silva Rilho), quanto em poemas e letras de
música gauchesca. Todavia, sem o método
geolingüístico de investigação, pouco se pode dizer
sobre a distribuição diatópica e sobre os grupos sociais
responsáveis pela difusão.
Há ainda que
ressaltar que, as conseqüências lingüísticas
atribuídas ao contato português-espanhol no Sul do Brasil
não se restringem aos empréstimos lexicais. Muitos outros
aspectos, tanto gramaticais quanto pragmático-discursivos, caracterizam
essa variedade de português existente nessa região. Nesse sentido,
nosso estudo é uma pequena e inicial contribuição na
descrição desse português.
Devemos mencionar,
também, que, devido às limitações do banco de dados
do ALERS não podemos fazer afirmações categóricas
acerca do assunto em questão, já que são entrevistados apenas
um indivíduo por ponto de inquérito conforme o modelo da
geolingüística tradicional. No entanto, isso não invalida a
pesquisa já que a recorrência de um item em cidades
próximas reafirma o uso do mesmo naquela região.
Por fim, esperamos despertar
nos futuros leitores um interesse no assunto e desejamos ter
contribuído, ao menos modestamente, com os estudos em dialetologia no
Sul do Brasil, principalmente os sobre o contato do português com o
espanhol, já que os estudos continuam sendo escassos nessa área.
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[1] O Prof.
Valter Koch faleceu em fevereiro passado.
[2] Confira a
esse respeito Isquerdo (2006).
[3] A
primeira edição da obra “Formação do Brasil
Contemporâneo”, de Caio Prado Júnior é de 1942. Para
este trabalho consultamos a 9ª impressão da 23ª
edição, de 2006.
[4] As informações
históricas acerca das capitais brasileiras foram buscadas
fundamentalmente no site oficial do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística): http://biblioteca.ibge.gov.br/
.
[5] “Cada uma de uma
série de expedições, particulares ou oficiais, de
penetração do território brasileiro na época
colonial (sXVI a XVIII), que ger. partia da capitania de São Vicente
(atual SP) e tinha como objetivos fundamentais a captura de indígenas e
a detecção de jazidas de pedras e metais preciosos”
(HOUAISS, 2001).
[6] “Qualquer das expedições que,
descendo e subindo os rios das capitanias de São Paulo e Mato Grosso,
nos sXVIII e XIX, mantinham as comunicações entre os
vários pontos dessas capitanias” (HOUAISS, 2001).
[7] Palmas, a capital do estado de
Tocantins, e Brasília, atual
capital do Brasil, não serão focalizada aqui por não
integrarem a rede de pontos do Projeto ALiB pelas razões já
expostas.
[8] A respeito
da terminologia de classificação de topônimos, confira Dick
(1992).
[9]
MARROQUIM, M. A língua do Nordeste. Curitiba: HD Livros, 1996, p.
9.
[10] Os dados
aqui contidos foram retirados de CARDOSO, S.A.M. et al. Projeto Atlas
Lingüístico do Brasil -AliB. Salvador: UFBA, 2000.
[11] MARROQUIM, M. A língua do nordeste.
Curitiba: HD Livros, 198-96, p. 9.
[12] TARALLO, F. A pesquisa
sociolingüística. São Paulo: Ática, 1985, p. 70.
[13] CARDOSO,
S A. M. et al. Op. cit. p. 13.
[14] O professor
Walter Koch, que esteve no Comitê Nacional desde a sua
implantação, em 1996, faleceu em fevereiro do corrente ano.
[15]
Inquérito realizado por Vanderci de Andrade Aguilera.
[16] Este
trabalho é baseado na minha dissertação de Mestrado
(ROCHA, 2008) com algumas modificações.
[17]
Esboço(s) para a elaboração do Atlas
Lingüístico do Brasil I (1958) e II (1961) e d’ O linguajar
carioca (1953).
[18] ALERS:
Atlas Lingüístico-Etnográfico da Região Sul do
Brasil.
[19]
Entende-se por Isoglossa a linha virtual que marca o limite, também
virtual, de formas e expressões lingüísticas.
[20] Por Lunfardo entende-se:
“Ladrón 2. Jerga del ladrón porteño (‘En
el lunfardo [palabra que designa al
mismo tiempo a la jerga y los que se valen de ella] de los ladrones
bonaerenses, se nota muchas locuciones cuyo empleo a todas luces revela la
necesidad de recurrir en ciertos casos a una jeringoza especial…’,
Drago, Los hombres…, 66). 3. Lenguaje que emplea en Buenos Aires la gente
de mal vivir […] 4. Lenguaje
popular de Buenos Aires y sus aledaños.” (OLIVEIRA, 2005.p.1240125).
[21] Esses
comentários serão retirados dos questionários aplicados
aos nativos, via e-mail.