Projeto 20

 

ATLAS LINGUÍSTICO DO BRASIL (Projeto ALiB)

 

Coordenadora:

Jacyra Andrade Mota - jacymota@gmail.com

 

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XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ALFAL

Bogotá D.C. - Colômbia

24-28 de julho de 2017

 

PROGRAMAÇÃO

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1º. DIA – Terça-feira, 25, 09:00h - 12:00h

1.    Aline Farias (UFRJ); Dinah Callou (Orientadora, UFRJ). Sobre duração vocálica e apagamento do rótico em coda silábica: uma análise acústica

2.    Ingrid Oliveira (UFRJ); Carolina Serra (UFRJ). Apagamento do r em coda silábica externa: a Região Sul do Brasil

3.    Dinah Callou (UFRJ); Aline Farias (UFRJ); Bruna Martins (UFRJ) A propósito da concordância verbal e das origens do português brasileiro

4.    Josane Moreira de Oliveira (UEFS). O imperativo verbal no Nordeste brasileiro: um caso de variação e mudança linguística

 

 

2º. DIA – Quarta-feira, 26, 09:00h - 12:00h

1.        Mayra Santana (UFRJ); Karilene da Silva Xavier (UFRJ). Variação e prosódia no corpus do ALiB: uma análise dos róticos em coda nas capitais do sul do Brasil

2.        Priscila Francisca dos Santos (UFRJ). A variação entonacional no Rio Grande do Sul: as interrogativas totais

3.        Beatriz Aparecida Alencar (UFMS). Denominações para 'bolinha de gude' no estado de São Paulo a partir de dados do Projeto ALiB: panorama e análise

4.        Marcela Moura Torres Paim (UFBA). Os fraseologismos no campo semântico convívio e comportamento social nas capitais do Brasil

 

 

3º. DIA - Quinta-feira, 27, 09:00h - 12:00h

1.        Conceição de Maria de Araujo Ramos/UFMA; José de Ribamar Mendes Bezerra/UFMA; Flávia Pereira Serra/UFMA. Um estudo da variação denominativa da banana gêmea com base nos dados do ALiB.

2.        Fabiane Cristina Altino (UEL). As denominações de pão francês nas Regiões Sul e Sudeste.

3.        Georgiana Márcia Oliveira Santos (UFMA). A variação no campo semântico-lexical vestuário e acessórios: uma abordagem geossociolinguística com base no corpus constituído para o ALiMA

4.        Vanderci de Andrade Aguilera (UEL/CNPq). Uma análise da variação lexical no campo da vida urbana.

 


 

RESUMOS

 

 

Aline Farias (alinejfarias@gmail.com)

Orientadora: Dinah Callou (dcallou@gmail.com)

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

SOBRE DURAÇÃO VOCÁLICA E APAGAMENTO DO RÓTICO EM CODA SILÁBICA: UMA ANÁLISE ACÚSTICA

O trabalho busca estabelecer uma correlação entre o fenômeno do apagamento variável do rótico em posição de coda silábica final e a configuração fonológica da sílaba no português brasileiro. A amostra utilizada faz parte do corpus do Projeto ALIB (https://alib.ufba.br/) e compõe-se de elocuções de fala espontânea de quatro falantes de Teresina/PI e quatro de Correntes/PI, com até o 5º ano do ensino fundamental. Além de confirmar hipóteses sobre a influência de fatores linguísticos e sociais na aplicação da regra variável de apagamento do rótico — dentro da perspectiva da sociolinguística variacionista (LABOV, 1994) — propõe-se uma análise acústica, por meio da qual serão analisadas as unidades de duração da sílaba (moras), visando a responder a como se daria a (re)organização temporal da sílaba quando ocorre a queda do segmento. Hyman (1985) postula que uma sílaba pesada possui duas unidades temporais: uma mora que estaria associada ao onset + núcleo e outra que estaria relacionada à consoante em coda. Caberia indagar se, quando ocorre a queda do segmento em coda, (i) a unidade temporal seria mantida, através de um possível alongamento compensatório da vogal, ou (ii) esta unidade temporal desapareceria. Estudos acústicos sobre a aquisição do constituinte coda revelam que o “alongamento compensatório” é uma estratégia de reparo temporal, em que o falante alonga a vogal que antecede o segmento em coda, com o objetivo de manter a unidade temporal da sílaba (MEZZOMO, 2003). Busca-se verificar se tal comportamento se reflete na fala espontânea de indivíduos adultos. Os resultados preliminares, relativos aos falantes nascidos em Teresina, apontam para um possível prolongamento da vogal: a média duracional da vogal da sílaba em que rótico é foneticamente realizado, é de 0,185 segundos, enquanto a média da vogal, quando se dá o cancelamento do segmento, é de 0,261 segundos, ou seja, a duração da vogal sem a preservação do R é 41% maior.

 

 

 

Beatriz Aparecida Alencar (bia83_12@hotmail.com)

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

 

DENOMINAÇÕES PARA 'BOLINHA DE GUDE' NO ESTADO DE SÃO PAULO A PARTIR DE DADOS DO PROJETO ALIB: PANORAMA E ANÁLISE

A importância dos entretenimentos infantis e, consequentemente do lúdico, manifesta-se por meio de jogos e diversões infantis que, por sua vez, revelam aspectos da cultura de uma comunidade de falantes, inclusive na norma lexical desse grupo social. Este estudo tem como objetivo analisar as denominações para o conceito expresso na pergunta como se chamam as coisinhas redondas de vidro com que os meninos gostam de brincar?” – pergunta 156 que integra a área semântica dos jogos e diversões infantis do Questionário Semântico-Lexical do Projeto ALiB (Atlas Linguístico do Brasil). Para tanto são examinados os dados coletados pelo Projeto ALiB nas 37 localidades relativas à rede de pontos no Estado de São Paulo, além dos oriundos das 10 cidades limítrofes com a fronteira de São Paulo (uma em Mato Grosso do Sul, três no Paraná, quatro em Minas Gerais e duas no Rio de Janeiro), região neste estudo considerada área de controle. Foram, enfim, examinadas as respostas fornecidas por 192 informantes, quatro de cada uma das localidades situadas no interior e oito na capital paulista, de ambos os sexos, de duas faixas etárias (10-30; 50-65), com grau de escolaridade universitário na cidade de São Paulo e até o ensino fundamental completo, no interior e na capital. O estudo pauta-se em pressupostos teóricos da Dialetologia e da Lexicologia, ancorando-se também em fundamentos da Semântica, da Etnolinguística e da Antropologia Linguística. A análise busca demonstrar, com base no recorte da questão investigada, a inter-relação entre léxico, cultura e a história social que singulariza o Estado de São Paulo, além de traçar possíveis áreas dialetais de uso das variantes lexicais documentadas.

 

 

 

Conceição de Maria de Araujo Ramos (conciufma@gmail.com)

José de Ribamar Mendes Bezerra (comendesufma@gmail.com)

Flávia Pereira Serra (flaviapserra@gmail.com)

Universidade Federal do Maranhão

 

UM ESTUDO DA VARIAÇÃO DENOMINATIVA DA BANANA GÊMEA COM BASE NOS DADOS DO ALiB

Este trabalho enfoca o léxico sob uma perspectiva dialetal, com base em dados orais coletados in loco, para a elaboração do Atlas Linguístico do Brasil (ALiB). Tomamos o questionário Semântico-Lexical do ALiB (QSL), mais especificamente o campo temático atividades agropastoris, com o objetivo geral de mapear as denominações referentes ao conceito expresso na pergunta 43 – “Como se chamam duas bananas que nascem grudadas?”. Objetivamos, ainda, analisar essas denominações não só do ponto de vista diatópico, mas também diastrático. A análise das unidades lexicais extraídas das respostas dos informantes selecionados fundamenta-se nos princípios da Geolinguística, da Dialetologia e da Lexicologia. Dicionários gerais da língua portuguesa e obras regionais também subsidiam a análise. O estudo apresenta formas variantes que fazem parte do léxico ativo de sujeitos naturais das 25 capitais brasileiras integrantes da rede de pontos do ALiB. Considerando a totalidade dos dados, a forma gêmeas (~ gêmis), presente nas cinco regiões brasileiras, representa mais da metade das respostas obtidas, sendo seguida pelas variantes filipe (~ filipinho), cõen (~ cõins), mabaça, pregada (~ pegada), colada, grudada. Essa diversidade de formas registradas pelo ALiB ratifica a inestimável contribuição que os atlas linguísticos podem dar para que tenhamos um conhecimento mais circunstanciado do léxico do português brasileiro.

 

 

 

Dinah Callou (dcallou@gmail.com)

Aline Farias (alinejfarias@gmail.com)

Bruna Martins (brunalara100@hotmail.com)

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

A PROPÓSITO DA CONCORDÂNCIA VERBAL E DAS ORIGENS DO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Neste trabalho observa-se a variação da concordância verbal (os meninos estudam/ os meninos estudaØ) na fala de indivíduos com diferentes graus de escolaridade (maior ou menor que 9 anos), em 17 capitais do Brasil. A amostra foi extraída de entrevistas informais do corpus do Projeto ALIB, distribuídos por faixa etária e gênero. A análise busca identificar marcas de concordância dos verbos na 3ª pessoa do plural e, para isso, baseamo-nos no aparato teórico-metodológico da sociolinguística quantitativa laboviana (Labov, 1994), fazendo uso do programa Goldvarb2001.

Esse tema, amplamente analisado, é utilizado na discussão sobre o estabelecimento das origens do português brasileiro e pretende-se aqui contribuir para mostrar que a dicotomia “deriva secular” (variação seria embrionária no PE) versus “contato” (resultante do intenso contato linguístico, por transmissão irregular da língua) acaba por deixar de lado alguns questionamentos e não faz jus à complexidade sociohistórica da implantação da língua portuguesa no Brasil. O apagamento da marca mostrou-se sensível a condicionamentos linguísticos e extralinguísticos, tais como, grau de animacidade do sujeito, distanciamento do sujeito para o verbo, posição do sujeito na oração, saliência fônica, faixa etária e região.

O caráter inovador do trabalho reside em procurar relacionar o percentual de ocorrência do processo a indicadores demográficos e história social das comunidades. É necessário verificar se as características atestadas no português brasileiro, que o afastam do português europeu, estão presentes em todas as áreas do nosso território ou só naquelas em que predominou a presença africana. Até o momento, o que vimos comprova que o processo apresenta comportamento e regras semelhantes de uso, na chamada fala culta e não-culta, no país todo, com diferenças apenas nos índices percentuais.

 

 

 

Fabiane Cristina Altino (fabiane_altino@uol.com.br)

Universidade Estadual de Londrina

 

AS DENOMINAÇÕES DE PÃO FRANCÊS NAS REGIÕES SUL E SUDESTE

Os primeiros 50 anos da Geolinguística no Brasil consolidaram os estudos dialetológicos. Avanços metodológicos, pesquisas que recobrem o território nacional e a publicação dos primeiros volumes do Atlas Linguístico do Brasil – ALiB trouxeram o reconhecimento para a Geolinguística brasileira e propiciaram um salto quantitativo e qualitativo nos estudos da área. Publicados os primeiros dados do Projeto ALiB, é hora de “debruçar-se” sobre os registros, analisá-los e devolver os resultados para a apreciação da comunidade. Esta comunicação insere-se nesta perspectiva e busca fazer o levantamento das designações dadas pelos informantes das Regiões Sul e Sudeste para a questão 186 do Questionário Semântico Lexical, na área semântica da Alimentação e Cozinha que verifica as denominações para o conhecido pão francês. O objetivo geral delimitado para esta pesquisa é o de apresentar a cartografação da distribuição diatópica das variantes para o pão feito com farinha branca e de formato oblongo. Para esta comunicação, são estabelecidos os seguintes objetivos específicos: (i) descrever e analisar as variantes registradas sob a perspectiva da Geolinguística Pluridimensional (THUN, 1998). As variantes serão analisadas e descritas com base nas variáveis estabelecidas pelo projeto: sexo e faixa etária. Para o interior o ALiB estabelece apenas a escolaridade fundamental dos informantes. (ii) cotejar os dados registrados nas capitais referentes às escolaridades selecionadas no projeto (fundamental e superior). (iii) verificar a lexicalização das formas linguísticas coletadas nas localidades estudadas. (iv) verificar a resistência de variantes, observada a partir da dimensão rural X urbana. Os resultados parciais apontam para a diversidade de variantes motivadas pela religião ou pela colonização. Desse modo, espera-se estabelecer um panorama da variação linguística na fala do português brasileiro no que se refere ao item selecionado nas regiões destacadas para esta apresentação.

 

 

 

Georgiana Márcia Oliveira Santos (gsantos_23@yahoo.com.br)

Universidade Federal do Maranhão

 

A VARIAÇÃO NO CAMPO SEMÂNTICO-LEXICAL VESTUÁRIO E ACESSÓRIOS:

UMA ABORDAGEM GEOSSOCIOLINGUÍSTICA COM BASE NO CORPUS CONSTITUÍDO PARA O ALIMA

A língua é um fenômeno sociocultural heterogêneo em função da ação de fatores como idade, sexo, localidade, escolaridade, etc. Nessa perspectiva, o Atlas Linguístico do Maranhão – ALiMA vem investigando amplamente a variação no português maranhense a partir de estudos, por exemplo, sobre o aspecto semântico-lexical, uma vez que esse aspecto reflete, de forma especial, a vital heterogeneidade de uma língua. Para enriquecer os estudos já desenvolvidos pelo ALiMA, esta pesquisa, em andamento, com base nos pressupostos teórico-metodológicos da Dialetologia e da Geossociolinguística, tem o objetivo de investigar o léxico maranhense no campo Vestuário e Acessórios constitutivo tanto do Questionário Semântico-Lexical – QSL do ALiMA quanto do ALiB aplicado no Maranhão. Assim, o corpus deste trabalho é constituído pelas respostas dadas às questões 212 a 220 do QSL desses Atlas e a análise dos dados tem permitido evidenciar a variação lexical maranhense ocorrida nesse campo e identificar fatores diatópicos, diastráticos e diageracionais que influenciam a ocorrência dessa variação. Dessa forma, esta pesquisa já evidencia a interferência, por exemplo, do fator diageracional na variação desse campo, a propósito da recorrência da variante rouge no grupo da faixa etária II (50 a 65 anos), e blush, no grupo da faixa I (18 a 30 anos). Além disso, este trabalho contribuirá para o desenvolvimento de estudos comparativos no que concerne aos resultados obtidos nesse campo em outros estados. Seguindo a metodologia do ALiB e do ALiMA, os informantes desta pesquisa são mulheres e homens, das faixas etárias I e II, de, inicialmente, 05 municípios maranhenses.

 

 

 

Ingrid Oliveira (oliver.ingrid@hotmail.com)

Orientadora: Carolina Serra (carolserraufrj@gmail.com)

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

APAGAMENTO DO R EM CODA SILÁBICA EXTERNA:

A REGIÃO SUL DO BRASIL

A partir de dados do projeto AliB, focalizamos neste trabalho o fenômeno variável de apagamento do R, em posição de coda silábica final (dizeR), confrontando o comportamento linguístico de indivíduos de três cidades do interior da região sul: Criciúma (SC), Caçapava do Sul (RGS) e Guarapuava (PR). Serão utilizadas amostras de fala (discurso semidirigido) de indivíduos com baixo grau de escolaridade (até a quarta série do Ensino Fundamental), de ambos os gêneros e de duas faixas etárias distintas -- de 18 a 30 anos e de 50 a 65 anos. Nosso objetivo principal é verificar o avanço do cancelamento do rótico em coda silábica externa no Sul do país. Nos dialetos dessa região a consoante mantém-se ainda como uma vibrante ápico-alveolar; nossa hipótese portanto é a de que há uma frequência ainda baixa de cancelamento em coda, se comparada a de cidades como Rio de Janeiro e Salvador, que apresentam pronúncias do R mais posteriorizadas (fricativa velar/fricativa laríngea), e onde o apagamento em posição de coda final é quase categórico (CALLOU; SERRA, 2012). Com base no aparato teórico-metodológico da sociolinguística quantitativa laboviana (Labov, 1994) E da teoria da hierarquia prosódica (NESPOR; VOGEL, 1986), pretende-se investigar a atuação de fatores linguísticos e sociais na aplicação do processo, além do seu encaixamento na estrutura prosódica da língua: quanto mais alta a fronteira prosódica maior seria a tendência à preservação, o que poderia explicar a diferença de índices de apagamento em fronteiras interna e externa à própria palavra (CALLOU; SERRA, 2013; CALLOU; SERRA, 2015). Resultados preliminares apontam, para a cidade de Criciúma, um índice de apagamento do R de 94% em verbos e 3% em não-verbos. O comportamento em Caçapava do Sul foi semelhante, com 88% de apagamento em verbos e 9% em não-verbos.

 

 

 

Josane Moreira de Oliveira (josanemoreira@hotmail.com)

Universidade Estadual de Feira de Santana / Universidade Federal da Bahia

 

O IMPERATIVO VERBAL NO NORDESTE BRASILEIRO: UM CASO DE VARIAÇÃO E MUDANÇA LINGUÍSTICA

A expressão do imperativo verbal é variável no português do Brasil, podendo ser realizada com formas de subjuntivo (pegue, traga, venha) ou com formas de indicativo (pega, traz, vem). Embora a prescrição gramatical associe as primeiras formas ao pronome você e as segundas formas ao pronome tu, o que se observa é que ambas as formas ocorrem em áreas dialetais em que também ambos os pronomes estão em variação. Os resultados de pesquisa feita a partir de dados das capitais brasileiras, coletados nos inquéritos realizados pelo Projeto ALiB, apontam que o imperativo com a forma de indicativo predomina no português brasileiro (65% de um total de 2535 ocorrências) e que o imperativo com a forma de subjuntivo – considerada conservadora – subsiste nas capitais do Nordeste (com exceção de São Luís), em Porto Velho e em Curitiba (OLIVEIRA, 2016). Com o objetivo de mapear essa variação no Brasil, que é ao mesmo tempo dialetal e sociolinguística, e avançando a pesquisa pelas cidades do interior do Brasil, apresentam-se aqui os resultados da análise dos dados de cidades do Nordeste do Brasil, que integram a rede de pontos do Projeto ALiB. O estudo, a partir do quadro teórico-metodológico da Sociolinguística Variacionista (LABOV, 1972, 1994, 2001, 2010), além da variável diatópica, considera também as variáveis extralinguísticas ‘sexo’ e ‘faixa etária’ e as variáveis linguísticas ‘polaridade da sentença’, ‘paradigma verbal’ e ‘extensão fonológica do verbo’. Os resultados apontam para um processo de mudança em curso, condicionado por fatores estruturais, sociais e diatópicos.

 

 

 

Karilene da Silva Xavier (karilened@gmail.com)

Mayra Santana (mstn18@yahoo.com.br)

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

VARIAÇÃO E PROSÓDIA NO CORPUS DO ALiB:

UMA ANÁLISE DOS RÓTICOS EM CODA NAS CAPITAIS DO SUL DO BRASIL

Neste trabalho, pretende-se realizar uma análise complementar do comportamento variável dos róticos em coda medial e final, nas capitais da região Sul do Brasil, partindo-se dos resultados apresentados nas cartas F04C1, F04C2, F04C4, F04C5 e F04C6 do 2º volume do Atlas Linguísticos do Brasil (CARDOSO et al., 2014). As amostras de fala utilizadas fazem parte do corpus do Projeto ALiB (estratificado por gênero, faixa etária, nível de escolaridade e localidade de origem do falante), e foram selecionadas de todos os trechos da entrevista em que havia conversa entre inquiridor e falante, constituindo-se de fluxos maiores de fala, o que é imprescindível à análise prosódica e sociolinguística que se pretende realizar. Faz-se uso do aparato teórico-metodológico da Sociolinguística Quantitativa Laboviana (LABOV, 1994), buscando testar a atuação das variáveis linguísticas: classe morfológica, dimensão do vocábulo, contexto antecedente, contexto subsequente, consoante subsequente, tonicidade da sílaba; e das variáveis sociais tradicionalmente testadas, e sua relação com o tipo de realização do segmento. Focalizando a coda final, lança-se mão ainda da teoria da hierarquia prosódica (SELKIRK, 1984; NESPOR; VOGEL, 1986/2007), para testar possível condicionamento prosódico ao fenômeno, a depender da localização do rótico em relação às fronteiras de palavra prosódica, sintagma fonológico ou sintagma entoacional (SERRA; CALLOU, 2013, 2015). A hipótese é de que quanto mais alta a fronteira prosódica maior a tendência à preservação do segmento, o que poderia explicar a diferença de índices diferenciados de apagamento em fronteira interna (coda medial) e externa (coda final) à própria palavra. Em relação à coda medial, intenta-se também verificar a atuação do léxico para o cancelamento e a taxa de frequência dos itens lexicais no corpus. A hipótese é de que itens frequentes são mais suscetíveis a mudanças sonoras (BYBEE, 1995), pois a repetição gera automatização dos gestos articulatórios e, então, redução de segmentos.

 

 

 

Marcela Moura Torres Paim (marcelamtpaim@yahoo.com.br)

Universidade Federal da Bahia

 

OS FRASEOLOGISMOS NO CAMPO SEMÂNTICO CONVÍVIO E COMPORTAMENTO SOCIAL NAS CAPITAIS DO BRASIL

Resumo: Vinculado ao Projeto VALEXTRA (Variação lexical: teorias, recursos e aplicações): do condicionamento lexical às constrições pragmáticas, convênio CAPES/COFECUB 838/15 celebrado entre a Universidade Federal da Bahia e a Universidade Paris 13 (Laboratório LDI – Lexiques, Dictionnaires, Informatique), este trabalho objetiva, a partir do material coletado pela pesquisa do Projeto Atlas Linguístico do Brasil, apresentar um estudo sobre a presença de fraseologismos nos dados referentes ao campo semântico convívio e comportamento social nas capitais brasileiras. O termo fraseologismo está sendo aqui concebido, conforme Tristá (1988), que considera esse campo do estudo da linguagem como um ramo da Linguística que tem por objeto de estudo a análise de combinações de palavras as quais formam novas unidades lexicais ou têm o caráter de expressões fixas, como se ilustra com mão de vaca, unha de fome (variantes de pessoa sovina); mulher de vida fácil, mulher de programa (variantes de prostituta) dentre outras. Parte-se do princípio de que por unidade fraseológica se entende toda e qualquer frase ou expressão cristalizada, cujo sentido geral não é literal, utilizada pelos falantes em situações comunicativas específicas e cujo significado do todo não resulta da soma do sentido das partes. No que diz respeito aos fraseologismos analisados podem-se fazer algumas considerações preliminares: as criações lexicais analisadas contemplam a polilexicalidade; as unidades fraseológicas refletem a estabilidade no sentido atribuído por Tristá (1988) de relação tão estreita entre os elementos que os leva a perderem o significado primário para adquirirem um novo sentido. Assim, as designações enfocadas possibilitam a visualização da diversidade lexical e geolinguística do português falado no Brasil.

 

 

 

Priscila Francisca dos Santos (prisciladossantoss@hotmail.com)

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

A VARIAÇÃO ENTONACIONAL NO RIO GRANDE DO SUL: AS INTERROGATIVAS TOTAIS

Esta pesquisa prevê a análise dos aspectos prosódicos de enunciados interrogativos totais de 10 municípios do Rio Grande do Sul: Bagé, Chuí, Três Passos, Erechim, Passo Fundo, Vacaria, Santana, São Borja, Flores da Cunha e Santa Cruz do Sul a fim de descrever as suas características melódicas intrínsecas. Para tal, utilizar-se-ão como suporte teórico os princípios da Fonologia Entoacional, encontrados em Pierrehumbert (1980), Ladd (1986) e Prieto (2003), e da Fonologia Prosódica, encontrados em Nespor e Vogel (1986). O corpus utilizado para a feitura da pesquisa provirá do Atlas Linguístico do Brasil (doravante ALiB), o qual se fundamenta nos princípios gerais da Geolinguística, priorizando a variação espacial ou diatópica. Através desta pesquisa, busca-se verificar se os padrões melódicos descritos por Moraes (2008), para as interrogativas totais neutras do Português do Brasil (doravante PB), e por Silva (2011), para as interrogativas totais do Rio Grande do Sul, também se farão presentes nos munícipios interioranos do estado em foco. Serão ouvidos quatro informantes em cada cidade, dois homens e duas mulheres distribuídos equitativamente por duas faixas etárias: 18-30 anos e 50-65 anos. Os enunciados selecionados devem obedecer aos seguintes critérios: a) constituir um único sintagma entoacional (I), de acordo com a hierarquia prosódica apresentada em Nespor e Vogel (1994); b) apresentar uma elocução neutra, isto é, desprovida de manifestações de foco ou ainda de expressões de sentimento ou atitude; e c) possuir uma qualidade sonora adequada para a segmentação silábica e medição dos valores da Frequência Fundamental. A análise dos dados será feita com o auxílio do programa computacional Praat.

 

 

 

Vanderci de Andrade Aguilera (vanderciagui@gmail.com)

Universidade Estadual de Londrina/CNPq

 

UMA ANÁLISE DA VARIAÇÃO LEXICAL NO CAMPO DA VIDA URBANA

Para o Campo da Vida Urbana, o Questionário Semântico Lexical do Atlas Linguístico do Brasil traz nove questões das quais selecionamos as respostas para: semáforo (194), lombada (195), calçada (196), meio-fio (197), rotatória (198) e terreno (199). Este trabalho tem como objetivos: (i) descrever o quadro de variantes das capitais por estado e por região; (ii) fazer uma análise motivacional das variantes coletadas (CONTINI, 2007; ALINEI, 1995) e (iii) verificar se há interferência de alguma variável extralinguística no caso de denominações predominantes na localidade ou região. O corpus constituído indica que a maioria das questões acima não propiciou respostas polimórficas, exceto as de nº 197 e 198. No cômputo geral das respostas dadas, a propósito da Questão 197, meio-fio lidera, ocorrendo, porém, variantes regionais, como sarjeta, guia, cordão, coxia e fio-de-pedra, entre outras; a Questão 198, a mais polimórfica, apresenta 25 variantes, mas apenas quatro (retorno, rotatória, contorno e rótula) apresentaram índices mais elevados. Quanto às demais, temos: (a) para a Questão 195, foram registradas as variantes lombada e quebra-molas; (b) para a Questão 196, obtivemos 216 registros dos quais se destacam calçada e passeio; (c) sobre a Questão 199, destacamos apenas as variantes terreno e lote. Os dados das capitais para semáforo constam do volume 2 do ALiB (CARDOSO et al, 2014). Os dados apontam, também, que a metáfora parece ser o recurso mais utilizado na criação de nomes para os novos referentes urbanos. Da mesma forma, observamos que as diferenças dialetais no Brasil, no que se refere ao léxico, ocorrem não só no plano diatópico, mas também diastrático, uma vez que denominações menos frequentes foram registradas junto a falantes do nível fundamental de ensino.

 

 

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XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ALFAL

Bogotá D.C. - Colômbia

24-28 de julho de 2017

 

 

CONVOCATÓRIA

 

O Projeto 20 Atlas Linguístico do Brasil desenvolverá atividades no XVIII Congresso da ALFAL e temos o prazer de convidar todos os membros do Projeto ALiB e os que queiram se associar a essa programação. Para tanto:

 

1. Devem enviar um resumo, nos prazos determinados (até 10 de dezembro de 2016) e seguindo as normas divulgadas pela organização do Congresso, diretamente para alib@ufba.br, com cópia para Jacyra Mota (jacymota@gmail.com) e para Suzana Cardoso (suzalice@gmail.com), indicando no assunto “Resumo para Projeto 20-Congresso da ALFAL”.

 

2. Os temas a serem abordados devem vincular-se à Geolinguística em geral ou a atlas linguísticos especificamente, com enfoque em quaisquer dos níveis de abordagem da língua.

 

3. Os trabalhos podem ser apresentados sob a forma de comunicação oral ou de pôster.

 

4. Os resumos serão apreciados por uma comissão constituída pelo Projeto.

 

5. Carta de aceite será enviada aos participantes.

 

Contamos com a participação dos colegas.

Suzana Cardoso e Jacyra Mota

 

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XVII Congreso Internacional

Asociación de Lingüística y Filología de América Latina

Associação de Linguística e Filologia da América Latina

(ALFAL)

14 a 19 de julho de 2014

João Pessoa (Paraíba, Brasil)

 

 

 

ATIVIDADES DURANTE O XVII CONGRESSO

 

PROJETO 20

PROJETO ATLAS LINGUÍSTICO DO BRASIL

 

Coordenação

Suzana Alice Marcelino Cardoso (UFBA/CNPq)

Jacyra Andrade Mota (UFBA/CNPq)

 

As atividades do Projeto 20 - Atlas Linguístico do Brasil foram estruturadas em cinco níveis: conferências, sessões de comunicação, minicurso, sessão de pôsteres e reunião do Comitê Nacional que dirige o Projeto.

 

Conferências - As conferências versaram sobre os temas Contribuição do Projeto ALiB aos estudos geolinguísticos de língua portuguesa e Dialectologia urbana: mapeando a variação do futuro verbal no português do Brasil, sob a responsabilidade, respectivamente, de Suzana Alice Marcelino Cardoso (UFBA/CNPq) e Josane Moreira de Oliveira (UEFS).

 

Sessões de comunicação - Nas sessões de comunicação foram apresentados os seguintes trabalhos:

 

·      Ana Regina Teles (UFBA) - A identificação de localidades de atlas linguísticos publicados: o cuidado na transposição para os mapas atuais.

·      Aparecida Negri Isquerdo (UFMS/CNPq) - Descrevendo a norma lexical do português do Brasil a partir dos dados do Projeto ALiB.

·      Silvana Soares Ribeiro (UFBA) - Brinquedos e brincadeiras infantis na área dos falares baianos.

·      Edmilson José de Sá (UFPB) - Atlas Linguístico de Pernambuco: da metodologia aos resultados.

·      Simone Negrão de Freitas (UFPA), Marilúcia Barros de Oliveira (UFPA) - Palatalização das consoantes oclusivas alveolares /t/ e /d/ em falares do Norte e do Nordeste do Brasil.

·      Jacyra Mota (UFBA/CNPq) - As vogais pretônicas nas capitais brasileiras a partir dos dados do ALiB.

·      Maria do Socorro Silva de Aragão (UFPB/UFC) - Ditongação e Monotongação nas capitais brasileiras.

Minicurso - Sob a responsabilidade da Profa. Dra. Josane Moreira de Oliveira (UEFS) foi oferecido o minicurso Introdução ao GoldVarb X, com uma carga horária de sete horas, tendo como objetivos: a) conhecer e utilizar a ferramenta GoldVarb X; b) codificar, processar e analisar dados linguísticos e c) desenvolver habilidades para a interpretação dos resultados emitidos pelo GoldVarb X. O conteúdo programático tratou dos seguintes tópicos: (i) A sociolinguística quantitativa; (ii) O corpus; (iii) O GoldVarb X - Origem, Instalação, Uso, Interpretação dos resultados; (iv) Apresentação dos resultados - tabelas e gráficos.

Sessão de pôsteres - Foram expostos na sessão geral de pôsteres, mas com tema vinculado ao Projeto 20, dois trabalhos:

·      Amanda dos Reis Silva (UFBA) - Variação fonética em capitais brasileiras: a ditongação diante de /s/ e as realizações do /s/ em coda.

·      Élide Elen da Paixão Santana - Morfemas de gênero no estado da Bahia: formas de feminino para “alemão”, “chefe”, “ladrão” e “presidente”.

 

Reunião do Comitê Nacional - Como sucede em todos os congressos, aproveita-se a presença de pesquisadores membros do Comitê Nacional que dirige o Projeto e realiza-se mais uma reunião de coordenação. Para essa, que se identifica como a XXXVIII reunião, foi proposta e discutida a seguinte pauta: (i) Informes; (ii) Complementação da constituição do corpus; (iii) Balanço da publicação dos volumes 1 e 2; (iv) Programação do volume 3, com estabelecimento de novos prazos; (v) Programação do XII WORKALiB e (vi) O que ocorrer.

No que concerne ao planejamento para os próximos anos, depois de avaliado o andamento do Projeto e fixados prazos para finalização de etapas já estabelecidas, destacam-se dois tipos de ação: (i) implementação da publicação de novos volumes que deverão voltar-se para a análise de dados referentes à totalidade dos estados e ao conjunto de pontos previstos em cada um; e (ii) a incorporação de pesquisadores, com suas equipes, de outras universidades que não aquelas já vinculadas, mediante acordo firmado. Nesse campo específico, destaca-se, ao lado do acolhimento de outros pesquisadores, a abordagem de novos temas ou a ampliação do campo de investigação já em curso.

Por fim, cabe uma breve palavra no campo da avaliação da proposta de abrir espaços para projetos acolhidos pela ALFAL. O fato de se ter introduzido na programação oficial dos Congressos de ALFAL um espaço para os mais diversos projetos, constitui-se num ganho porque (i) dá a esses projetos uma maior visibilidade, (ii) permite o diálogo entre pesquisadores vinculados ao tema do projeto e de diferentes regiões; (iii) assegura a possibilidade de organizar um conjunto de apresentações que possam atender a reclamos da coletividade dessa área específica.

 

 

 

 

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Projeto 20: “PROJETO ATLAS LINGUÍSTICO DO BRASIL (Projeto ALiB)”

 

Coordenadoras: Suzana Alice Marcelino Cardoso e Jacyra Andrade Mota
                                       
suzalice@ufba.br                  jacymota@ufba.br

 

 

XVII Congreso Internacional ALFAL

14 a 19 de julho de 2014 

João Pessoa (Paraíba, Brasil)

 

 

PROGRAMAÇÃO

 

                                                 Dia 16 de julho

14 hs.

Conferência

 

Suzana Cardoso - UFBA

A contribuição do Projeto ALiB aos estudos geolinguísticos de língua portuguesa

 

 

 

Comunicações

14:45 hs.

Ana Regina Teles - UFBA

A identificação de localidades de atlas linguísticos publicados: o cuidado na transposição para os mapas atuais.

 

14:45 hs.

Aparecida Negri Isquerdo - UFMS

Descrevendo a norma lexical do português do Brasil a partir dos dados do Projeto ALiB

 

16 hs.

Conferência

 

Josane Moreira Oliveira

Dialetologia urbana: mapeando a variação do futuro verbal no português brasileiro.

 

 

 

Comunicações

17 hs.

Geisa Borges da Costa - UFRB

Diversidade linguística do item lexical “diabo”: uma análise a partir dos dados do Projeto ALiB.

 

17:30 hs.

Silvana Soares Ribeiro - UFBA

Brinquedos e brincadeiras infantis na área dos falares baianos.

 

18:30 hs.

Edmilson José de Sá - UFPB

Atlas Linguístico de Pernambuco: da metodologia aos resultados.

 

 

 

                                                 DIA 17 de julho

 

 

Comunicações

14 hs.

Dircel Aparecida Kailer - UEL, Édina de Fátima de Almeida - UEL

Variantes do /r/ em coda silábica no interior paranaense

 

14:30 hs.

SimoneNegrão de Freitas - UFPA), Marilúcia Barros de Oliveira - UFPA

Palatalização das consoantes oclusivas alveolares /t/ e /d/ em falares do Norete e do Noprdeste do Brasil

 

15 hs.

Marigilda Antônio Cuba - UEL

Desafios da coleta de dados para um atlas topodinâmico: a questão do perfil dos informantes

 

 

 

                                                DIA 18 de julho

 

 

Comunicações

14 hs.

Maria Silvana Militão - UFC

Os róticos em coda silábica em localidades do interior cearense: dados do ALiB

 

14:30 hs.

Jacyra Mota - UFBA

As vogais pretônicas nas capitais brasileiras a partir dos dados do ALiB

 

 

15 hs.

Maria do Socorro Silva de Aragão - UFPB/UFC

Ditongação e Monotongação nas capitais brasileiras

 

16 hs.

REUNIÃO DO COMITÊ NACIONAL DO PROJETO ALIB

 

 

 

CONVOCATORIA

O Projeto 20-Projeto Atlas Linguístico do Brasil desenvolverá atividades que constituem a Programação prevista para esse XVII Congresso Internacional da ALFAL, voltadas para dois grandes eixos:

 

  • Andamento do Projeto Atlas Linguístico do Brasil
  • Estágio atual da geolinguística no Brasil, particularmente no que concerne à produção de teses e dissertações nesse campo e aos atlas em curso.

 

A Programação consiste em palestras, sessões de comunicação, minicurso e sessão de pôsteres, organizada como a seguir se indica:

 

1. Sessão de comunicações I - Teses e Dissertações em andamento no campo da Geolinguística Brasileira. 

 

2. Sessão de comunicações II - O Projeto ALiB: resultados parciais.

 

3. Debate: Atlas linguísticos em curso: caminhos metodológicos.  

 

4. Conferência: Suzana Alice Marcelino Cardoso, Contribuição do Projeto ALiB aos estudos geolinguísticos de língua portuguesa.

 

5. Conferência: Josane Moreira de Oliveira, Dialectologia urbana: mapeando a variação do futuro verbal no português do Brasil”.

 

6. Minicurso: Introdução ao GoldVarb, ministrado por Josane Moreira de Oliveira

 

7. Sessão de pôsteres.

 

A apresentação de comunicação e de pôsteres é aberta a todos os interessados na área e os trabalhos devem ser relacionados aos temas propostos. Para inscrever um trabalho no Projeto 20 devem os interessados seguir as instruções divulgadas pela organização do congresso.

 

 

 

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ATIVIDADES DURANTE O XVI CONGRESSO

 (Alcalá de Henares)

 

Avaliação do funcionamento do Projeto 20 - Atlas Linguístico do Brasil durante do XVI Congresso da ALFAL

 

            O Projeto 20 - Atlas Linguístico do Brasil - reuniu-se, pela segunda vez, nos espaços de congressos da ALFAL. Em relação ao primeiro encontro, ocorrido por ocasião do XV Congresso, em Montevidéu, observou-se uma menor participação de pesquisadores, o que se explica pelos locais de realização desses congressos, uma vez que a vizinhança com o Uruguai favoreceu a presença de pesquisadores. O encontro de Alcalá contou com a participação de onze pesquisadores, com ausência de estudantes, diferentemente do que sucedeu em Montevidéu, e com a apresentação de dez trabalhos.

 

            Os trabalhos apresentados constituíram-se em comunicações que caminharam em duas direções: (i) avaliação da metodologia do Projeto com análise crítica da realização de inquéritos e da aplicação dos diferentes questionários - fonético-fonológico, semântico-lexical, morfossintático e discursivo, com exame das questões semidirigidas -, e (ii) apresentação de análise de dados do corpus do Projeto, com focalização de aspectos do léxico e da prosódia.

 

            O tempo destinado ao Projeto 20 - três turnos de quatro horas cada um - foi suficiente para o desenvolvimento da programação que, além das sessões de apresentação e discussão de trabalhos, contou com a realização da XXXII Reunião do Comitê Nacional, à qual estiverem presentes cinco dos nove membros do Comitê e mais seis membros de quatro das Equipes Estaduais (Maranhão, Ceará, Bahia e Rio de Janeiro).

 

            Acredita-se que a destinação de espaço para Projetos é uma idéia a ser mantida, verificando-se, porém, a necessidade de ajustes na forma de organização de modo a expandir a possibilidade de participação e fomentar a interação entre projetos que apresentem objetivos afins ou similares.

 

                                   Salvador, 30 de junho de 2011.

 

Suzana Alice Marcelino Cardoso (Diretora-Presidente do Projeto ALiB)

 Jacyra Andrade Mota (Diretora Executiva do Projeto ALiB)

 

 

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Actividades del Proyecto en el XV Congreso de la ALFAL

 

Coordenadoras: Suzana Alice Marcelino Cardoso e Jacyra Andrade Mota

 

Programação:

 

DIA 19 - agosto de 2008 - das 16:30h às 20:30h

 

Palestra: O Projeto ALiB - das origens ao momento atual (Suzana Alice Marcelino Cardoso, Universidade Federal da Bahia/CNPq/Brasil)

 

Painel: A metodologia do Projeto ALiB

 

Ø   A construção da pesquisa: rede de pontos, questionários, informantes, técnicas de realização de inquéritos (Jacyra Andrade Mota, Universidade Federal da Bahia/CNPq/Brasil)

Ø   A rede de pontos: uma reflexão sobre a história social das capitais de estado que integram o Projeto ALiB (Aparecida Negri Isquerdo, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/Brasil)

 

Sessão de comunicações

 

·               De Nascentes ao ALiB: um estudo de dados (Fabiane Cristina Altino, Universidade Estadual de Londrina/Brasil)

 

·               Variação lexical em Minas Gerais (Mário Zágari, Universidade Federal de Juiz de Fora, Ana Paula Rocha, Universidade Federal de Ouro Preto/Brasil)

 

 

Apresentação de pôsteres

 

DIA 20 - agosto de 2008 - das 16:30h às 19:30h

 

Painel: A Geolingüística brasileira

 

Ø   Um passeio histórico pelos caminhos da geolingüística no Brasil (Maria do Socorro Silva de Aragão, Universidade Federal da Paraíba/Universidade Federal do Ceará/Brasil)

Ø   A informatização de dados geolingüísticos (Abdelhak Razky, Universidade Federal do Pará/Brasil)

Ø   A entoação e os estudos dialetais (Cláudia Souza Cunha;Universidade Federal do Rio de Janeiro/Brasil)

 

 

Sessão de comunicações

           

·               Crenças e atitudes lingüísticas: o que sentem os falantes sul-paranaenses? (Greize Alves da Silva, Universidade Estadual de Londrina/Brasil)

 

 

Apresentação de pôsteres

 

DIA 21 - agosto de 2008 - das 16:30h às 20:30h

 

Painel: Os caminhos do ALiB

 

Ø   A documentação dos dados no Projeto ALiB: primeiros resultados (Vanderci de Andrade Aguilera, Universidade Estadual de Londrina/CNPq/Brasil)

Ø   Uma análise, em tempo aparente, de dados geolingüísticos (Mário Zágari, Universidade Federal de Juiz de Fora)

Ø   A cartografia dos dados (Silvana Ribeiro, Ana Regina Teles, Universidade Federal da Bahia/Brasil)

Ø   O estágio atual do Projeto ALiB (Jacyra Andrade Mota, Universidade Federal da Bahia/CNPq/Brasil)

 

 

Sessão de comunicações

 

·               Contatos lingüísticos na fronteira do Brasil com o Paraguai documentados pelo ALiPP (Regiane Reis, Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul/Brasil)

·               O português de contato com o espanhol no sul do Brasil: empréstimos lexicais (Patrícia Graciela da Rocha, Universidade Federal de Santa Catarina/Brasil)

 

 

Reunião aberta do Comitê Nacional do Projeto ALiB

 

 

Apresentação de pôsteres

 

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O PROJETO ALIB - DAS ORIGENS AO MOMENTO ATUAL

 

Suzana Alice Marcelino Cardoso

(Universidade Federal da Bahia/CNPq/Brasil)

 

UMA BREVE CONSIDERAÇÃO HISTÓRICA À GUISA DE INTRODUÇÃO

 

Começamos por uma breve consideração de caráter histórico para situarmos o nosso projeto no tempo, no espaço e nas preocupações dos lingüistas e dialectólogos brasileiros.

O Projeto Atlas Lingüístico do Brasil (Projeto ALiB), é um projeto de caráter nacional, inter-institucional, com a participação de 15 instituições de ensino superior e de pesquisa, mediante convênio firmado por iniciativa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e iniciado em 1996, por ocasião da realização do Seminário Nacional Caminhos e Perspectivas para a Geolingüística no Brasil.

Embora venha a ser impulsionado no final do século XX, a idéia e o desejo de um atlas lingüístico do Brasil estavam em cogitação nos meios acadêmicos desde meados do século XX e nos objetivos do Governo Federal que, ao promulgar o Decreto 30.643/20.03.1952, assentava no Art. 3°, como principal finalidade da Comissão de Filologia da Casa de Rui Barbosa, a elaboração do atlas lingüístico do Brasil, como se lê no texto legal:

 

3º - A Comissão de Filologia promoverá pesquisas em todo o vasto campo de filologia portuguesa-fonologia, morfológicas, sintáticas, léxicas, etimológicas, métricas, onomatológicas, dialetológicas bibliográficas, históricas, literárias, problemas de texto, de fontes, de Autoria, de influências, sendo sua finalidade principal a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil (grifo nosso).

 

Razões de ordem acadêmica, sobretudo, impediram a consecução do desejo governamental de uma descrição geral do português do Brasil, seguindo as trilhas da geografia lingüística, na época de promulgação do Decreto. Dificuldade de contar com equipes de especialistas em todo o país, precariedade de estradas que levavam aos diferentes pontos da rede, custos e inexistência de financiamento que garantisse a empreitada são dificuldades registradas. Antenor Nascentes (1958) chama a atenção para tais obstáculos naquele momento e conclui as suas reflexões recomendando que se façam atlas regionais, cuja execução reduziria os óbices a serem vencidos e, gradativamente, se conseguiria dar uma visão integral da realidade brasileira, como se lê nas suas Bases para a elaboração do atlas lingüístico do Brasil (1958, p. 7):

 

Embora seja de toda vantagem um atlas feito ao mesmo tempo para todo o país, para que o fim  não fique muito distanciado do princípio, os Estados Unidos, país vasto e rico e com excelentes estradas, entregou-se à elaboração de atlas regionais, para mais tarde juntá-los no atlas geral.

Assim também devemos fazer em nosso país, que é também vasto...

 

O reconhecimento das dificuldades advindas sobretudo da extensão territorial do país e da precariedade das vias de comunicação fizeram com que o seu conselho fosse seguido e determinaram a opção inicial dos estudos geolingüísticos no Brasil: empreender-se o trabalho começando pelos atlas regionais.

Partiram, assim, os dialetólogos brasileiros para a execução de atlas regionais, o primeiro dos quais, o Atlas Prévio dos Falares Baianos, de autoria de  Nelson Rossi, Dinah Isensee e Carlota Ferreira, publicado em 1963, atingindo-se, na atualidade, o total de nove atlas publicados aos quais se somam duas teses de doutorado (atlas da Amazônia e atlas do litoral potiguar).

A necessidade de efetivação de um atlas geral do Brasil decorre da sua própria realidade histórica. A sócio-história do português brasileiro aponta, nas suas origens, para um tripé, base da conformação lingüística que assume no território nacional a Língua Portuguesa: o português transplantado - o português europeu -, as línguas indígenas existentes à época do descobrimento e as que se conservam até o presente, e as línguas africanas trazidas e os vestígios que delas remanescem. O conhecimento dessa realidade, assim configurada, importa não apenas aos estudos atinentes à ciência da linguagem, mas se constitui fundamento para um melhor entendimento da história do Brasil e das características sócio-culturais de que se reveste.

As três vertentes, responsáveis pela configuração lingüística do País - a indígena, a portuguesa e a africana -, oferecem amplo campo para estudo não só na perspectiva das teorias que se relacionam diretamente às línguas, mas também no tocante à história da Nação brasileira.

No que diz respeito à língua portuguesa, o fato de ser uma língua transplantada a um outro continente, onde estabelece relações de contato as mais diferenciadas, sinaliza para reflexões no campo dos estudos lingüísticos stricto sensu, que envolvem: (i) os mecanismos de difusão lingüística; (ii) o caráter conservador ou inovador que assume a língua; (iii) a continuidade, ou não, de uma deriva que acompanha a língua desde as suas origens; (iv) a contribuição recebida de línguas com as quais passa a conviver em solo brasileiro e os reflexos desse contato na variedade ou nas variedades de uso, que se desenvolvem; (v) as implicações sociais e políticas das diferentes modalidades que caracterizam os utentes do português a que se soma o potencial que oferece, como documentação viva, dos caminhos do povoamento nas formas e usos que, rastreados, portam elucidações relevantes para a sócio-história brasileira.

 Assim, passados cerca de cinqüenta anos e com a clareza de visão da realidade nacional, retoma-se a idéia de realização de uma atlas lingüístico do Brasil no que tange à língua portuguesa, motivada (i) pela urgência de descrever o português brasileiro antes que se percam dados e fatos capazes de esclarecer aspectos da história lingüística do país  (ii) e pelo  papel relevante que, no momento, a Geografia Lingüística assume nos estudos lingüísticos, no exterior e no Brasil.

Concebe-se, para a concretização do desiderato, o Projeto Atlas Lingüístico do Brasil (Projeto ALiB), cujas bases se lançam no já citado Seminário Caminhos e Perspectivas para a Geolingüística no Brasil, realizado na Universidade Federal da Bahia, em novembro de 1996 e promovido pelo Grupo de pesquisadores em Dialectologia dessa Universidade, o qual contou com a participação de representativo número de pesquisadores da área no Brasil, entre eles a presença de autores de todos os atlas até então publicados e de representantes de atlas em andamento, e com a presença do Prof. Dr. Michel Contini, do Centre de Dialectologie de Grenoble, Diretor do Atlas Linguistique Roman e membro do Comitê Diretor do Atlas Linguarum Europae, dois dos principais atlas lingüísticos em fase de publicação, na Europa.

 

O PROJETO ATLAS LINGÜÍSTICO DO BRASIL (Projeto ALiB)

 

Razões para a sua realização

 

O Projeto ALiB centra-se no estudo da língua portuguesa no Brasil cuja implantação, na América, data do século XVI, atingindo, assim, cinco séculos de uso. O curso do tempo, as mudanças sociais operadas na sociedade, o perfil dos contactos com outras línguas, a distribuição demográfica do País e a própria constituição dos núcleos populacionais, a natureza do desenvolvimento implantado e implementado, a estrutura social e o confronto cidade-campo, rural-urbano são aspectos da história do Brasil que têm ampla repercussão na língua aqui, majoritariamente, falada. Essa visão está na base do Projeto ALiB e a compreensão da significância de cada um desses aspectos fundamenta o reconhecimento e a definição dos problemas a serem abordados.

A unidade da língua - País continental - muitos Estados ultrapassam a dimensão de países europeus, por exemplo -, oferece o Brasil uma significativa e até mesmo surpreendente, para muitos, unidade lingüística. Identificar, descrever e caracterizar as bases dessa unidade é uma primeira questão que se põe.

A diversidade de usos - Consagrada pela frase tantas vezes repetida, “possuidor da unidade na diversidade”, o português brasileiro consegue, de maneira inequívoca, manter a sua unidade sistêmica no conjunto de possibilidades de usos que se documentam no território nacional. Identificar a variação lingüística, descrevê-la, dimensionar a repercussão social de cada uma delas apresenta-se como uma questão para a qual ainda não se formularam as respostas devidas, nada obstante o esforço que vem sendo desenvolvido por pesquisadores da área, constituindo-se, assim, em questão pendente de resolução.

Política de tratamento da diversidade de usos - As diferentes variedades do português brasileiro demandam um tratamento político da questão. O Ministério da Educação - MEC - tem esboçado abordagem nessa direção, como a criação, em 2004 (para citar, apenas, a mais recente), de uma comissão nacional - a Comissão para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa-COLIP - para refletir sobre a situação da língua portuguesa e do seu ensino e, conseqüentemente, fazer proposições. Nada obstante iniciativas dessa natureza, ainda não se firmou uma política nacional que refletisse, com base em dados empíricos e com fundamentação nas teorias lingüísticas atuais, a situação e para ela apontasse caminhos.

O Projeto ALiB caminha na direção desse problema uma vez que busca identificar a realidade e dar subsídios para a definição das bases fundamentais para uma ação das políticas institucionais no campo do ensino-aprendizagem da língua materna.

A produção de material didático - A produção nesse campo voltada para o ensino-aprendizagem da língua portuguesa, por fixar-se na “unidade nacional” ou por não reconhecer devidamente a pertinência e a relevância da “diversidade de usos”, está, por vezes, crivada de problemas que resultam da visão que se tem da questão. Para a solução dessa dificuldade, o conhecimento fundado em dados empíricos apresenta-se como forma de vencer tal obstáculo.

A formação de professores - Em decorrência dos problemas levantados, põe-se a formação adequada de profissionais do ensino, particularmente daqueles voltados para o ensino da língua materna. Para estes, o desconhecimento da realidade lingüística do país, fundada no conhecimento cientifico, torna-se um óbice à consecução do objetivo pretendido: um corpo de profissionais do ensino altamente qualificado. Um melhor conhecimento da realidade lingüística nacional, como se espera ver como resultante do projeto ALiB, constitui-se em relevante contribuição para a formação de professores nos diferenciados níveis.

O Projeto ALIB aborda, assim, um aspecto altamente relevante para a Nação brasileira: as implicações políticas, sociais e institucionais da língua majoritariamente falada, a língua portuguesa. Ao se voltar para a questão, busca fornecer dados que permitam equacionar os problemas decorrentes de tal inter-relação e apontar caminhos que contribuam para a sua solução.

 

A concepção do Projeto

 

Um projeto voltado para a língua, especificamente a língua materna de um país, impõe-se, pela sua própria natureza, como um modo de serviço à Nação de onde advêm diferentes formas de contribuição, que pressupõem uma base preliminar. Esse pressuposto básico e fundamental consubstancia-se no entendimento de que a realidade de uma língua precisa ser descrita para tornar-se conhecida a fim de permitir a assimilação e a absorção das vantagens que tal fato possa propiciar. A consciência desse valor, que provém do conhecimento da realidade lingüística, levou J. Grimm, o fundador da filologia germânica, ao afirmar (Apud  POP, 1950, p. XXXI) que ‘Toute individualité doit être tenue pour sacrée, même dans le langage [...]” (“Toda individualidade deve ser reconhecida como sagrada, mesmo na linguagem”).

Nessa citação clássica de Grimm, dois aspectos tornam-se evidentes: o respeito às individualidades lingüísticas, ou seja, à diversidade de que se reveste toda e qualquer língua, a que se acrescenta o entendimento de que todos os dialetos sejam preservados, porque cada um deles tem o seu valor.

Com essa compreensão, o estudo da realidade lingüística do Brasil, no tocante à língua portuguesa, que se propõe realizar o Projeto ALiB impõe-se como contribuição social e pelo aporte que pode trazer ao processo de ensino-aprendizagem da língua portuguesa.

As relações dos estudos geolingüísticos com a sociedade usuária da língua descrita explicitam-se por meio de diferentes formas de contribuição, identificadas, com os objetivos do Projeto ALiB, como a possibilidade de:

 

Permitir o conhecimento da realidade espacial do domínio do português, explicitando as diferenças e convergências que se registram no território nacional.

Identificar áreas lingüísticas e relacionar áreas dialetais a áreas socioculturais.

Oferecer ao sistema organizado de ensino-aprendizagem da língua materna dados da realidade lingüística que venham a contribuir para o aperfeiçoamento do ensino do português.

Contribuir para o entendimento da variação lingüística como fenômeno peculiar a toda e qualquer língua, de forma a eliminar preconceitos e discriminações sociais decorrentes de uma falsa interpretação da realidade da língua no país.

Mostrar como convivem diferenças e convergências, reconhecendo, porém, a validade da existência de um padrão culto necessário à comunicação oficial, à ministração do ensino, à efetivação do discurso formal e às opções de grupos de falantes.

Fornecer elementos para a construção da história da língua portuguesa no Brasil, quer pela indicação dos caminhos seguidos, quer pela natureza das opções de mudança feitas, quer pelo estabelecimento de camadas caracterizadas lingüística, social e geograficamente, quer, ainda, pela referência a resultados de contato com outras línguas ou à adoção de empréstimos lingüísticos.

Permitir a atualização de dicionários da língua portuguesa.

Contribuir para a construção de uma gramática voltada para a realidade do português brasileiro.

 

A essa contribuição de cunho social acrescenta-se uma potencial contribuição de natureza econômica que não se quantifica em moeda, mas que se fará sentir no curso da história. Assim, e a título de ilustração, a melhoria do ensino é um agente de progresso e um dos grandes responsáveis pela qualidade da produção e pelo aperfeiçoamento da mão-de-obra qualificada, e para atingir-se essa meta a contribuição dos estudos geolingüísticos é de fundamental valia.

Agrega-se às razões apontadas, o caráter multi e interdisciplinar do Projeto Atlas Lingüístico do Brasil, na sua essência um projeto lingüístico, porque busca documentar, descrever e interpretar a realidade do português brasileiro e tem, exatamente por esse caráter, uma evidente interface com diferentes ramos do conhecimento organizado, decorrente do fato de que a história de uma língua é a história do próprio povo que a fala.

Esse caráter de que se reveste o Projeto ALiB tem duas evidentes implicações: por um lado, inspira e fundamenta a sua concepção na pluralidade do conhecimento; por outro, permite que, dos resultados que venha a oferecer, se beneficie amplo espectro das ciências na atualidade.

No que se refere ao primeiro dos aspectos, a concepção do projeto conduziu a que se recorresse a diferentes campos do conhecimento. A definição da rede de pontos - o conjunto de 250 localidades para serem documentadas - para levantamento de dados requereu aprofundado conhecimento no campo da História, da Antropologia, da Demografia, da Geografia, física, humana e política sobretudo, dos Estudos Culturais, da economia de cada região, do desenvolvimento social e político, do aspecto religioso. A seleção de localidades reflete não apenas o interesse lingüístico, mas o perfil sócio-histórico das zonas a serem mapeadas e se, por um lado, é um indicador de importância para a visão de língua, por outro, encerra um relevante feixe de correlações sócio-histórico-culturais. No tocante à seleção de informantes a serem documentados, fez-se necessário um estudo da formação demográfica do Brasil, da constituição da sociedade, dos aspectos sociológicos e antropológicos que marcam a composição da população brasileira, a que se acrescenta um conhecimento da realidade social na qual se inserem os entrevistados. Isso levou a que se buscasse harmonizar diferentes variáveis sociais - como idade, gênero, escolaridade - para que se possa vir a obter uma amostra lingüística representativa da realidade do país. O Projeto ALiB nasce, assim, profundamente correlacionado a outros ramos do conhecimento científico.

Com essa fundamentação, o Projeto ALiB oferece, pela própria natureza dos dados que se propõe reunir, uma ampla interface com outros ramos das ciências o que lhe assegura o caráter multi e interdisciplinar, como se procura, a seguir, ilustrar, ainda que não de forma exaustiva.

No que concerne ao tipo de recolha previsto, os dados vão evidenciar diferentes formas de comportamento lingüístico correlacionadas ao tipo de discurso. A postura lingüística que assume o falante, a depender da natureza da sua elocução, oferece aos estudos no campo da psicologia e da sociologia vasto material de análise para o conhecimento do comportamento humano. As respostas não dadas e as restrições que muitas vezes ficam claras na fala dos informantes, bem como o recurso a metáforas e a circunlóquios, permitem reflexões no campo dos estudos culturais, em geral, que evidenciam tabus existentes, construídos no curso da história e motivados por impulsos diferenciados. O conjunto de dados que um atlas lingüístico espelha, na sua amplitude maior, pode (i)  mostrar coordenadas seguidas no povoamento do país, desfazendo dúvidas sobre roteiros de penetração ou oferecendo elementos comprobatórios de levas de povoamento fixadas nesses locais ou que por eles transitaram; (ii) assinalar o papel de acidentes geográficos na difusão de hábitos lingüísticos - como se pode ver examinando, por exemplo, o papel dos rios - ou no isolamento de fenômenos que se detêm por trás de montanhas ou incrustados em vales; (iii) fornecer elementos específicos para estudos pontuais como no campo da medicina, mostrando nomes de doenças, diagnósticos e curas que estão na sabedoria popular e que afloram em perguntas nessa direção, ou no campo da geologia, com a caracterização e denominações para tipos de terreno, por exemplo, ou ainda na forma de designar os elementos do mundo biossocial, vasto campo para os psicanalistas. Com a educação, é altamente significativa a relação do Projeto ALiB, cujos resultados propiciarão um melhor equacionamento do ensino-aprendizagem à realidade de cada região, uma vez que, descritas as peculiaridades de cada área e caracterizada a variedade de uso da língua ali dominante, pode-se construir um modelo de ensino do vernáculo mais eficaz.

A esses aspectos relacionados, com os quais não se pretendeu esgotar a indicação das possibilidades de interdisciplinaridade do projeto, mister se faz destacar o que advém de um atlas para os estudos lingüísticos especificamente nos seus diferentes campos - semântica, lexicologia, sintaxe, morfologia, fonética/fonologia, pragmática, discurso.

 

O sentido do Atlas Lingüístico do Brasil para os estudos do português brasileiro

 

Nesse campo, dois aspectos merecem destaque: a contribuição para o conhecimento da realidade nacional no tocante à língua portuguesa e o fornecimento de dados que permitam uma divisão dialetal do Brasil com base em dados empíricos recolhidos in loco.

No tocante ao primeiro aspecto, o português do Brasil não possui, ainda, uma descrição geral que permita a intercomparação de dados entre as diversas regiões do país a partir de um levantamento único da realidade lingüística em todo o território nacional. Há estudos esparsos, seja na perspectiva dialectológica, seja numa visão sociolingüística, mas todos eles circunscritos a áreas determinadas ou focalizando fenômeno específico, o que permite, sem dúvida, um estudo comparativo, mas numa micro visão. Projetos mais amplos, como o Projeto NURC-Projeto de Estudo Conjunto e Coordenado da Norma Lingüística Culta no Brasil, que se ocupa de cinco capitais brasileiras (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre), não chegam a se envolver com todo o território nacional, embora tenham a vantagem de aplicar a mesma metodologia em todos os pontos pesquisados. Temos, assim, uma efervescência de esforços na busca do conhecimento sistemático do português brasileiro, seja na linha da Dialectologia, com inúmeros trabalhos publicados e com teses e dissertações aprovadas, seja na linha da Sociolingüística que tem florescido vivamente em nossos centros de pesquisa. A macro visão, um retrato global da realidade lingüística no tocante ao português brasileiro inexiste. E isso se constitui em uma lacuna da qual precisamos nos desvencilhar.

O ALiB vem, assim, em boa hora, preencher este vazio uma vez que busca, com a aplicação de uma metodologia homogeneamente utilizada, recolher dados de diferentes pontos e representativos de todas as regiões os quais, submetidos a análise, fornecerão, sem dúvida, um perfil da realidade do português aqui falado, abrindo caminhos para considerações as mais diversas sobre a sua formação, a variação que nele se registra, as mudanças que se operam de um sítio a outro, de um tipo de falante para outro, enfim, apontando coordenadas para a construção da sua sócio-história e para a interpretação das diferenciadas bases que interferiram na sua conformação.

O percorrer desse caminho levará, sem dúvida, ao que considero o segundo aspecto da sua atualidade: fornecer elementos para uma divisão dialetal do Brasil, fundada em dados empíricos.

Sabemos, todos, que temos apenas uma única divisão dialetal do Brasil, feita com base em fatos lingüísticos: a divisão de Nascentes (1953). Trabalho magnífico, se considerarmos as circunstâncias e o momento de sua execução, mas a divisão necessita, passados mais de cinqüenta anos, ser retomada, a partir de dados coletados in loco, para que se verifiquem as transformações sócio-históricas havidas e as conseqüências delas advindas para o comportamento lingüístico da população de cada área, e com isso apurar-se atualidade dessa divisão ou detectarmos outros limites que, certamente, encontrarão justificativa nas transformações sociais, políticas e econômicas ditadas pelo curso da história. E essa contribuição, sem dúvida, será dada pelo atlas do Brasil, uma vez que a rede de pontos estabelecida o foi pensando-se, também, na investigação de limites dialetais e na investigação das diferenças que possam gerar os limites de área geograficamente identificada.

 

Para concluir

 

Nesta apresentação do Projeto ALiB imperou a preocupação de apresentar as linhas gerais do Projeto, a sua contribuição para a constituição da sócio-história do português brasileiro e o lugar que ocupa nos estudos lingüísticos brasileiros. O detalhamento da metodologia seguida, a sua estrutura de funcionamento e o estágio atual em que se encontram constituem-se em objeto de apresentações que se seguirão nesta programação do Projeto ALiB na ALFAL.

 

Referências

 

Atlas Linguarum Europae (ALE). Assen-Maastricht: Van Gorcum, 1983-1990. v. 1-4. Roma: Istituto Poligrafico e Zecca dello Stato, 1998. v. 5.

Atlas Linguistique Roman (ALiR).  Roma: Istituto Poligrafico e Zecca dello Stato; Libreria dello Stato, 1996. v. 1, 1996, v. 2, 2002.

BRASIL. Decreto n.° 30.643, de 20 de março de 1952. Institui o Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa e dispõe sobre seu funcionamento.

NASCENTES,  Antenor. O linguajar carioca. 2. ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953.

NASCENTES, Antenor. Bases para a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil. Rio de Janeiro: MEC, Casa de Rui Barbosa,  vol. I, 1958,  vol. II. 1961.

POP, Sever. La dialectologie. Aperçu historique et méthodes d’enquêtes linguistiques, I-II. Louvain: Chez l’ Auteur-Gembloux, Ducolot, 1950.

ROSSI, Nelson et al. (1963). Atlas Prévio dos Falares Baianos. Rio de Janeiro, Ministério de Educação e Cultura - Instituto Nacional do Livro.

 

 

PAINEL: A METODOLOGIA DO PROJETO ALIB

 

A CONSTRUÇÃO DA PESQUISA:

REDE DE PONTOS, QUESTIONÁRIOS, INFORMANTES,

TÉCNICAS DE REALIZAÇÃO DE INQUÉRITOS

 

Jacyra Andrade Mota

(Universidade Federal da Bahia/CNPq/Brasil)

 

1. Introdução

 

A elaboração de um Atlas lingüístico do Brasil havia sido determinada, em 20 de março de 1952, através do Decreto no. 30.643, que fixava esse projeto como uma das principais finalidades do Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa, então recém-criado. Mas, em razão de dificuldades de diversos tipos, entre as quais a amplitude do projeto e a ausência de condições imprescindíveis ao seu desenvolvimento, como observa Silva Neto (1957), apenas em 1996, decorridos mais de 40 anos, durante o Seminário Nacional Caminhos e Perspectivas para a Geolingüística no Brasil, realizado na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, retomou-se o projeto, constituindo-se um comitê nacional, que se responsabilizaria pela sua execução.

O Comitê Nacional, integrado pelos autores de atlas lingüísticos publicados e por um representante dos atlas em andamento, foi constituído por Suzana Cardoso (Diretora Presidente), Jacyra Mota, Diretora Executiva, ambas da UFBA, Maria do Socorro Aragão (UFPb/UFC), Mário Roberto Zágari (UFJF), Vanderci Aguilera (UEL) e Walter Koch[1] (UFRS), Diretores Científicos.

Ao se iniciar o Projeto ALiB foram fixados como principais objetivos:

 

a)   Descrever a realidade lingüística do Brasil, no que tange à língua portuguesa, com enfoque prioritário na identificação das diferenças diatópicas (fônicas, morfossintáticas, léxico-semânticas e prosódicas) consideradas na perspectiva da Geolingüística.

b)   Estabelecer isoglossas com vistas a traçar a divisão dialetal do Brasil.

c)   Oferecer aos estudiosos da língua portuguesa, aos pesquisadores de áreas afins e aos pedagogos subsídios para o aprimoramento do ensino/aprendizagem e para uma melhor interpretação do caráter multidialetal do Brasil.

d)   Examinar os dados coletados na perspectiva de sua interface com outros ramos do conhecimento - história, sociologia, antropologia, etc. - de modo a poder contribuir para fundamentar e definir posições teóricas sobre a natureza da implantação e desenvolvimento da língua portuguesa no Brasil.

e)   Oferecer, aos interessados nos estudos lingüísticos, um considerável volume de dados que permita aos lexicógrafos aprimorarem os dicionários, ampliando o campo de informações; aos gramáticos atualizarem as informações com base na realidade documentada pela pesquisa empírica; aos autores de livros didáticos adequarem a sua produção à realidade cultural de cada região; aos professores aprofundar o conhecimento da realidade lingüística, refletindo sobre as variantes de que se reveste a língua portuguesa no Brasil e, conseqüentemente, encontrando meios de, sem desprestigiar os seus dialetos de origem, levar os estudantes ao domínio de uma variante tida como culta.

f)   Contribuir para o entendimento da língua portuguesa no Brasil como instrumento social de comunicação diversificado, possuidor de várias normas de uso, mas dotado de uma unidade sistêmica.

 

Do ponto de vista teórico, ressalta-se a opção pela Geolingüística Pluridimensional, perspectiva que, no final do século XX, veio substituir a monodimensionalidade até então predominante nos atlas lingüísticos e que determina a busca de um novo perfil de informantes e a utilização de questionários mais diversificados quanto ao tipo de discurso que pretendem documentar

Quanto à apresentação dos dados finais, o ALiB pretende apresentar, também, ao lado da versão impressa, uma versão digital, com utilização dos recursos da Internet ou de mídias como CD e DVD, como nos “atlas falantes” ou atlas de 3ª. geração. E, como nos chamados atlas de 2ª. geração, análises interpretativas dos dados cartografados.

 

 

2. A metodologia do ALiB

 

2.1  A rede de pontos

 

A rede de pontos levou em conta, prioritariamente, a densidade demográfica de cada região e de cada estado e a distribuição espacial das localidades, com os ajustes necessários, tanto nos casos das áreas que apresentavam densidade abaixo de 1.0, como naquelas de densidade populacional muito grande, tendo-se chegado a 250 localidades, distribuídas por todo o País.

Para a seleção das localidades foram considerados: (a) a rede de pontos apresentada por Nascentes (1958); (b) as redes dos atlas regionais até então publicados; (b) dados históricos e socioculturais das localidades; (d) limites estaduais e internacionais.

No decorrer da pesquisa, foram necessárias substituições, uma vez que algumas localidades, quando examinadas de perto pelos pesquisadores, revelaram aspectos que desaconselharam a sua inclusão (como a grande presença de indivíduos de outras áreas, com pouca possibilidade de se encontrarem informantes com o perfil requerido, por exemplo, como ocorreu com a cidade de Caldas Novas, em Goiás, substituída por Catalão).

 

2.2  Os informantes

 

Como é norma em trabalhos de natureza geolingüística, os informantes devem ser naturais da localidade e filhos de pessoas também da mesma área lingüística.

Embora não se busquem, hoje, indivíduos sedentários como os dos primeiros trabalhos de Geolingüistica, em fins do século XIX e até em grande parte do século XX, devem ser evitados os que se afastaram da localidade por períodos muito longos e contínuos. Estudos geo-sociolingüísticos, no nível fonético-fonológico e no nível morfossintático, têm mostrado a influência do contato com falantes de outras áreas, principalmente se esse contato coincide com os primeiros anos de vida do indivíduo (fase de aquisição da linguagem), ou com o período imediatamente anterior ao da realização do inquérito.

Quanto à fase de aquisição da linguagem, a teoria clássica admite que o indivíduo, de modo geral, conserva os traços lingüísticos (sobretudo fonéticos) adquiridos até a adolescência, aventando, assim, a possibilidade de se analisarem, em tempo aparente, a partir de falantes de diferentes faixas etárias, fases anteriores de uma mudança em curso.

A realização aberta ou fechada das vogais médias, a variante oclusiva dento-alveolar ou africada palatal diante de /i/, as variantes vibrantes (inclusive retroflexas) ou as realizações alveolares ou palatais para o /S/ em coda silábica, exemplificam, freqüentemente, a manutenção de variantes adquiridas no contato com as pessoas responsáveis pelo indivíduo em sua fase de aquisição da linguagem (aproximadamente até os 5 anos) e com o seu grupo etário.

A importância dos afastamentos por períodos mais longos, a depender do falante, tem sido detectada, por exemplo, no estudo das variantes para o /S/ em coda silábica, tendo em vista que esse fato é caracterizador de subáreas no português brasileiro. A propósito, cita-se o caso de um falante de Salvador, de faixa etária 2, filho de pais soteropolitanos, que não pôde ser aproveitado como informante do ALiB por haver trabalhado na Petrobrás durante algum tempo, em áreas de realizações palatais, e afastar-se, sensivelmente, da média encontrada para essas variantes em Salvador, de acordo com trabalhos anteriores e com a análise de outros informantes da mesma faixa etária. Chamou a atenção dos pesquisadores, principalmente, a grande freqüência das palatais em final de palavra (casaS, colegaS, companheiroS, cavaloS, etc.), contexto desfavorecedor para as realizações palatais na fala de Salvador.

Para atender à perspectiva pluridimensional, os informantes do ALiB se distribuiem pelos dois gêneros, por duas faixas etárias - faixa 1, de 18 a 30 anos, e faixa 2, de 50 a 65 anos - e, nas capitais de Estado, por dois graus de escolaridade - ensino fundamental incompleto e universitário, obtendo-se, assim, variantes diagenéricas, diageracionais e diastráticas.

A respeito desse perfil de informantes, explicam-se a ausência de uma faixa intermediária, entre 30 e 50 anos, e a restrição do parâmetro estrático às capitais de Estado pela necessidade de reduzir-se o número de informantes, de modo a viabilizar a execução do Projeto, face às dimensões continentais do Brasil e as dificuldades de se atingirem determinadas áreas, sobretudo no Norte e no Centro-Oeste do País. Com relação à variável escolaridade, soma-se à primeira justificativa, a possibilidade pequena, em alguns casos, nula, de se encontrarem indivíduos de grau universitário, em todas as localidades selecionadas, que atendessem ao perfil procurado.

Um outro aspecto que merece comentário é o fato de a variação estrática basear-se apenas nas diferenças de escolaridade, sem levar em conta dados socioculturais ou socioeconômicos, embora esses dados sejam controlados pelas fichas de informante, sistematicamente preenchidas. Com relação a esse tipo de classificação estrática, freqüentemente utilizado em trabalhos sociolingüísticos, a análise dos inquéritos do ALiB têm confirmado, de modo geral, a sua adequação.

 

2.3  Os questionários

 

Os questionários lingüísticos do ALiB foram preliminarmente testados em inquéritos experimentais, com utilização de versões preliminares que, após avaliadas, foram publicadas, em versão definitiva, em 2001.

Os questionários dirigem-se aos diferentes níveis de estudo da língua, subdividindo-se em: fonético-fonológico (QFF), com 159 questões e mais 11 questões de prosódia; léxico-semântico (QSL), com 202 questões; morfossintático (QMS), com 49 questões. Contêm, ainda, 04 questões de pragmática (QP), 04 temas para o registro de discurso semidirigido (TDS), 06 perguntas de natureza metalingüística (PM) e um texto para leitura.

Exemplificam o QFF as questões a seguir, que visam à obtenção dos vocábulos televisão, tesoura, elétrico, tomate, borboleta, coração - destinados ao registro da variação entre vogais médias abertas (é, ó) ou fechadas (ê, ô), em posição pré-acentuada, fato que, de acordo com Nascentes (1953), divide os falares brasileiros em falares do Norte (com predominância de vogais abertas) e falares do sul (com maior freqüência de vogais fechadas) - e os vocábulos casca, costas, rasgar, sal, azul, alta, calor, perdão, que procuram documentar a variação consonantal em coda silábica, de modo a delimitar diferentes subáreas.

 

1.      Como se chama aquele aparelho onde se pode ver novela, jogo, programas...? (QFF, 004)

2.      Como se chama o objeto com que se corta tecido? (QFF, 046)

3.      Antigamente, para passar a roupa, usava-se ferro a brasa. Hoje, qual o tipo de ferro que se usa? (QFF, 011)

4.      Como se chama aquilo vermelho que vende na feira e que se usa para preparar o molho do macarrão? (QFF, 030)

5.      Como se chama aqui um bichinho que voa e tem as asas bonitas e coloridas? (QFF, 046)

6.      Qual o nome da parte do corpo que, se parar, a pessoa morre? (QFF, 119)

7.      Para comer uma banana, o que é que se tira? (QFF, 031)

8.      Aqui (mostrar) é a frente, e aqui (mostrar)? (QFF, 067)

9.      Fazer assim (mímica) em um papel é ___  ? (QFF, 088)

10.  O que é preciso colocar na carne para temperar? (QFF, 016)

11.  Que cor é esta? Mostrar. (QFF, 089)

12.  O que se diz de uma pessoa que mede 1 metro e 90 cm, 2 metros? (QFF, 134)

13.  No inverno faz frio. E no verão? (QFF, 061)

14.  Quando se comete uma falta grave, o que é que se pede a Deus? (QFF, 110)

 

São exemplos do QSL e do QMS:

 

1.      De noite, muitas vezes, pode-se observar uma estrela que se desloca no céu, assim (mímica) e faz um risco de luz. Como chamam isso? (QSL, 031)

2.      Como se chamam as frutas menores que a laranja, que se descascam com a mão e, normalmente, deixam um cheiro na mão. Como elas são? (QSL, 039)

3.      Como se chama a área que é preciso ter ou comprar para se fazer uma casa na cidade? (QSL199)

4.      Quando se vê um amigo com uma mala e se quer saber para onde ele vai, como é que se pergunta? (QMS 024)

 

As quatro questões de pragmática apresentam a estrutura a seguir, variando, em cada uma delas, os dois interlocutores do diálogo imaginado: Um objeto (carteira, lenço, chave) caiu do bolso de um rapaz jovem e ele não viu. Como um outro rapaz jovem chama a atenção desse rapaz? (QP, 01).

Nos quatro temas previstos para o registro de discurso semidirigido, o informante é levado a relatar uma experiência pessoal marcante em sua vida, a comentar programas de televisão, a descrever a sua atividade de trabalho e a contar um fato de que tenha ouvido falar ou que tenha ocorrido com uma outra pessoa.

A utilização de gravuras é um outro recurso utilizado na aplicação dos questionários com duplo objetivo: ajudar na identificação do referente, por parte do informante, assegurando respostas mais rápidas e mais seguras e, especialmente no QMS, auxiliar na obtenção de respostas menos monitoradas.

Os diferentes tipos de discurso que se documentam com esses questionários têm-se mostrado importantes fontes para o estudo da variação diafásica, principalmente quando se confrontam as respostas às perguntas feitas para obtenção de variantes fônicas, semântico-lexicais ou morfossintáticas e o discurso emitido de modo menos tenso, ao final do inquérito, a propósito de temas sugeridos ao informante.

A variação diafásica pode ser exemplificada através do confronto entre as respostas às questões 027 (fervendo) 052 (remando) e 148 (dormindo) do QFF, onde se documentam, em geral, as variantes padrão, e as ocorrências de formas gerundivas no discurso livre. Nesses ou em trechos de fala não monitorada, obtidos no decorrer do inquérito, é freqüente a ausência do morfema identificador do gerúndio, em elocuções como ferveno, remano ou dormino, inclusive em falantes de escolaridade alta.

A variação diastrática e diageracional, nos inquéritos do ALiB pode ser verificada também através das solicitações de outras denominações, insistentemente feitas durante o desenvolvimento do QSL e que trazem, freqüentemente, observações do tipo “os mais antigos falavam assim”, “ouvia minha vó dizer”, “antigamente não se falava assim, não”, “o pessoal ignorante fala assim”, “ouço dizer”.

A variação diagenérica é percebida, em algumas áreas, em análises quantitativas, indicando, em geral, a preferência dos falantes femininos pela variante de maior prestígio, de acordo com o que admite Labov (2001) para as chamadas mudanças de cima para baixo. Exemplifica esse fato a maior freqüência, em Aracaju, de realizações palatalizadas para o /t, d/ diante da vogal alta /i/ (tio, dia), em informantes femininas, como observa Mota (2007), no trecho:

 

Em Aracaju, os informantes masculinos quase não utilizam as variantes palatais (5% e 0,10 de peso relativo), ao contrário das informantes femininas que apresentam na fala 35% de freqüência dessas variantes, correspondentes ao peso relativo de 0,54. Nas outras localidades [Recife, Maceió e Teresina] é pequena a diferença entre os dois gêneros. (p. 5).

 

Para a análise do que se identifica como variação diarreferencial, incluem-se seis questões de natureza metalingüística sobre o modo de falar local, as pessoas que, segundo o informante, “falam de modo diferente” na localidade ou em outras áreas brasileiras, o falar de épocas anteriores, solicitando-se exemplos dessas variantes, como na questão:

 

Tem gente que fala diferente aqui em _____ (citar a cidade onde está)? Se houver, identificar os gruposque falam diferente”. (PM, 02)

 

Pode-se, assim, confrontar a percepção do falante sobre outras variantes e outros falares, verificando até que ponto fatos identificados como característicos de outro estrato social, de outra geração ou de outras áreas estão presentes em sua fala, tendo em vista que, conforme atestam as pesquisas sociolingüísticas, a avaliação subjetiva do falante a respeito de um determinado fato nem sempre coincide inteiramente com a sua própria realização lingüística.

A insatisfação do falante face à introdução de novos hábitos lingüísticos pode também estar presente nessas falas, como se pode observar, por exemplo, em inquérito experimental, realizado em São Luís com uma jovem de 19 anos:

 

Inq.- Tem gente que fala diferente aqui em São Luís?

Inf. - Aqui em São Luís tem as pessoas que QUEREM FALAR  diferente.

Inq. - Como são essas pessoas que querem falar diferente?

Inf. - São as pessoas que tentam puxar um... um sotaque que, na verdade, não existe aqui.

 

A decisão metodológica de aplicar-se, em todas as localidades, os mesmos questionários, com a redação prévia das perguntas, teve o objetivo, que já se pode considerar alcançado, de obter maior uniformidade e resultados intercomparáveis inteiramente confiáveis.

 

2.4  Técnicas de realização dos inquéritos

 

A realização dos inquéritos requer, além da preparação do inquiridor e dos instrumentos de trabalho (questionários, fichas, aparelhos, etc.) a intervenção de uma pessoa da própria localidade a ser pesquisada, se possível, através de contato prévio. Esses “facilitadores” têm ajudado a encontrar os informantes dentro do perfil requerido e têm contribuído para reduzir ou eliminar as desconfianças que, muitas vezes, os entrevistados demonstram, face ao inusitado da proposta de pesquisa e os problemas presentes na época atual.

A gravação de dados é realizada in loco com cada um dos informantes, separadamente, evitando-se, na medida do possível, a intervenção de outras pessoas (familiares, amigos ou curiosos). Em situação ideal, o inquiridor principal se faz acompanhar de um inquiridor auxiliar que, além de manejar os aparelhos, controla o desempenho do informante, assinalando em ficha própria, as questões não respondidas por desconhecimento e aquelas esquecidas no momento do inquérito, que deverão ser repetidas, ao final do inquérito.

O registro é feito, em geral em mini discs (MD) ou fitas magnetofônicas (aparelhos do tipo cassete), e, freqüentemente, com utilização simultânea dos dois tipos de aparelho, de modo a evitar que se perca inteiramente o inquérito, em caso de acidente com um deles.

Ao lado das gravações de fala, registram-se ainda dados sobre os informantes através da “Ficha de informante”, sistematicamente preenchida, às vezes também gravada, dados das localidades através de informações fornecidas por escolas, prefeituras ou pelos próprios habitantes e fotos.

A ficha para anotação de dados de informantes tem por objetivo não apenas identificar o falante alvo da gravação mas também situá-lo sociolingüisticamente. Desse modo, incluem-se informações sobre a sua profissão (assim como dos pais e cônjuge), sua renda individual ou familiar, o contato que mantêm com os meios de comunicação (TV, rádio, jornal, revista), suas preferências e diversões, sua participação em atividades religiosas, com a finalidade de caracterizá-lo melhor e estabelecer as possíveis relações com os seus usos lingüísticos.

 

2.5. Tratamento dos dados

 

As amostras obtidas “in loco” são posteriormente catalogadas, copiadas (se necessário) e arquivadas, situando-se, no Instituto de Letras da UFBA, o arquivo nacional de dados do Projeto ALiB, que será arquivado, também em meio digital, no Centro de Processamento de Dados dessa mesma Universidade.

Os dados são transcritos fonética e grafematicamente, passando por duas revisões sucessivas.

Implementa-se, no momento, a estruturação de um Banco de Dados, que vai possibilitar a elaboração das cartas lingüísticas, impressas e em meio digital, e a abertura à consulta dos dados do ALiB aos pesquisadores interessados.

 

 

3.      Considerações finais

 

A metodologia seguida para constituição e desenvolvimento do Projeto ALiB, como vimos, apesar de incluir-se nos princípios da Geolingüística Pluridimensional Contemporânea, teve de levar em conta as restrições impostas pela extensão territorial a cobrir e todas as dificuldades disso advindas, reduzindo os parâmetros a considerar, o número de informantes e os próprios questionários. Desse modo, o Projeto ALiB propõe-se a fornecer uma macro-visão da realidade brasileira, delineando áreas e subáreas dialetais, mas não substitui as pesquisas regionais, que, circunscritas a áreas mais reduzidas, poderão ampliar o leque de variáveis e os fatos a documentar.

 

Referências

 

BRASIL. Decreto n.° 30.643, de 20 de março de 1952. Institui o Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa e dispõe sobre seu funcionamento.

COMITÊ NACIONAL.Atlas Lingüístico do Brasil. Questionários. Londrina: Ed. UEL, 2001.

COMITÊ NACIONAL. Projeto Atlas Lingüístico do Brasil. Salvador: Instituto de Letras, 1998 e 2003.

LABOV, William. Principles of linguistic change. v. 2: Social factors. Massachusetts: Blackwell, 2001.

MOTA, Jacyra. Falar baiano versus falar nordestino: o que revelam os dados do Atlas Lingüístico do Brasil. Comunicação apresentada no I Forum Internacional da Diversidade Lingüística, 2007, Porto Alegre. Texto entregue para publicação em Atas.

NASCENTES, Antenor. O linguajar carioca. 2. ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953.

NASCENTES, Antenor. Bases para a elaboração do atlas lingüístico do Brasil. Rio de Janeiro: MEC, Casa de Rui Barbosa, v. I, 1958.

SILVA NETO, Serafim da. Guia para estudos dialectológicos. 2. ed., Belém: Conselho Nacional de Pesquisa/Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 1957.

 

 

PAINEL: A METODOLOGIA DO PROJETO ALIB

 

A REDE DE PONTOS: UMA REFLEXÃO SOBRE A HISTÓRIA SOCIAL

DAS CAPITAIS DE ESTADO QUE INTEGRAM O PROJETO ALIB.

 

Aparecida Negri Isquerdo

(Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Brasil)

 

Introdução

 

Como um dos procedimentos metodológicos fundamentais nas pesquisas geolingüísticas, a rede de pontos assegura a representatividade da documentação da variação espacial da língua, a comparação posterior dos dados e a sua respectiva distribuição num determinado espaço geográfico por meio de cartas lingüísticas. No pensar de Nascentes (1958; 1961), “a boa determinação dos pontos dos inquéritos influi grandemente na perfeição de um atlas”. Adverte ainda o autor: “os pontos devem ser fixados no meio das regiões mais características do tipo de linguagem”.

Já Mouton (1996, p. 65) define rede de pontos como o conjunto de localidades onde será realizada a pesquisa, que são escolhidas segundo diversos critérios e que devem representar todo o território estudado - a rede inclui mais lugares em terras onde as diferenças dialetais são mais interessantes, em zonas isoladas, em áreas de fronteira e menos pontos onde haja maior uniformidade lingüística. Inicialmente evitava-se a inclusão de cidades dentre na rede de pontos, uma vez que se buscava o caráter arcaizante da linguagem, fenômeno mais evidenciado em lugares distantes dos centros mais avançados em termos tecnológicos (atlas rurais). Esse critério tem sido revisto e na atualidade os estudos geolingüísticos atingiram as cidades, inclusive, os grandes centros, surgindo assim os atlas urbanos.

Desta forma, a questão da definição da rede de pontos nas pesquisas geolingüísticas remete a duas outras: a densidade da rede e o grau de abrangência da pesquisa geolingüística. No Brasil, um país de dimensões continentais, a questão da densidade da rede de pontos torna-se particularmente complexa. Daí a tendência nacional de produção de atlas com redes de pontos menos densas. Mesmo dentre os atlas regionais já publicados no Brasil não se observa uma rede carregada de pontos, se considerada a relação entre o número de pontos e a dimensão territorial do País. Associada à questão da densidade da rede de pontos situa-se o domínio espacial do atlas a ser produzido, outro fator determinante na seleção dos pontos de inquéritos e diretamente relacionado aos objetivos do projeto. Em termos de Brasil, a questão da densidade da rede de pontos em trabalhos geolingüísticos configura-se como uma decisão que demanda muitos questionamentos, considerando-se, para tanto, temas como viabilização da pesquisa em termos financeiros e de cronograma de execução, objetivos do atlas a ser confeccionado, equipe de pesquisa, dentre outros.

Nascentes (1958), após viajar por todo o Brasil, propôs um total de 605 localidades para um futuro atlas lingüístico do Brasil, proposta que ainda orienta trabalhos geolingüísticos brasileiros e que foi tomada como parâmetro para a definição da rede de pontos do Atlas Lingüístico do Brasil. Entretanto, à época, o dialetólogo brasileiro já reconhecia as dificuldades que seriam enfrentadas pelos pesquisadores que se aventurassem a tamanha empreitada e recomendava que se confeccionassem inicialmente atlas regionais para, posteriormente, elaborar-se um atlas nacional. Essa postura também foi adotada por outros estudiosos e anteriormente defendida por Serafim da Silva Neto (1957, p. 12), ao ponderar o quanto seria “difícil e demorada, com a imensa extensão do Brasil, com as dificuldades de comunicação e sem as tomadas prévias, a realização de um atlas lingüístico”.

A lição dos mestres foi acatada e no Brasil, em situação inversa a da Europa, pelo menos nos Estados da Federação que já contam com atlas publicados e/ou projetos em desenvolvimento, os atlas regionais foram produzidos antes de um atlas nacional. Esses atlas regionais documentaram um maior volume de dados relativos à língua falada nos espaços regionais pesquisados, o que não acontecerá com o Projeto ALiB que se enquadra na categoria dos atlas de grande domínio e que por isso documentará fatos lingüísticos mais gerais e passíveis de serem intercomparados, em âmbito nacional. Este trabalho discute a rede de pontos do Projeto ALiB, no que se refere às capitais, com ênfase para a história social relacionada a cada uma delas (momento e causas da criação, importância no conjunto do processo de povoamento e desenvolvimento do Brasil) e para a natureza da nomenclatura geográfica dessas capitais.

 

 

1. A rede de pontos do Projeto ALiB: critérios de seleção e distribuição 

 

A definição da rede de pontos do Projeto ALiB tomou como pressuposto o estudo sistemático da realidade brasileira, do processo de povoamento e do desenvolvimento socioeconômico de cada área. Para tanto, contou-se com o assessoramento de antropólogos, historiadores e geógrafos e, também, com a colaboração de indigenistas.

Para o estabelecimento do número de pontos, distribuídos em cada Estado, levou-se em consideração, prioritariamente, a densidade demográfica dos 26 Estados da Federação, distribuídos pelas 05 regiões brasileiras, fazendo-se os ajustes necessários nos casos de densidade abaixo de 1,0 - como os estados do Acre, de Roraima, do Amapá e do Tocantins; de pequena densidade demográfica em grandes áreas - como é o caso do Mato Grosso (densidade 3,6) e do Amazonas (densidade 3,8), e de maior densidade populacional - como no caso do Rio de Janeiro (densidade 22), de Minas Gerais (densidade 27) e de São Paulo (densidade 55).

A definição da rede considerou a análise da proposta de Nascentes (1958), a rede dos atlas regionais já publicados e os objetivos do Atlas Lingüístico do Brasil, proposto em 1996, pelos dialetólogos brasileiros. Além disso, o projeto considerou também a realidade brasileira atual, as prioridades estabelecidas pelo projeto, definidas em função das condições de produção do atlas, em termos econômicos e de recursos humanos. A seguir especificamos a distribuição das 250 localidades[2] da rede em termos de regiões administrativas do IBGE e de estados da Federação.

A região Norte, a mais extensa das regiões brasileiras, tem uma área de 3.769.900 km2 (45% do território nacional) e uma população de 14.892.013 habitantes (7% do total brasileiro). Com uma densidade demográfica de 0,2, é dividida em 07 estados da Federação: Amazonas, capital Manaus; do Acre, capital Rio Branco; do Tocantins, capital Palmas; de Rondônia, capital Porto Velho, de Roraima, capital Boa Vista; do Pará, capital Belém e do Amapá, capital Macapá. Dessas capitais, 06 integram a rede de pontos do ALiB, tendo sido excluída Palmas a capital do estado de Tocantins em virtude da sua criação recente (1989), em decorrência do desmembramento pelo Governo Federal do Brasil do estado de Goiás em duas unidades da Federação, decisão que deu origem ao Estado de Tocantins (1988). A rede de pontos do Projeto AliB, na região Norte, abrigou, pois, 24 pontos, assim distribuídos: Acre - densidade demográfica 0,8 - 02 localidades; Amapá - densidade demográfica 0,6 - 02 localidades; Amazonas - densidade demográfica 3,8 - 05 localidades; Pará - densidade demográfica 8,0 - 10 localidades; Rondônia - densidade demográfica 1,6 - 02 localidades; Roraima - densidade demográfica 0,4 - 01 localidade e Tocantins - densidade demográfica - 1,7 - 02 localidades.

Já a região Nordeste concentra uma área de 1.584.803 km2 (18% da área territorial do Brasil) e uma população de 51.380.117 habitantes (29% da população brasileira), apresentando uma densidade demográfica de 23 habitantes por Km2. Formada por 09 estados - Maranhão, capital São Luiz; Piauí, capital Teresina; Ceará, capital Fortaleza; Rio Grande do Norte, capital Natal; Paraíba, capital João Pessoa; Pernambuco, capital Recife; Alagoas, capital Maceió; Sergipe, capital Aracaju e Bahia, capital Salvador -, a região Nordeste concentrou 78 localidades da rede de pontos do Projeto ALiB: Alagoas - densidade demográfica 8,0 - 04 localidades; Bahia - densidade demográfica 11 - 22 localidades; Ceará - densidade demográfica 4,1 - 12 localidades; Maranhão - densidade demográfica 3,9 - 09 localidades; Paraíba - densidade demográfica 5,2 - 06 localidades; Pernambuco - densidade demográfica 11,5 - 12 localidades; Piauí - densidade demográfica 4,0 - 05 localidades; Rio Grande do Norte - densidade demográfica 2,7 - 05 localidades e Sergipe - densidade demográfica 19,2 - 03 localidades.

A região Centro-Oeste, por sua vez, dentre as 05 regiões brasileiras, é a segunda em extensão territorial, com uma área 1.612.077 km2 (19% do total brasileiro) e uma população de 13.169.420 habitantes (7% do total nacional), com uma densidade demográfica de 04 habitantes por Km2. É formada por 03 Estados e o Distrito Federal: Mato Grosso, capital Cuiabá; Mato Grosso do Sul, capital Campo Grande e Goiás, capital Goiânia, além do Distrito Federal, com a capital Brasília. No Centro-Oeste, o Projeto ALiB está recolhendo dados em 24 localidades: Goiás - densidade demográfica 7,2 - 09 localidades; Mato Grosso - densidade demográfica 3,6 - 09 localidades; Mato Grosso do Sul - densidade demográfica 3,2 - 06 localidades.

Já a região Sudeste é a mais densamente povoada e economicamente mais importante do Brasil, com uma área 927.287 km2 (11% do total brasileiro) e uma população de 79.122.849 habitantes (42% da população brasileira), é formada por 04 estados: São Paulo, capital São Paulo; Minas Gerais, capital Belo Horizonte, Espírito Santo, capital Vitória e Rio de Janeiro, capital Rio de Janeiro. Em decorrência da sua alta densidade demográfica (55 habitantes por Km2), contempla 80 das 250 localidades da rede de pontos do Projeto ALiB: Espírito Santo - densidade demográfica 4,5 - 05 localidades; Minas Gerais - densidade demográfica 27,2 - 23 localidades; Rio de Janeiro - densidade demográfica 22 - 14 localidades e São Paulo - densidade demográfica 55 - 38 localidades.

 Por fim, a região Sul, considerada a Europa brasileira em virtude da concentração de imigrantes europeus no povoamento do seu território, reúne uma área de 577.214 km2 (07% do total brasileiro) e uma população de 27.173.918 habitantes (15% da população brasileira), com uma densidade demográfica de 31 habitantes por Km2. É formada por 03 estados: Paraná, capital Curitiba; Santa Catarina, capital Florianópolis e Rio Grande do Sul, capital Porto Alegre e, no projeto ALiB, abriga 44 localidades: Paraná - densidade demográfica 14,5 - 17 localidades; Santa Catarina - densidade demográfica 7,8 - 10 localidades e Rio Grande do Sul - densidade demográfica 15,5 - 17 localidades.

Os dados apresentados acerca da distribuição da rede de pontos do Projeto ALiB demonstram o peso exercido pelo critério da densidade demográfica na definição e na distribuição das localidades, segundo os Estados de cada região geográfica brasileira. Basta observarmos a relação entre os índices relativos à área territorial e à população para constatarmos a realidade brasileira em termos de densidade demográfica, fator que se refletiu na definição do número de pontos do ALiB para os Estados das cinco regiões administrativas brasileiras. A região Norte, por exemplo, que concentra a maior área territorial dentre as regiões brasileiras (45%), retém apenas 7% da população brasileira e registra uma densidade demográfica de 0,2 habitantes por Km2. Em contrapartida a região Sudeste que representa apenas 11% do total da área geográfica do Brasil abriga 43% da população nacional com uma densidade demográfica de 55 de habitantes por km2.

Além da densidade demográfica regional, para a escolha das localidades, em cada um dos Estados do País, foram considerados os seguintes critérios: a) as zonas dialetais já determinadas por meio de pesquisas anteriores, por pesquisadores da área; b) a distribuição espacial das localidades, para que um ponto não ficasse colado noutro e se mantivesse, em cada Estado, um distanciamento mais ou menos simétrico. Procurou-se, nesse caso, conjugar o critério de eqüidistância versus densidade demográfica; c) a importância da localidade, se em zona fronteiriça por causa do bilingüismo e/ou diglossia, se em zona limítrofe interestadual (quando de muito movimento), ou se em zona onde ainda se evidencia uma cultura e/ou presença indígena e, d) as localidades apresentadas por Antenor Nascentes, em 1958, quando de suas Bases para Elaboração de um Atlas Lingüístico do Brasil.

Nota-se, pois, que diferente do que tem sido feito, tradicionalmente, em trabalhos de natureza dialetal, foram pontuados, mas não se consideraram prioritários, critérios como antiguidade e grau de isolamento das localidades em relação a centros mais desenvolvidos.

Assim, cidades de grande e médio porte, inclusas aí as capitais (com duas exceções), foram objeto de trabalho de natureza sociolingüística, pela primeira vez no âmbito de um Atlas Lingüístico na América Latina. As capitais, onde o inquérito não se fará são a de Tocantins, Palmas, por sua recente criação (1989) e não ter, por conseqüência, informantes nativos, e Brasília que, inaugurada em 1960, vive ainda uma miscigenação de falares, por receber brasileiros de todas as partes e não ter tido tempo, do ponto-de-vista lingüístico, para formar a sua norma lingüística. Essa razão explica a inclusão de Belo Horizonte, Goiânia e Campo Grande que, há pouco centenárias, já apresentam, contudo, um nivelamento lingüístico que as torna, por seu falar característico, diversa dos falares que as rodeiam.

Desnecessário frisar que, para a definição da rede de pontos, os dados fornecidos pelo IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) foram fundamentais. Além disso, foi realizada ampla leitura da História do Brasil, dos primeiros viajantes e suas narrativas até teses recentes sobre desbravamento e povoação.

 

 

2. As capitais brasileiras - uma visão sócio-histórica

 

O Volume I do Atlas Lingüístico do Brasil apresentará, no seu fascículo 2, o mapeamento dos dados geolingüísticos documentados em 26 capitais brasileiras, já que Palmas e Brasília não foram incluídas na rede pelas razões anteriormente expostas.

As capitais dos 26 Estados da Federação e a capital do Brasil estão assim distribuídas, segundo o século de fundação, considerando-se, para tanto, como critério as notícias do primeiro povoamento e não a data oficial de criação da capital:

 

1.século XVI: 26% das capitais brasileiras, distribuídas entre as regiões Nordeste - Salvador, Natal, Recife, João Pessoa - e Sudeste - Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória;

2.século XVII: 26% das capitais brasileiras, distribuídas entre as regiões Norte - Belém e Manaus; Nordeste - Aracaju, Fortaleza, Maceió e São Luiz; e Sul - Curitiba;

3.século XVIII: 14,8% das capitais brasileiras, distribuídas entre as regiões Norte - Macapá; Centro-Oeste - Cuiabá; Sudeste - Belo Horizonte e Sul - Florianópolis;

4.século XIX: 22,2% das capitais brasileiras, distribuídas entre as regiões Norte - Boa Vista e Rio Branco; Nordeste - Teresina; Centro-Oeste - Campo Grande e Goiânia - e Sul - Porto Alegre;

5.século XX: 11% das capitais brasileiras, distribuídas entre as regiões Norte - Porto Velho e Palmas e Centro-Oeste - Brasília.

 

Como se pode perceber, essa distribuição das capitais brasileiras segundo o século da fundação demonstra que 70,5% das capitais tiveram origem no Brasil Colônia (séculos XVI a XVIII) e apenas 29,5% surgiram no período republicano. Em face disso, para a compreensão desse fenômeno, faz-se mister uma retomada de dados acerca do processo de povoamento do Brasil, ou seja, as correntes migratórias que foram responsáveis por esse povoamento, nas diferentes regiões brasileiras.

Consultando Caio Prado Júnior (2006, p. 36-38)[3],  vamos verificar que no final do século XVIII a população brasileira somava cerca de 3.000.000 de habitantes, excluindo-se aproximadamente 800.000 índios “não domesticados”. Essa população distribuía-se irregularmente por todo o território da então colônia. Segundo esse historiador, vários fatores contribuíram para a essa dispersão do povoamento: i) “a extensão da costa que coube a Portugal na partilha de Tordesilhas”, fator determinante para a colonização simultânea em diferentes pontos da colônia como uma estratégia de defesa, o que resultou na divisão do território em capitanias, medida que garantiu à coroa portuguesa a posse das terras ao longo do litoral (p. 37); ii) o “bandeirismo preador de índios e prospector de metais e pedras preciosas” que avançou o povoamento para o interior da colônia; a exploração das minas a partir do final do século XVII fixou núcleos populacionais no interior da colônia - Minas Gerias, Goiás e Mato Grosso (p. 37); iii) a ação das missões católicas evangelizadoras do gentio no Extremo-Norte (bacia Amazônica), “seguidas de perto pela colonização leiga, provocada e animada pela política da metrópole [...], sustentada pela exploração dos produtos naturais da floresta amazônica: o cacau, a salsaparrilha e outros” (p. 37) e, iv) consumo de carne oriunda dos rebanhos que avançavam pelo sertão nordestino, um dos “maiores centros agrícolas do litoral da colônia, Bahia e Pernambuco” (p. 37-38).

Ainda conforme o mesmo historiador, o território que viria a constituir o Brasil fixou-se na verdade desde os meados do século XVIII, época em que quase 2.000.000 de habitantes havia se fixado na faixa litorânea. Em face disso,

 

esse desequilíbrio entre litoral e interior exprime muito bem o caráter predominante da colonização: agrícola - donde a preferência pelas férteis, úmidas e quentes baixadas da marinha; e comercialmente voltada para o interior, onde estão os mercados para seus produtos. Localizado aí de início, o povoamento só começa a penetrar no interior, propriamente no segundo século (PRADO JÚNIOR, 2006, p.39).

 

Associando-se esses dados históricos às datas dos primeiros povoamentos que deram origem às capitais dos estados brasileiros no Brasil Colônia, encontramos justificativas para o fato das 52% das capitais que surgiram nos séculos XVI e XVII situarem-se em áreas litorâneas, exceto São Paulo, uma vez que

 

de ocupação efetiva do interior, à parte o caso excepcional de São Paulo, plantado de início no planalto e arredado da costa, encontramos apenas a marcha progressiva das fazendas de gado do sertão nordestino e a lenta e escassa penetração na bacia amazônica (PRADO JÚNIOR, 2006, p.39).

 

Reportando-nos novamente ao século XVI notamos que o surgimento dos 07 povoados que se transformaram em grandes centros urbanos elevados à categoria de capital - Salvador, Natal, Recife, João Pessoa, Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória - traduzem fortemente a política colonizadora lusitana.

Na localidade onde foi fixada a cidade de Salvador, por exemplo, há registro da presença de habitante branco desde 1510 - Diogo Álvares que era tripulante de um navio francês que naufragara no local. Em 1536 chegou à região Francisco Pereira Coutinho, o primeiro donatário que recebeu capitania hereditária de El-Rei Dom João III, fundando o Arraial do Pereira. Em 1949 Tomé de Souza funda por ordens do rei de Portugal a cidade-fortaleza chamada São Salvador, nascendo assim a cidade de Salvador, com estuto de cidade e de capital, sem nunca ter sido província. Comprova-se, pois, que a fundação da capital Salvador no litoral representou uma ação do governo português em defesa do território[4].

Caminhos similares marcaram o surgimento das outras capitais seiscentistas da região Nordeste. A primeira população que deu origem a Recife, por exemplo, surgiu em 1561, em decorrência de um ancoradouro (largo canal situado entre os arrecifes de arenito e a península), que abrigava pesados veleiros que ali vinham refrescar-se em local abrigado pelas sombras dos arrecifes. Nesse local, as águas do mar misturavam-se às dos rios Capibaribe e Beberibe. Já João Pessoa surge em 1585, com o nome de Nossa Senhora das Neves, quando chegou à Paraíba Martim Leitão, Ouvidor-Geral da Bahia, chefiando uma expedição que deveria restaurar os fortins da barra e desalojar os franceses que ali vinham se fixando. Com o Ouvidor-Geral chegaram também várias famílias, por isso ele teve que providenciar a construção de fortes, igrejas e casas de moradia.

Por fim, a Cidade do Natal, nome assim registrado na Constituição Estadual, teve origem em 1599, na capitania do Rio Grande do Norte, cuja história tem início em 1535 com a chegada de uma frota comandada por Aires da Cunha, a serviço do donatário João de Barros e do Rei de Portugal, que tinha como meta a colonização das terras da região.

Ao longo do litoral, só que na região Sudeste da Colônia, outras 03 capitais seiscentistas surgem como decorrência das mesmas estratégias do governo imperial, qual seja as de proteger as fronteiras e de expandir o processo de povoamento do território.

Vitória, por exemplo, foi criada em virtude dos constantes ataques indígenas, franceses e holandeses à Vila Velha, que era a capital da capitania do Espírito Santo, o que levou os portugueses a mudarem a capital para uma ilha próxima ao continente, a Ilha de Guanaaní, e batizá-la de Ilha de Vitória. A nova capital foi fundada em 1551 com o nome de Cidade de Vitória, em referência à vitória conquistada numa grande batalha comandada por Vasco Fernandes Coutinho, donatário da capitania, contra os índios Goitacases.

São Paulo emerge como missão jesuítica, reunindo em seus primeiros territórios habitantes de origem européia e indígena. Do ponto de vista da segurança, a localização topográfica de São Paulo era perfeita, por situar-se numa colina alta e plana, que facilitava a defesa contra ataques de índios hostis. Com o tempo, o povoado acabou caracterizando-se como entreposto comercial e de serviços de relativa importância regional. Essa característica de cidade comercial e de composição heterogênea vai acompanhar a cidade em toda a sua história. A vila de São Paulo de Piratininga foi fundada em 25 de janeiro de 1554 com a construção de um colégio jesuíta pelos padres Manoel da Nobrega e José de Anchieta entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, ao redor do qual se iniciou a construção das primeiras casas de taipa, que dariam origem ao povoado de São Paulo de Piratininga que em 1560 ganhou foros de vila.

A Cidade do Rio de Janeiro, por seu turno, foi fundada em 1565 por Estácio de Sá, com a missão de servir como núcleo fortificado com vistas a defender a baía da Guanabara, após a expulsão dos franceses. Essa localidade algumas décadas depois se configurou como um porto exportador do açúcar do recôncavo fluminense. Outro fator que deu destaque à cidade do Rio de Janeiro foi a sua elevação à capital do território em 1763. Com a vinda da família real para o Brasil em 1808, a capital foi fortalecida do ponto de vista político-administrativa e como centro econômico. Apesar da mudança da capital para Brasília, em 1960, o Rio de Janeiro continuou sendo importante pólo turístico, cultural e comercial do Brasil.

No século XVII, surgem mais 08 capitais brasileiras também motivadas pelas mesmas razões que impulsionaram o surgimento de povoados no primeiro século do Brasil Colônia e ainda predominam as cidades litorâneas e em regiões de fronteira marcadas por grandes rios navegáveis. É nesse século, por exemplo, que surgem as primeiras capitais situadas na região Norte do Brasil: Belém e Manaus.

A capital do atual estado do Pará, Belém, foi edificada em terras dos povos Tupinambá. O surgimento do núcleo primitivo dessa cidade remonta ao contexto da conquista da foz do rio Amazonas, à época da Dinastia Filipina, quando da fundação do Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo do Presépio de Belém (Forte do Presépio), às margens da baía de Guajará, em 1616. Inicialmente denominada de Feliz Lusitânia, a povoação que se formou ao redor do Forte do Presépio foi também denominada como Santa Maria do Grão Pará, como Santa Maria de Belém do Grão Pará e, por fim, Belém. Entre o final do século XIX e começo do século XX, no chamado Ciclo da Borracha, a cidade alcançou grande importância comercial e cultural, passando a ser cognominada de Paris N`América. Isso atraiu grandes levas de imigrantes oriundos de diversos continentes e de migrantes de vários estados brasileiros, sobretudo dos do Nordeste que para lá se abalaram em busca de riqueza com a extração do látex da seringueira (Hevea brasiliensis).

A exemplo de Belém, Manaus também ergueu-se com o objetivo de defesa de território. Em 1669, tem início a história da colonização européia na região de Manaus com a construção de um pequeno forte em pedra e barro, com quatro canhões: o Forte de São José da Barra do rio Negro. Esse forte foi construído para garantir o domínio da coroa portuguesa na região, principalmente contra a invasão de holandeses. Próximo ao forte habitavam os povos indígenas barés, banibas, passés e manaós que ajudaram na sua construção e passaram a morar a sua volta. Em 1755 foi criada por meio de Carta Régia a Capitania de São José do Rio Negro, com sede em Mariuá, atual cidade de Barcelos. Todavia, em 1791, temendo as invasões espanholas, o governador Lobo D'Almada passou a sede novamente para o Lugar da Barra, em razão da sua localização estratégica - confluências dos rios Negro e Amazonas. Em 1832, o Lugar da Barra passou à categoria de vila com o nome de Vila de Manuas, passando depois a ser denominada de Cidade da Barra do Rio Negro (1848) e por fim Cidade de Manaus (1856).

Não é demais lembrar que Manuas, a capital do Amazonas, era um lugar esquecido e praticamente inexistente nos mapas até o Ciclo da Barrocha (1879 a 1920), quando a indústria européia passou a utilizar o látex extraído das seringueiras. O mesmo ocorria com Belém que, distante dos núcleos decisórios das regiões Nordeste e Sudeste do Brasil e fortemente ligada a Portugal, reconheceu a Independência do Brasil, apenas a 15 de agosto de 1823, quase um ano após a sua proclamação.

Já no Nordeste foram criadas no século XVII os povoados que deram origem às capitais Aracaju, Fortaleza, Maceió e São Luiz. A exploração das terras onde se localiza a atual capital de Sergipe, Aracaju, e a fundação do primeiro núcleo populacional remontam à época da chegada do colonizador português em terras brasileiras. Inicialmente o território estava sob a jurisdição da Capitania da Bahia de Todos os Santos, fator que atraiu povoadores de origem portuguesa à região. O processo de povoamento da região prosseguiu lentamente, sendo certo que, em 1602, Pero Gonçalves ali obteve concessão de sesmarias. Somente em 1855 o povoado de Santo Antônio de Aracaju foi elevado à categoria de cidade com o nome de Aracaju, cidade que a partir de então passou a ocupar o status de capital da Província de Sergipe.

O núcleo populacional que deu origem à capital Fortaleza foi fundado por meio da Ordem Regia de 13 de fevereiro de 1699, que criou a primeira vila no Ceará, origem do atual Município de Aquiraz, instalado em 1700, na sua primitiva sede - o núcleo de Fortaleza. Por Resolução Régia de 9 de março de 1725, é criado o município de Fortaleza, com sede no núcleo do mesmo nome, então elevado à categoria de vila. Já a categoria de cidade lhe é conferida em 1823.

Já os registros de primeiras povoações no território onde se situa Maceió datam de 1611 quando uma sesmaria de 800 braças foi concedida a Manuel Antônio Duro. Em 1673, D. Pedro II ordena a povoação e a fortificação do porto de Jaguará, com vistas a combater o comércio ilegal de pau-brasil. A vila de Maceió foi criada em 1815 e instalada em 1817, sendo elevada à categoria de cidade e de capital da Província de Alagoas em 1839. Por fim, a cidade de São Luís, capital do Maranhão, situada na península que avança sobre o estuário dos rios Anil e Bacanga, foi fundada em 1612, pelos franceses Daniel de La Touche e Fraçois de Rasilly. A cidade foi incorporada ao domínio português em 1615, mas sucumbiu, ainda no decorrer do século XVII, ao domínio holandês. Em 1645 os holandeses foram expulsos pelos portugueses, quando efetivamente tem início a colonização portuguesa da antiga Upaon Açu ou Ilha Grande, a denominação tupinambá para a Ilha de São Luís.

É o século XVII que também registra o surgimento da primeira capital na região Sul do Brasil, já como conseqüência do ciclo da exploração do ouro que levou ao descobrimento dos Campos de Curitiba, também chamados de Sertão de Paranaguá. As levas de garimpeiros subiam o rio Ribeira e atingiam o rio Assungui e se deparavam ao sul com os Campos de Curitiba, onde vários deles se fixaram com suas famílias. Outros vindos do litoral galgaram a Serra do Mar e se estabeleceram no planalto. A primeira notícia de bandeirantes nesses campos data de 1661: uma carta de sesmaria a favor de Baltazar Carrasco dos Reis, dando-lhe posse no Barigui. Curitiba foi erguida numa região de floresta exuberante onde reinavam as araucárias.

Todavia, motivos diversos aos que desencadearam o surgimento dos povoados que deram origem às capitais seiscentistas e setecentistas impeliram o surgimento dos aglomerados humanos que adquiriram o estatuto de capital no século XVIII. Ao contrário dos dois primeiros séculos de colonização, quando o processo de povoamento priorizou a área litorânea, o século XVIII vem marcado por novos processos de colonização, decorrentes, sobretudo, do ciclo do ouro que tange, para o interior do território, grandes levas de bandeirantes em busca de ouro e pedras preciosas. Instauram-se os movimentos das entradas e bandeiras[5] e posteriormente o das monções[6] que impulsionam o povoamento do Centro-Oeste do Brasil. Em face disso, a fundação de muitas cidades foi uma conseqüência do arrojo dos bandeirantes paulistas que, empenhados a principio na captura de índios para os trabalhos da lavoura, e atraídos depois pelas minas de ouro e diamantes, vieram a desbravar os sertões brasileiros. A criação das capitais Cuiabá (MT) e de Belo Horizonte (MG) foi motivada pela influência do movimento de entradas e bandeiras.

Cuiabá, por exemplo, tem sua origem em um povoado fundado entre 1673 e 1682, por Manoel de Campos Bicudo, nas proximidades do rio Coxipó, rico em pedras preciosas, onde o rio deságua no rio Cuiabá. O afluxo de gente a esse novo Eldorado foi extraordinário e, apesar das dificuldades de comunicações, o seu desenvolvimento foi espantoso. Em 1726, o Capitão-General de São Paulo, Rodrigo Cesar de Menezes, mandou erigir em vila o povoado, sob a invocação de Nosso Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Em virtude da dificuldade de a Capitania de São Paulo administrar os distritos de Cuiabá e de Mato Grosso, em 1748, foi criada a Capitania de Mato Grosso e Cuiabá. Em 1752 a sede de governo foi transferida para o município de Mato Grosso, para a recém-fundada Vila Bela da Santíssima Trindade, às margens do rio Guaporé. Dada a sua posição geográfica central, Cuiabá conservou sua hegemonia, apesar de destituída dos foros de capital. Elevada à categoria de cidade, em 1818, passou a capital em 1825. Sua evolução sócio-econômica foi tolhida durante mais de um século por agitações internas e dificuldades de toda a espécie, das quais a menor era a distância que a separava da capital do País.

Na região Norte, no século XVIII, desponta Macapá, a capital do estado do Amapá.  Os primeiros habitantes do Estado foram os casais de açorianos que, no século XVIII, enfrentaram uma arriscada viagem pela selva para chegar à "Costa de Macapá", nome que na época identificava o canal norte do Rio Amazonas. Essas famílias ocuparam as terras amapaenses no ano de 1751, depois de fugirem da guerra entre cristãos e mulçumanos. Além do mais, havia o interesse de Portugal na região como mais um ponto de colonização. A fundação de Macapá se prende à defesa e à fortificação das fronteiras do Brasil Colônia, quando ali foi estabelecido um destacamento militar, criado em 1738. Posteriormente, na praça São Sebastião em 1758 era levantado o pelourinho e fundada a Vila de São José de Macapá. A partir de então, foram surgindo edificações, até hoje preservadas, que constituem em verdadeiro patrimônio cultural, como a Fortaleza de São José de Macapá. Macapá é a única capital da região Norte banhada pelo rio Amazonas.

A cidade de Belo Horizonte, por sua vez, se originou de um pequeno arraial chamado Curral del Rei, fundado por João Leite da Silva Ortiz, famoso bandeirante e guarda-mor das Minas de Goiás. Era irmão do também célebre Bartolomeu Pais de Abreu que achou o clima da região agradável, e ali se estabeleceu com a Fazenda do Cercado. No local, nas fraldas da Serra do Curral, em 1750, por ordem da Coroa, foi criado o distrito de Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral del-Rei, então sede da freguesia do mesmo nome, instituída de fato em 1718, em torno de capela ali construída por Francisco Homem del-Rei. A freguesia foi oficializada em 1748. No final do século XIX, a então capital de Minas Gerais, a cidade de Ouro Preto, apresentava dificuldades em termos de expansão urbana, devido à sua localização. Isso gerou a necessidade da transferência da capital para outra localidade. O território foi desmembrado de Sabará e inicialmente a localiddae foi denominada Cidade de Minas. A capital do Estado foi oficialmente transferida em 1897, durante o governo de Crispim Jacques Bias Fortes, já com o nome de Belo Horizonte.

Já o povoamento da Ilha de Santa Catarina tem início por volta de 1765, com a chegada do bandeirante Francisco Dias Velho com sua família e agregados que funda a localidade de Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis). Intensifica-se o fluxo de paulistas e vicentistas na região e, em 1726, Nossa Senhora do Desterro é elevada à categoria de vila e desmembrada do municio de Laguna. No século XIX tornou-se capital da província de Santa Catarina (1823). A população da cidade é majoritariamente de origem portuguesa, com destaque para os colonos açorianos que colonizaram a região em meados do século XVIII.

O século XIX, por sua vez, documenta o surgimento de 06 capitais brasileiras, distribuídas nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul. No Norte nascem Rio Branco e Boa Vista, decorrentes de movimentos econômicos que marcaram a região nesse século. A primeira foi fruto da atividade extrativista, uma vez que teve como primeiro núcleo populacional o Seringal Volta da Estrela, situado à margem direita do rio Acre. Além disso, foi um dos primeiros povoados a surgir nas margens do rio Acre. Conta a história que, em fins de 1882, numa pronunciada volta do rio Acre, uma frondosa árvore, a Gameleira, chamou a atenção de exploradores que subiam o rio e levou-os a abrir novos seringais ali mesmo.

Já a criação de Boa Vista foi motivada pela pecuária. O municipío de Boa Vista formou o primeiro povoamento caracteristicamente urbano da região do atual estado de Roraima. O Forte São Joaquim, localizado a 32 quilômetros da capital, fundado em 1775, deu considerável importância à região. A capital foi fundada em 1830 pelo capitão Inácio Lopes de Magalhães e originou-se de uma das inúmeras fazendas de gado situadas ao longo dos rios que compõem a bacia do rio Branco pertencente à então  Província São José do Rio Negro, atual Amazônia. É a única capital brasileira localizada totalmente ao norte da linha do Equador, na fronteira com a Venezuela. Foi elevada à categoria de vila em 1858 com o nome de freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Rio Branco e erigida à sede do município em 1890, com o nome de Boa Vista do Rio Branco. Em 1944, tornou-se a capital do recém-criado Território Federal do Rio Branco (1943). Em 1962 houve a mudança do território para Roraima e em 1988 foi criado o estado de Roraima, tendo Boa Vista como capital.

Teresina foi a única capital do Nordeste despontada no século XIX. Trata-se da única capital nordestina que não se localiza no litoral. A origem da cidade está ligada ao rio Poti, que deu nome à Vila Nova do Poti, depois denominada Teresina em homenagem à Imperatriz Teresa Cristina. Em 1832 o povoado atingiu a categoria de vila e distrito, em 1842 surge a Vila Nova do Poti e em 1852 foi elevada à categoria de cidade e de capital, com a denominação Teresina, quando a sede administrativa da Província do Piauí foi transferida da cidade de Oeiras para a atual capital, Teresina.

Campo Grande, capital da região Centro-Oeste, nasce com o nome de Arraial de Santo Antônio de Campo Grande, em 1877, por obra do mineiro José Antônio Pereira, e o distrito foi criado em 1889. Em 1977 foi sancionada a lei que criava o Estado de Mato Grosso do Sul e elevava Campo Grande à condição capital do estado recém-criado. A capital adquiriu nova feição, passando a apresentar um novo ciclo de progresso, assinalado por maiores estímulos à sua expansão urbana, social, cultural e política.

A fundação de Goiânia, por sua vez, decorreu da necessidade de mudança da capital do Estado com vistas a melhor localizá-la, de acordo com os interesses econômicos e sociais de todos os municípios goianos. A primeira capital goiana, Vila Boa, tinha sido escolhida, quando a Província era aurífera. Posteriormente, ficou demonstrado que a criação do gado e a agricultura passaram a ser fatores preponderantes no desenvolvimento do território. Assim, em 1932, foi nomeada uma comissão que, sob a presidência de Dom Emanuel Gomes de Oliveira, então bispo de Goiás, tinha a incumbência de escolher o local onde seria edificada a nova Capital do Estado, sendo escolhida a localidade de Campinas, núcleo populacional existente desde as primeiras décadas do século XIX, como Arraial de Campinas. Em 1853 foi elevado à categoria de Freguesia e em 1914 a município, status que perdeu em 1935 em razão da sua incorporação ao município de Goiânia. Somente em 1937 ocorre a transferência definitiva da capital estadual de Vila Boa, atual Cidade de Goiás, para a de Goiânia.

Fechando o ciclo de capitais criadas no século XIX surge Porto Alegre, capital localizada às margens do rio Guaíba, na região Sul do Brasil. Três sesmarias foram marcos históricos da colonização da região, dentre elas, a de Jerônimo de Ornelas, cuja carta de doação fora recebida em 1740. Esse ato representou ponto inicial da capital gaúcha, sendo Ornelas iniciador do seu povoamento, já que às margens do rio Guaíba, desde 1732, na fazenda de criação de gado e pouso de Ornelas havia surgido um pequeno ancoradouro utilizado por embarcações que atendiam a recém-fundada povoação da Capela Grande do Viamão, razão por que ficou conhecido como Porto de Viamão. Em 1772 foi criada a freguesia do Porto dos Casais, anexando Viamão à nova freguesia. O povoado foi elevado à categoria de vila, em 1808, que ganhou foros de cidade em 1822, quando a vila de Porto Alegre atingiu o status de cidade e de capital da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, com a denominação de Cidade de Porto Alegre. Exerceu importante papel na formação da nova capital a chegada de 60 casais açorianos, com cerca de 300 pessoas, em 1752. Essa leva de migrantes se instalou nas imediações do Porto de Viamão, que passou a ser conhecido pelo nome de Porto dos Casais. Em meados do mesmo ano nova leva de casais açorianos ancora no Porto de Viamão que, juntando-se aos que ali haviam chegado no mês de janeiro do mesmo ano, dão especial impulso ao povoamento da capital gaúcha.

O século XX, por seu turno, é contemplado com o surgimento de apenas 03 capitais: Porto Velho e Palmas na região Norte e Brasília no Centro-Oeste[7].

 A capital Porto Velho está cravada numa região que durante séculos foi uma das mais isoladas e desconhecidas do território brasileiro, ligada ao restante do país por meio dos grandes rios. Duas estradas: a Estrada de Ferro Madeira Mamoré, construída no início do século XIX, e a rodovia BR-29 (atual BR-364), nas décadas de 60 e 70 do mesmo século romperam esse isolamento. Assim, a cidade de Porto Velho foi criada a partir das instalações portuárias, ferroviárias e residenciais da Madeira-Mamoré, em 1914. Nos seus primeiros 60 anos, o desenvolvimento da cidade esteve ligado às operações da ferrovia e enquanto a borracha apresentou valor comercial significativo, houve crescimento e progresso. Nos períodos de desvalorização da borracha, devido às condições do comércio internacional e à inoperância empresarial e governamental, a capital viveu momento de estagnação e pobreza. Em 1919 a povoação da comarca de Porto Velho é elevada à categoria de cidade; em 1943 assume o estatuto de capital do recém-criado Território Federal do Guaporé. Em 1956 o território do Guaporé passa a ser designado de Território Federal de Rondônia que é transformado em Estado em 1982, tendo Porto Velho como capital.

Essas digressões históricas acerca da história social das capitais brasileiras que integram a rede de pontos do Projeto ALiB dão mostras da dinâmica que motivou a criação das capitais, movida pela política de governo instaurada nas diferentes fases da história do Brasil. Na seqüência são tecidas considerações acerca da nomenclatura geográfica dessas capitais.

 

 

3. Os nomes das capitais brasileiras - algumas tendências 

 

Examinando agora os nomes das capitais brasileiras, sob a perspectiva da natureza lingüística dos seus designativos, procuramos verificar em que proporção a nomenclatura geográfica dessas capitais reflete o pensamento dominante no Brasil Colônia e traduz tendências da toponímia do Brasil ainda hoje manifestas no sistema onomástico brasileiro. Nesse particular não podemos desconsiderar o papel e a força da igreja católica no período colonial. A forte influência das missões jesuíticas no pensamento do homem da época reflete-se na nomenclatura geográfica que registra uma significativa produtividade de nomes oriundos do hagiolório católico. Observemos os dados. Originalmente 15 capitais têm nome de base religiosa, predominando os formativos Nossa Senhora e Maria (07 capitais): Santa Maria do Grão Pará > Santa Maria de Belém do Grão Pará > Belém; Freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Rio Branco > Boa Vista do Rio Branco > Boa Vista; Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção > Fortaleza; Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba > Curitiba; Nossa Senhora do Desterro > Florianópolis; Porto dos Casais > Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre > Porto Alegre e Nossa Senhora das Neves > João Pessoa.

Na seqüência, registra-se a presença de nomes geográficos que homenageiam santos perenes do catolicismo: São José: Forte de São José do Rio Negro > Manaus; Vila de São José de Macapá > Macapá e São José de Ribamar do Aquiraz > Fortaleza; Santo Antônio: Arraial de Santo Antônio de Campo Grande e Santo Antônio do Aracaju > Aracaju; São Paulo: São Paulo de Piratininga; São Sebastião: São Sebastião do Rio de Janeiro. O Senhor Bom Jesus também se faz representar na toponímia colonial: Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá > Cuiabá. Elementos ligados ao divino, hierotopônimos (topônimos relativos aos nomes sagrados de diferentes crenças)[8], também se fazem representar nos nomes originais das capitais: Natal e Belém.

Na atualidade outro quadro se afigura, uma vez que em sua grande maioria os nomes de natureza religiosa foram substituídos e/ou omitidos para darem lugar a nomes de outras categorias. Considerando o panorama atual da macrotoponímia das capitais brasileiras, constatamos as seguintes características, em termos da natureza dos designativos dos nomes geográficos: a) nomes que remetem a sentimento religioso: São Paulo, Salvador, Belém e Natal; b) nomes descritivos do ambiente físico da flora brasileira - Curitiba, Campo Grande, Cuiabá, Macapá; da fauna - Aracaju; de correntes hídricas: Maceió, Rio de Janeiro, de formações rochosas: Recife. Além disso, há uma significativa produtividade de nomes que homenageiam vultos históricos: João Pessoa, Rio Branco, Teresina, São Luís, Florianópolis; nomes que traduzem estados anímicos eufóricos do denominador frente ao referente nomeado: Boa Vista, Vitória, Belo Horizonte; nomes que remetem a grupos étnicos: Goiânia e Manaus, e, nomes indicativos de locais de trabalho e pontos de encontro dos membros de uma comunidade: Porto Alegre e Porto Velho.

Olhando agora para esses nomes geográficos sob a perspectiva da base lingüística dos elementos formativos que lhe deu origem, constamos que 25,9% são de base indígena e 74,1% de base portuguesa, o que reflete a tendência geral do léxico do português do Brasil que incorporou um significativo acervo de palavras de base indígena.

 

 

Considerações finais

 

Este trabalho procurou focalizar a história social relacionada às capitais brasileiras que integram a rede de pontos do Projeto ALiB, sua importância no conjunto do processo de povoamento e desenvolvimento do Brasil e a natureza da nomenclatura geográfica dessas capitais. Pelo que foi possível discutir no âmbito do espaço deste trabalho, pôde-se perceber algumas faces do processo de povoamento do Brasil e a sua conseqüente influência no surgimento das capitais. Já à guisa de conclusão vale acrescentar as várias levas de migrações internas que operaram no Brasil no século XX, na décadas de 1950-1970; 1970-1990; 1990 e 2000 que provocaram um fluxo migratório intenso, sobretudo de nordestinos para o Sudeste, Centro-Oeste e Norte, de paulistas e sulistas para o Centro-Oeste e Norte e mais recentemente o retorno de nordestinos de São Paulo para a sua terra de origem (SIMIELLI, 2006).

As características iniciais do povoamento do Brasil somadas às migrações internas tão características no território brasileiro determinam modos singulares de cultura que se refletem na norma lingüística dos brasileiros que habitam os 26 estados da Federação, cada um com formas próprias de ver o mundo e de representá-lo por meio da linguagem. É justamente essa realidade lingüística tão peculiar ao português do Brasil que, apesar da sua heterogeneidade garante a comunicação entre os habitantes das diferentes regiões, que o projeto ALiB está documentando.

 

Referências

 

COMITÊ NACIONAL DO PROJETO ALiB. Atlas Lingüístico do Brasil: Questionários 2001. Londrina: EDUEL, 2001.

____________Projeto Atlas Lingüístico do Brasil. Disponível em <http://www.alib.kit.net>. Acesso em 30/09/2003.

DICK, M. V. de P. do A. Toponímia e Antroponímia no Brasil. Coletânea de estudos. São Paulo: Serviço de Artes Gráficas/FFLCH/USP, 1992.

ISQUERDO, A. N. Pontos de inquéritos dos atlas lingüísticos no Brasil: tecendo e interligando as redes. In: Actas del  XIV Congreso Internacional ALFAL, 17 al 21 de octubre de 2005, Monterrey - México. Publicado em CD-ROM, Santiago do Chile, 2006.

MOUTON, P. G.; Dialectología y geografía lingüística. In ALVAR, M. (dir.). Manual de dialectología hispánica: el español de España. Barcelona: Ariel, 1996, p. 63-77.

NASCENTES, A. O linguajar carioca. Rio de Janeiro: Organizações Simões, 1953.

______________. Bases para a elaboração do atlas lingüístico do Brasil. v. I e II. Rio de Janeiro: MEC, Casa de Rui Barbosa, 1958; 1961.

PRADO JÚNIOR, C. Formação do Brasil contemporâneo. 23ª edição/9ª impressão: São Paulo: Brasiliense, 2006.

SILVA NETO, S. da. Guia para estudos dialetológicos. 2 e. Belém: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. CNPq, 1957.

SIMIELLI, M. E. Geoatlas. São Paulo: Editora Ática, 2006.

Sites consultados:

http://biblioteca.ibge.gov.br/  Acesso: 03/07/2008.

http://cidadebrasileira.brasilescola.com/. Acesso: 30/06/2008.

http://www.brasilchannel.com.br/capitais/index. Acesso: 28/06/2008.

http://www.probrasil.com.br/historia. Acesso: 28/06/2008.

http://cuiabanews.blogspot.com/2008/06/historia-de-cuiaba.html Acesso: 28/06/2008.

http://www.achetudoeregiao.com.br/ Acesso: 03/07/2008.

http://pt.wikipedia.org/wiki/ Acesso: 03/07/2008.

http://www.boavista.rr.gov.br/conheca.php Acesso: 07/07/2008.

 

 

PAINEL OS CAMINHOS DO ALiB

 

UM PASSEIO HISTÓRICO PELOS CAMINHOS DA GEOLINGÜÍSTICA NO BRASIL

 

Maria do Socorro Silva de Aragão

(Universidade Federal da Paraíba, UGC)

 

INTRODUÇÃO

 

O Brasil não tinha, a exemplo de países da Europa, grande tradição em estudos dialetais, de modo geral, e de geografia lingüística, em particular.

Porém, nos últimos vinte anos, a Dialetologia e a Geolingüística no Brasil, apesar das dificuldades pelas quais têm passado, especialmente com a pouca quantidade de pessoal qualificado dedicado a estes estudos, da falta de interesse das instituições e da conseqüente falta de recursos, continua a se expandir, não só quantitativamente, mas qualitativamente, incluindo em seus estudos, além dos aspectos diatópicos,  os aspectos diastráticos e diafásicos.

Outro fato a ressaltar é o surgimento de grande interesse pelos estudos dialetais e, como conseqüência, muitos trabalhos, em forma de teses, dissertações, monografias, conferências e comunicações em seminários e congressos de lingüística têm sido publicados, numa confirmação desse interesse.

A situação atual dos estudos de Dialetologia e de Geografia Lingüística em nosso país, de modo geral, ainda não pode ser considerada ideal, mas conseguimos alguns resultados e suas perspectivas futuras podem vir a ser as melhores possíveis.

Como resultado dessas pesquisas o Brasil já possui, até o momento, dezenove Atlas Lingüísticos concluídos, dos quais nove publicados. Os Atlas Lingüísticos estaduais brasileiros publicados são: o Atlas Prévio dos Falares Baianos (1963), o Esboço de um Atlas Lingüístico de Minas Gerais (1977), o Atlas Lingüístico da Paraíba (1984), o Atlas Lingüístico de Sergipe (1987), o Atlas Lingüístico do Paraná (1994), o Atlas Lingüístico de Sergipe II (2002), o Atlas Lingüístico Sonoro do Estado do Pará (2004) e o Atlas Lingüístico do Mato Grosso do Sul (2007). O Atlas Lingüístico Etnográfico da Região Sul (2002), é o único Atlas Regional brasileiro.

Os últimos Atlas elaborados, mas ainda não publicados, são o Atlas Lingüístico do Ceará, o Atlas Lingüístico do Amazonas, tese defendida na UFRJ em 2004, o Atlas Fonético do Entorno da Baia da Guanabara, dissertação defendida na UFRJ em 2006, o Atlas Geolingüístico do Litoral Potiguar, tese defendida na UFRJ em 2007, o Atlas Lingüístico do Paraná II, tese defendida na UEL em 2004, o Atlas Lingüístico Rural do Município de Ponta-Porã - Mato Grosso do Sul, dissertação defendida na UFMS em 2006, o Atlas Lingüístico da Ilha de São Francisco do Sul - SC, tese defendida na UEL em 2008, o Atlas Lingüístico da Ilha de Marajó, dissertação defendida na UFPA, [s.d.], Atlas Lingüístico de Adrianópolis-PR, dissertação defendida na UEL, [s.d.] e o Atlas Lingüístico de Ortigueira - PR, dissertação defendida na UEL, [s.d.].

Outros tantos Atlas estaduais encontram-se em fase avançada ou inicial de elaboração, como o Atlas Lingüístico Sonoro do Estado do Rio de Janeiro, O Atlas Lingüístico de São Paulo, o Atlas Lingüístico do Acre, o Atlas Lingüístico do Mato Grosso, o Atlas Lingüístico do Espírito Santo, o Atlas Geo-Sociolingüístico do Pará, o Atlas Lingüístico do Maranhão, o Atlas Lingüístico do Rio Grande do Norte e o Atlas Lingüístico do Piauí.

Outros Atlas em elaboração como teses ou dissertações são o Micro Atlas Fonético do Estado do Rio de Janeiro, em preparação como tese, na UFRJ; o Atlas Lingüístico do Oeste Potiguar, em realização como tese, na UFC; o Atlas Lingüístico do Iguatu-CE, como dissertação, na UFC, o Atlas Lingüístico da Mata Sul de Pernambuco como dissertação, na UFPB, o Atlas Lingüístico do Oeste Paulista como dissertação na UEL, e o Esboço de um Atlas Lingüístico de Mato Grosso: um registro da língua falada na mesorregião Sudeste, como dissertação, na UFMS. 

Assim, apesar dos pesares, o sonho de Antenor Nascente e Serafim da Silva Neto vai aos poucos sendo realizado, prevendo-se sua completa realização com o Atlas Lingüístico do Brasil, em fase inicial de elaboração.                                  

 

 

1.  RETROSPECTIVA

 

Os estudos dialetológicos, em sentido amplo, e a Geografia Lingüística, em particular, não têm ainda tradição muito firmada no Brasil.

Apesar do esforço de um grupo de pioneiros, como os professores Serafim da Silva Neto, Antenor Nascentes e Cândido Jucá Filho inicialmente e, posteriormente, dos professores Sílvio Elia, Celso Ferreira da Cunha, Nelson Rossi e Heinrich Bunse, poucos são os cursos de Dialetologia e Geografia Lingüística em nossas universidades.

Como resultado dos cursos ministrados e da pregação do prof. Silva Neto, o Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa, através de sua Comissão de Filologia, propôs como um de seus objetivos a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil. Para a consecução desse objetivo, e a convite da Casa de Rui Barbosa, esteve no Rio, em 1954, o Professor Sever Pop, que ministrou um curso, a partir do qual se esperava que surgissem pessoas interessadas em desenvolver pesquisas dialetológicas, o que não ocorreu.

O professor Antenor Nascentes, outro dos precursores da Geografia Lingüística no Brasil, publicou as “Bases para Elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil”, em duas partes. A primeira, em 1958 e a segunda, em 1961. Nesses trabalhos, o autor apresenta diretrizes gerais para a escolha de localidades, de informantes e para a elaboração do questionário lingüístico, e propõe, muito claramente, a elaboração de atlas regionais.

Em 1957, os professores Serafim da Silva Neto e Celso Ferreira da Cunha, no III Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, em Lisboa, apresentaram a idéia de um Atlas Lingüístico-Etnográfico do Brasil, por regiões, tarefa que agora começa a ser cumprida, com a pesquisa do Atlas Lingüístico do Brasil - AliB.

Por não termos, em nosso país, dados técnicos confiáveis definindo as características da língua portuguesa falada em todo o território nacional, a realização do Atlas Lingüístico do Brasil é tarefa importante e urgente.

Os estudos dialetais realizados no passado, analisando, principalmente, as diferenças lexicais, e os estudos de natureza monográfica, abrangendo uma determinada área, a exemplo dos trabalhos de Amadeu Amaral, Antenor Nascentes e Mário Marroquim, entre outros, têm o caráter introdutório ou exploratório das características específicas dessas áreas e regiões estudadas. Apesar da importância desses trabalhos, eles não abrangem todas as áreas dialetais do país sendo necessária, assim, uma descrição mais ampla e sistemática, cobrindo todo o território nacional, a fim de que se tenha uma visão de conjunto da realidade lingüística do País.

Mário Marroquim, em seu trabalho, já dizia que o estudo do dialeto brasileiro ainda não tinha sido feito, afirmação que nos parece, em pleno século vinte e um, estar perfeitamente atualizada. Diz ele:

 

Não está ainda feito o estudo do dialeto brasileiro. A enorme extensão geográfica em que o português é falado no Brasil dá a cada região peculiaridade e modismos desconhecidos nas outras, e exige, antes da obra integral que fixe e defina nossa diferenciação dialetal, trabalhos parcelados, feitos com critério e honestidade, sobre cada zona do país.[9]

 

Portanto, o primeiro movimento para a elaboração de um atlas lingüístico do Brasil começou com trabalhos monográficos isolados tendo se iniciado oficialmente em 1952, quando,  através do Decreto no. 30.643, Art. 3o. de 20 de março, determina-se como principal finalidade da Comissão de Filologia da Casa de Rui Barbosa a elaboração do atlas lingüístico do Brasil. O Decreto foi regulamentado pela Portaria nº. 536, de 26 de maio do mesmo ano, a qual dá instruções quanto à execução do decreto de criação do Centro de Pesquisas Casa de Rui Barbosa e estabelece como finalidade principal, entre as pesquisas a serem planejadas, a própria elaboração do atlas lingüístico do Brasil.[10]

A esse respeito diz Cardoso, em sua justificativa ao Projeto Atlas Lingüístico do Brasil, que, a partir dessas dificuldades é possível, tendo-se conhecimento delas, partirmos para a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil na atualidade, seguindo as prioridades das tarefas urgentes já apontadas por  Serafim da Silva Neto.

Silva Neto diz ainda que o atlas nacional deve ser precedido de atlas regionais e de estudos monográficos, além das sondagens preliminares, comentando logo a seguir (1957: 11- 12) que “A ele [isto é, ao atlas nacional] havemos de chegar, mas temos de partir do começo, se o quisermos realizar com segurança”. O autor define como passos iniciais e fundamentais para a realização do Atlas Nacional: estudos preliminares que devem envolver não só sondagens experimentais, com a aplicação de questionários, como também estudos de natureza sócio-econômico-histórica sobre a região a ser abordada; a elaboração de trabalhos de cunho monográfico, explorando, assim, aspectos da realidade que será amplamente investigada; e finalmente os atlas regionais que deverão conduzir ao atlas nacional.

 

 

2. OS ATLAS LINGÜÍSTICOS REGIONAIS BRASILEIROS

 

2.1. ATLAS PUBLICADOS

2.1.1. Atlas Prévio dos Falares Baianos

 

O Atlas Prévio dos Falares Baianos se constitui em um marco nos estudos da Geografia Lingüística no Brasil não só por ter sido o primeiro trabalho a ser publicado, mas por sua fundamental importância para o conhecimento do falar regional da Bahia e, por extensão, de grande parte do falar nordestino.

Publicado em 1963, constitui-se de dois volumes: o primeiro, compreendendo as cartas, em folhas soltas, e o segundo, encadernado, com a introdução, questionário comentado e elenco das respostas transcritas.

A metodologia está assim organizada: 50 localidades, cobrindo todo o estado da Bahia; 99 informantes de faixa etária entre 25 a 84 anos; nível de instrução de analfabeto a semi-alfabetizados; sexo masculino e feminino. O Questionário contém  164 questões nos Campos Semânticos: agricultura, pecuária, anatomia e fisiologia humana, culinária e alimentação, geografia e astronomia. As cartas são em número de 209, compreendendo 11 de identificação, 154 fonéticas e léxicas e 44 cartas resumo. Os termos vêm transcritos no interior da própria carta ou com legendas e símbolos, em preto e branco e coloridos. Algumas cartas apresentam dados etnográficos, inclusive com ilustrações. Na parte inferior esquerda das cartas há comentários informativos sobre a aplicação do questionário.

  

2.1.2. Esboço de um Atlas Lingüístico de Minas Gerais

 

O segundo Atlas Lingüístico publicado no Brasil é o de Minas Gerais, resultado do trabalho de um grupo de professores do Departamento de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais: José Ribeiro, Mário Roberto Lobuglio Zágari, José Passini e Antonio Pereira Gaio.

A metodologia para a realização do ALMG foi a seguinte: 116 localidades, cobrindo todo o estado de Minas Gerais; 83 informantes de faixa etária entre 30 e 50 anos; de nível de instrução entre analfabeto a primário completo; sexo: masculino e feminino. O questionário constou de 415 questões, abrangendo os campos semânticos a terra e folguedos infantis. As cartas, em número de 78, são 05 de identificação, 21 léxicas, 24 fonéticas, 03 isófonas e 25 cartas isoléxicas. Os termos vêm com símbolos e legendas. Na parte extrema esquerda das cartas constam os vocábulos de freqüência mínima e na direita, os vocábulos de alta freqüência, ficando no interior do mapa apenas os símbolos, círculos e triângulos cheios e vazios.

  

2.1.3. Atlas Lingüístico da Paraíba

 

O terceiro Atlas Lingüístico publicado no Brasil é o da Paraíba, resultado do trabalho de uma equipe de professores do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal da Paraíba, sob a coordenação das Profas. Maria do Socorro Silva de Aragão e Cleusa Palmeira Bezerra de Menezes. O Atlas compreende três volumes, dos quais dois já publicados.

A pesquisa se estruturou do seguinte modo: 25 municípios base e 75 municípios satélite, cobrindo todo o Estado; 107 informantes da faixa etária entre 30 a 75 anos; com nível de instrução entre analfabeto a primário completo; sexo: masculino e feminino. O Questionário, com 877 questões, dividido em geral e específico. O questionário geral tem os campos semânticos: a terra, o homem, a família, habitação e utensílios domésticos, aves e animais, plantação e atividades sociais; o questionário específico: mandioca, cana-de-açúcar, agave, algodão e abacaxi.

O primeiro volume do Atlas é composto de cartas léxicas e cartas fonéticas, intercaladas. Assim, por exemplo, a carta léxica nº. 030 da pergunta 29, arco-íris, é seguida pelas cartas fonéticas nºs. 031, 032 e 033, correspondentes às variantes fonéticas de arco-íris, arco-celeste e olho-de-boi.

O segundo volume traz uma descrição detalhada da metodologia utilizada, os dados histórico-geográficos, geo-econômicos e sócio-culturais das localidades, a ficha dos informantes, os informantes por localidade, e a análise das formas e estruturas lingüísticas encontradas sob os aspectos fonético-fonológicos e morfossintáticos.

O Atlas apresenta, ainda, um glossário, com 363 verbetes dicionarizados em sentido diferente do uso geral ou não dicionarizados.

  

2.1.4. Atlas Lingüístico de Sergipe

 

O Atlas Lingüístico de Sergipe foi elaborado pelos pesquisadores Carlota Ferreira, Jacyra Mota, Judith Freitas, Nadja Andrade, Nelson Rossi, Suzana Cardoso e Vera Rollemberg, alguns dos quais fizeram parte da equipe responsável pelo Atlas Prévio dos Falares Baianos. O material, pronto desde 1973, por uma série de problemas, inclusive financeiros, somente foi publicado em 1987.

A pesquisa foi assim estruturada: 15 localidades, cobrindo todo o Estado; 30 informantes; faixa etária: 25 a 65 anos; nível de instrução: analfabetos e semi-analfabetos; sexo: masculino e feminino. O questionário contém 700 questões; campos semânticos: terra, homem, animais, vegetais.

Foram elaboradas 180 cartas, sendo 11 introdutórias e 169 cartas léxicas com transcrição pormenorizada e numerosos dados etnográficos, tendo em vista a quantidade de notas que acompanham as cartas. Em cada carta há a remissão à carta correspondente no Atlas Prévio dos Falares Baianos. Há no ALS, ainda, uma série de cartas conjuntas Bahia-Sergipe, com dados da Bahia, não apresentados no APFB.

 

2.1.5. Atlas Lingüístico do Paraná

  

O Atlas Lingüístico do Paraná é um trabalho da Professora Vanderci de Andrade Aguilera, da Universidade Estadual de Londrina, Paraná, apresentado inicialmente como Tese de Doutorado e posteriormente publicado pelo Governo do Paraná e Universidade Estadual de Londrina. Compreende dois volumes: um com a Apresentação e o outro com as Cartas.

A pesquisa foi estruturada do seguinte modo: 65 localidades, cobrindo todo o Estado; 130 informantes; faixa etária: 25 a 65 anos; nível de instrução: analfabeto e primário completo; sexo: masculino e feminino. O questionário com  325 questões nos Campos semânticos: I - Terra - a) natureza, fenômenos atmosféricos, astros, tempo; b) flora: árvores, frutos; c) plantas medicinais; d) fauna. II - Homem - a) partes do corpo, funções, doenças; b) vestuário e calçados; c) agricultura, instrumentos agrícolas; d) brinquedos e jogos infantis; e) lendas e superstições.

O Atlas contém os seguintes tipos de cartas: cartas de identificação - 06; cartas léxicas - 92; cartas fonéticas - 70; cartas isoléxicas - 19; cartas isófonas - 10; cartas anexas com a distribuição geográfica do povoamento do Paraná, do século XVII a XX - 06. No verso de cada carta há notas explicativas e de análise do material coletado.

 

2.1.6. Atlas Lingüístico-Etnográfico da Região Sul do Brasil - ALERS

 

O Atlas Lingüístico-Etnográfico da Região Sul, resultado de um projeto coordenado pelo Professor Walter Koch, envolve os três Estados do Sul do país: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná e foi realizado com equipes locais em cada Estado. Foi iniciado em 1980 e teve seus dois primeiros volumes publicados em 2002. O volume 1 compreende a Introdução e o volume 2 contém as Cartas Fonéticas e Morfossintáticas.

A pesquisa foi assim estruturada: Localidades: área rural - 275 pontos: 100 no Paraná, 80 em Santa Catarina e 95 no Rio Grande do Sul; área urbana - 19 pontos: 6 no Paraná, 6 em Santa Catarina e 7 no Rio Grande do Sul. Informantes: dois por cada ponto das zonas rurais e seis por cada ponto das zonas urbanas; sexo: masculino e feminino; faixa etária: 28 a 58 anos; graus de escolaridade: analfabetos ou com até a 4ª série do Fundamental.

O Questionário: 735 questões de caráter geral, subdivididas em mil itens, das quais algumas coincidem com os outros atlas já publicados, complementadas por questionário específico em cada estado; O questionário Semântico Lexical contém oitocentas questões, cobrindo os campos semânticos: acidentes geográficos, fenômenos atmosféricos, astros e tempo, sistema de pesos e medidas, flora, atividades agro-pastoris, fauna, corpo humano, cultura e convívio, ciclos da vida, religião e crenças, festas e divertimentos, habitação, alimentação e cozinha, vestuário; O questionário Morfossintático, com 75 perguntas, inclui gênero, pluralização, flexão verbal, concordância nominal e verbal, grau de adjetivo e formas de tratamento; O Fonético - Fonológico conta com 26 questões de caráter geral e 24 específicas para as regiões de colonização não portuguesa.

O Atlas contém um total de 176 cartas, sendo 70 de fonética e fonologia, 104 de morfossintaxe e duas cartas auxiliares (microrregiões homogêneas e rede de pontos). Após cada conjunto de cartas vêm apêndices de itens sem carta, com o item, o número de ordem, o símbolo, a variante, a freqüência e o ponto onde ocorreu.

 

2.1.7. Atlas Lingüístico de Sergipe II

  

O Atlas Lingüístico de Sergipe II foi elaborado, inicialmente, como tese da Professora Suzana Alice Cardoso, defendida no final de 2002, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e publicado pela UFBA.

A pesquisa foi assim estruturada: 15 localidades, cobrindo todo o Estado de Sergipe. As localidades são as mesmas do Atlas Lingüístico de Sergipe I com um recorte para o campo semântico homem. 30 informantes; faixa etária: 25 a 65 anos; nível de instrução: analfabetos e semi-analfabetos; sexo: masculino e feminino. O Questionário Semântico-Lexical contém 700 questões. Campos semânticos: terra, homem, animais, vegetais.

O Atlas compõe-se de dois volumes, com três tomos e um CD, com amostras dos questionários aplicados a 15 informantes. O Volume I contém uma introdução, o tema numa perspectiva histórica, uma fundamentação teórica, a metodologia e uma bibliografia. O Volume II contém dois tomos, sendo o primeiro dedicado à introdução das cartas, com os inquéritos, o questionário da área semântica homem, os critérios de apresentação das cartas, referências bibliográficas, índice de formas transcritas e índice onomasiológico. O segundo tomo do Volume II é dedicado às cartas, em número de 108, das quais, três são de identificação. As cartas semântico-lexicais são compostas com legendas coloridas e marcas diferenciadoras da realização masculina e feminina. Na parte inferior direita há histogramas com percentuais de ocorrência masculina e feminina. No verso estão as variantes fonéticas dos itens lexicais, seguidas de notas e comentários.

 

2.1.8. Atlas Geo-Sociolingüístico do Pará - ALISPA

 

Este Atlas é o resultado de um projeto do Professor Abdelhak Razky, da Universidade Federal do Pará, e parte do Atlas Geo-Sociolingüístico do Pará, que se encontra em fase avançada de realização.

A pesquisa foi assim estruturada: 10 localidades pertencentes às seis Mesorregiões do Estado do Pará; 40 informantes; faixas etárias: 18 a 30 e 40 a 70 anos; nível de instrução: até a 4ª série do primeiro grau; sexo: masculino e feminino. O Questionário Fonético- Fonológico contém 157 questões. O mesmo questionário do Projeto ALiB, com adaptações.

O Atlas é o primeiro Atlas sonoro do Brasil e utiliza o software PRAAT 4.0, de Paul Boresma e Paul Wenink.

Contém 600 cartas lingüísticas e o Menu apresenta os seguintes itens: a) Entrevistas; b) Informantes; c) Realização; d) Análise Acústica; e) Palavras. Através desses itens pode-se buscar as cartas por localidades, por informantes, por faixas etárias, por sexo, podendo-se ouvir as realizações fonéticas produzidas pelos informantes, para cada item do questionário, além da possibilidade de uma busca automática da variação fonética, em certos contextos, e sua relação com os fatores sociolingüísticos. Pode-se, também, ouvir as entrevistas integrais dos 40 informantes.

 

2.1.9. Atlas Lingüístico do Mato Grosso do Sul

 

Este Atlas foi elaborado sob a organização do Prof. Dr. Derci Pedro Oliveira, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Está assim organizado:

A Rede de Pontos é constituída por 32 localidades, distribuídas por cinco setores, cujos municípios principais são Três Lagoas, Corumbá, Aquidauana, Campo Grande e Dourados. A escolha das localidades teve por base aspectos demográficos, históricos e sociais do Estado.

Os informantes são em número de 128, sendo sessenta e quatro homens e sessenta e quatro mulheres, nas faixas etárias de 18 a 30 e 45 a 70 anos, homens e mulheres, com grau de instrução analfabetos ou até a 4ª série do Fundamental

O questionário contém 557 perguntas, subdivididas entre o questionário fonético e léxico-semântico. O aspecto morfossintático foi estudado a partir das narrativas feitas pelos informantes, sobre fatos que tenham marcado suas vidas. Os campos semânticos das questões são: acidentes geográficos; fenômenos atmosféricos; tempo; flora; fauna; corpo humano; doenças mais comuns; funções do corpo humano; características físicas; ciclos da vida; religiões e crenças; vestuários e objetos de uso pessoal; brinquedos e diversões; sistema de pesos e medidas superstições, simpatias e lendas.

As cartas lingüísticas foram elaboradas por meio do programa computacional SPDGL (Sistema de Processamento de Dados Geolingüísticos), e, posteriormente, editadas em programa de computação gráfica. As cartas são do tipo: Cartas Fonéticas; Cartas Semântico-lexicais; Cartas Morfossintáticas.

 

 

2.2. ATLAS CONCLUÍDOS

 

2.2.1. Atlas Lingüístico do Amazonas

 

O Atlas Lingüístico do Amazonas é resultado da tese de Maria Luíza de Carvalho Cruz, defendida em 2004, na UFRJ, estando ainda inédito.

A pesquisa foi assim estruturada: 09 localidades, cobrindo todo o Estado e distribuídas pelas diferentes microrregiões do Estado. 54 informantes; faixa etária: 18 a 35; 36 a 55; mais de 56 anos; nível de instrução: alfabetizados, com no máximo, a 4ª série do Fundamental; sexo: masculino e feminino. O questionário, com 329 questões. Campos semânticos: A natureza, o Homem.

O Atlas está organizado em dois volumes. No primeiro, estão a Apresentação, Introdução e Fundamentação teórico-metodológica. O segundo, contém as cartas, que são do seguinte tipo: 107 cartas fonéticas, com notas e comentários explicativos, além de gráficos com os percentuais de ocorrência dos fatos analisados, e 150 cartas semântico-lexicais, também comentadas e algumas delas com ilustrações. No final do primeiro volume há uma bibliografia.

 

2.2.2.  Atlas Lingüístico do Ceará

 

O Atlas Lingüístico do Estado do Ceará, em fase de publicação, é o resultado do trabalho de um grupo de professores do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal do Ceará, coordenados pelo Prof. José Rogério Fontenele Bessa, assessorado por professores visitantes daquela instituição.

A pesquisa foi assim estruturada: 69 municípios selecionados dentro das microrregiões homogêneas, com características físicas, sociais e econômicas semelhantes; 268 informantes da faixa etária: 30 a 60 anos; nível de instrução: analfabeto ou até a 4ª série do Fundamental, sexo: masculino e feminino. O questionário contém 306 questões, compreendendo 583 itens, nos Campos semânticos: natureza (tempo, o homem, parentesco, partes do corpo, funções do corpo, doenças); o homem (características físicas, tipos sociais, jogos, objetos de uso pessoal, atividades e utensílios domésticos, comida, religião, animais, outro).

Foram elaboradas 223 cartas, das quais 75 lexicais e 148 fonéticas, constando, entre elas, as cartas de ocorrência única e de variação zero. O ALECE deverá constar de três volumes: no primeiro, haverá uma introdução com os antecedentes, a orientação teórica, os objetivos, a metodologia do trabalho e uma bibliografia dialetal cearense. O segundo volume trará as cartas léxicas e fonéticas e o terceiro, um glossário e um apêndice com o registro das formas ou expressões encontradas e que não se enquadram em itens lexicais predeterminados pela pesquisa.

 

2.2.3. Atlas Geolingüístico do Litoral Potiguar

 

O Atlas Geolingüístico do Litoral Potiguar é resultado da tese de Maria das Neves Pereira, defendida em 2007, na UFRJ, estando ainda inédito.

Localidades: 05 localidades, cobrindo todo o litoral riograndense do norte e distribuídas pela região do litoral do Estado.

Informantes: 24 nas faixas etárias de 18 a 31; 45 a 59 anos. Nível de instrução: alfabetizados, com no máximo a 7ª série do Fundamental no interior e com ensino superior, na capital. Sexo: masculino e feminino.

Questionários: foram utilizados os questionários do ALiB: Semântico-lexical;  Fonético-Fonológico; Morfossintático.

O Atlas está organizado em dois volumes. No primeiro está a Apresentação, Introdução, Fundamentação Teórico-Metodológica e análise dos dados e uma bibliografia.. O segundo, contém as cartas, que são do seguinte tipo: 08 cartas geográficas, 35 cartas fonéticas, com gráficos de percentuais de ocorrência dos fatos analisados, 09 cartas morfossintáticas e 35 cartas semântico-lexicais. No final do segundo volume há anexos com as fichas de levantamento dos dados.

 

2.2.4. Atlas Fonético do Entorno da Bahia de Guanabara

 

O Atlas Fonético do Entorno da Bahia de Guanabara é resultado de uma Dissertação de Luciana Gomes de Lima, defendida em 2006, na UFRJ, estando ainda inédito.

Localidades: 04 localidades, cobrindo o entorno da Bahia de Guanabara: Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Magé e Itaboraí.

Informantes: 24 nas faixas etárias de 18 a 35; 36 a 55; 56 anos em diante. Nível de instrução: analfabetos ou com no máximo a 4ª série do Fundamental; sexo: masculino e feminino.

Questionários: foram utilizadas 160 questões.

O Atlas está organizado em dois volumes, no primeiro, estão a Apresentação, Introdução, Fundamentação Teórico-Metodológica e análise dos dados e, no final há uma bibliografia.. O segundo, contém as cartas fonéticas, em número de 308.  

 

2.2.5. Atlas lingüístico do município de Ponta-Porã-MS: um registro das línguas em contato na fronteira do Brasil com o Paraguai.

 

O Atlas lingüístico do município de Ponta-Porã-MS: um registro das línguas em contato na fronteira do Brasil com o Paraguai é o resultado da dissertação de Regiane Coelho Pereira Reis, na UFMS, em 2006.

 

2.2.6. Atlas Lingüístico do Paraná II

 

O Atlas Lingüístico do Paraná II  é o resultado da tese de Fabiane Cristina Altino,  defendida em 2007 na UEL. A autora estabeleceu o duplo propósito de (i) mapear os dados relativos às XXX questões não aproveitadas por Aguilera (1994) e (ii) fazer um estudo dialectométrico das variantes paranaenses, envolvendo ambos os atlas. O ALPR II conta com cartas de natureza lexical e inova, em relação ao anterior, na apresentação dos mapas que incluem os acidentes geográficos (rios e rodovias), gráficos de freqüência e distinção entre a fala feminina e a masculina.

 

2.2.7. Atlas Lingüístico da de São Francisco do Sul-SC

 

O Atlas Lingüístico de São Francisco do Sul – SC é o resultado da tese de Tânia Maria Braga Guimarães, defendida em 2008, na UEL e teve como objetivos: (i) elaborar um atlas lingüístico de São Francisco do Sul; (ii) descrever aspectos fonético-fonológicos e semântico-lexicais caracterizadores do falar francisquense; (iii) fazer um levantamento das semelhanças e diferenças lingüísticas com base no fator diatópico, isto é, em relação à rede de pontos lingüísticos; (iv) verificar em que medida as variáveis sexo e faixa etária podem justificar a ocorrência de variantes e (v) comparar os dados do ALSFS com os apresentados em cartas fonéticas do ALERS I. Contém 9 pontos com trinta e seis informantes, selecionados com base nas variáveis sexo e faixa etária, todos no nível fundamental de escolaridade. São 53 cartas fonético-fonológicas e 42 semântico-lexicais.

 

 

2.3. ATLAS EM REALIZAÇÃO

 

Alguns dos Projetos de Atlas estaduais já estavam em desenvolvimento anteriormente ao ALiB, como é o caso do Atlas Lingüístico de São Paulo, do Atlas Lingüístico do Acre e do Atlas Etnolingüístico dos Pescadores do Estado do Rio de Janeiro, que não foram concluídos. Outros se iniciaram depois do Projeto AliB, que, sem dúvida, deu uma nova vida aos estudos dialetais e geolingüísticos em nosso país.

 

2.3.1. Atlas Lingüístico do Estado de São Paulo

 

O projeto de realização do Atlas Lingüístico de São Paulo surgiu em 1980 durante o curso de Introdução à Dialetologia, ministrado pelo Prof. Dr. Pedro Caruso, no Curso de Pós-Graduação em Letras do Departamento de Lingüística do Instituto de Letras, História e Psicologia da Universidade Estadual Paulista, Campus de Assis, São Paulo.

A pesquisa está em desenvolvimento, com um novo grupo de professores, liderados pela Profa. Dra. Vanderci Santana.

 

2.3.2. Atlas Lingüístico do Acre

 

Projeto original de Professores da Universidade Federal do Acre, coordenado pela Profa. Dra. Luíza Galvão Lessa, desenvolveu uma série de atividades, tendo publicado muitos estudos, especialmente do léxico daquela região. A equipe inicial se desfez e agora um novo grupo, liderado pelas Professoras Dras. Maria do Socorro Silva de Aragão e Lindinalva Messias Chagas está dando início a um novo projeto, dentro dos métodos e técnicas empregados pelo projeto AliB.

 

2.3.3. Atlas Lingüístico do Maranhão

 

O Atlas Lingüístico do Maranhão - ALIMA, coordenado pela Profa. Dra. Conceição de Maria de Araújo Ramos, está em sua fase inicial de realização, seguindo os parâmetros teórico-metodológicos do projeto AliB.

 

2.3.4. Atlas Lingüístico do Rio Grande do Norte

 

O Atlas Lingüístico do Rio Grande do Norte - ALIRN, coordenado pela Profa. Dra. Maria das Neves Pereira, está em sua fase inicial de realização, seguindo os parâmetros teórico-metodológicos do projeto AliB.

 

2.3.5. Atlas Lingüístico do Mato Grosso

 

O Atlas Lingüístico do Estado do Mato Grosso - ALiMAT, coordenado por uma equipe do Prof. Dr. Derci Oliveira, está em sua fase inicial de realização, seguindo os parâmetros teórico-metodológicos do Projeto AliB..

 

2.3.6. Atlas Lingüístico do Espírito Santo

 

O Atlas Lingüístico do Estado do Espírito Santo - ALES, coordenado pela Profa. Dra. Catarina Vaz Rodrigues, está em fase adiantada de realização, já tendo sido feita a pesquisa de campo, estando em inicio a elaboração das cartas.

 

2.3.7. Atlas Lingüístico do Piauí

 

O Atlas Lingüístico do Estado do Piauí – AliPI, coordenado pelos Professores Dra. Maria do Socorro Silva de Aragão e Luiz Egito de Souza, está em fase inicial de implantação, seguindo os parâmetros teórico-metodológicos do Projeto AliB.

 

2.3.8. Atlas Lingüístico do Oeste Potiguar

 

O Atlas Lingüístico do Oeste Potiguar é o projeto de tese de Moisés Batista da Silva na Universidade Federal do Ceará, sob a orientação da Profa. Dra. Maria do Socorro Silva de Aragão, em fase inicial de elaboração.

 

2.3.9. Atlas Lingüístico do Iguatu

 

O Atlas Lingüístico do Iguatu é o projeto de dissertação de Fabiana dos Santos Lima, na Universidade Federal do Ceará, sob a orientação da Profa. Dra. Maria do Socorro Silva de Aragão, em fase inicial de elaboração.

 

2.3.10. Atlas Lingüístico da Mata Sul de Pernambuco

 

O Atlas Lingüístico da Mata Sul de Pernambuco e o projeto de dissertação de Edilene Almeida na Universidade Federal da Paraíba, sob a orientação da Profa. Dra. Maria do Socorro Silva de Aragão, em fase inicial de elaboração.

 

2.3.11. Micro-Atlas Fonético do Estado do Rio de Janeiro

 

O Micro-Atlas Fonético do Estado do Rio de Janeiro é o projeto de tese de Fabiana da Silva Campos Almeida na UFRJ, em fase adiantada de elaboração.

 

2.3.12. Atlas Lingüístico do Oeste de São Paulo

 

O Atlas Lingüístico do Oeste de São Paulo é o projeto de dissertação de Ariane Cardoso dos Santos na UEL, em fase de elaboração.

Cada um dos Atlas Lingüísticos Brasileiros, estaduais e o regional, aqui analisados, a seu modo, utilizou a metodologia que lhe pareceu mais importante e de acordo com os objetivos a que se propunham seus autores. As metodologias têm sempre em comum itens como escolha das localidades, cobrindo as áreas e sub-regiões do estado e que têm marcas lingüísticas específicas do falar do estado; informantes com características de faixa etária, sexo e escolaridade que, além das variações lingüísticas, podem mostrar variações sociolingüísticas. Alguns campos semânticos, também, são comuns, tais como o homem e a terra.

Apesar do número de Atlas publicados, concluídos ou em elaboração, permanecem bastante atuais as palavras de Mário Marroquim quando, em 1934 dizia:

Não está ainda feito o estudo do dialeto brasileiro. A enorme extensão geográfica em que o português é falado no Brasil dá a cada região peculiaridade e modismos desconhecidos nas outras, e exige, antes da obra integral que fixe e defina nossa diferenciação dialetal, trabalhos parcelados, feitos com critério e honestidade, sobre cada zona do país.[11]

Tal fato tem se refletido negativamente no ensino da Língua Portuguesa em nosso país, por não haver, em termos das variantes diatópicas e diastráticas, um maior conhecimento da realidade lingüística regional e nacional, pois concordamos com Tarallo (1985), quando diz que:

O Atlas lingüístico de uma comunidade pode, por exemplo, fornecer dados valiosíssimos para o estudo de variação fonológica ou mesmo lexical.[12]

 

 

3. O ATLAS LINGÜÍSTICO DO BRASIL

 

A Geolingüística brasileira, após a realização de todos estes atlas, tem agora as condições técnicas para a realização de sua tarefa mais importante que é a elaboração do atlas lingüístico do Brasil. 

As condições históricas, geográficas, políticas e sócio-econômico-culturais do país, atualmente, são bastante diferentes daquelas da década de 1950, quando os pioneiros da Geolingüística pretendiam iniciar a tarefa para a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil.

Os limites políticos, geográficos, históricos, e sócio-econômico-culturais desapareceram por conta da ampliação e facilidade de comunicação e a conseqüente globalização das informações transmitidas pelo rádio, a televisão e pela internet;  as facilidades dos meios de transporte tornaram o universo uma “aldeia global”, fazendo do cidadão um homem sem fronteiras, pondo em contato diuturnamente populações, costumes e usos lingüísticos diferenciados.

A situação brasileira, como uma sociedade multilingüística, multissocial e multicultural exige um maior conhecimento de sua realidade lingüística a fim de oferecer subsídios para um ensino da língua portuguesa que leve em conta essa realidade do país. A Dialetologia brasileira, neste início de milênio, tem as condições técnicas para a realização dessa tarefa, através da realização do atlas lingüístico do Brasil.

Segundo Suzana Alice Cardoso, Diretora e Presidente do Comitê Nacional do Projeto AliB, na apresentação do projeto:

 

O Atlas Lingüístico do Brasil, ao tempo em que prioriza a identificação espacial dos fenômenos, se propõe não só manter sob controle certas variáveis sociais dos informantes, como também fornecer comentários e estudos interpretativos que acompanharão as cartas e, ainda, tentar estabelecer, via Internet, um sistema  de consulta à distância que faculte ao leitor o conhecimento de formas ou usos linguageiros e também lhe dê a possibilidade de ouvir, de viva voz, as realizações daquela área cartografada e selecionada para audição. Do ponto de vista da orientação teórica, pretende ser o ALiB um atlas de terceira geração, reunindo, assim, às informações lingüísticas cartografadas, estudos e comentários às cartas e oferecendo as facilidades de acesso aos dados vivos por meio do que os franceses identificam como um atlas informatisé et parlant.[13]

 

O Comitê Nacional foi criado no final de 1996 com o objetivo de elaborar o Projeto e conduzir a realização da pesquisa para o Atlas Lingüístico do Brasil. Esse Comitê é constituído por seis professores e pesquisadores de Universidades brasileiras, sob a coordenação da professora Suzana Alice Cardoso e Jacyra Mota, da Universidade Federal da Bahia, Maria do Socorro Silva de Aragão, da Universidade Federal do Ceará, Vanderci de Andrade Aguilera, da Universidade Estadual de Londrina, Mário Roberto Zágari, da Universidade Federal de Juiz de Fora, Cléo Altenhofen, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Abdelhak Razky da Universidade Federal do Pará e Aparecida Negri Isquerdo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Cada membro do Comitê é Diretor Científico e responsável por determinadas áreas, e em cada Estado há uma coordenação e uma equipe local.

O Comitê vem se reunindo sistematicamente, para traçar as diretrizes, métodos e técnicas a serem utilizadas, e para o treinamento dos pesquisadores. Para isso, estão sendo realizados workshops e reuniões de trabalhos do Comitê Nacional, em diferentes cidades do país.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Pelo que se pode observar, a partir da rápida análise acima realizada, num país como o Brasil, com 26 Estados e o Distrito Federal, é muito pouco o que foi realizado ou está sendo realizado, no que concerne à Geografia Lingüística.

Contudo, complementando esses atlas, teses, dissertações, trabalhos monográficos e apresentações em Congressos nacionais e internacionais, analisando os mais diferentes aspectos da língua portuguesa no Brasil, com enfoque dialetal e sociolingüísticos, têm surgido com grande freqüência no momento atual.

Assim, a realização das pesquisas para a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil, será, sem qualquer dúvida, um marco na história dos estudos dialetais e geolingüísticos no Brasil. A concretização de tal empreitada pode ser assegurada por fatores de dois tipos:

 

Ø  Infra-estrutura e vontade política

 

·         O país oferece as condições de transporte e infra-estrutura para que se possa cruzá-lo de norte a sul e de leste a oeste;

·         Há a vontade política das universidades para apoiar tal tipo de pesquisa;

·         Os diversos segmentos das áreas de Letras e Lingüística do país estão convencidos da importância e da necessidade da realização da pesquisa.

 

Ø  Condições técnicas

 

·         Há, em diferentes universidades brasileiras, pessoas competentes e dispostas a realizarem o trabalho para a elaboração do Atlas Lingüístico;

·         Há bibliografia com trabalhos teóricos e práticos de Dialetologia e Geolingüística, não apenas estrangeira, mas, acima de tudo, nacional que podem fornecer o apoio documental de que se necessita;

·         O país já conta com um sistema de computação e informação via internet, que permite a realização de um Atlas de terceira geração, como pretende ser o AliB.

 

Apesar de todos os contratempos, carências e problemas até aqui apontados, cremos que a situação atual é das mais promissoras por termos atualmente 34 atlas publicados, concluídos e em realização, contarmos com modernos métodos de pesquisa, equipamentos e, acima de tudo, com recursos humanos bem treinados e motivados, levando-nos a esperar que os estudos de Geografia Lingüística no Brasil venham em futuro próximo a assumir o papel de relevância que lhes cabe no âmbito dos estudos da Língua Portuguesa.

 

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SILVA NETO, Serafim. Guia para estudos dialetológicos. Belém: INPA, 1958.

ZÁGARI, Mário Roberto L. et al. Esboço de um atlas lingüístico de Minas Gerais. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977.

 

 

PAINEL OS CAMINHOS DO ALiB

 

A DOCUMENTAÇÃO DOS DADOS NO PROJETO ALIB: PRIMEIROS RESULTADOS

 

Vanderci de Andrade Aguilera

(Universidade Estadual de Londrina/CNPq/Brasil)

 

Introdução

 

O Projeto do Atlas Lingüístico do Brasil - ALiB - depois de percorrer uma extensa caminhada, ao longo de dez anos, para: (i) definir e articular a equipe; (ii) escolher e sedimentar a metodologia e os procedimentos metodológicos; (iii) buscar incansavelmente meios de financiamento para as diversas etapas; (iv) preparar os pesquisadores de campo e acompanhar o desempenho deles; (iv) discutir e definir as formas de transcrição e de armazenamento dos dados, começa a se preparar para colocar à luz os primeiros resultados.

Concluídos os trabalhos nas vinte e cinco capitais, o Comitê Nacional está atuando em três frentes: duas delas com vistas à publicação dos primeiros volumes do atlas, iniciando com as cartas de natureza fonética e à das análises das Questões Metalingüísticas. A terceira diz respeito à preparação de cartas lexicais em caráter experimental. Sobre estes três tópicos, pois, desenvolvemos nosso texto, iniciando pelas considerações acerca das cartas fonéticas.

 

 

1.      Preparação das cartas fonéticas

 

As equipes regionais, nesta etapa da pesquisa, dedicam-se à análise dos fatos fônicos mais salientes, capazes de definir áreas dialetais ou limites de isoglossas. Depois de definido o quadro de símbolos a ser adotado, os trabalhos foram distribuídos entre os diretores científicos e se referem a: (i) vogais pretônicas (Cardoso e Zágari); (ii) /S/ em coda silábica (Mota); (iii) /l/ em coda silábica (Margotti); (iv) consoantes palatais laterais e nasais (Razky et alii); (v) róticos (Aguilera); (vi) /t, d/ em contextos de palatais (seguido de /i/ ou precedido de /j/) (Mota); (vii) iotização do –nh- e do –lh- (Mota); (viii) vogais finais (Isquerdo); (ix) vogais postônicas não finais (Aragão e Araújo); (x) ditongação em sílaba terminada por sibilante (Altenhofen e Mota); (xi) monotongação (Zágari e Razky) e (xii) diferenças prosódicas das assertivas (Cunha).

Neste particular, algumas cartas experimentais foram elaboradas e apresentadas no III Workshop do ALiB (UFBA: 2008), quando discutimos a distribuição das variantes de prateleira, que responde à questão 033, dos Questionários do ALiB (2001) e verificamos que, nos casos de metátese, o nível fundamental de escolaridade é mais favorável à ocorrência de contextos com o rótico em coda silábica (20%). As regiões Norte e Nordeste mostram-se menos suscetíveis à metátese e, quando isto ocorre, predomina o /r/ glotal. Na região Centro-Oeste, o rótico em coda é preenchido pelo retroflexo em Campo Grande e pelo glotal em Goiânia. Já na região Sudeste coocorrem ambas as variantes (com e sem metátese) e, no caso de transposição do rótico, predomina o glotal em Vitória e Belo Horizonte e o tepe em São Paulo. Na região Sul, a metátese ocorre em Curitiba (com tepe e retroflexo) e em Florianópolis com o velar. Quando a variável escolaridade é preenchida por falantes de nível superior, a ocorrência de metátese é menos produtiva (6%), registrada apenas na região Nordeste (4%), com o glotal, e na região Centro-Oeste e Sudeste, com o retroflexo (2%).

Outro estudo preliminar, sobre os róticos em coda silábica interna, com base nos registros de gordura, resposta da questão 22 do QFF, permitiu verificar, na fala dos informantes do nível fundamental, a hegemonia do glotal em todas as capitais das regiões Norte, Nordeste e, na região Sudeste, entre os falantes de Belo Horizonte e Vitória. A variante velar é mais produtiva em Florianópolis, na região Sul enquanto o retroflexo é mais freqüente no Centro-Oeste (Cuiabá, Goiânia, Campo Grande), e em Curitiba, região Sul, onde ambas concorrem com o tepe. Em Porto Alegre, no entanto, predomina absoluto o tepe. Quando a variável escolaridade seleciona o nível superior, os resultados praticamente não variam: as regiões Norte, Nordeste e Belo Horizonte e Vitória, na região Sudeste, continuam privilegiando a glotal. A velar permanece em Florianópolis e o tepe em São Paulo e Curitiba. A região Centro-Oeste não elege uma única variante, oscilando entre retroflexa, tepe e velar.

Um terceiro estudo, embora preliminar, sobre o comportamento da proparoxítona em abóbora questão 031 do QFF, mostra que, quando a variável escolaridade seleciona o nível fundamental, a variante paroxítona, com a síncope da pós-tônica, se distribui por todas as capitais com um índice de 22%, mas cai para 9% entre os informantes de nível superior. Esses três estudos foram feitos em caráter experimental para serem aprofundados até a publicação das cartas fonéticas do ALiB.

 

 

2.      Questões Metalingüísticas

 

Neste segundo tópico, tratamos da pesquisa sobre as seis Questões metalingüísticas dos Questionários ALiB 2001 que foram tema de meu estágio doutoral realizado na Universidad de Alcalá - Espanha, sob a orientação do Dr. Francisco Moreno Fernández, e foram discutidas em três artigos. O primeiro diz respeito às respostas para a pergunta n° 1: Que língua você fala? feita para os 200 informantes das vinte e cinco capitais. Sobre esta questão, Aguilera (2008) conclui:

“Analisados os depoimentos de 200 informantes, moradores de 25 capitais brasileiras, relativos às Questões Metalingüísticas constantes dos Questionários do Atlas Lingüístico do Brasil e, particularmente, que dizem respeito à Questão 1, verificamos que a grande maioria (92%) acredita falar o português ou a língua portuguesa. Outras manifestações minoritárias (o falar brasileiro, o cuiabano, o nativo) eram corrigidas na reformulação da pergunta em favor da crença majoritária”.

Ainda sobre estas respostas, verificamos que “a faixa etária é definidora da incerteza e da vacilação no momento de o informante expor sua crença sobre a língua que fala: os mais idosos demonstram essa oscilação com muito mais ênfase que os da faixa I, entre 18 e 30 anos. No entanto, pode-se concluir que a faixa etária não atua sozinha, pois está associada ao nível de escolarização. O pouco tempo de permanência na escola ou o fato de ter se distanciado dela por muitos anos, podem ter colaborado para essa vacilação na hora de denominar a língua que fala. As mulheres, por sua vez, demonstraram menos oscilação que os homens, independentemente do nível de escolaridade. Relativamente à origem do informante, os naturais das regiões Norte e Nordeste demonstraram uma tendência maior à incerteza sobre a crença de falar o português. Essa tendência pode, também, estar associada à variável nível de escolaridade”.

O segundo artigo foi apresentado no Seminário do Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo, Aguilera (2007), sob o título: Crenças e atitudes lingüísticas: o que dizem os falantes das capitais brasileiras. Sobre o tema a autora tece as seguintes considerações:

“As questões 2 e 3 - Você sabe se aqui nesta cidade há pessoas que falam diferente e se poderia dar exemplo desses prováveis falares diferentes - ensejaram as mais diversas manifestações que foram analisadas à luz de variáveis extralingüísticas, como faixa etária, nível de escolaridade, sexo e região de origem.

As informações obtidas sobre o sistema de crenças a propósito da fala de outros brasileiros permitiram verificar que tipo de atitudes positivas ou negativas procede de tais crenças. Os dados informaram sobre a existência de numerosos fatos lingüísticos estigmatizados e poucos de prestígio. Aqueles, na maioria das vezes, estão camuflados, são subliminares, que se materializam nos adjetivos disfóricos atribuídos ao dialeto de outras localidades e, conseqüentemente, aos seus usuários.

Conforme expusemos de início, o ALiB, ao inserir no instrumento de recolha de dados, pela primeira vez na história da geolingüística do Brasil, Questões Metalingüísticas que levam a respostas sobre crenças e atitudes lingüísticas, dá um passo à frente nessa área do conhecimento e abre perspectivas de aprofundamento de estudos a partir da base que ora oferece aos interessados no assunto”.

Naquele texto concluímos acreditar que a “inserção de questões dessa natureza possa motivar futuros autores de projetos geo-sociolingüísticos a contemplar em suas investigações um tema cujos resultados podem indicar a direção da mudança lingüística que se processa em dada comunidade, bem como esclarecer em que medida os fatos lingüísticos valorizados ou estigmatizados podem interferir nessa mudança”.

O terceiro texto - O que um atlas lingüístico nacional pode revelar sobre as crenças e atitudes de falantes das regiões Centro-Oeste e Sul do Brasil (Aguilera: 2007b), foi apresentado no Fórum Internacional da Diversidade Lingüística, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2007. Sobre o tema, tecemos alguns comentários, tais como:

“O estudo das crenças e atitudes lingüísticas, em que se compararam duas regiões distintas, mas ligadas por uma história recente, revela que o alvo da observação ou da crítica da fala do outro está mais centrado no papel que aquele grupo representa dentro da comunidade. O “invasor” não é poupado, principalmente aquele que preserva tradições arraigadas e diametralmente opostas à cultura da comunidade receptora.

Os naturais da região Centro-Oeste acreditam que, sobretudo, gaúchos, cariocas, nordestinos, mineiros e baianos falam diferente da norma centro-oestina. Com um número menor de referências aparecem goianos, paranaenses, paulistas, mato-grossenses, sul-mato-grossenses, nortistas e pernambucanos. Da mesma forma, os sulistas elegem, nas três primeiras colocações, cariocas, nordestinos e gaúchos, seguindo-se paulistas, catarinenses e mineiros. Com um número menor estão baianos, paraenses, litorâneos e os nascidos em Santos, cidade litorânea paulista.

Os dados levam à reflexão sobre as pronúncias regionais mais salientes e sobre a motivação dessa indicação. Os do Centro-Oeste apontam, em primeiro lugar, os gaúchos, que chegam ao Centro-Oeste em grandes levas de agricultores, desmatando, plantando soja, abrindo cidades, fazendas, mudando a paisagem local, introduzindo novos hábitos, costumes, tradições, alimentos, bebidas, vestuários e, principalmente, um novo dialeto. Os das capitais do Sul também apontam os gaúchos, mas por motivos diversos, o contato pela vizinhança e pelas diferenças dialetais. Os cariocas são citados em ambas as regiões e a explicação pode ser dada tanto pelo falar característico, cheio de manha e de gestos, que se diferencia dos demais, bem como pela divulgação na mídia televisiva, conforme declararam vários informantes que não conhecem o Rio de Janeiro, mas ouvem os cariocas nos programas de televisão. Os nordestinos são lembrados, nas três capitais do Centro-Oeste, e também em Brasília, pela presença na música, cinema e televisão. No Sul, pela presença de nordestinos em vários setores artísticos (atores de novela e de cinema, cantores, bandas) e pela caricaturização em novelas e filmes.

Nesse estudo, também buscamos verificar que adjetivos são mais freqüentemente atribuídos aos falantes de outras regiões. A questão 4 traz em seu enunciado o adjetivo diferente que serviu para qualificar quase todos os naturais de outros estados. Falam diferente, para os naturais do Centro-Oeste: gaúchos, cariocas, paulistas, baianos, pernambucanos, sul-mato-grossenses e mato-grossenses; e para os do Sul: nordestinos, gaúchos, cariocas, mineiros, paulistas e catarinenses. Mais dezoito adjetivos foram usados pelos informantes do Centro-Oeste para qualificar os diversos brasileiros e seus dialetos, e doze adjetivos identificam os do Sul.

No Centro-Oeste, para expressar sua atitude em relação ao outro, envolvendo a observação da fala, verifica-se que os gaúchos são os mais adjetivados, por falarem puxado, engraçado, arrastado e cantado. Esses qualificativos são atribuídos, em sua maioria, pelos mato-grossenses de nível superior, tanto os da Faixa I e II, como os homens e as mulheres. A informante 8 de Goiânia, porém, considera o dialeto gaúcho o mais bonito. Os mineiros foram lembrados também pela fala puxada, engraçada e cantada. Seguem-se os goianos que, além de arrastado e cantado, falam errado.

Por sua vez, na Região Sul, os dialetos e seus falantes mais adjetivados são os cariocas, que falam cantado, chiado (ou com a forma carinhosa chiadinho), puxado, cheio de manha e carregado. Na seqüência, vêm os catarinenses com o dialeto cantado, até cantadinho, chiado, puxado, rápido e espaçoso, seguidos dos paulistas, lembrados por falarem cantado, chiado, curioso, incompreensível, mas também misturado, quase igual aos gaúchos que, por sua vez se caracterizam pela fala cantada, puxada, com /s/ acentuado, mas também correta.

Os sulistas focalizam sua atitude lingüística sobre os cariocas, pela maior exposição na mídia e pelos traços fonéticos da fala; sobre os paulistas, devido ao intercâmbio entre a Região Sudeste e Sul, nos últimos anos, além da ligação histórica remanescente dos primeiros séculos de colonização européia. Os sulistas também não deixam de observar a fala dos vizinhos catarinenses, mas não se incomodam com os paranaenses, que sequer foram lembrados.

Ao tratarmos dos aspectos lingüísticos mais lembrados pelos falantes da Região Centro-Oeste e da Região Sul, constatamos que, em ambas as regiões, os aspectos lingüísticos detectados na fala dos habitantes de outras localidades dizem respeito à fonética, ao vocabulário, aos aspectos morfológicos e às expressões, na maioria dos casos, interjetivas ou de vocativo.

Dentre os aspectos fonéticos mais lembrados pelos informantes do Centro-Oeste, constam:

 

(a) o paulista puxa o /s/ alveolar e o /r/ retroflexo;

(b) o goiano ditonga o mas > mais;

(c) o cuiabano troca o j- pelo dj- e o ch- pelo tch- e não gostam de ser imitados;

(d) o carioca puxa o /r/; põe muito /r/ e puxa o /S/

(e) o mineiro puxa o /s/ alveolar, prolonga a sibilante e o /r/ caipira;

(f) o mato-grossense do sul tem /r/ caipira;

(g) o gaúcho não faz o alçamento do /e/ átono final.

 

Sobre os aspectos fonéticos mais lembrados pelos informantes do Sul:

 

(a) o carioca puxa o /r/ e o /S/;

(b) o gaúcho não tem o /r/ vibrante intervocálico ou em início de vocábulo: caroça e tem três /s/ (sibilante).

 

Há um desequilíbrio entre o número de traços fonéticos lembrados pelos centro-oestinos e os sulistas, mas os dois grupos lembrados são comuns (carioca e gaúcho) bem como os traços fonéticos que identificam o primeiro: o /r/ posterior e a africação do /s/ na fala carioca. Para tentar explicar a ocorrência de um elenco maior de variantes fonéticas apresentado pelos informantes do Centro-Oeste, pode-se pensar em comunidades mais heterogêneas nesta Região, e mais homogêneas no Sul, nas quais se verifica a intensa emigração de sulistas e o caráter de relativa acomodação das comunidades ocidentais autóctones.

Quanto aos aspectos lexicais mais lembrados pelos informantes do Centro-Oeste, ocorrem:

 

(a) gaúcho diz cobrir para rebuçar; motoca para moto; fazer inalação para tomar orosol; piá para menino; rancho para compras; guria para moça e tem uma dança chamada vanerão;

(b) mineiro diz cobrir para rebuçar; pernilongo para mosquito; trem para qualquer objeto ou coisa.

(c) nordestino, mangar para zombar; mouco para surdo; birilo para ramona, grampo de cabelo.

(d) curitibano: encabulado significa envergonhado em Curitiba e admirado em Goiânia.

(e) mato-grossense: guri para menino por influência gaúcha.

(f) goiano: a expressão não dar conta é usada no sentido de não conseguir.

 

Os aspectos lexicais mais lembrados pelos informantes do Sul em relação aos demais brasileiros:

 

(a) nordestino: muriçoca para pernilongo; macaxeira para mandioca.

(b) catarinense: bumba para tiziu.

(c) paulista do interior: arribar para erguer; merendar para comer.

(d) paraense: mangar para zombar; angu para mingau.

 

No nível do léxico, os informantes do Centro-Oeste parecem ter mais o que relatar sobre a fala dos outros, seja devido à intensa miscigenação de brasileiros de vários pontos nessa região, por meio de casamentos, seja pelo contato maior com os diversos grupos, nas relações de amizade, de lazer e de trabalho.

Dentre os aspectos morfológicos mais lembrados pelos informantes do Centro-Oeste, verificamos que o gaúcho usa o tu em vez de você. Os informantes de Curitiba e Florianópolis observam também que o gaúcho usa o tu por você e o nordestino abusa de diminutivos: mainha, bichinho. Os gaúchos estranham o uso de você por tu na fala carioca. Dessa forma, os aspectos morfológicos não parecem estar no nível de consciência dos falantes, sendo lembrados apenas dois deles: o emprego do pronome pessoal e do diminutivo.

Quanto às expressões mais lembradas pelos informantes do Centro-Oeste, relacionamos:

 

(a) nordestino: ó, xente! My God! Bichim!

(b) baiano: cabra safado! Cabra da muléstia!

(c) pernambucano: cabra safado!

(d) gaúcho: tchê! Te cuida, guaíba!

(e) paulista: Vamos comer uma pizza, meu!

(f) mineiro: uai! Uai, sô!

 

Os informantes do Sul, porém, observam as seguintes expressões nos que falam diferente:

 

(a) nordestino: ó, xente! Cabra da peste! Ó sujeito arretado! Bichinho!

(b) baiano: Bichinho!

(c) gaúcho: trilegal! Bah!

(d) paulistano: Se liga, ô meu!

(e) mineiro: Uai! Ei, bichinho!

(f) catarinense: pois, e agora?

(g) paraense: bichinho!

 

As expressões referidas pelos informantes de ambas as regiões caracterizam-se por aquilo que chamamos de estereótipos, veiculados pela mídia, como o cinema e a televisão. Tanto os patronímicos como as expressões usadas são muito semelhantes em ambos os grupos.

Nesse estudo, concluímos que as informações obtidas sobre o sistema de crenças a propósito da fala de outros brasileiros permitiram verificar que tipo de atitudes positivas ou negativas procede de tais crenças. Os dados informaram sobre a existência de numerosos fatos lingüísticos estigmatizados e poucos de prestígio. Aqueles, na maioria das vezes, estão camuflados, são subliminares, que se materializam nos adjetivos disfóricos, atribuídos ao dialeto de outras localidades e, conseqüentemente, aos seus usuários.

O estudo das crenças e atitudes lingüísticas, em que se compararam duas regiões distintas, mas ligadas por uma história recente, revela que o alvo da observação ou da crítica da fala do outro está mais centrado no papel que aquele grupo representa dentro da comunidade. O “invasor” não é poupado, principalmente aquele que preserva tradições arraigadas e diametralmente opostas à cultura da comunidade receptora” (Aguilera: 2007).

O terceiro tópico, que nos propusemos discutir quanto aos primeiros resultados do ALiB, diz respeito aos estudos e às cartas preliminares sobre o léxico nas capitais.

 

 

3.      Cartas lexicais experimentais

 

Destacamos os trabalhos realizados, em nível de Iniciação Científica, por Pastorelli e Aguilera (2007) e Romano e Aguilera (2008).

Pastorelli e Aguilera (2007) apresentam um estudo prévio sobre as variantes obtidas em duas questões 089 (pálpebra) e 105 (pomo-de-adão) do Questionário Semântico Lexical (QSL) dos Questionários do ALiB, registradas nos inquéritos, aplicados in loco, para a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil em treze das capitais brasileiras. O estudo permitiu, por isso mesmo, formular apenas algumas conclusões parciais, que aqui se explicitam: (i) é alta a freqüência de formas populares, representadas por criações metafóricas, como é o caso de capela e pele para pálpebra; e adão, nó, caroço, maçã para gogó; (ii) verifica-se a maior produtividade da forma padrão, de maior prestígio, como a variante léxica pálpebra e gogó; (iii) registra-se a dificuldade de certos informantes em separar e nomear partes do corpo como acontece nas respostas pele, olho, sobrecílios, cílios, garganta, papo e pestana; (iv) é notória a insegurança de alguns em apresentar uma forma não prestigiada, preferindo abster-se; (v) por meio do levantamento das variantes regionais pôde-se verificar as ocorrências comuns a cada uma das localidades possibilitando o traçado de isoglossas verificáveis a partir da cartografação dos dados; (vi) foi possível observar que as variáveis sociais: sexo, faixa etária, localidade e grau de escolaridade exercem influência sobre a produtividade de certas variantes em detrimento de outras.

O estudo de Romano e Aguilera (2008) sobre as variantes lexicais obtidas nas respostas para a questão 039, para tangerina, apresentadas nas 25 capitais, permitiu tecer as seguintes considerações:

 

“(i) tangerina é a forma mais produtiva e mais freqüente que se distribui diatopicamente por quase todas as regiões, embora não apareça como a primeira resposta em algumas delas, sobretudo em capitais onde prevalecem as formas dialetais, como tanja, bergamota, laranja-cravo e mimosa;

(ii) as variantes distribuem-se de modo muito próximo ao que preconizou Nascentes (1958) ao propor a divisão dialetal do Brasil em falares do Norte e do Sul, de modo que tangerina se realiza como variante mais produtiva no Norte e mexerica no Sul/Sudeste/Centro-Oeste;

(iii) nem todas as variantes regionais constam dos seis dicionários consultados, como ocorre com laranja-cravo, poncã, mimosa e tanja;

(iv) os dicionários elegem a forma laranja + a variante como a forma padrão: laranja-tangerina, laranja-mimosa, laranja-cravo que depois, na linguagem oral e informal, se reduz ao segundo termo;

(v) a maioria dos lexicógrafos faz referência às variantes regionais, embora não as localizem nas respectivas regiões.

(vi) dicionários mais antigos não trazem as formas regionais, como mimosa, que vão aparecer somente nas edições mais recentes como Houaiss (2001) e Ferreira (2004);

(vii) destaca-se a importância dos estudos geolingüísticos como fonte segura para os lexicógrafos”.

 

 

Considerações finais

 

Neste artigo trouxemos à luz alguns resultados obtidos pelo Projeto do Atlas Lingüístico do Brasil - ALiB, nos dados coletados em vinte e cinco capitais brasileiras. Para tal, desenvolvemos a análise em três tópicos: os estudos fonéticos que precedem a elaboração das cartas dessa natureza, a serem publicadas nos primeiros volumes do atlas; os estudos realizados sobre as Questões Metalingüísticas que envolvem a temática das crenças e atitudes lingüísticas; e a preparação de cartas lexicais em caráter experimental. Embora os estudos fonéticos e os lexicais aqui apresentados tragam resultados preliminares e provisórios, é possível verificar, pela distribuição diatópica, as diferenças que se estabelecem na língua portuguesa falada nas diversas regiões brasileiras. A variedade se afirma devido aos fatores lingüísticos e extralingüísticos (sexo, faixa etária, escolaridade) mas também e, principalmente, por razões sócio-histórico-econômicas que determinam o uso de variantes de róticos e de itens lexicais distribuídos espacialmente. Por outro lado, a unidade lingüística permanece preservada pelas instituições responsáveis pelo seu controle, como a escola, por exemplo. Finalmente, o estudo dos dados procedentes das Questões Metalingüísticas coloca para a comunidade científica os embates das crenças e das atitudes gerados pelos contatos de grupos e, com certeza, com repercussões significativas sobre o ensino e a aprendizagem.

 

Referências

 

AGUILERA, Vanderci de Andrade. Crenças e atitudes lingüísticas: o que dizem os falantes das capitais brasileiras. Texto apresentado ao 55° Seminário do GEL. Franca: UNIFRAN, 2007a.

AGUILERA, Vanderci de Andrade. Crenças e atitudes lingüísticas: quem fala a língua brasileira? In: RONCARATI, Cláudia; ABRAÇADO, Jussara (orgs.). Português brasileiro II: contato lingüístico, heterogeneidade e história. Niterói: EdUFF, 2008.

AGUILERA, Vanderci de Andrade. O que um atlas lingüístico nacional pode revelar sobre as crenças e atitudes de falantes das regiões Centro-Oeste e Sul do Brasil. Texto apresentado ao I Fórum Internacional da Diversidade Lingüística, Porto Alegre: UFRGS, 2007b.

COMITÊ Nacional do projeto ALiB. Atlas lingüístico do Brasil: questionário 2001. Londrina: Ed. UEL, 2001.

PASTORELLI, Daniele Silva; AGUILERA, Vanderci de Andrade. Estudos lexicais sobre o campo semântico do corpo humano em capitais brasileiras. Relatório de IC. Londrina: UEL, 2007.

ROMANO, Valter Pereira; AGUILERA, Vanderci de Andrade. Um estudo lexicológico sobre as variantes lexicais para a tangerina. Trabalho apresentado na UNOPAR. Londrina: UNOPAR, 2008.

 

 

PAINEL OS CAMINHOS DO ALiB

 

A CARTOGRAFIA DOS DADOS DO PROJETO ALIB

 

Ana Regina Teles e Silvana Ribeiro

(Universidade Federal da Bahia)

 

Durante a 1ª reunião da Comissão de Informatização e Cartografia do ALiB, promoveu-se uma ampla discussão sobre cartografia e a experiência dos lingüistas sobre o tema subsidiada por uma apresentação introdutória na mesma temática. Diante da necessidade de nivelar lingüistas e pessoas de outras áreas do conhecimento (engenheiros e analistas de sistemas) e promover uma perfeita integração da equipe de característica multidisciplinar, o conteúdo da apresentação foi organizado no artigo Apresentando a cartografia aos lingüistas: o Projeto ALiB, publicado em Documentos 2 - Projeto Atlas Lingüístico do Brasil, cujos dados estão em parte retomados e descritos neste trabalho. Destacam-se os seguintes: conceito de atlas, mapa temático e carta lingüística; preparação de base cartográfica como ponto de partida para as cartas-base do mapa nacional e dos regionais, bem como outras cartas-base específicas para confecção de mapas de conteúdos especiais (mapas de isoglossas, mapas de síntese ou mapas comparativos, por exemplo) e, sobretudo, vantagens na utilização de um Sistema de Informações Geográficas - SIG. Ainda durante a 1ª reunião da Comissão, discutiu-se amplamente a natureza dos mapas do próprio ALiB, optando-se pelas versões analógica (em papel) e digital. Estão em estudo as possibilidades de incorporar os dados sonoros dos informantes, no que se refere às respostas obtidas para o questionário fonético-fonológico - QFF. Buscam-se também formas de divulgação do produto final, na versão digital. As opções já pesquisadas são: mídia do tipo DVD e internet.

Atualmente a Comissão de Informatização e Cartografia (CIC) trabalha na modelagem do banco de dados e na forma de entrada dos dados lingüísticos e na elaboração das cartas-base a serem utilizadas. A constituição de banco de dados informatizado bem estruturado tem como vantagem proporcionar a divulgação mais imediata e rápida dos resultados da pesquisa em andamento. É possível iniciar a publicação de mapas e cartas lingüísticas de parte dos dados coletados e transcritos, organizando-se a publicação em volumes. Devido ao caráter continental do Brasil, da densidade de pontos em algumas regiões e do tempo necessário para a realização integral da pesquisa, serão organizados volumes com informações contendo  resultados já disponíveis referentes a estágios intermediários da pesquisa (estudo com as capitais dos estados, estudo por regiões etc). O volume introdutório contará ainda com cartas gerais que apresentarão informações etnográficas, sociais e ou culturais além de mapas de localização da região pesquisada (estado, micro-regiões etc).

Um software específico para o ALiB, que está em desenvolvimento, prevê a alimentação do banco de dados por todos os grupos de pesquisadores distribuídos pelo Brasil através da internet. O uso da mesma ferramenta pelos diversos grupos de pesquisa no país implicará na redução do índice de erros e falhas na carga dos dados. A ferramenta permitirá consultas aos registros pelas equipes regionais, facilitando circulação da informação e servirá de matriz para o uso do software de cartografia.

Para realizarmos a cartografia dos dados lingüísticos, as etapas de Coleta, Transcrição, Análise e Tratamento dos dados lingüísticos devem estar concluídas assim como as que envolvem a preparação e definição das cartas-base.

A elaboração de um mapa de qualquer natureza requer planejamento e várias perguntas devem ser respondidas antes do início da sua execução. As respostas a elas norteiam a definição do projeto cartográfico propriamente dito.

Da mesma forma que a delimitação do corpus (com a definição da rede de pontos e do perfil dos informantes), a escolha da metodologia aplicada à pesquisa de campo e à organização do material foram respostas a questionamentos feitos durante a etapa preparatória do projeto sob a ótica lingüística, há necessidade de dar outras respostas, desta feita sob a ótica cartográfica, quanto ao Atlas a ser elaborado, enquanto documento cartográfico: a forma de apresentação, o formato (dimensões), se uso de cores, definição dos documentos associados (tabelas, encartes), formas de disponibilização dos resultados e temas agregados (vegetação, hidrografia, circulação) já que, dados geográficos não existem sozinhos no espaço - tão importante quanto localizá-los é descobrir e representar as relações entre eles.

A contribuição da Cartografia enquanto ciência se dá, basicamente, em propiciar a representação espacial dos objetos de estudo dos pesquisadores (no caso, os lingüistas), aos quais compete analisar os problemas, elaborar as sínteses e construir as teorias.

Com o desenvolvimento dos modernos procedimentos e com as novas concepções, o avanço e aprimoramento tecnológico dos equipamentos de medição e recursos gráficos e computacionais, o papel científico da Cartografia assume uma nova dimensão. O mapa deixa de ser apenas uma simples ilustração para ser, também, um meio de armazenar e de tratar uma documentação espacial.

O termo Cartografia foi criado em 1839 pelo historiador português Manuel Francisco de Barros e Sousa (1791-1856), o Visconde de Santarém, que enviou uma carta a Francisco Adolfo Varnhagem (historiador brasileiro), indicando a idéia de um traçado de mapas e cartas, na qual se lia: “... invento esta palavra já que aí se tem inventado tantas.”

O desenvolvimento da Cartografia, desde épocas remotas até hoje, acompanhou o próprio progresso da civilização, experimentando-se novas técnicas na aquisição e tratamento de dados, no armazenamento e manipulação destes dados e na suas representações, chegando nos dias atuais a configurar-se como um verdadeiro sistema de informação geográfica, compreendendo seus próprios bancos de dados, suportes lógicos de aplicação e equipamentos. Os SIG (Sistemas de Informações Geográficas) revolucionaram os conceitos e as técnicas de pesquisa, de análise e de manipulação dos dados, permitindo coletar, armazenar, atualizar, manipular, analisar e apresentar visualmente todas as formas de informações georeferenciadas. Para tal, envolvem equipamentos de computação (hardware), programas aplicativos (softwares), dados georeferenciados e pessoal especializado (peopleware).

Os SIG, portanto, são sistemas que têm recursos de análise e funções de busca no espaço a partir de dados alfanuméricos, relações topológicas (relações espaciais entre os objetos geográficos) e operações de sobreposição temática. Dependem de uma base de dados de características alfanuméricas (tabelas) e espaciais (arquivos de características gráficas - mapas).

A cartografia automatizada associada a um SIG, permite a produção de forma bem rápida de um grande número de documentos variados a partir de um mesmo elenco de dados registrados e armazenados. Os dados obtidos das recolhas dos inquéritos do ALiB e não cartografados num primeiro momento, mesmo após muitos anos estarão disponíveis à comunidade lingüística e permitirão, além da geração de novas cartas, outras formas de representação e análises decorrentes de novos dados sócio-econômicos que poderão ser, a qualquer época atualizados e  novamente agregados.

Um Atlas pode ser definido como um conjunto de mapas ou cartas geográficas, de um conjunto de dados sobre determinado assunto, sistematicamente organizados e servindo de referência para a construção de informações de acordo com a necessidade do usuário.

Um mapa temático (ou uma carta temática) é a representação dos fenômenos localizáveis de qualquer natureza e de suas correlações, não se limitando apenas à representação do terreno. Permite, dessa forma, que sejam feitas análises sobre o tema (ou assunto) cartografado e que estas possam ser relacionadas a outras informações obtidas através de outros instrumentos (por exemplo, dados de Censos ou de outros tipos de cadastros, simplesmente). Já um cartograma, é definido pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) como sendo um esquema representativo de uma superfície ou parte dela, sobre a qual são apresentadas informações quantitativas e qualitativas, de eventos geográficos, cartográficos e socioeconômicos.

Com isso percebe-se, assim, que a maioria dos atlas lingüísticos até o momento publicados são conjuntos de cartogramas, já que lhes faltam informações essenciais para que possam ser enquadrados como conjuntos de mapas ou cartas: orientação, sistema de projeção, sistema de referência para as coordenadas e escala. Nestes casos, sem invalidar o mérito científico do estudo lingüístico, apenas o tema pode ser analisado, sem que se possa usá-los nem para a extração de outras informações importantes tais como distâncias, direções, altitudes e localizações geográficas exatas nem para o cruzamento com dados obtidos de outras fontes e que usem referências distintas.

Desse modo, hoje, busca-se, acima de tudo, a possibilidade de obtenção de múltiplas respostas e alternativas a partir de um mesmo conjunto de dados, aliando-se aos requisitos básicos que conferem o grau de qualidade das cartas, outros fatores que, atualmente, têm grande peso nas decisões que envolvem a escolha de técnicas e métodos de levantamentos para a geração e atualização de bases cartográficas (custo baixo, rapidez na execução e retorno rápido e eficiente tanto das informações quanto dos investimentos feitos).

O ALiB será, portanto, um Atlas temático composto por cartas lingüísticas e destas poderão ser feitas medições, avaliações quantitativas e qualitativas do tema lingüístico sobre uma base cartográfica gerada para esse fim. Principalmente pelo tempo despendido na sua elaboração (incluindo-se neste desde as primeiras reuniões preliminares até o momento presente) como também pelo grande número de pesquisadores e recursos públicos envolvidos, o ALiB será desenvolvido segundo os conceitos mais modernos de cartografia e banco de dados, limitado apenas por questões de cunho financeiro, visto que as instituições envolvidas dependem de recursos públicos e estes podem não vir a atender plenamente às demandas.

A principal característica da versão analógica do AliB será a de não se tratar de um conjunto de cartogramas e sim, de conjunto de cartas que conterão, além das informações lingüísticas, todas as informações necessárias ao reconhecimento e à recuperação, em qualquer época, das informações geográficas e sócio-econômicas nele representadas.

A novidade é que esta versão será resultante do seu desenvolvimento num ambiente SIG, conforme citado anteriormente. O fato de já ser desenvolvida neste ambiente, permitirá a disponibilização de uma versão digital e, a depender das decisões dos gestores do Projeto, o acesso ao banco de dados e a manipulação monitorada destes dados.

Num SIG os dados e informações são espacializados, têm referência física (são georeferenciados), além de possuírem atributos. Como sem a base cartográfica digital o geoprocessamento torna-se inviável, a base cartográfica deve se adequar a estas novas necessidades.

 

Definindo base cartográfica e carta-base

 

A qualidade de uma carta é determinada basicamente pela precisão, pela exatidão e pela fidelidade. Além destas, para cumprir com plenitude o seu papel de comunicação o mapa deve apresentar expressividade (quando atrai convenientemente a atenção do leitor para os mais significativos aspectos do tema tratado), legibilidade (quando permite que uma informação procurada possa ser facilmente encontrada, diferenciada entre outras e memorizada sem esforço) e eficácia (quando é perfeitamente adaptado ao seu objetivo, nos limites de sua escala e de seu sistema de projeção).

Um mapa deixa de ser legível quando não se consegue, no nível dos detalhes, isolar à primeira vista a informação desejada nem captar, no nível do conjunto, as relações existentes entre as manchas elementares. Para ser eficaz deve ser conciso, completo e verdadeiro.

Em relação à qualidade da base de dados, os indicadores são, conforme definidos por Teixeira e Christofoletti (1997): a acurácia (proximidade dos resultados em relação aos valores aceitos como reais), a confiabilidade (grau de confiança que o usuário demonstra com relação aos seus dados, programas e equipamentos), a consistência (grau de precisão, atualização e segurança) e a integridade (confiabilidade dos dados armazenados ou processados, no sentido de não haver perda ou distorção na qualidade da informação).

Diante de tudo que foi apresentado até o momento, depreende-se que o processo cartográfico é o conjunto de atividades realizadas sobre dados e informações de uma determinada área, com o objetivo de produzir uma representação gráfica da realidade através da associação de símbolos e outros recursos gráficos que caracterizam a linguagem cartográfica.

Como a clareza e legibilidade, dentre outras, são condições essenciais em um mapa, não é aconselhável que o tema seja colocado sobre a carta topográfica, já que esta é rica em informações de detalhes do terreno e poderia tornar confusa a sua leitura. A partir dela, suprimem-se algumas informações dando origem a uma base cartográfica que é essencial para todo e qualquer tipo de mapeamento temático. A este processo dá-se o nome de generalização que consiste, dessa forma, em distinguir entre o essencial e o não essencial, conservando-se o útil e se abandonando o dispensável. A simplificação da base cartográfica dá origem à carta-base, elaborada para receber um tema específico, só apresentando as informações relevantes e necessárias à representação do tema.

No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE se constitui no principal provedor de dados e informações do país, que atendem às necessidades dos mais diversos segmentos da sociedade civil, bem como dos órgãos das esferas federal, estadual e municipal, oferecendo uma visão completa e atual do País, através do desempenho de suas principais funções, dentre elas: a produção e análise de informações estatísticas e a coordenação e consolidação destas informações, a produção e análise de informações geográficas e a coordenação e consolidação destas informações, a documentação e disseminação de informações e a coordenação dos sistemas estatístico e cartográfico nacionais.

Deste modo, foram tomadas decisões no sentido de trabalhar com base nas informações fornecidas pelo IBGE, já que, desta forma, todas e quaisquer alterações ocorridas - tanto nas questões relativas à formação territorial quanto nas questões referentes às normas cartográficas - são integralmente controláveis.

Foi escolhida como base cartográfica a Base Cartográfica Digital Integrada ao Milionésimo - bCIMd - v. 2.0, no formato compatível para utilização no software ArcGis - ESRI - v. 8.2.

Os procedimentos iniciais consistiram na identificação das 250 localidades com base na escolha feita quando da elaboração do Projeto e a associação destas mesmas localidades aos topônimos oficiais registrados na Base Territorial Brasileira do IBGE. Em seguida, foi feita a localização dos 250 pontos na bCIMd, todos associados ao geocódigo adotado pelo IBGE.

A partir daí, passou-se a trabalhar na generalização desta base, com a eliminação das informações desnecessárias, a redução nas informações apresentadas e a definição dos elementos a serem representados.

A base cartográfica apresenta vários níveis de informação, sendo que para a elaboração da carta-base foram usados, inicialmente, os níveis de limites - estaduais e internacionais, localidades e hidrografia.

De todos os três níveis citados foram suprimidas informações de forma que: os limites remanescentes fossem os estaduais e parte dos internacionais (apenas dos países limítrofes), as localidades fossem restringidas aos 250 pontos ALiB e a hidrografia só representasse as massas d´água representativas no contexto nacional. Para os mapas regionais ou estaduais, outras cartas-base serão criadas e adequadas às novas necessidades.

Outras decisões devem ainda ser tomadas:

 

·   no formato analógico, o formato para impressão (tamanho) que implica diretamente na definição da escala (ou a escolha da escala, que condiciona o tamanho do mapa), a forma de apresentação (encadernado ou em folhas soltas), o uso de cores ou não, a inserção de encartes, a quantidade de volumes e a forma de arquivamento, dentre outros;

·   no formato digital, o formato da mídia (CD, DVD), o uso de software (de domínio público ou de uso restrito), a disponibilização ao usuário (visualização apenas, acesso aos dados e tabelas), se suporta recursos de som, imagem, tabelas e banco de dados e a quem compete a gestão da informação;

·   inserção de encartes, tabelas e gráficos;

·   representação das variáveis sociais;

·   escolha das convenções cartográficas, inserção de legendas e informações marginais.

 

A toponímia merece atenção especial e nem sempre é fácil o estudo de topônimos. No caso brasileiro, a maior dificuldade está nos nomes de origem indígena e, numa escala um pouco menor, nos de origem africana.

É importante, do ponto de vista toponímico, que toda a nomenclatura, antes de entrar para o mapa, seja submetida a uma análise, com o exame das origens de cada vocábulo (ibérica, tupi-guarani, africana, religiosa, etc.), bem como o significado de cada um, a fim de chegar-se, finalmente, ao ponto decisivo de sua ortografia. Deve-se consultar o Índice de Topônimos da Carta do Brasil ao Milionésimo, de 1970, publicação do IBGE já que não existe outra publicação oficial mais recente, embora este órgão esteja desenvolvendo o Banco de Nomes Geográficos.

O posicionamento dos topônimos num mapa deve ser feito de forma a não cobrir outros detalhes importantes.

Definida então a carta-base, retoma-se a questão da representação do tema, que irá envolver, conjuntamente, os especialistas da cartografia e da lingüística, num trabalho de contínuas discussões e ponderações até se chegar ao objetivo: representar os fenômenos lingüísticos a contento da sua comunidade de especialistas sem fugir dos princípios científicos e normatizados da cartografia.

Antes de se abordar a questão do conteúdo, resta apresentar algumas observações complementares e imprescindíveis para que a expressividade, a legibilidade e a eficácia sejam conquistadas.

Condicionada pela escala e pela generalização feitas, a simbologia (convenções cartográficas) é de extrema importância. Os elementos gráficos normalmente usados na representação são os pontos, círculos, traços, polígonos, cores, hachuras, etc. A variedade e a quantidade estão em função da escala.

Uma convenção deve ser simples e também distinta, pequena e fácil de desenhar e permitir a redução sem que se torne ilegível. O uso de cores ajuda muito a se distinguir as convenções. Como se pode deduzir do que foi exposto, a carta final apresentará sempre múltiplas e variadas convenções que devem ser listadas e explicadas ao leitor, de forma que as informações nela contidas possam ser lidas e interpretadas sem dúvidas.

Como então representar os fenômenos identificados na análise de modo a permitir uma ampla e boa leitura da carta? As cartas deverão se ater ao fenômeno lingüístico estudado, podendo ser enriquecidas com informações adicionais indicadas no verso delas. Por exemplo, pode-se optar por: indicar a forma lingüística através de símbolos e apresentar a transcrição fonética no verso ou indicar na carta apenas a primeira resposta, remetendo para o verso as demais. Outras informações que podem constar no verso são: gráficos, tabelas e notas.

As convenções são normalmente representadas na legenda (ou quadro de convenções), dentro de uma moldura, na parte inferior da carta. Na legenda de uma carta temática a representação tem que reproduzir a convenção da forma exata de como está representada na carta e somente aquelas que nela aparecem.

Além da legenda, outras informações importantes são inseridas nas cartas com o intuito de completar e esclarecer: são as informações marginais. As mais comuns são: o título, a projeção cartográfica usada e os dados a ela associados, fontes das informações usadas na execução, data, escalas (gráfica e numérica), diagrama de articulação das folhas (se for o caso) e um mapa de localização da área em relação a uma área maior ou hierarquicamente mais importante contendo os principais limites administrativos nela contidos.

A depender da escala e do sistema de coordenadas adotado, poderão ainda ser representadas as redes de meridianos e paralelos ou quadriculado das coordenadas plano-retangulares.

As informações listadas acima correspondem àquelas que devem aparecer nas cartas de um modo geral. No caso da cartografia temática, como a ênfase está no tema representado, muitas delas são dispensáveis, a exemplo da escala gráfica e da articulação das folhas.

Por fim, é fundamental que seja definido o formato que o mapa terá, principalmente se o produto final for impresso.

O formato de um mapa depende da forma da área a representar, o que pode apresentar problemas, já que existem convenções e normas para inserção de informações complementares, letreiros, legendas e molduras, dentre outras.

O Brasil, pelas suas dimensões nos sentidos Norte-Sul e Leste-Oeste (aproximadamente 4.400 km nos dois sentidos - ligeiramente mais extenso no sentido Leste-Oeste), insere-se praticamente em um quadrado. Esta forma geométrica é um pouco ingrata em termos cartográficos, uma vez que praticamente qualquer informação a ser acrescentada ao mapa só pode ser inserida ou no Oceano Atlântico ou no recuo existente na Região Centro-Oeste, limitando a escala, uma vez que, em se tratando de um trabalho científico, deve-se adotar um dos padrões definidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) - todos retangulares.

Retomam-se adiante as questões relativas ao conteúdo. De posse da carta-base (pré-determinada e caracterizada anteriormente), iniciaram-se as tentativas e experiências de representação, uma vez que os dados lingüísticos a serem cartografados possuem características lingüísticas diferentes. No processo de trabalho surgiram algumas perguntas.

 

1) Que representar nas cartas lingüísticas?

Considerando que o AliB possui um questionário composto por perguntas agrupadas em subtipos (Questionário Fonético-Fonológico - QFF, Questionário Semântico-Lexical - QSL, Questionário Morfossintático - QMS além de questões referentes à  pragmática, ao registro de discursos semi-dirigidos, ao registro de natureza metalingüística e de um texto para leitura), podemos de antemão prever algumas possibilidades.

 

a) Agrupamento por variáveis

 

§  lingüísticas:

*         Variáveis fonéticas

*         Variáveis morfossintáticas

*         Variáveis semântico-lexicais

*         Outros dados

§  sociais

*         Variável gênero

*         Variável faixa etária

*         Variável escolarização

 

Para as varáveis fonéticas, elaboração de cartas baseada em fenômenos fonéticos, agrupando respostas a várias perguntas numa mesma carta, como por exemplo:

 

§  /S/ em coda silábica

§  /l/ em coda silábica

§  Róticos

§  /t, d/ em contextos de palatais (seguido de /i/ ou precedido de /j/)

§  Iotização do / nh /

§  Iotização do / lh /

§  Vogais pretônicas

*         Anteriores

*         Posteriores

§  Vogais postônicas

*         Finais

*         não finais

§  Ditongação em sílaba terminada por sibilante

§  Monotongação

 

b) Agrupamento por respostas às perguntas do questionário

 

Em um agrupamento desta natureza, seriam organizados os dados a partir do questionário, produzindo-se cartas com o resultado das respostas fornecidas pelos informantes para cada pergunta. Um agrupamento deste tipo é pouco recomendável.

Independentemente do agrupamento escolhido, também será necessário definir se a cartografia será feita com base na primeira ocorrência encontrada, na associação com as demais ocorrências fornecidas pelo informante, na ocorrência de maior número ou de todas as ocorrências. Isto só será possível diante da análise dos dados. Para formas diferentes poderão ser adotados critérios diferentes.

Se uma forma for categórica no país e não apresentar variação, não será necessário expressá-la em cartas, mas se as formas encontradas em cada localidade, mesmo que em segunda ocorrência, forem reveladoras de variação (diatópica, diageracional, diagenérica, diastrática etc.) deverão ser cartografadas. Por exemplo, no Brasil, ocorre a forma estilingue a propósito da pergunta 157 do QSL (Como se chama o brinquedo feito de uma forquilha e duas tiras de borracha, que os meninos usam para matar passarinho?), mas também ocorrem as formas badoque, baladeira, funda, setra. O levantamento de todas as ocorrências nas 250 localidades poderá revelar outras formas e também poderá, se contabilizadas as ocorrências em segunda e terceira respostas, revelar que uma delas é categórica em todo o país.

 

2) Quais serão os tipos de cartas a serem preparadas?

Sobre a representação dos dados em mapas, pode-se ter, como apresentado por Altenhofen (2008), os seguintes tipos de mapas:

 

“Tipos de mapas:

Mapas ponto-símbolo (fenotípicos etc.)

Mapas ponto-dado transcrito

Mapas ponto-dado sonoro

Mapas pluridimensionais

Mapas sintéticos simples ponto-símbolo

Mapas sintéticos com traçado de isoglossas

Mapas poligônicos

Mapas em série (princípio do filme)”

 

3) Como demostrar a variação em gênero, faixa etária e escolarização? isoladamente? em conjunto?

Um desafio que se apresenta para a cartografia dos dados lingüísticos é a definição sobre a forma de representar a variação social. Encontra-se nos atlas publicados e em trabalhos monográficos a apresentação de dados através de cruz.

Para o ALiB estão consideradas três variantes sociais: gênero, faixa etária e escolarização. As variantes representadas em forma de cruz e consideradas em sua totalidade gerariam mapas praticamente ilegíveis. Um estudo de cada fenômeno poderá definir que o uso de representação em cruz se dará apenas para fenômenos específicos e para variantes isoladas. O cruzamento de todas as variantes poderá ser expresso em gráficos que devem ser apresentados no verso das cartas, quando necessário.

 

Referências

 

ALTENHOFEN, C. V. Cartografia Lingüística. VI WORKALiB - Workshop do Projeto AliB - Atlas Lingüístico do Brasil. UFBA, 2008. (apresentação em mesa-redonda).

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Noções Básicas de Cartografia. Manuais Técnicos em Geociências. n. 8. Rio de Janeiro: IBGE, 1999. 130 p.

TEIXEIRA, A.; CHRISTOFOLETTI, A. Sistemas de Informação Geográfica. (Dicionário Ilustrado). São Paulo: Hucitec, 1997. 244 p.

TELES, A. R. T. F. Noções de Cartografia. Departamento de Transportes da Escola Politécnica, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2001. 64 p. (Apostila).

TELES, A. R. T. F. A cartografia do ALiB. VI WORKALiB - Workshop do Projeto AliB - Atlas Lingüístico do Brasil. UFBA, 2008. (apresentação em mesa-redonda).

TELES, A. R. T. F e RIBEIRO, S. S. C. Apresentando a cartografia aos lingüistas: o Projeto ALiB. In: CARDOSO, Suzana e MOTA, Jacyra (orgs.) Documentos 2 - Projeto Atlas Lingüístico do Brasil. Salvador: Quarteto Editora, 2006. p. 207-226.

 

 

PAINEL OS CAMINHOS DO ALiB

 

O ESTÁGIO ATUAL DO PROJETO ALiB

 

Jacyra Andrade Mota

(Universidade Federal da Bahia/CNPq/Brasil)

 

1.      O que é o Projeto Atlas Lingüístico do Brasil

 

O projeto Atlas Lingüístico do Brasil (ALiB) é um projeto interinstitucional que tem por meta a realização de um atlas geral no Brasil no que diz respeito à língua portuguesa. Iniciou-se em novembro de 1996, por ocasião da realização, em Salvador, no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, do seminário Caminhos e Perspectivas para a Geolingüística no Brasil.

É coordenado por um Comitê Nacional que envolve, atualmente, nove pesquisadores[14], de diferentes universidades brasileiras, a saber: Suzana Alice Marcelino Cardoso (Presidente) e Jacyra Andrade Mota (Diretora Executiva), ambas da Universidade Federal da Bahia; Abdelhak Razky (Universidade Federal do Pará), Ana Paula Antunes Rocha (Universidade Federal de Ouro Preto), Aparecida Negri Isquerdo (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Cléo Altenhofen (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Maria do Socorro Silva Aragão (Universidade Federal da Paraíba e Universidade Federal do Ceará), Mário Roberto Lobuglio Zágari (Universidade Federal de Juiz de Fora), Vanderci de Andrade Aguilera (Universidade Estadual de Londrina), Diretores Científicos.

Além das universidades a que pertencem os membros do Comitê, mais oito instituições participam do Projeto ALiB mediante a assinatura de convênio: Universidade Federal do Maranhão, Universidade Estadual do Ceará, Universidade Estadual de Campinas, Universidade Potiguar, União Metropolitana de Educação e Cultura, Centro de Ensino Atenas Maranhense, Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba e Fundação Casa de José Américo.

Do ponto de vista metodológico, o Projeto ALiB pauta-se pelos pressupostos da Geolingüística Pluridimensional Contemporânea, contemplando, de modo sistemático, não só a dimensão diatópica, característica dos trabalhos dessa natureza, mas também outras dimensões como a diagenérica ou diassexual, a diageracional e a diastrática. Para atender a essa pluridimensionalidade, os informantes distribuem-se igualmente pelos dois gêneros, por duas faixas etárias e, nas capitais de Estado, por dois graus de escolaridade. Os diferentes tipos de questionário permitem, ainda, a análise diafásica e diarreferencial das amostras de fala, registradas em 250 localidades brasileiras.

 

 

2.      Etapas do desenvolvimento do Projeto ALiB

 

·                           Primeira etapa - iniciada em novembro de 1996, com a implantação e estruturação do Projeto. Nessa etapa fixou-se a metodologia a ser seguida e foram desenvolvidos os instrumentos necessários à pesquisa de campo, especialmente os questionários, cuja última versão foi publicada em 2001.

·                           Segunda etapa - iniciada com a realização do 1º. inquérito lingüístico, no ponto de número 126 da rede do ALiB (Quirinópolis, Goiás), em 1º de junho de 2001[15]. Essa etapa compreende a realização dos inquéritos lingüísticos em todo o território nacional e, apesar de bastante adiantada, ainda se encontra em andamento, devendo estender-se até 2009.

·                           Terceira Etapa - iniciada em 2004 e prevista para terminar em 2009, essa etapa compreende a preparação das amostras coletadas para a análise lingüística, com transcrição grafemática e fonética, e a própria análise desses dados, assim como a constituição de um banco informatizado de dados.

·                           Quarta etapa - prevê a preparação de cartas lingüísticas, editoração e divulgação dos resultados, com apresentação gráfica (em cartas lingüísticas) e sonora (em CDs, DVDs e via internet), devendo estender-se até 2009.

 

 

3.            Estágio atual do Projeto

 

Vencida a etapa inicial, desenvolvem-se, hoje, no Projeto ALiB três fases, concomitantemente, relacionadas aos itens abaixo relacionados:

 

3.1   Constituição do corpus

 

O registro “in loco” para a constituição do corpus do Projeto ALiB conta, presentemente, com a recolha integral em 144 das 250 localidades previstas, o que corresponde a um percentual de 57,6%.

Vale destacar que, nesse percentual, incluem-se 08 Estados com a documentação concluída, alguns deles representados por apenas duas localidades (como Acre e Amapá) e outros com um significativo número de pontos, como São Paulo, estado em que, em razão de sua grande densidade demográfica, se concentra o maior número de pontos (38) da rede do ALiB.

Os Estados com documentação concluída são: Acre, Alagoas, Amapá, Mato Grosso do Sul, Paraná, Roraima, São Paulo e Sergipe.

Em vista da decisão tomada na XIII reunião do Comitê Nacional (Recife, 16-17 de julho de 2003) de dedicar às capitais de Estado o volume 1 do ALiB, deu-se prioridade ao registro nessas capitais, tendo-se completado, em todas elas, o trabalho de campo.

Considerando o número de informantes (08, nas capitais e 04, nas demais localidades), chega-se a um total de 676 informantes dos 1.100 previstos, o que representa um percentual de 61,45% do total.

 

3.2    Transcrição dos dados lingüísticos

 

As equipes regionais coordenadas pelos membros do Comitê Nacional vêm realizando, sistematicamente, a transcrição grafemática e fonética dos dados referentes à documentação coletada por cada grupo. Após a transcrição, em geral a cargo de graduandos, bolsistas de Iniciação Científica, os inquéritos passam por duas revisões, atendendo a critérios previamente fixados em reuniões nacionais.

De acordo com os relatórios apresentados durante o VI Workshop do ALiB, que ocorreu em Salvador, em abril passado, as amostras das capitais já se encontram transcritas, assim como grande parte dos inquéritos das demais cidades.

A revisão final da parte fonético-fonológica dos inquéritos realizados nas capitais, distribuída entre os coordenadores das equipes regionais, deve ficar pronta até o fim de 2008.

 

3.3          Análise de dados lingüísticos

 

A análise vem se desenvolvendo, paralelamente ao levantamento e à transcrição dos dados, atendendo, prioritariamente, aos fatos fônicos referentes às capitais de Estado, para elaboração do fascículo 2 do 1º volume do ALiB, dedicado às cartas fonético-fonológicas.

Em cumprimento a um dos principais objetivos do Projeto ALiB e de acordo com decisão tomada na XI reunião do Comitê Nacional (Londrina, 11 a 15 de novembro de 2002), as análises fonético-fonológicas têm-se voltado, sobretudo, para fatos que possam contribuir para a demarcação das áreas dialetais brasileiras e possibilitar uma nova proposta de divisão dialetal do Brasil, em substituição ou complementação à de Nascentes (1953).

 

3.3.1.      Fatos fonético-fonológicos

 

São os seguintes os fatos fonético-fonológicos em análise:

 

·         Vogais pretônicas

·         Vogais postônicas finais

·         Vogais postônicas não finais

·         Ditongação em sílaba terminada por sibilante

·         Monotongação

·         /S/ em coda silábica

·         /l/ em coda silábica

·         Consoantes palatais laterais e nasais

·         Iotização do -lh

·         Róticos

·         /t, d/ em contextos de palatais (seguido de /i/ ou precedido de /j/)

·         Diferenças prosódicas das assertivas

 

Resultados preliminares, referentes a algumas áreas brasileiras, têm sido discutidos em Workshops do ALiB e em outros seminários e congressos, como, entre outros: (a) Mota (2007a), Mota e Santos (2007) e Mota e Souza (2007), a respeito das diferenças entre os falares identificados por Nascentes (1953) como baiano e nordestino, a partir das realizações do / t, d /, diante da vogal alta palatal (/i/), em vocábulos como tio, tarde, e depois da semivogal palatal (/j/), como em muito, doido, em Salvador, Aracaju, Recife, Maceió e Teresina; (b) Mota (2007b) e Mota e Oliveira (2007), com a análise do valor estilístico de variantes estigmatizadas no português do Brasil, como a realização despalatalizada ou iotizada da consoante lateral palatal, em mulé, véio (em lugar da pronúncia padrão mulher, velho), e a ausência dessa mesma consoante, em fia (por filha), variantes que, em certas elocuções, adquirem um valor estilístico, em seis capitais do Nordeste brasileiro (Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, Teresina e João Pessoa); (c) Mota e Jesus (2007), com o estudo do /S/ em coda silábica no Nordeste, em formas como estrada, caspa, luz, fato que distingue subáreas sibilantes e chiantes, no português do Brasil; e (d) Aragão (2008), com o estudo da “Variação diatópica e diastrática na língua portuguesa do Brasil”.

 

3.3.2.      Fatos morfossintáticos ou léxico-semânticos

 

Apesar da prioridade dada aos fatos fonéticos, outros níveis vêm sendo analisados, no sentido de preparar os fascículos seguintes do 1º volume do ALiB. A título de exemplo, podem-se citar Cardoso (2007), com “A expressão existencial do português do Brasil: Ter, Haver e Existir”; Cardoso e Correia (2007), com “O estudo do léxico de capitais brasileiras a partir de dados do Projeto Atlas Lingüístico do Brasil”, em que se analisam as denominações para arco-íris; e Isquerdo (2007), com “Traços de ruralidade no vocabulário de homens de grandes centros urbanos: uma tentativa de caracterização”.

 

3.3.3.      Questões Metalingüísticas

 

A percepção que os falantes têm da diversidade lingüística brasileira, que se busca apurar através de 06 questões de natureza metalingüística que integram os questionários do ALiB, foi objeto de análise realizada por Vanderci Aguilera, na Universidad de Alcalá de Henares, Espanha, em 2006, em nível de pós-doutorado. Nesse trabalho, intitulado “Crença e atitudes lingüísticas: um estudo no português brasileiro”, a autora procura descrever como os 200 informantes das 25 capitais brasileiras julgam a fala de outras áreas do País.

Os resultados dessa análise têm sido divulgados em comunicações a congressos e outras reuniões científicas, como, por exemplo, em “O que um Atlas nacional pode revelar sobre crenças e atitudes de falantes das regiões Centro-Oeste e Sul do Brasil”, “Crenças e atitudes lingüísticas: o que dizem os falantes das capitais brasileiras sobre os que falam diferente na localidade” e “Crenças e atitudes lingüísticas: o que dizem os falantes das capitais brasileiras”. (Cf. Aguilera, 2007a, 2007b, 2007c, respectivamente).

 

3.4    Constituição de um Banco de Dados e preparação dos originais para publicação

 

A constituição de um Banco de Dados e os procedimentos necessários para a preparação de originais para publicação estão a cargo da Comissão Nacional de Informatização de Cartografia (CIC), presidida por Silvana Ribeiro. Essa Comissão, instalada em Salvador, na Universidade Federal da Bahia, em 1º de setembro de 2005, teve como objetivos:

 

·         Reunir um grupo de pesquisadores de diferentes instituições universitárias, com experiência em informatização de dados lingüísticos e produção de cartas lingüísticas a partir de Banco de Dados;

·         Definir os pressupostos para o tratamento informatizado dos dados do ALiB;

·         Discutir preliminares para a produção de mapas lingüísticos.

·         Na ocasião, foram também apresentados programas anteriormente utilizados na elaboração de atlas lingüísticos, como o Atlas Lingüístico Sonoro do Pará (Razky, 2004) e o Atlas Lingüístico-Etnográfico da Região Sul do Brasil (Koch; Klassman; Altenhofen, 2002).

 

Os procedimentos cartográficos e sua adequação a trabalhos de natureza lingüística discutidos durante o V Workshop Nacional do Projeto ALiB, em Salvador, de 29 a 31 de agosto de 2005, constam do texto “Apresentando a cartografia aos lingüistas: o Projeto ALiB”, de Teles e Ribeiro (2006).

Atualmente, os pesquisadores que integram a Comissão Nacional de Informatização de Cartografia vêm-se reunindo semanalmente no Centro de Processamento de Dados da UFBA, com vistas à apresentação de uma proposta de Banco de Dados que atenda às necessidades de um projeto da dimensão e complexidade do ALiB, considerando-se a extensão do país, a densidade demográfica de algumas áreas, o número de dados e de variáveis a considerar, etc.

Ao lado disso, a proposta da base cartográfica que deverá receber os dados lingüísticos, a cargo de Ana Regina Teles, encontra-se em fase adiantada de elaboração.

 

 

4       Considerações finais

 

Decorridos mais de 10 anos de sua implantação, o Projeto ALiB pode contabilizar, hoje, saldos altamente positivos tanto do ponto de vista de um maior conhecimento do português do Brasil, quanto do desenvolvimento da área de estudos geolingüísticos no País, com o surgimento de diversas equipes voltadas para essa área, a elaboração de inúmeros atlas regionais - alguns publicados, outros apresentados sob a forma de teses de Doutorado - reuniões científicas voltadas ao estudo da diversidade do português do Brasil com base em dados empíricos e mesmo o apoio (embora ainda insuficiente) das instituições nacionais financiadoras de pesquisa.

O quadro que hoje se delineia no Brasil, com relação à Dialectologia, e, mais especificamente, à Geolingüística, justifica, segundo Cardoso e Mota (2006) a proposição de uma 4ª. fase no desenvolvimento da Dialectologia brasileira, que se somaria às três fases já propostas por Cardoso e Ferreira (1994), tendo como marco divisor o ano de 1996, ano em que se iniciou o Projeto ALiB.

 

Referências

 

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VARIANTES HISPÂNICAS NO PORTUGUÊS RURAL DA REGIÃO

SUL DO BRASIL - EMPRÉSTIMOS LEXICAIS[16]

 

Patrícia Graciela da Rocha

(PGL - Universidade Federal de Santa Catarina)

 

1.      Introdução

 

A divisão do português brasileiro em áreas lingüísticas tem sido proposta por bom número de pesquisadores, especialmente a partir da primeira metade do século XX, quando até decreto oficial houve para a elaboração de um “Atlas Lingüístico do Brasil”. Nessa época destacaram-se os estudos de Antenor Nascentes[17], nos quais o autor divide o “falar brasileiro em seis subfalares”, reunidos em dois grupos: “falar do norte” e “falar do sul”. Desde então, vários pesquisadores se dedicaram a estudos geolingüísticos para testar empiricamente as hipóteses de Nascentes. Alguns desses estudos, como os de Cardoso (1986, 1996) no centro-nordeste, têm apontado fortes coincidências de resultados com as linhas traçadas por Nascentes.

No entanto, não é intenção aqui discutir a validade da divisão do falar brasileiro proposta por Nascentes, mas deter-nos no falar da Região Sul, mais diretamente ligado à área de estudo do ALERS no eixo da arealidade, priorizado pelos geolingüistas, ou seja, uma descrição da variação diatópica.

De acordo com Altenhofen (2002, p. 121), ao delimitarmos áreas lingüísticas, delimitamos, também, hipoteticamente, fatores extralingüísticos determinantes dessas áreas, em virtude da possibilidade de correlação existente entre a “variante do português em estudo” e “os traços extralingüísticos do meio geográfico”, tais como origem e etnia da população, atividades econômicas, densidade demográfica e redes de comunicação, migrações históricas, grau de isolamento e de urbanização, características do espaço em termos de relevo, vegetação e hidrografia, entre outros.

A Região Sul do Brasil tem uma pluralidade social, cultural e geofísica rara, que lhe confere um status particular no estudo do português brasileiro. Koch (2000, p. 59) destaca quatro fatores que seriam os principais determinantes externos das variantes do português falado na Região Sul: 1) a presença de açorianos no leste de Santa Catarina; 2) a existência de fronteiras políticas com países de fala hispânica no extremo sul e o contato português-espanhol derivado dessa situação; 3) o contato entre paulistas e gaúchos em dois fluxos migratórios opostos e o papel das rotas dos tropeiros paulistas no comércio do gado; e 4) a existência de áreas bilíngües expressivas, originadas da instalação, nas (antigas) zonas de floresta, de imigrantes europeus não lusos a partir do século XX.

Além disso, podemos acrescentar a ocupação da área norte do Paraná por paulistas e a relevância das migrações internas no processo recente de ocupação da região.

Altenhofen (2002, p. 133) levanta algumas hipóteses evidenciadas pelas fotografias geolingüísticas do ALERS[18] e delimita oito áreas lingüísticas principais na configuração diatópica do português falado na Região Sul do Brasil. Nessa delimitação, o autor distingue, além de áreas bilíngües e de transição, três “corredores de projeção de traços” e três “zonas laterais”: 1) área de transição (Leque Catarinense, postulado por KOCH, 2000); 2) corredor central de projeção paranaense; 3) corredor oeste de projeção riograndense; 4) corredor leste de projeção riograndense (feixe riograndense, na interpretação de KOCH, 2000); 5) zona lateral açoriano-catarinense; 6) zona lateral do Paraná do norte (feixe paranaense, na interpretação de KOCH, 2000); 7) zona lateral da fronteira sul-rio-grandense; e 8) áreas bilíngües de português de contato.

Mais especificamente, a fronteira sul do Rio Grande do Sul com o Uruguai, de acordo com Altenhofen (2002, p. 128), guarda traços de momentos históricos diversos de ocupação da área e oscilações das fronteiras históricas com o espanhol. Isso se observa mais nitidamente no léxico, como atestam Koch (1995), Bunse & Klassmann (1969) e Rodriguez (1998), os quais registram uma série de hispanismos antigos que podem ser caracterizados como formas de preservação de marcas de substrato por terem sobrevivido à dominação posterior pelo português. De acordo com esses autores, são exemplos dessa preservação as palavras jugo = canga, planchar = passar a ferro, piola = barbante, esquilar = tosar, dentre outros. Além do nível léxico, os autores apontam preservação nos planos fonéticos e morfossintáticos, pois a maioria das isoglossas[19] analisadas por eles estende-se até o centro-norte do Estado, não se limitando apenas à zona lateral fronteiriça, como acontece no caso de ê e é diante de /s/ em final de sílaba, como em três e dez, que nessa zona oferecem maior resistência à ditongação.

Nesse sentido, esse trabalho é parte de uma pesquisa vem dar seqüência a uma série de trabalhos geolingüísticos e sociolingüísticos que vem sendo desenvolvidos através do banco de dados do ALERS, do Varsul, do BDSPampa, entre outros, os quais têm explorado aspectos fonéticos e morfossintáticos, na sua maioria, no espaço geográfico da Região Sul do Brasil. Neste trabalho, pretendemos estudar variantes lexicais do português falado no Sul do Brasil que se concretizam como empréstimos do espanhol nessa região.

 

 

2.   Metodologia de análise

 

O método utilizado para o levantamento e apresentação dos dados é o da geolingüística tradicional, utilizado pelo ALERS.

As variantes apresentadas a seguir percorreram a seguinte trajetória de análise: 1) Verificação visual dos mapas a fim de verificar se havia alguma arealização dos itens que se aproximasse das regiões de fronteira do Sul do Brasil com os países hispânicos vizinhos; 2) Verificação dos significados das variantes no Dicionário da Real Academia Espanhola (DRAE); 3) Verificação dos significados das variantes no Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa; 4) Verificação dos significados encontrados em outros dicionários regionalistas brasileiros e/ou hispânicos com comentários relevantes para a descrição mais apurada de algumas variantes (Dicionário Gaudério; Vocabulário Pampeano - pátrias - fogões - legendas; Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul; “Doctus” Nuevo Diccionario Castellano; El Habla del Pago; Diccionario Lunfardo[20] entre outros) e, por fim, 5) Verificação dos fatores culturais, históricos, sociais, econômicos, étnicos que podem ter influenciado a arealização ou a existência dessas variantes hispânicas em determinados lugares, além de comentários de nativos hispanofalantes sobre os itens referidos[21].

Para que pudéssemos sugerir que, neste trabalho, uma palavra usada na Região Sul do Brasil (falante de português brasileiro) é empréstimo ou não do espanhol, seja ele platino, americano ou europeu, elegemos alguns critérios, são eles: 1) Formar uma arealização geolingüística clara na Região Sul do Brasil em direção à fronteira com os países hispanofalantes vizinhos (Uruguai, Argentina e Paraguai); 2) Estar registrada nos dicionários espanhóis e 3) Constar na bibliografia consultada como empréstimos do espanhol.

 

 

3.   Variantes hispânicas

 

Como mencionado anteriormente, são consideradas variantes hispânicas, neste trabalho, aquelas palavras que formam uma arealização diatopicamente clara e relevante na Região Sul do Brasil em direção à fronteira com os países hispanofalantes vizinhos (Uruguai, Argentina e Paraguai) e que são encontradas em dicionários espanhóis e/ou aparecem na bibliografia consultada como originárias do espanhol platino ou europeu, ou como empréstimos dessa língua.

A literatura consultada apontava, entre outros vocábulos, as palavras coxilha, sanga, planchar, piola, esquilar, cerro, rastilho e jugo como tomados do espanhol platino. De fato, podemos afirmar que encontramos, nos dados do ALERS, outras variantes hispânicas que são, além de cerro, coxilha, sanga, rastilho e jugo já descritas pela literatura, galpão, bagual, coiúdo (colhudo), pastor, borrego, guampudo, aspa, guampa, cola, garrão, chicochoelo, rengo, lunanco, bolita, bodoque, pandorga (pandolga, bandorga), rinha de galo, carreira, jogo da/de tava, guisado, borracho e bolicho, consideradas, nesse trabalho, como indícios claros de empréstimos do espanhol. Além dessas palavras acima mencionadas, encontramos outras variantes supostamente hispânicas e cognatas, ou seja, palavras que já estão largamente difundidas no português brasileiro, ou então, palavras que pertencem aos dois idiomas e que resistem (ou não foram substituídas por outras variantes lusas), nas regiões de fronteira, pela semelhança. São elas: ladeira (ladeirão), taipa (de pedra), bergamota, lavrar, carreta (de duas rodas), apear (pear, apinhar), machorra, corvo, jugo, pêlo (cabelo duro), caloteiro, repouso (materno), raia, crioulo, corpinho (corpim), carpim, chibo (chibarro), astilhar, rengo, bidu e pucho.

No entanto, devido ao pouco espaço destinado a artigo, analisamos mais detalhadamente apenas o item lexical Jogo de/da tava.

 

3.1  O caso do Jogo de /da tava

 

Com a intenção de levantar variantes lexicais usadas para designar jogo do osso, o ALERS fez a seguinte pergunta: O jogo em que se atira um osso para ver quem tem sorte?

Como pode ser examinado no mapa do ALERS n° 323, a palavra que se destaca na Região Sul é jogo do osso, que corresponde a mais de 50% das respostas na Região, distribuindo-se principalmente no Centro e Leste do Rio Grande do Sul (embora haja muitas respostas prejudicadas neste e nos outros estados). Já em Santa Catarina as variantes mencionadas foram jogador, jogo da sorte e jogo de/ da galinha, variante esta constatada também em alguns pontos do Paraná.

 No entanto, o que chama a atenção na configuração desse mapa é a distribuição das variantes jogo de/ do osso e jogo de/ da tava no espaço que delimita o Estado do RS, pois é possível traçar uma isoléxica clara que parte do extremo sul do Estado, em Santa Vitória do Palmar, e se desloca em direção ao Oeste do Estado, passando por Dom Pedrito, Santiago, São Luís Gonzaga até chegar ao Noroeste do Estado na cidade de Santo Augusto. Ou seja, a configuração do mapa da figura 22 é diatopicamente relevante para esta pesquisa, pois reforça a hipótese de que o contato com o espanhol intenso e efetivo nessa região do Estado do RS deixou marcas no português falado na zona rural nessa região.

Quanto à origem do termo, jogo de/ da tava (taba), o DRAE sugere que taba é do árabe hispânico ká‘ba e este do árabe clássico ka‘bah que significa jogo em que se atira ao ar una taba de carneiro, ou outro objeto similar, e se ganha ou se perde segundo a posição em que caia aquela.

O Aurélio considera tava, variante de taba, vindo do espanhol platino taba. Brasileirismo do Rio Grande do Sul que constitui o osso do jarrete da rês vacum e é ao mesmo tempo um jogo gaúcho, que consiste em se atirar ao ar o tava com um lado chato e outro redondo, vencendo aquele que fizer tombar a parte chata (sorte) para baixo.

Garcia (1953) afirma que taba, em espanhol, é o mesmo que astrálago e também, o jogo do osso.  Além disso o autor traz expressões como menear taba (na América, Argentina, quer dizer charlar, dar à trela) e menear (uno) las tabas (no sentido figurado significa andar com muita pressa).

Braun (1998) acrescenta ainda que Jogo da tava é o mesmo Jogo de osso, conhecido, em toda a vasta campanha. É o mesmo jogo de tava, ou carnicol em castelhano. E o autor prossegue

 

[...] trazido ao solo pampeano pelos andejos da Espanha, que o guasca, cheio de manha, agauchou com perícia dando mais arte e malícia no chão de nossa campanha. E o guasca o levou consigo às rudes tabas selvagens, onde os índios, personagens barbarescas deste chão, o fizeram diversão nas suas disputas brabas, Talvez daí o nome tabas dado ao osso do garrão. E o astrágalo da rês foi sendo chamado taba que o selvagem falquejava desquinando cada lago, um deles bem achatado, outro com reintrância forte, é a cara chamada sorte e o culo é o lado aplainado (coroa). Consiste o jogo em lançar a tava no ar, girando, duas ou três voltas dando na direção da “raia” conforme o lado que caia o jogador perde ou ganha. É o jogo que, na campanha dá peleia a la gandaia. Houve um tal de João das Pedras, no meu pago Missioneiro, indiosito carpeteiro, mais feio do que um macaco, mas que na tava era taco. Que eu vi, num dia de olada, botar quarenta “clavada” dentro do mesmo buraco. (BRAUN, 1998, p. 206-207).

 

Nunes & Nunes (2003) confirmam a versão de Braun (1998) e acrescenta que o Jogo da tava é um jogo muito usado na fronteira, principalmente pela baixa camada social. O autor descreve ainda mais detalhadamente as regras e o espaço destinado ao jogo

 

Vancê sabe como se joga o osso? / Ansim: / Escolhe-se um chão parelho, nem duro, que faz saltar, nem mole, que acama, nem areento, que enterra o osso. / É sobre o firme macio que convém. A cancha com uma braça de largura, chega, e três de comprimento; no meio bota-se uma raia de piola, amarrada em duas estaquinhas ou mesmo um risco no chão, serve, de cada cabeça da cancha é que o jogador atira, sobre a raia do centro: este atira daqui pra lá, o outro atira de lá pra cá. / O osso é a taba, que é o osso do garrão da rês vacum. O jogo é só de culo ou suerte. / Culo é quando a taba cai com o lado arredondado pra baixo: quem atira assim perde logo a parada. Suerte é quando o lado chato fica embaixo: ganha logo e sempre. / Quer dizer: quem atira culo perde, se é suerte ganha logo e arrasta a parada. / Ao lado da raia do meio fica o coimeiro que é o sujeito depositário da parada e que a entrega logo ao ganhador. O coimeiro também é que tira o barato - para o pulpeiro. Quase sempre é algum aldragante velho e sem-vergonha, dizedor de graças. / É um jogo brabo, pois não é? / pois há gente que se amarra o dia inteiro nessa cachaça e parada a parada envida tudo: os bolivianos, os arreios, o cavalo, o poncho, as esporas. O facão nem a pistola, isso, sim, nenhum aficionado joga; os fala-verdade é que têm de garantir a retirada do perdedor sem debocheira dos ganhadores ... e, cuidado ... muito cuidado com o gaúcho que saiu da cancha do osso de marca quente!...” (LOPES NETO apud NUNES & NUNES, 2003, p. 253-254).

 

Vê-se nessas descrições que jogo da tava/taba se refere a um jogo de gaúchos, os quais podem ser os homens do campo de qualquer país da América do Sul, pois vejamos o que dizem dois hispanofalantes sobre esse item: “a taba é um jogo de gaúchos, se usa um osso do joelho da vaca, se lança ao ar e deve cair em ‘cara ou coroa’” (Informante 1, argentino de Buenos Aires). Jogo da tava é o “jogo de gaúchos chilenos do sul, se joga com ossos de bois (Informante 2, chileno de Concepción).

Dessa forma, é perfeitamente compreensível que em quase toda a área do estado do Paraná e em algumas áreas de Santa Catarina e Norte do Rio Grande do Sul, esse item não tenha sido registrado, ou seja, as pessoas que responderam ao inquérito do ALERS não conhecem esse jogo e por isso não o nomearam. Trata-se então de uma palavra que representa uma cultura de um povo, de uma determinada região, que não é constatada em outro.

 

 

4.   Áreas lexicais de influência hispânica

 

A partir dessa pesquisa foi possível delimitar áreas lexicais e isoléxicas na Região Sul do Brasil que se distribuem em áreas junto às fronteiras com o Uruguai e Argentina e que, ora avançam do Sul do Rio Grande do Sul em direção ao Oeste de Santa Catarina e Paraná (acompanhando a rota de migração dos gaúchos rumo à exploração do Centro-Oeste do país) e ora avançam do sul em direção ao Centro de Santa Catarina e Paraná (acompanhando a rota estabelecida pelo caminho dos tropeiros).

Quanto ao grau de interferência do espanhol no português devemos concordar com Thun (2000), quando afirma que, no Uruguai, a influência do contato com o português é heterogênea, pois na faixa imediatamente limítrofe à fronteira o português segue se fortalecendo graças ao contato contínuo com o Brasil ao passo que, mais longe da fronteira, na zona distante, a vitalidade do português diminui. Sendo assim, podemos afirmar que o mesmo se aplica ao português de contato com o espanhol, nas áreas limítrofes aos países hispânicos, já que, quanto mais longe das fronteiras, menor é a interferência das variantes de origem hispânica.

No entanto, era esperado que, nos lugares de contato mais intenso, ocorresse maior influência da língua espanhola no léxico do português, formando áreas lexicais mais homogêneas. Nessa perspectiva, imaginava-se que na fronteira de Santa Catarina com a Argentina, houvesse pouca influência, assim como em algumas regiões do RS. Mais uma vez nossa hipótese se confirmou, porém, em parte, pois, embora a fronteira de Santa Catarina tenha pouco contato (geográfico, comercial, turístico etc.) ela sofre a influência dos migrantes gaúchos que se deslocam em direção ao Centro-Oeste do país.

 

 

5.  Considerações finais

 

É possível concluir que a difusão de empréstimos do espanhol varia quanto ao modo e quanto à intensidade. Há casos cuja diatopia se restringe a áreas de fronteira, em particular às fronteiras meridionais com o Uruguai e Argentina: rastilho, coiúdo (colhudo), chicochoelo, borracho, jogo da tava. Outras variantes, além de serem largamente usadas nas regiões próximas às fronteiras, alcançaram grande difusão, ocorrendo, inclusive, em regiões de baixo ou nenhum contato com o espanhol, entre as quais estão: galpão, bolita e bodoque.

Há também casos de variantes registradas em alguns pontos de fronteira, mas não em outros, avançando, ás vezes, pelo território, em áreas afastadas da fronteira, como é o caso de sanga, coxilha, garrão, aspa. As causas da maior ou menor difusão são diversas, mas o deslocamento de populações na Região Sul, seja em razão do comércio de gado, seja devido a migrações internas em busca de novas terras, tem alta relevância, pois com os falantes, também desloca-se a língua, ou deslocam-se as línguas.

No entanto, devemos admitir que podem ter escapado aos nossos olhos muitos vocábulos de influência espanhola, pois é comum ao pesquisador se acostumar aos dados e imaginar que eles não servem, ou então que eles são perfeitos. Sendo assim, acabamos sendo subjetivos embora tenhamos que ser objetivos. Porém, não temos a intenção de acabarmos aqui com todas as discussões acerca dos empréstimos lexicais do espanhol no português brasileiro, pelo contrário, nos sentimos quase pioneiros na área e acreditamos que discussões mais aprofundadas sobre o tema enriqueceriam muito a dialetologia brasileira.

Como se sabe, o português falado no Sul do Brasil e, mais especificamente nas regiões de fronteira, onde o contato com o espanhol é mais intenso, apresenta centenas de outras palavras atribuídas a esse contato. Isso é facilmente comprovado na interação lingüística com habitantes desses lugares e na literatura, tanto em textos em prosa (ver, por exemplo, Rapa de tacho v. I, II e III de Silva Rilho), quanto em poemas e letras de música gauchesca. Todavia, sem o método geolingüístico de investigação, pouco se pode dizer sobre a distribuição diatópica e sobre os grupos sociais responsáveis pela difusão.

Há ainda que ressaltar que, as conseqüências lingüísticas atribuídas ao contato português-espanhol no Sul do Brasil não se restringem aos empréstimos lexicais. Muitos outros aspectos, tanto gramaticais quanto pragmático-discursivos, caracterizam essa variedade de português existente nessa região. Nesse sentido, nosso estudo é uma pequena e inicial contribuição na descrição desse português.

Devemos mencionar, também, que, devido às limitações do banco de dados do ALERS não podemos fazer afirmações categóricas acerca do assunto em questão, já que são entrevistados apenas um indivíduo por ponto de inquérito conforme o modelo da geolingüística tradicional. No entanto, isso não invalida a pesquisa já que a recorrência de um item em cidades próximas reafirma o uso do mesmo naquela região.

Por fim, esperamos despertar nos futuros leitores um interesse no assunto e desejamos ter contribuído, ao menos modestamente, com os estudos em dialetologia no Sul do Brasil, principalmente os sobre o contato do português com o espanhol, já que os estudos continuam sendo escassos nessa área.

 

6. Referências

 

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MARGOTTI, Felício. Ensino de Português e Variantes Morfossintáticas. In: V Encontro Internacional de Língua e Culturas Lusófonas - Universos da Língua Portuguesa, 1998, Buenos Aires. Universos da Língua Portuguesa, 1998.

NOVO DICIONÁRIO AURÉLIO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira S.A. 1986.

NUNES, Zeno Cardoso; NUNES, Rui Cardoso. Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul. 10ª ed. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2003.

OLBADÍA, José María. El habla del pago. Montevideo - Uruguay: Ediciones de la Banda Oriental S.R.L, 2006.

OLIVEIRA, Alberto Juvenal de. Dicionário Gaúcho. 3ª ed. Porto Alegre: AGE, 2005.

 

 

 



[1] O Prof. Valter Koch faleceu em fevereiro passado.

[2] Confira a esse respeito Isquerdo (2006).

[3] A primeira edição da obra “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Júnior é de 1942. Para este trabalho consultamos a 9ª impressão da 23ª edição, de 2006.

[4] As informações históricas acerca das capitais brasileiras foram buscadas fundamentalmente no site oficial do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): http://biblioteca.ibge.gov.br/ .

[5] “Cada uma de uma série de expedições, particulares ou oficiais, de penetração do território brasileiro na época colonial (sXVI a XVIII), que ger. partia da capitania de São Vicente (atual SP) e tinha como objetivos fundamentais a captura de indígenas e a detecção de jazidas de pedras e metais preciosos” (HOUAISS, 2001).

[6]Qualquer das expedições que, descendo e subindo os rios das capitanias de São Paulo e Mato Grosso, nos sXVIII e XIX, mantinham as comunicações entre os vários pontos dessas capitanias” (HOUAISS, 2001).

 

[7] Palmas, a capital do estado de Tocantins, e Brasília, atual capital do Brasil, não serão focalizada aqui por não integrarem a rede de pontos do Projeto ALiB pelas razões já expostas.

[8] A respeito da terminologia de classificação de topônimos, confira Dick (1992).

[9] MARROQUIM, M. A língua do Nordeste. Curitiba: HD Livros, 1996, p. 9.

[10] Os dados aqui contidos foram retirados de CARDOSO, S.A.M. et al. Projeto Atlas Lingüístico do Brasil -AliB. Salvador: UFBA, 2000.

[11] MARROQUIM, M. A língua do nordeste. Curitiba: HD Livros, 198-96, p. 9.

[12] TARALLO, F. A pesquisa sociolingüística. São Paulo: Ática, 1985, p. 70.

[13] CARDOSO, S A. M. et al. Op. cit. p. 13.

[14] O professor Walter Koch, que esteve no Comitê Nacional desde a sua implantação, em 1996, faleceu em fevereiro do corrente ano.

[15] Inquérito realizado por Vanderci de Andrade Aguilera.

[16] Este trabalho é baseado na minha dissertação de Mestrado (ROCHA, 2008) com algumas modificações.

[17] Esboço(s) para a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil I (1958) e II (1961) e d’ O linguajar carioca (1953).

[18] ALERS: Atlas Lingüístico-Etnográfico da Região Sul do Brasil.

[19] Entende-se por Isoglossa a linha virtual que marca o limite, também virtual, de formas e expressões lingüísticas.

[20] Por Lunfardo entende-se:Ladrón 2. Jerga del ladrón porteño (‘En el lunfardo [palabra que designa al mismo tiempo a la jerga y los que se valen de ella] de los ladrones bonaerenses, se nota muchas locuciones cuyo empleo a todas luces revela la necesidad de recurrir en ciertos casos a una jeringoza especial…’, Drago, Los hombres…, 66). 3. Lenguaje que emplea en Buenos Aires la gente de mal vivir […] 4.  Lenguaje popular de Buenos Aires y sus aledaños.” (OLIVEIRA, 2005.p.1240125).

[21] Esses comentários serão retirados dos questionários aplicados aos nativos, via e-mail.