Este estudo dá continuidade a trabalhos anteriores sobre os discursos preconceituosos e intolerantes. Em alguns deles, procuramos mostrar, na perspectiva da semiótica discursiva francesa, como se constroem esses discursos, quais são suas características gerais, sejam eles discursos racistas, homofóbicos, puristas, etc., manifestados em diferentes esferas de ação, gêneros e tipos discursivos.
Estabelecemos três características principais dos discursos intolerantes: são discursos de sanção aos sujeitos considerados como maus cumpridores de certos contratos sociais (de branqueamento da sociedade, de pureza da língua, de heterossexualidade, etc.) e que, portanto, são reconhecidos como maus atores sociais, maus cidadãos e punidos com a perda de direitos, de emprego ou até mesmo com a morte; são discursos passionais, em que prevalecem as paixões malevolentes do ódio ao sujeito que não cumpriu os acordos sociais mencionados, e as paixões do medo do “diferente” e dos danos que ele pode causar; desenvolvem temas e figuras a partir da oposição semântica fundamental entre a identidade e a diferença, e, com base nisso, constroem quatro percursos mais frequentes – o da animalização e desumanização do “outro”, o da “anormalidade” do diferente; o do caráter doentio e esteticamente condenável da diferença; o da imoralidade do “outro”.
Nesta apresentação, o objetivo é apontar, a partir desses traços gerais, algumas particularidades dos discursos preconceituosos e intolerantes na internet, principalmente em relação às características enunciativas desses discursos e a seus regimes de interação. São examinadas as questões de “autoria” na internet e a construção dos actantes e atores da enunciação; de emprego das modalidades falada e escrita e de seus efeitos de sentido; dos regimes de interação estabelecidos entre os sujeitos envolvidos na comunicação; e, finalmente, a questão tão presente nas discussões da imprensa brasileira, a do direito ou não à liberdade de pensamento, de expressão e de manifestação dos preconceitos e das intolerâncias.
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