A partir de um campo de investigação interdisciplinar (Critica Genética, Linguística da Enunciação e Didática da Escrita), este trabalho visa descrever, analisar e comparar as rasuras orais comentadas (ROC) produzidas por alunos recém alfabetizados. Tomando como unidade de análise o diálogo estabelecido durante processos de escritura a dois, sob condições etnográficas e didáticas, discutiremos os tipos de ROC (comentários feitos pelos alunos sobre enunciações precedentes, referentes aos objetos de discurso em negociação na construção do texto) efetivados por duas díades pertencentes a classes socioeconômicas e culturais distintas: uma díade (D1) pertence a classe média alta, formada por alunas de escola particular da cidade de São Paulo), outra díade (D2) de alunas de classe desfavorecida de uma escola pública da cidade de Maceió. Ao longo de dois anos, coletamos 16 processos de escritura(8 de cada díade) em que os alunos deveriam inventar, combinar e escrever uma história inventada. A D1 produziu 86 ROC, 48 no 1º ano e 38 no 2º, envolvendo 7 tipos de ROC. Na D2 ocorreram 4 tipos de ROC, distribuídos em 16 comentários (15 no 1º ano e somente 1 no 2º ano). Observamos ainda na D1 uma predominância de ROC Textual (37,2%) e de ROC Ortográfica (22,1%). Isso sugere um maior nível de conhecimento das propriedades textuais, assim como dos aspectos formais da escrita. Na D2, a ROC com maior número de ocorrências foi a ortográfica (37,5%), fato que pode ter relação com a prática docente nesse momento específico do aprendizado escolar. Houve ainda na D2 uma queda acentuada de ROC de um ano para outro, indicando alguma perda na qualidade da interação. Este estudo contrastivo sugere que a qualidade da colaboração na escritura a dois não dependeria somente dos atores envolvidos, mas também dos componentes socioculturais e didáticos que sustentam as condições de produção propostas.
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