S2. Análise de textos literários (Comunicações)

SOB O SIGNO DE CARONTE: A FLAGELAÇÃO DO DESEJO
HERMANO DE FRANÇA RODRIGUES 1
1. UFPB - UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
hermanorg@gmail.com



Os enigmas que envolvem a morte, há séculos, inquietam pesquisadores, médicos, religiosos e homens comuns, os quais, submetendo-se aos influxos de suas próprias experiências, compreendem-na a partir de paradigmas distintos e, por vezes, excludentes. Na contemporaneidade, a título de ilustração, a vida se reduz, amiúde, à expressão de movimentos individuais de busca pelo prazer e a morte demarca, no seio de uma sociedade tecnológica, os territórios do medo, da insatisfação e da patologia. A literatura, enquanto instrumento receptor da dinâmica social, incorpora, (re)significa e (re)desenha as configurações ideológicas, manifestas e inconscientes, acerca do definhamento do homem, que se deslocam durante as eras, circulam em meio aos espaços e, mormente, (des)articulam-se entre os indivíduos. A lírica meireliana – um culto à dor existencial – transborda os limites da palavra, adentrando impetuosamente no universo sensorial e imagético. Tais semioses se coalescem em favor de uma estética que desnuda a condição humana e suas avassaladoras relações com a finitude. Nossa pesquisa, numa interlocução entre a psicanálise e a semiótica discursiva, objetiva analisar o poema Caronte, de Cecília Meireles, com o propósito de decifrar os jogos linguajeiros que encobrem, simbolicamente, percursos afetivos decorrentes dos impulsos de morte. Como arcabouço teórico, recorremos aos trabalhos de Freud e Melanie Klein, sobre o funcionamento das fantasias inconscientes, o luto e a melancolia, bem como aos estudos desenvolvidos por PAIS (1993) e RODRIGUES (2013). O estudo trouxe à tona a natureza revolucionária do discurso meireliano, que nega proselitismos religiosos e enaltece o caráter dialético da existência. Descobrimos, ainda, que o componente humano, no texto examinado, obedece aos princípios eróticos (performances ligadas aos instintos de vida que visam à união, à junção, à reparação) e às forças destrutivas (semióticas relacionadas à pulsão de morte que abrigam afetos como angústia, tristeza e desolação, fazendo surgir desejos de separação e aniquilamento).


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