S3. Análise do Discurso (Comunicações coordenadas)

DISCURSO E SUJEITO: NOS MOVIMENTOS DA INTERPELAÇÃO IDEOLÓGICA
DANTIELLI ASSUMPÇÃO GARCIA (dantielligarcia@gmail.com)
USP - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO - USP/RIBEIRÃO PRETO

Partindo do dispositivo da interpelação ideológica (Pêcheux, 1997), esta sessão coordenada, busca eleger como objeto de reflexão o assujeitamento, tal como trabalhado na Análise de Discurso de linha francesa, como a própria possibilidade de se ser sujeito. Essa é a contradição que o constitui: ele está sujeito à (língua) para ser sujeito de (o que diz). Sendo assim, a ideologia interpela o indivíduo em sujeito e este se submete à língua significando e significando-se pelo simbólico na história. Desse modo, é nosso interesse compreender o processo de assujeitamento em termos do modo de inscrição da interpelação pela ideologia, de maneira que buscaremos refletir não sobre o sujeito empírico, mas acerca das posições-sujeito assumidas no discurso. Nessa esteira, os trabalhos que compõem esta sessão têm como intuito analisar diferentes materialidades simbólicas, a fim de compreender o processo de interpelação e constituição do sujeito, para refletir sobre: 1) o sujeito-mulher no movimento feminista Marcha das Vadias, 2) o sujeito-leitor nas redes de leitura na sociedade contemporânea e 3) o sujeito-estudante no processo de suas “escolhas” profissionais.

Resumo #1

A Marcha das Vadias e a posição-sujeito-mulher: Uma resistência constitutiva?
Dantielli Assumpção Garcia (dantielligarcia@gmail.com)

Neste trabalho, interessa-nos analisar como se fala do sujeito-mulher em textos que circulam em páginas do Facebook da Marcha das Vadias e como, em uma posição-sujeito-mulher, a enunciação de um discurso feminista, o qual busca romper com um discurso patriarcal que interpela a mulher para constituí-la como sujeito, se formula e circula no ciberespaço e no espaço citadino. Para isso, analisaremos dois post, publicados na página do Facebook da Marcha das Vadias de Campinas, a saber: Falta de opção de vida é doença mortal para meninas e Campanha publicitária encorajando meninas a serem engenheiras. Mostraremos como, na interpelação ideológica do feminino, a posição sujeito-mulher é constituída por um discurso patriarcal, machista, que coloca a mulher em um lugar de submissão, de sexo frágil, de objeto: “O modelo de mulher na televisão é pelada e gostosa, mas, socialmente, tem que se casta. Ser bem sucedida tem que ser algo combinado com submissão a um sistema onde o feminino é sempre intruso”. Contudo, em um discurso de resistência feminina, a mulher não se identifica com esse discurso patriarcal que a domina e busca fundar um outro dizer que é um dizer no qual a mulher tem voz, tem poder, não é submissa e nem objeto do homem e da sociedade que tentam comercializá-la/rotulá-la/violentá-la. Portanto, em nosso trabalho, explicitaremos como a mulher, em sua posição-sujeito na sociedade, por não se identificar com a formação discursiva dominante, em um gesto de resistência, busca fundar um dizer no qual se reconheça como sujeito, busca irromper com seus outros sentidos, com outras posições-sujeito para ecoar na história. Assim, é nesse funcionamento ideológico da resistência que a mulher, no interior da Marcha das Vadias, buscará constituir uma outra posição sujeito à mulher. (FAPESP,proc.nº2013/16006-8, Pós-Doutoranda na Universidade de São Paulo)

Resumo #2

Sujeito-leitor: redes de leitura, redes de (in)formação
Fernanda Correa Silveira Galli (fcsgalli@hotmail.com)

A presença do termo rede tem promovido, de um lado, a sua desvalorização em pensamento (“modo de raciocínio”) e, de outro, a sua supervalorização em metáforas (“modo de organização do espaço-tempo”), de acordo com o filósofo francês Pierre Musso (2010, p.29). Nos mais variados campos da ciência, especialmente na filosofia e na ciência da informação, as redes, além das possibilidades de conexão, são conceituadas a partir da sua possibilidade de abertura, de porosidade, o que nos encaminha para uma reflexão sobre a constituição do sujeito-leitor na contemporaneidade, e o que vai ao encontro, ainda, do nosso interesse em problematizar, também, os discursos circulantes nas atuais condições de produção instauradas pelas tecnologias de informação e comunicação. Da perspectiva da análise do discurso, nosso intuito é, de maneira mais específica, discutir o(s) modo(s) de inscrição do sujeito-leitor nas redes de leitura e nas redes de (in)formação contemporâneas, com base no pressuposto de que as posições-sujeito se sustentam na ilusória sensação de onipotência, no imaginário do sujeito como origem e do discurso como transparente. Tomamos essas ilusões como derivadas da ideologia, que é entendida, discursivamente, “não como ocultação mas como produtora de evidências, imaginário que relaciona o sujeito a suas condições materiais de existência.”, conforme coloca Orlandi (2012, p.213). Pensar o funcionamento discursivo das redes – de leitura e de (in)formação) –, a constituição do sujeito e dos efeitos de sentido, bem como o lugar da produção do conhecimento no universo acadêmico, é o que pretendemos com esta investigação. (Apoio: CAPES/PNPD, Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos (IBILCE/UNESP). Bolsista PNPD/CAPES)

Resumo #3

Processo de tomada de decisão vocacional: os sujeitos e suas “escolhas”
Maria Luisa Lopes Chicote (mluisachicote@usp.br)

Este trabalho é resultado da pesquisa qualitativa realizada junto a um grupo de alunos ingressantes do ensino superior. O objetivo primordial consistia em analisar as narrações dos alunos no que concerne aos processos de tomada de decisão vocacional, com particular ênfase nos fatores que interferem na escolha profissional. Enquanto de um lado temos como aporte teórico autores que abordam a questão do desenvolvimento vocacional – Super e seus colaboradores (1950) e autores que valorizam a narração como uma das proposições no processo de construção de carreira –, do outro lado, nos amparamos na Análise de Discurso de linha francesa. O estudo envolveu alunos que cursavam entre o primeiro e o segundo ano de graduação de uma instituição pública. Para a recolha de dados, foi aplicado um questionário aos alunos integrantes do estudo de forma que esses pudessem narrar os seus percursos de escolha e decisão vocacional, em forma de redação. A partir dos vestígios presentes na materialidade linguística, foi possível constatar como os dizeres desses sujeitos revelaram contradições, heterogeneidades discursivas quanto aos fatores que interferem na tomada de decisão vocacional. A tensão entre um sujeito sócio-historicamente determinado e o desejo de se firmar como sujeito livre de qualquer condicionamento foi uma das marcas recorrentes nas narrações que constituíram a materialidade deste estudo. Os resultados preliminares apontam ainda para a necessidade de maior compreensão da complexidade dos fatores que interferem no processo de escolha e tomada de decisão vocacional sugerindo, em consequência, uma mudança de perspectivas teóricas com repercussões nas técnicas de intervenção no processo de orientação vocacional no geral, intervindo numa ótica de prevenção e com incidência nas etapas anteriores ao ingresso no ensino superior, em particular na adolescência. (Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia na Universidade de São Paulo)


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