O princípio da centralidade do verbo, defendido principalmente por Tesnière (1969), postula o verbo como o centro estruturador da oração, isto é, é a partir dele e não do sujeito que a oração se organiza. Em sintonia com essa proposição, Chafe (1979) divide o universo conceptual humano em duas grandes áreas: a do verbo e a do nome. A área do verbo é central e compreende estados (condições, qualidades) e eventos; a área do nome é periférica e compreende “coisas” (objetos físicos e abstrações coisificadas). Nessa perspectiva, encontra-se o nosso estudo de verbos de transferência de posse (ex.: comprar, vender, emprestar, alugar etc.), em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos (UFMG), como parte de nosso estágio pós-doutoral. Os objetivos desta pesquisa são: descrever, analisar e explicar o funcionamento dos verbos em questão no uso efetivo da língua, no que tange a sua transitividade. O corpus será constituído de textos que circulam socialmente. A coleta dos dados será feita tanto através de ferramenta digital, que permite o levantamento dos verbos de transferência de posse em sua ambiência linguística e dá celeridade ao processo, quanto de forma manual. A análise empreendida contará com a Gramática de Valências de Borba (1996) e os parâmetros de Transitividade de Hopper e Thompson (1980) e Thompson e Hopper (2001), postulados dentro da perspectiva do modelo teórico do Funcionalismo Linguístico. Como resultado, esperamos mostrar que, a partir desses referenciais teóricos, o fenômeno da transitividade torna-se mais compreensível, uma vez que diferentemente das gramáticas tradicionais, que veem a transitividade como uma propriedade do verbo, a transitividade é concebida em um contínuo, como escalar e gradiente. Além disso, na avaliação da transitividade interagem elementos tanto de natureza sintática (presença/ausência de SN complemento), quanto semântica (papel semântico do objeto) e pragmática (uso textual do verbo).
|