Este trabalho tem como objetivo refletir sobre as instâncias da língua na fala de duas crianças brasileiras (M e AC, gravadas semanalmente de 1:6 a 4:6 anos de idade) ao analisar erros e/ou autocorreções, que acontecem em dois níveis diferentes de descrição linguística: fonológicos e morfológicos. Serão privilegiados os dados em que a mensagem se refere ao código, de acordo com Jakobson (1974). Com base no quadro teórico interacionista proposto por De Lemos e colaboradoras, ao qual se adere, as diferenças individuais apresentadas pelas duas crianças no processo de aquisição da linguagem serão abordadas: afinal de contas, em que medida é possível comparar sujeitos? Para analisar os dados, o quadro teórico de Saussure é também mobilizado, pois é ele que extrai da "realidade heteróclita e multiforme" da linguagem a língua, que é considerada o "objeto integral" da Linguística, cujo funcionamento "perene e universal" permite abordar o "princípio de organização de todas as manifestações da linguagem humana". Ao mesmo tempo, propõe que a língua deixe de ser vista apenas como uma realidade em si, apreendida pela percepção e/ou observação. Além disso, para ele, a delimitação das unidades linguísticas não pode ser dissociada da teoria de valor. Os resultados do trabalho apontaram que a) os erros e/autocorreções se dão de formas diferentes para as duas crianças e b) a explicitação das relações linguísticas não parece ser um passo necessário para a aquisição da linguagem delas. Foi possível concluir que as semelhanças e diferenças devem ser analisadas como faces de uma subjetividade emergente: a singularidade, que só se constitui no processo de aquisição da linguagem. Foi também possível afirmar que não é na língua que se deve buscar sobre o que há de geral (universal) no processo de aquisição da linguagem.
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