LINGUAGEM E TRABALHO: A SINGULARIDADE DE PRÁTICAS DISCURSIVAS E MANIFESTAÇÕES CULTURAIS EM DIFERENTES CONTEXTOS SOCIAIS
A abordagem do trabalho nesta comunicação coordenada pauta-se pelo interesse em analisar práticas de linguagem em diferentes contextos sociais, de onde resultam manifestações culturais que situam esses discursos como singulares. Os trabalhos a serem apresentados advogam a centralidade do estudo da linguagem em situações laborais e também da linguagem sobre tais situações. Assim, é de interesse discutir tanto os discursos que ocorrem em situações reais de trabalho quanto os discursos que orientam, instruem, tentam definir e representar o universo do trabalho. Resumo #1As construções discursivas do universo do trabalho no universo cultural das narrativas O trabalho é dimensão da infraestrutura (mundo material) e também da superestrutura se admitirmos que ocorrem múltiplas interações entre essas dimensões. Nesse passo, essa comunicação se insere nessa problemática, mais especificamente tratando das relações entre trabalho e cultura. A perspectiva advoga uma teoria materialista da linguagem, embasando-se em Bakhtin e Volochinov (1986), para quem o “signo lingüístico reflete e refrata o real”. Essa reflexão é dada, no entanto, por inúmeras mediações entre o sujeito e o objeto, a saber, de classe social, etnia, ideologia, faixa etária, nível cultural, estilo e cronotopo. A linguagem diz as coisas e de certo modo. A materialidade do trabalho adentra o universo cultural que figuratiza essa materialidade a partir de certa perspectiva que pode assumir diversos vieses, sendo revolucionária, crítica, conservadora, carnavalizada, enaltecedora, depreciativa e assim por diante. Os discursos recuperam outros discursos sobre o objeto, ou seja, são sempre bivocais e dialógicos, mesmo quando objetivam abafar as várias vozes que dizem o objeto. Reflete-se sobre linguagem e dialogismo, destacando-se que o sujeito, ao falar e narrar sobre o objeto, já o encontra discursado, analisado, desacreditado ou valorizado pelos vários discursos sociais que o instituem. Os discursos em torno do trabalho são de longa e curta duração. Recuperamos alguns desses discursos para verificar a sua ressignificação em textos literários da Literatura Brasileira do século XIX e XX. Inúmeras narrativas literárias analisadas recuperam um discurso sobre o trabalho e a tecnologia de longuíssima duração, ora contestando, ora se aproximando, ora carnavalizando esses discursos. A literatura formaliza personagens complexas que dialogam com essas vozes ocidentais que visam definir o objeto trabalho. Nesse passo, esta comunicação analisa o dialogismo do discurso literário em relação a outros discursos advindos da cultura grega, da Bíblia, da Sociologia, da Economia e da Filosofia em torno do objeto Trabalho. Resumo #2As práticas de linguagem no e sobre o trabalho: discursos da prescrição na atividade docente Este estudo tematiza a linguagem e trabalho, em especial as práticas discursivas na interpendência com os fundamentos da Ergologia, para a compreensão dos fatos sociais, neste caso a linguagem no e sobre o trabalho docente. O objetivo central visa descrever e analisar como se configuram a cenografia e o ethos discursivo, por meio dos dizeres, na situação de enunciação, de docentes entrevistados integrantes do grupo focal pesquisado. A abordagem teórica é de base enunciativo-discursiva da linguagem com ênfase aos conceitos de cenografia e de ethos (MAINGUENEAU, 2008a, 2008b, 2011), mediante interface com a perspectiva ergológica (SCHWARTZ, 2010a, 2010b, 2011b; TRINQUET, 2010) e a linguagem sobre o trabalho (NOUROUDINE, 2002; SOUZA-E-SILVA, 2002). Foram destacados alguns conceitos essenciais que discutem noções sobre o trabalho prescrito/real, os saberes constituídos/investidos, as normas/renormalizações, as dramáticas do uso de si, mediante situações enunciativas e cenas de enunciação em análise do discurso. O corpus de pesquisa constituiu-se de entrevistas não estruturadas, com perguntas abertas, realizadas por meio da técnica de aplicação grupo focal com professores do ensino médio de escolas públicas, na cidade de Passo Fundo (RS). Utilizamos a pesquisa descritiva, bibliográfica e pesquisa de campo para fundamentar metodologicamente este estudo. A análise dos dados ocorreu através da abordagem qualitativa ancorada no paradigma indiciário como modelo epistemológico (GINZBURG, 1989). A pesquisa mostrou que o ethos discursivo está imbricado à cenografia constituída na enunciação através da qual se instaura um estatuto particular dos enunciadores e dos enunciados, que possibilitam compreender a linguagem como fato sócio-histórico que se insere nas relações de poder que permeiam a vida social. As cenografias construídas nas práticas linguageiras dos docentes pesquisados, por meio das marcas e sinais linguístico-discursivos, revelam diversos ethé de professores como imagem de si: submisso, engajado, contestador, desmotivado, humanitário, chefe, entre outros. Resumo #3Tecendo relações interdisciplinares nas abordagens de cenas enunciativas em contextos de trabalho O conceito de cena enunciativa em Maingueneau (1997) remete a uma dimensão constitutiva do discurso na qual se reconhece a preeminência e a preexistência de uma topografia social sobre os interlocutores em um determinado contexto de enunciação, em relação à qual não é possível postular nenhuma exterioridade entre o lugar que os sujeitos ocupam para enunciar e a prática discursiva que efetivam. Situando-se nesse lugar teórico, objetiva-se investigar as coordenadas dêiticas que constituem as cenas de enunciação em contextos de trabalho nos quais os textos são o produto da ação laboral dos sujeitos, ou seja, contextos de trabalho em que o exercício enunciativo seja ele mesmo aquilo que se produz e se coloca no mercado como produto ou serviço a ser consumido. Identificar o perfil das instâncias de enunciação em contextos de trabalho, bem como a topografia e a cronografia discursivas com base nas quais o trabalho se realiza permite compreender o exercício enunciativo implicado no trabalho para além de uma dimensão técnica do fazer e do dizer que se imprime na ideia do senso comum. Trata-se de compreender a dimensão política reiterada na tomada da palavra em contextos de trabalho, que configura a topografia social que se impõe às práticas discursivas efetivadas no interior das instituições sociais. O reconhecimento da dimensão política na realização do trabalho se torna possível se, conjuntamente às reflexões sobre a reflexividade enunciativa, forem também instituídas reflexões sobre o processo do trabalho, razão pela qual são tecidas relações interdisciplinares entre os postulados da Análise do Discurso e os postulados da Ergologia na busca do entendimento do processo de constituição discursiva dos sujeitos do trabalho, das relações que entre eles se estabelecem, bem como do tempo e do espaço em que o trabalho se realiza. | |
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