NEUROLINGUÍSTICA DISCURSIVA: VIVÊNCIAS COM A ESCRITA NA AFASIA, NA INFÂNCIA E NA ESCOLA Esta sessão coordenada aborda a escrita na perspectiva da Neurolinguística Discursiva (ND), no contexto da afasia, do processo de aquisição e uso da leitura e da escrita e do aprendizado de conceitos científicos na escola. Os dados analisados nos trabalhos que compõem a sessão são produzidos no Centro de Convivência de Afásicos (CCA) e no Centro de Convivência de Linguagens (CCazinho), ambos da UNICAMP, e em uma escola pública do Município de Campinas, SP. O primeiro trabalho discute a escrita de sílabas complexas em contextos de involução/dissolução (afasia) e na entrada da criança no sistema de escrita alfabética. O segundo analisa processos vísuoespaciais que sustentam e interferem na relação som/letra na escrita, na leitura e no aprendizado de conteúdos disciplinares. O terceiro trata da importância da escrita para a aquisição de conceitos científicos na escola. Tanto a intervenção quanto a análise dos dados tomam a interlocução, conforme Benveniste, como lugar de produção e de interpretação de fatos linguísticos. Resumo #1Escrita: lugar de encontro entre afasia e infância A Neurolinguística de tradição discursiva, a partir de Coudry, tem mostrado semelhanças entre processos de significação na afasia e na infância, o que corrobora hipóteses já estabelecidas por Jackson, Freud e Jakobson. O objetivo do texto é discutir a relação entre afasia e infância com base em dados produzidos no acompanhamento longitudinal junto a afásicos (que frequentam o CCA) - que perdem a familiaridade com os sistemas e subsistemas da língua e de seu uso, oral e escrito -, bem como junto a crianças com dificuldades escolares (que frequentam o CCazinho) que se encontram barradas em um ponto do processo de aquisição e uso da leitura/escrita. A metodologia é de natureza heurística sendo os processos de descoberta orientados para a representação escrita da sílaba complexa, seguindo Abaurre e Chacon, por afásicos e por crianças. Um caminho para compreender o que o sujeito faz ou deixa de fazer em estados de dissolução/involução que, por sua vez, se aproximam daqueles que acontecem com a criança em sua entrada no sistema de escrita alfabética e em seu uso partilhado em sociedade. Resultados parciais mostram hesitações na representação da posição da consoante na sílaba complexa que representam, por um lado, lembranças de processos esquecidos para quem estão interrompidos/modificados vários caminhos de sua relação com a linguagem; e, por outro, mostram os mesmos lugares de indecisão por parte de quem está entrando no sistema alfabético e percebe a estabilidade da materialidade escrita nas diferentes posições das letras na sílaba. Resumo #2Ver e (re)conhecer letras em diferentes contextos Estudos sobre a aquisição da leitura e da escrita desenvolvidos na área da Neurolinguística Discursiva (ND), iniciada por Coudry, têm mostrado que as crianças percorrem diferentes caminhos até ganharem autonomia em relação a esse processo em função da variação funcional do cérebro determinada pela contextualização histórica dos processos linguístico-cognitivos, tal como preconizam Vygotsky e Luria, produzindo relações diferentes entre a criança e a linguagem, quase sempre desconsideradas pela escola. Por essa razão, o objetivo deste trabalho é mostrar, por meio do estudo de caso de RM, outros processos que sustentam e interferem na relação fonográfica do sistema alfabético, notadamente vísuoespaciais. Desde setembro de 2010, RM (11a) é acompanhado longitudinalmente no CCazinho, em atendimento a uma queixa escolar de dificuldades na alfabetização e de dispersão em classe. Resultados parciais mostram que as formas das letras impediam RM de estabelecer uma relação estável entre o acústico e o visual, mantendo-o distante do sentido. Uma vez estabelecida uma correlação entre as diferentes formas para representar uma única letra (bastão, manuscrita, de imprensa com várias fontes), pela leitura e a escrita, observamos uma nova interrogação de RM, desta vez, relacionada à multiplicidade de sentidos que essas variações apresentam a depender do sistema de referência em que se inserem. É neste ponto do processo que RM se encontra. Percebemos, assim, como o sujeito, partindo da diversidade de representação gráfica elabora um padrão e, inversamente, como é preciso rompê-lo para alcançar outros sentidos e usos. Resumo #3Escrita e formação de conceitos na sala de aula O objetivo deste texto é refletir sobre a importância da escrita nos processos de formação de conceitos fundamentada nos trabalhos pré-psicanalíticos de Freud e estudos de Vygotsky que compõem o quadro teórico-metodológico da Neurolinguística Discursiva. Seu foco é a formação de conceitos científicos sistematizados pelo currículo escolar sendo os dados obtidos em atividades longitudinais de sala de aula, com alunos de 8º e 9º anos, que apresentam dificuldades escolares. Devido a vários problemas, muitas escolas têm tido poucas chances de promover vivências significativas com a fala, leitura e escrita que preveem experiências com a linguagem, essenciais para a formação de conceitos, estabelecidas em interações que façam sentido nas situações de ensino- aprendizagem dos conteúdos previstos. Considerando os conceitos como abstrações mentais que determinam o significado de um objeto através da linguagem, os estudos que fundamentam esta reflexão puderam, promovendo um olhar discursivo para as práticas pedagógicas, ampliar a compreensão da importância dos processos linguísticos na formação de conceitos porque integram aspectos relacionados à fisiologia cerebral, à linguagem que permeia esse funcionamento e ao meio social que determina essas relações que envolvem a linguagem. Nesse sentido, a reflexão pressupõe um funcionamento cerebral de caráter associativo para a formação de conceitos que, além de relacionar fala, leitura e escrita, relaciona a experiência individual com relação a um objeto aos aspectos científicos a seu respeito para que o aprendizado possa ser realizado significativamente, colocando-o em uma rede de associações que afasta o aluno da simples percepção sensorial. Nessa perspectiva, os dados obtidos mostram que as práticas pedagógicas discursivas, em situações interacionais significativas, como a escrita conjunta de um texto, pode colocar a escrita como uma ponte entre os conceitos cotidianos e científicos, bem como indicar o que ainda deve ser trabalhado. | |
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