S2. Análise de textos literários (Comunicações coordenadas)

O TEXTO LITERÁRIO COMO RESGATE DE PRÁTICAS CULTURAIS E SOCIAIS
MARIA CELIA DE MORAES LEONEL (mcleonel@fclar.unesp.br)
UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

Como o texto literário pode ser lido sob diferentes óticas, reunimos, nesta proposta de trabalho, três comunicações que pretendem analisá-lo como representação de determinadas práticas culturais e sociais do Brasil no século xx.

Resumo #1

Modalidades autobiográficas na obra de Graciliano Ramos
Maria Célia de Moraes Leonel (mcleonel@fclar.unesp.br)
José Antonio Segatto (segatto@fclar.unesp.br)

O objetivo do trabalho é levantar traços autobiográficos na produção de Graciliano Ramos e analisar o modo como eles - em maior ou menor grau – manifestam-se. Se, para muitos escritores, críticos e/ou teóricos, toda obra literária tem algo de autobiografia, nas composições do romancista alagoano, esses elementos aparecem de maneira acentuada. Partindo desse pressuposto, procuramos identificar em seus livros algumas espécies ou subespécies de autobiografia que consideramos plausível poderem ser distinguidas por meio da seguinte tipologia: autobiografia histórica, Infância de 1945; autobiografia de testemunho, Memórias do cárcere de 1953; autobiografia de confissão, Angústia de 1936; autobiografia de personagem de ficção, São Bernardo de 1934. O exame das obras em tela, por meio desse enfoque analítico suscita vários problemas para discussão como relação entre autor e narrador, objetividade e subjetividade, memória e história, confissão e testemunho, ficção e verossimilhança, forma e conteúdo entre outros. Nesse empreendimento investigativo, recorremos à elaboração teórico-analítica de vários estudiosos , destacando-se G. Lukács, M. Bakhtin, L. Goldmann, Ph. Lejeune, A. Candido, A. Bosi.

Resumo #2

Acontecimento e formas de vida em “O Outro” de Rubem Fonseca
Vera Lucia Rodella Abriata (vl-abriata@uol.com.br)

Este trabalho analisa o conto “O Outro” de Rubem Fonseca do livro Feliz Ano Novo, lançado em 1975, com base nas noções de fato, acontecimento e forma de vida tal qual os concebe a teoria semiótica francesa. A noção de acontecimento, correlata à noção de fato, conforme Claude Zilberberg (2007) é marcada pelo inesperado que irrompe no campo de presença de um sujeito, alterando sua rotina. Assim, para o semioticista francês, o fato, que é numeroso, tem como correlato intenso ou hiperbólico o acontecimento, que, por sua vez, é raro, e, do ponto de vista extensivo, é uno. Associamos tais noções, relacionadas à semiótica tensiva, à noção de forma de vida que, segundo Greimas (1993), relaciona-se a um comportamento esquematizável e representa não um estilo individual, mas a filosofia de vida de um determinado grupo social. Dessa perspectiva, analisamos o comportamento do sujeito narrador do texto que, inserido numa rotina de fatos sem sentido, de repente vê seu campo de presença abalado pela presença de um pedinte, um primeiro acontecimento, que leva o sujeito ao estado patêmico de tão intenso desespero que o faz eliminar o pedinte de seu campo de presença, assassinando-o. Esse segundo acontecimento, por sua vez, possibilita que ele redimensione a percepção que tinha até então do pedinte no desenlace da história. Tal metamorfose na percepção que o sujeito tem do pedinte leva-nos, enquanto enunciatário, a apreender a forma de vida pautada pela violência do sujeito protagonista, em sintonia com a filosofia de vida do grupo social a que ele pertencia e que é objeto de ironia do sujeito da enunciação.

Resumo #3

“Jóia” de Emi Bulhões: um retrato da forma de vida da mulher da década de 40
Edna Maria Fernandes dos Santos Nascimento (edna.fernandes@uol.com.br)

A obra de Emi Bulhões, embora não faça parte dos cânones da literatura brasileira e seja pouco conhecida nos anos 2000, merece entrada no Dicionário crítico de escritoras brasileiras (2002) de Nelly Novaes Coelho. Segundo a estudiosa da literatura brasileira, Emi Bulhões é uma das escritoras de maior sucesso de crítica e de público na década de 40. Mas mesmo sua obra tendo merecido avaliação positiva por parte da crítica de seu tempo e sendo ela agraciada com prêmios de reconhecidos valores, Coelho lembra que sua obra faz parte daquelas escritoras injustamente esquecidas. Dos textos dessa escritora, pretendemos analisar o livro “Jóia” que tem como narradora-protagonista uma senhora de setenta anos que dá nome ao romance. Nesse momento da vida, Jóia retoma um caso amoroso que teve com Caio, médico amigo do marido. Refletindo sobre esse acontecimento que quebra sua rotina doméstica, a protagonista dirige-se à enunciatária e avalia como negativo seu comportamento amoroso que não deve ser exemplo de forma de vida para nenhuma mulher. Esse texto que contempla na sua narrativa as práticas semióticas amorosas é escrito por uma mulher, representando, portanto, a visão que a própria mulher tem da mulher. É a mulher retratando e observando a condição de vida da mulher em uma época em que o modelo de mulher exemplar é a dona de casa perfeita totalmente devotada e voltada para a felicidade e bem-estar do marido e dos filhos. Nosso objetivo é mostrar que o livro dessa escritora é uma rica fonte para a descrição das formas de vida da mulher. Sem perder seu valor literário, o romance “Jóia”, na leitura que pretendemos fazer, ganha valor histórico ao retratar as forma de vida da mulher da década de 40.


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