Projeto 26

 

LEITURA, PRODUÇÃO TEXTUAL E ALFABETIZAÇÃO
EM CONTEXTOS DE DIVERSIDADE

 

 

Coordenadores:

Luiz Antonio Gomes Senna (UERJ) - senna@senna.pro.br

Paula Almeida de Castro (UEPB) - emailsdapaula@gmail.com

Maria Angélica Freire de Carvalho (UFPI) - mangelicfreire@gmail.com

 

 

2017-2019, integrando: Programa de Pós-Graduação em Educação (UERJ), Programa de Pós-Graduação em Formação de Professores (UEPB), Programa de Pós-Graduação em Linguística (UFPI)

 

 

 

SINOPSE: Projeto interinstitucional dedicado à produção e disseminação de insumos básicos para a formação inicial e continuada de professores dos anos iniciais do ensino fundamental (educação primária). Seu objetivo é discutir as bases interdisciplinares para a definição do campo acadêmico da linguística aplicada ao letramento e à alfabetização no âmbito de programas de educação e diversidade social e cultural. A produção derivada consistirá de material bibliográfico destinado à formação de professores.

 

Palavras-chave1: linguística aplicada; letramento; alfabetização; teoria e epistemologia da linguística

Palavras-chave2: representação do conhecimento; desenvolvimento e modos do pensamento; leitura; produção de textos

Palavras-chave3: desenvolvimento socioafetivo; subjetividades sociais; mecanismos de inclusão; exclusão, etnografia

Palavras-chave4: formação de professores; teorias da aprendizagem; sociologia da educação

 

 

 

Os marcos teóricos da linguística aplicada ao letramento e à alfabetização expandiram-se para além dos domínios mais centrais das ciências da linguagem, demandando uma perspectiva interdisciplinar e limítrofe entre campos como a educação, a psicologia e sociologia[1]. Em boa medida, seu perfil pós-estruturalista[2] deriva de rupturas ocorridas desde o século passado, seja a partir das teorias do discurso e suas repercussões sobre as teorias da representação gramatical, seja nos movimentos ditos construtivistas que revolucionaram os estudos sobre a alfabetização[3]. O desenho teórico deste campo de estudos passou, desde então, por processos que acabaram por colocar em cheque a própria noção de ciência aplicada, dada a especificidade de suas demandas, seus recortes objetais e, sobretudo, seus recursos para o enfrentamento da dialética entre abstração e mundo real. A desconstrução da figura estável e modelar contida na noção de “falante-ouvinte ideal”[4], assim como do dogmatismo subjacente às estruturas e prescrições normativas que dão corpo aos sistemas alfabéticos, exigiu da linguística aplicada, ao longo dos últimos vinte anos, a redefinição de suas bases teóricas e crenças acerca das representações de pessoas e sistemas envolvidos na comunicação. Paralelamente, os processos de representação e expressão na sociedade pós-industrial contemporânea redesenharam os conceitos de texto e de leitura[5], fato que traria profundos questionamentos sobre os objetivos e os meios de formação de leitores e de produtores de textos, assim como sobre os sentidos e processos de alfabetização. Mais do que questões estritamente relacionadas ao ensino de língua materna, a linguística aplicada ao letramento e à alfabetização encontra-se face a uma agenda na qual protagoniza um movimento epistemológico próprio, ainda por se consolidar, no centro do qual se encontram a formação de professores e o princípio fundamental de respeito às diferenças no ensino[6].

 

O problema que, a título de síntese, melhor traduz a demanda epistemológica da linguística aplicada contemporânea é o binômio formado por, de um lado, a noção de “erro de produção textual” e, de outro lado, o peso do fracasso escolar. O problema neste binômio consiste do fato de que a cultura de formação de professores torna-os capazes de identificar um assim chamado “erro de produção textual”, porém, não lhes oferece instrumento para compreender as condições de produção da maioria dos “erros” que se dão para além das estruturas físicas das frases, nos campos da morfossintaxe frasal, da seleção lexical na cadeia da transitividade verbal e na forma ortográfica dos vocábulos. Os custos de organização textual derivados nas cadeias de coesão semântica, nos elos de coerência e nos demais planos da organização da informação que realmente pesam nas condições de adequação textual, são passíveis de ser assinalados pelo professor, porém, não são passíveis de ser descritos em sua gênese no processo de elaboração do texto. Os fatores que interferem no processo de elaboração do texto e, consequentemente, no processo de desenvolvimento dos sujeitos que produzem textos, escapam aos limites clássicos das teorias linguísticas, à medida que estão sujeitos ao conjunto de determinantes do desenvolvimento humano com todo. É com base nisto que se compreende o caráter interdisciplinar e ímpar da linguística aplicada ao letramento e à alfabetização.

 

Os programas de pós-graduação foram responsáveis nos últimos vinte anos pela construção das várias facetas teóricas que auxiliaram na compreensão dos sujeitos reais das práticas letramento e de alfabetização, dos vínculos entre as representações de mundo, os processos de comunicação e as dinâmicas discursivas que dão corpo e vida à produção de textos. Contudo, ainda se encontra certa dificuldade para associar as várias contribuições aos mesmos fenômenos, pois que ainda são raras as oportunidades de diálogo entre as áreas acadêmicas pertencentes aos mais variados ramos do conhecimento[7]. Embora a linguística ocupe uma posição muito central nos estudos do letramento, a psicologia prepondera no campo da alfabetização, especialmente na análise das condições de desenvolvimento e na descrição dos estados geradores de custo. Na educação, para a qual convergem todos os estudos, há uma tendência ao privilégio das questões sociológicas que culminam no campo das políticas públicas, das questões filosóficas que abraçam os sentidos dos processos de ensino escolar e, sobretudo, a questão humanitária da escolarização, que nos traz a discutir todo o esforço dos alunos sujeitos à diversidade a fim de se fazerem alunos. Nenhum destes aspectos foge ao interesse da linguística aplicada ao letramento e à alfabetização, seja nos cursos de Letras, seja nos da Psicologia ou da Educação.

 

Este projeto tem por finalidade promover um fórum para discutir e definir a natureza da linguística aplicada ao letramento e à alfabetização como um ramo do conhecimento linguístico com propriedades complexas, numa perspectiva pós-estruturalista e baseada no princípio da reinterpretação paradigmática, segundo Kuhn[8]. Seu objetivo consiste na publicação de três obras de referência multidisciplinar, na forma de um eBook dividido em três volumes, reunindo artigos que se desenvolvam a partir das discussões sobre o campo do letramento e da alfabetização, do ponto de vista teórico e aplicado, assim como da formação de professores e dos sujeitos em diversidade na escola básica. Para assegurar o caráter interdisciplinar do qual não se pode abrir mão ao tratar de letramento e alfabetização, o projeto será desenvolvido em regime de cooperação por quatro grupos de pesquisa consolidados, a saber: o grupo de pesquisa Linguagem, Cognição Humana e Processos Educacionais (Programa de Pós-Graduação em Educação – UERJ; líder: Luiz Antonio Gomes Senna); Etnografia, educação e exclusão (Programa de Pós-Graduação em Educação – UERJ; líder: Carmen Lucia Guimarães de Mattos); Observatório de Pesquisas e Estudos Multidisciplinares (Programa de Pós-Graduação em Formação de Professores - UEPB; líder: Paula Almeida de Castro); grupo de pesquisa Proletras: interletramentos práticas de leitura e escrita no cotidiano escolar (Programa de Pós-Graduação em Linguística – UFPI; líder: Maria Angélica Freire de Carvalho).

 

Os quatro grupos de pesquisa reúnem um colegiado de aproximadamente sessenta pesquisadores, doutorandos, mestrandos e outros formandos em pesquisa, que representam cerca de vinte e cinco instituições de ensino, pesquisa e extensão, no Brasil e no exterior. No Brasil, o colegiado realiza dois eventos acadêmicos regulares, a saber: o CONEDU (Congresso Nacional de Educação, realizado anualmente na região Nordeste do Brasil e teve sua terceira edição no mês de outubro de 2017); o CEDUCE (Colóquio Internacional Educação Cidadania e Exclusão, bianual, realizará sua quinta edição no ano de 2017).

 

Os grupos de pesquisa responsáveis pela execução do projeto têm interesse em sua extensão às reuniões anuais de ALFAL – Associação de Linguística e Filologia da América Latina, visando a promover a integração de grupos ou centros de pesquisa situados nos países latino-americanos de língua espanhola, cujos trabalhos estejam igualmente centrados na linguística aplicada ao letramento e à alfabetização. Espera-se identificar parcerias acadêmicas com as quais se torne possível a realização de estudos e pesquisas comparados que nos proporcionem a chance de discutir macro-políticas de letramento e alfabetização para a América Latina, com base em demandas e teorias localmente definidas.

 

 

Operacionalização: O projeto será levado a termo por meio da organização de simpósios temáticos, estrategicamente orientados conforme os eixos temáticos do campo da linguística aplicada ao letramento e à alfabetização. Cada simpósio estará dividido em duas etapas: uma etapa de apresentações e discussões, a ser realizar durante as reuniões da ALFAL; uma etapa posterior, a se realizar como atividade da ALFAL vinculada a um dos demais eventos organizados pelos grupos de pesquisa colegiados no Brasil, destinado à seleção do material derivado da etapa inicial que irá compor cada um dos volumes do eBook. Na proposição inicial dos simpósios, já constarão os trabalhos em número mínimo para sua realização durante a reunião anual. Entretanto, será incentivada a inscrição de outros participantes, especialmente os oriundos dos demais países da A.L. de fala espanhola.

São previstas três jornadas de execução do projeto nos anos de 2017, 2018 e 2019, ao término de cada qual será produzido um dos volumes do eBook com artigos derivados dos trabalhos apresentados. Não se pretende transformar os trabalhos do evento em capítulos, mas elaborar novos artigos a partir dos trabalhos apresentados e das discussões trazidas em sua apresentação. O processo editorial dos volumes do eBook será levado a termo pelas equipes dos grupos de pesquisa colegiados e por empresa especializada, tudo financiado com recursos derivados dos insumos de pesquisa já disponíveis. Apresentam-se adiante os simpósios propostos para o ano de 2017.

 

 

 

1ª Jornada do Projeto – 1ª Etapa

SIMPÓSIOS TEMÁTICOS PARA A REUNIÃO DE 2017

 

 

Simpósio 1

Tensões paradigmáticas – a linguística aplicada e as fronteiras do conhecimento

Os objetos da linguística aplicada tomados como fenômenos complexos, históricos e sujeitos às idiossincrasias individuais. O simpósio explora o esforço teórico subjacente às pesquisas aplicadas aos campos da linguagem, focalizando, especialmente, a necessidade de alargamento das suas fronteiras epistemológicas e da reinterpretação paradigmática, à luz das contribuições pós-estruturalistas de Kuhn. Tendo por motivação a demanda por fundamentos adequados à formação de docentes capazes de traçar e implementar políticas de ensino comprometidas com a inclusão de minorias sócio-culturais, os trabalhos abordam diferentes aspectos em que a ruptura com os parâmetros modernos de produção de conhecimento em ciências da linguagem contribuem para uma melhor absorção de noções como diversidade e singularidade. O diálogo entre os três trabalhos tem por objetivo suscitar discussões sobre o papel dos estudos de base na desconstrução do conceito de “normalidade” como um traço subjacente à figura do aluno em processo de alfabetização, assim contribuindo para o avanço da noção de “erro produtivo”.

 

 

Entre sujeitos abstratos e sujeitos do discurso: a ausência do aluno real no corpo teórico da formação docente

Luiz Antonio Gomes Senna (Professor Associado, Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

O conflito entre aluno ideal e aluno real na formação do professor que atua como agente de alfabetização e letramento na educação básica. O percurso epistemológico das ciências da linguagem, desde suas formulações na era do estruturalismo até meados dos anos de 1980, até os encaminhamentos pós-estruturalistas, especialmente, as teorias do discurso e dos sistema auto-regulados. A presença estável do sujeito cartesiano nas pesquisas estruturalistas e pós-estruturalistas, tanto do ponto de vista teórico, quanto metodológico. O trabalho tem por finalidade descrever o custo provocado pelas propriedades cartesianas do discurso teórico das ciências da linguagem para as pesquisas e demais proposições da linguística aplicada, tendo por referência a formação do professor agente de letramento e alfabetização em escolas fortemente caracterizadas pela diversidade cultural. Discute-se ainda a prevalência do pensamento interdisciplinar no desenvolvimento das hipóteses e modelos teóricos em linguística aplicada. Os dados apresentados resultam de estudos concluídos no âmbito de projeto de pesquisa em desenvolvimento.

 

 

O professor e sua prática: considerações sobre a formação de professores pesquisadores

Tatiana Fagundes Barbosa (Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, doutoranda em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Pesquisa e formação docente no campo da alfabetização e do letramento em contextos sob condição de diversidade social e cultural. A invisibilidade do aluno real em face do rigor e do pressuposto universalizante do sujeito escolar subjacente às teorias de formação docente. A contribuição da etnografia e das teorias sócio-históricas sobre a mente humana para o desenvolvimento da noção de pesquisa sobre a própria prática. Implicações teórico-metodológicas para a definição de linguística aplicada ao letramento e à alfabetização. O trabalho tem por objetivo descrever o percurso teórico da noção de “professor pesquisador”, buscando definir o espaço do pensamento pós-estruturalista e dos aportes interdisciplinares para o campo da linguística aplicada ao letramento e à alfabetização.

 

 

Oralidade, visão e letramento: os impactos da diversidade visual de alunos culturalmente plurais das escolas brasileiras

Viviam Kazue Andó Vianna Secin (Doutora em Educação; Coordenadora do Núcleo de Pós-Graduação em Ciências da Visão do Centro Universitário Celso Lisboa)

Em consonância com as diretrizes mundiais em favor do direito à Educação e Saúde Visual para Todos, que norteiam a aproximação dos diferentes atores envolvidos em estudos voltados à compreensão dos aspectos multidimensionais inerentes aos processos de letramento dos diferentes sujeitos de uma sociedade, esse trabalho tem como objeto a diversidade visual ecologicamente instituída em contextos culturais híbridos, mais ou menos marcados pela oralidade e pela escrita, tendo por objetivo sinalizar a importância de se reconhecer a diversidade visual dos alunos culturalmente plurais pertencentes às escolas brasileiras, como fator de impacto e custo diferenciados ao processo de alfabetização e letramento. O sistema visual está diretamente envolvido no processo de leitura, sendo necessária uma harmoniosa orquestração sensorial e motora binocular para ser produtiva e prazerosa. A leitura exige não somente visão de qualidade, mas também um fino controle dos olhos na realização de movimentos rápidos curtos, de convergência assimétrica dos eixos visuais ao longo da linha de texto, e longos, ao saltar os olhos às mudanças de linhas. E ainda, exige a sustentação do olhar por milissegundos, para a identificação das letras, palavras ou grupos de palavras e para a adequada compreensão do texto. A área de saúde visual Ortóptica se dirige ao estudo da visão binocular em seus aspectos sensoriais e motores, assim como à intervenção terapêutica em casos de distúrbios binoculares, dentre os quais, os estrabismos. Fundamentando-se em pesquisa interdisciplinar que aproximou as áreas de Educação, Ortóptica, Antropologia e da Psicologia, que culminou com a tese de Doutorado em Educação desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sob a orientação do linguista Prof. Dr. Luiz Antônio Gomes Senna e intitulada “Ortóptica, Oralidade e Letramento: estudo descritivo e comparativo da visão binocular dos Guaranis Mbya da Aldeia Sapukai”, investigou-se a influência da cultura e da experiência visual para o adequado desenvolvimento de sistemas funcionais binoculares e de controles da convergência dos olhos necessários ao bom desempenho visual durante a leitura e em atividades visuais cotidianas. Utilizando a metodologia aberta ao complexo da pesquisa-ação para investigar aspectos da cultura visual e dos controles funcionais sensoriais e motores binoculares de dois grupos populacionais formados por sujeitos indígenas de etnia guarani mbya habitantes da aldeia Sapukai (Rio de Janeiro), de cultura predominantemente oral, e por estudantes universitários não indígenas de cultura predominantemente letrada, de instituições de ensino superior do Rio de Janeiro, os resultados do estudo evidenciaram a existência de perfis funcionais binoculares diversos mais convergentes entre os estudantes universitários e mais divergentes entre os indígenas. Neste caso, justificando as frequentes queixas de cansaço visual, cefaleia, embaralhamento visual e dificuldade de leitura relatadas pelos estudantes indígenas ao transitarem do olhar da floresta para o olhar disciplinado da cultura escrita. Essas queixas também relatadas por estudantes não indígenas que vivem em comunidades predominantemente marcadas pela cultura oral, sejam crianças, jovens ou adultos, revelam o impacto da diversidade visual no processo de letramento, a ser considerado em termos de políticas públicas educacionais inclusivas.

 

 

Simpósio 2

Docência e formação de professores no campo da linguística aplicada ao letramento e à alfabetização

Em que pesem os esforços políticos e acadêmicos, o acesso à cultura escrita ainda não se tornou universal na América Latina, onde os índices de analfabetismo e analfabetismo funcional não sofreu redução significativa nas últimas décadas. A população excluída da cultura escrita está, normalmente, situada à periferia dos processos culturais hegemônicos e tem na escola o único ou principal espaço em que as práticas de escrita alfabética se empregam de forma sistemática. Por este motivo, políticas públicas de letramento e alfabetização que visem a atingir esta população incidem sempre sobre processos ou regimentações escolares, tendo, portanto, como principais agentes implementadores os professores. Os fatores que concorrem para o severo custo de alguns dos sujeitos escolares em condição de diversidade social e cultural encontram-se, todavia, fora da escola, fora, portanto, da esfera de controle dos professores, o que não raramente leva a que se assuma o chamado “fracasso escolar” como algo interditivo da aprendizagem, peculiar ao aluno e, em alguns casos, a ser tratado pela área médica. Este simpósio reúne trabalhos que discutem diferentes aspectos da formação de professores com vistas à superação do custo de aprendizagem ou do fracasso escolar entre sujeitos em condição de diversidade cultural, considerando-se a formação inicial na graduação, a formação continuada em serviço e formação de agentes de letramento e alfabetização na educação de jovens e adultos.

 

 

A disciplina Processos de Alfabetização e seus componentes formativos

Paula Cid Lopes (Professora Adjunta, Departamento de Estudos Aplicados ao Ensino, Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Como produto da pesquisa “Processos de alfabetização, letramento e formação de leitores e escritores – entre a formação de agentes de letramento e o ideário de educação para a diversidade”, desenvolvida em contexto da Linha de Pesquisa “Princípios e Processos de letramento e alfabetização”, este trabalho considera a disciplina “Processos de Alfabetização” do Curso de Pedagogia/UERJ/Campus Maracanã, como objeto de estudo. O artigo sistematiza uma das etapas da pesquisa-ação em andamento, conforme descrita por Senna (2003), como uma metodologia que, de antemão, tem origem no cotidiano da escola básica e é projetada por professores e para professores, ampliando-se na formação de agentes de letramento para este segmento. Toma-se como objetivos para esta etapa, portanto: a) Identificar componentes curriculares formativos da disciplina que possam implementar formatos contextuais de formação de professores para a alfabetização e o letramento em perspectiva de educação inclusiva; b) Contextualizar a disciplina na área de Linguística Aplicada à Alfabetização e ao Letramento, conforme está alocada no programa curricular do curso. Como recorte da pesquisa em andamento, o artigo sinaliza um resultado parcial, com perspectiva de elaboração de produto para direta intervenção na prática de formação de professores. Trata-se de revisão dos componentes formativos da disciplina, nas dimensões teórica e aplicada, produzida em grupo de trabalho da grande área da Linguagem, tendo em vista o desenho de um mapa conceitual de formação que privilegie práticas contextuais, autorais e inclusivas para os processos de alfabetização e letramento de crianças, jovens e adultos.

 

 

O lugar da alfabetização na formação de professores para os anos iniciais do Ensino Fundamental

Maria Letícia Cautela de Almeida Machado (Professora Adjunta, Departamento de Estudos Aplicados ao Ensino, Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Apesar dos esforços das redes públicas de ensino para alfabetizar seus alunos, o número crescente de sujeitos que efetivamente não se apropriam da leitura e da escrita coloca em questão a efetividade dos processos educacionais de alfabetização que têm sido utilizados nas escolas brasileiras, bem como a experiência curricular de formação de tais educadores. Diante disso, esse trabalho tem como objetivo discutir a especificidade da alfabetização na formação do professor para os anos iniciais do Ensino Fundamental. Como metodologia, desenvolve-se uma pesquisa científica de base teórico-conceitual no campo da Linguística aplicada à Alfabetização e ao Letramento. Os resultados apontam para a especificidade do processo de alfabetização considerando três aspectos: a desconstrução dos paradigmas desenvolvimentistas e naturalistas que influenciam os conceitos subjacentes à aprendizagem da escrita alfabética; o caráter interdisciplinar da formação do agente alfabetizador; o contexto de letramento necessário às práticas inclusivas de alfabetização. Conclui-se que o processo de alfabetização é um processo mental extremamente singular, afetado diretamente pelo contexto sociocultural dos alunos, de modo que não é possível uma concepção de universalidade. Ao considerar a multiplicidade de fatores envolvidos na aprendizagem da língua escrita, evidencia-se a necessidade de a formação do professor alfabetizador articular conteúdos e campos disciplinares distintos, de tal modo que o educador compreenda todas as dimensões desse processo e amplie os referenciais para a construção de suas ações didático-pedagógicas. A despeito de tais ações, sinaliza-se que, embora se reconheça que a língua escrita se estrutura na interação, no uso e para o uso – sempre contextualizado -, entende-se que a alfabetização envolve aprendizados muito específicos do sistema alfabético e de suas inter-relações com a língua oral. Desse modo, reconhece-se a indissociabilidade dos processos de alfabetização e letramento como condição para a socialização e não mais uma entre tantas formas de exclusão já encontradas na sociedade.

 

 

A formação em serviço dos professores do 3º ano da rede pública de ensino da cidade do rio de janeiro

Fátima Spala (Doutora em Educação; Departamento Geral de Educação, Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e Universidade Castelo Branco)

Apesar dos esforços Rede de Ensino da SME-Rio, os números vêm indicando que continuam sendo produzidos indivíduos que passam pelas instituições de ensino sem constituírem os conhecimentos necessários para a apropriação da leitura e da escrita. São milhares os alunos que vêm provocando e mobilizando os profissionais de educação desta Rede de Ensino que, mesmo sem se darem conta de que o fracasso escolar é basicamente resultado de um projeto social excludente, enfrentam diária e corajosamente as demandas que impedem que as crianças aprendam. De qualquer forma, independentemente do ponto de vista assumido para explicar o fenômeno complexo que constitui o fracasso na apropriação da leitura e da escrita, os professores representam a linha de frente de qualquer mudança pedagógica que se pretenda na escola. Diante desse contexto se coloca a importância de realizar um projeto de formação continuada centrado nos saberes dos professores e comprometido com o percurso escolar dos cariocas. A proposta de formação em serviço estabelecida a partir de uma perspectiva formativa, defendida pelo conjunto desta pesquisa visa investigar os princípios e processos de apropriação da língua escrita e produzir conhecimentos que sirvam à aprendizagem e ao ensino dos alunos e professores da rede pública de ensino da Cidade do Rio de Janeiro. Conceber a formação dos professores como um processo contínuo, responsável por conferir ao professor autoridade para lidar com essa temporalidade do desenvolvimento humano, com suas especificidades e exigências, vem nos permitindo reconhecer os custos do caráter aligeirado e descontínuo dos modelos de formação que desconsideram abruptamente o desenvolvimento. Esta compreensão vem exigindo um projeto de formação em serviço que redefina a atividade do professor possibilitando-o estabelecer uma relação diferente com o conhecimento, em substituição a uma concepção mais tradicional e tecnicista, relação que priorize o papel das interações entre os sujeitos na constituição do conhecimento. Outra questão que merece ser colocada em destaque é a dimensão que a relação teoria e prática assume no projeto em questão. Para alguém se tornar um bom professor não basta apenas o domínio de conteúdos específicos, técnicas e métodos pedagógicos, conquistas de uma boa formação acadêmica. Da mesma forma, também não é suficiente apenas o conhecimento adquirido na prática para garantir uma formação docente consistente. Redimensionar a relação teoria e prática nas ações de formação dos professores tem representado atribuir à teoria o lugar das possibilidades, sem com isso, supor que ela seja capaz de prever as situações e encaminhar soluções para o cotidiano da sala de aula ou mesmo que seja tratada como produção de exclusividade acadêmica. No contexto deste trabalho, a relação teoria e prática fundamenta os princípios e processos de alfabetização e amplia as possibilidades de ações dos professores junto aos seus alunos.

 

 

Relações entre a formação docente como agente de letramento e a formação de leitores em eja

Rosely de Oliveira Macário (Secretaria de Estado de Educação da Paraíba, Doutoranda em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

A EJA atende uma demanda social composta por jovens e adultos. Para problematizar a situação do aluno em situação de fracasso escolar, debruço-me em estudos reflexivos suscitados na área da linguística aplicada ao ensino, a pensar na formação docente nos diferentes níveis de ensino, como agente de letramento e também considerando minhas experiências na docência na condição de professora alfabetizadora nesta etapa de ensino. Este trabalho objetiva trazer em pauta diferentes vozes que permeiam no campo da teoria do letramento a dialogar com as demandas da EJA frente às dificuldades do aluno em permanecer na escola e aprender a ler e tornar um leitor. Para tanto, torna-se necessário uma abordagem metodológica que sinalize para a valorização dos saberes dos alunos e que tal sinalização permita o avanço nas questões epistemológicas da prática escolar, cuja percepção docente possibilite problematizar o processo de formação de leitores, e considerar a relação entre os conteúdos escolares e o uso de gêneros discursivos nas práticas culturais, confrontando-os ao desenho curricular predominante na escola. Para tanto, torna-se necessária à realização de uma pesquisa de cunho bibliográfico, atreladas ao campo do letramento, a assumir a formação do leitor considerando mídias, suportes e os diferentes contextos culturais, existentes na cultura marcadamente de cultura letrada. Tais estudos partem no que diz respeito, à discussão pelos caminhos da educação, a partir da diversidade a pensar um fazer educativo como fruto da formação docente que se configura significativamente em práticas escolares na perspectiva da inclusão social.

 

 

Simpósio 3

Diversidade e custo de acesso à escrita

O processo de construção da escrita alfabética constitui um grande desafio para a educação pública, especialmente entre sujeitos sociais que se encontram em condição de diversidade social e cultural. Nas ex-colônias portuguesas, dentre as quais o Brasil e Moçambique, encontram-se diferentes realidades linguísticas quanto ao uso coloquial da língua portuguesa. Seja na forma do chamado “português do Brasil”, seja na diversidade de línguas maternas locais faladas em Moçambique, as ex-colônias portuguesas desenvolveram suas próprias formas de resistência à imposição do Português pela coroa portuguesa. As práticas escolares de alfabetização em tais países confrontam-se com alunos cuja realidade extra-escolar opera outras realidades linguísticas, outros modos de representação de mundo, em face dos quais a língua escrita – o idioma oficial – não tem força. Este simpósio reúne trabalhos que discutem realidades escolares de alfabetização que enfrentam, direta ou indiretamente, os custos provocados por línguas e representações de mundo em contato. Os estudos apresentados situam contextos de ensino localizados na região metropolitana do Rio de Janeiro e em diferentes regiões de Moçambique.

 

 

Os sujeitos da diversidade e o acesso à língua escrita

Dina Maria V. Pinho (Professora do Colégio Federal Brigadeiro Newton Braga e doutoranda em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Ezer W. Gomes Lima (Professor Assistente do Instituto de Educação Física e Desporto da Universidade Federal do Vale de São Francisco e doutorando em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

O ponto de partida para justificar a necessidade deste estudo se baseia no fato de a educação estar totalmente imersa em diferentes vivências no espaço escolar, sobretudo nos inúmeros aspectos relacionados à representação da escrita. O enfoque adotado nesta pesquisa é, então, de ordem teórico-conceitual, por centrar-se na (re)construção de conceitos, ideias e ideologias necessários ao aprimoramento dos fundamentos teóricos já desenvolvidos sobre a temática. Posto isso, o sujeito da diferença é compreendido, aqui, como sendo fruto do caldeamento de distintas etnias e suas culturas, e que traz em si um modo peculiar de ler e representar o mundo. Trata-se do sujeito da interculturalidade, que, por sua vez, não se alinha ao perfil cultural propugnado pela cultura científica. Em contrapartida, o acesso e, consequentemente, o domínio da língua escrita como único padrão digno de aceitação e apreciação tem sido um discurso historicamente conservado e disseminado não apenas nas escolas, mas, principalmente, nos meios de comunicação - através de programas de televisão, Internet e colunas de jornais e revistas - onde gramáticos tradicionais ensinam a escrever corretamente o português, omitindo, nesse discurso, o distanciamento entre o que se padronizou como culto e a prática cotidiana da maioria dos falantes. Isso torna visível um conflito histórico entre os interesses da classe dominante - materializados na adoção de um padrão linguístico normativo, baseado no português europeu moderno - e a efetiva cultura nacional. De acordo com Senna (2007), a escrita encerra em si a própria natureza do modo de pensar do sujeito moderno, cabendo nela somente um tipo de sujeito: o cartesiano. Outra questão vista pelo autor se refere às estratégias de inclusão escolar e procedimentos de escrita. Para ele, a língua escrita, além de atuar como ferramenta para a cultura científica, opera como um poderoso instrumento de exclusão social, dividindo severamente aqueles que são benvindos e, portanto, reconhecidos como cidadãos da modernidade, daqueles que permaneceram sob as regras medievais, não dirigidos pelas revoluções científicas, mas ainda formados a partir de padrões tradicionais de oralidade. Não se deve esquecer, portanto, que a língua materna é aprendida de forma natural, sem a necessidade de ensino formalmente organizado, ao contrário da escrita, que é um sistema artificial, criado dentro de certa cultura, para suprir a necessidade de determinado grupo e que, de maneira geral, sua aquisição demanda ensino intencional. Sendo assim, quem é o sujeito que se apropria desta tecnologia sem apresentar custos? Ele é o típico sujeito da modernidade, individualista e racional, portador de identidade fixa e imutável. O sujeito da escrita alfabética é o indivíduo forjado na Modernidade, pela cultura científica; um homem ideal, universal – o sujeito da razão: o cartesiano. Nesse caso, aspectos como noção de cientificidade, evolução e homogeneidade, refletem a ideia de normalidade e civilidade constante na base institucional da cultura escolar. Assim, considera-se que a institucionalização da educação, que tem como parâmetro o modelo civilizatório burguês europeu, mantendo-se inalterada, colabora para um custo negativo aos processos educacionais, contribuindo, portanto, para a disseminação da cultura do fracasso escolar.

 

 

Diversidade e custo de acesso à escrita alfabética: contribuições da educação infantil ao letramento

MAÍRA DE OLIVEIRA FREITAS (Professora Assistente do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira da Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

A discussão proposta neste trabalho tem origem nos estudos realizados pelo Grupo de Pesquisa Linguagem, Cognição Humana e Processos Educacionais, que investe seus esforços na produção de investigações sobre os aspectos da linguagem e os modos de representação do conhecimento com fins de repercussão no cotidiano das práticas escolares. O ensino da leitura e da escrita constitui-se umas das fundamentais atribuições da escola, já que se configurou como relevante instrumento para que os alunos exerçam os seus direitos universais de acesso à escrita alfabética e à cultura letrada. No entanto, já é bem sabido por toda comunidade, seja acadêmica ou não, que a experiência brasileira de educação escolar, ainda colhe enormes fracassos no que concerne a Alfabetização. Muitas são as hipóteses e discussões na academia a respeito do comportamento manifesto pelo aluno em situação de diversidade no processo de letramento, sejam elas étnicas, culturais ou sociais. No entanto, pouco se discute as diversidades no modo com o sujeito aprende, ou seja, pouco se fala em diversidade de aprendizado. Portanto, no referido trabalho, buscamos traçar o perfil do sujeito cognoscente subjacente ao processo de alfabetização e seus aspectos individuais de aprendizagem no que dizem respeito à elaboração de conceitos científicos. Por fim, compreendendo a docência como um espaço de produção do conhecimento, focamos o estudo em um segmento específicos da Educação Básica: a Educação Infantil. A partir da discussão da seleção de práticas pedagógicas mediadoras de aprendizagens, buscamos alternativas inclusivas que favoreçam as subjetividades do contexto educacional diverso.

 

 

Diversidade e custo de acesso à escrita

Marcelino Horácio Velasco (mestrando em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PEC-PG Moçambique)

A arte da escrita é uma tarefa bastante difícil por natureza, e mais difícil ainda quando as politicas de ensino não refletem a realidade do cidadão. O presente trabalho tem como objetivo analisar alternativas de adequação das politicas de educação básica em Moçambique, destinadas a minimizar o custo de alfabetização do ensino fundamental, porque os alunos deste ciclo enfrentam serio problemas para se adaptarem a escrita. É uma pesquisa Bibliográfica na qual cruzarei vários documentos oficiais, e da experiência como professor. Moçambique foi uma das colônias portuguesa em África que tinha primeiro a língua portuguesa (doravante LP) como instrumento de comunicação, estratificação e de domínio da sociedade moçambicana, aqueles que não tinham proficiência eram excluídos na vida. Segundo, durante a luta armada de libertação nacional, esta foi usada como instrumento de unidade e de luta para juntar as várias etnias e línguas existentes no país, porque havia sinais claros de desunião por causa do regionalismo causado pelas culturas. Terceiro, no pôs-independência a LP é usada como língua oficial do país e também como instrumento de ensino, unidade, e identidade nacional, para acabar com o tribalismo. É nesta diversidade linguística concretamente na educação, que o custo de acesso à escrita se manifesta e mostra-se um serio problema de progressão dos alunos do ensino básico durante a alfabetização, porque durante este ciclo o aluno tem que ser capaz de ler e escrever com o mínimo de proficiência, algo que não acontece. São causas: 1º a diversidade etnolinguístico que caracteriza Moçambique, constituído por muitas línguas não veiculares em todo país e pela falta de gramática, ligado a isso também tem a questão da tradição oral das línguas Bantu, que caracteriza o uso destas nos (Contos Fabula, os Adágios populares, as Cantigas de amor e Instrução informal) feitos de forma não sistematizados, 2º pouca oportunidade de acesso à pré-escola e a escola primaria base de estudo e adaptação das 1ª letras e consolidação das primeiras habilidades de leitura e escrita em LP, (ligado à causa, esta o feito de haver pais /avôs iletrados mesmo que sejam falantes do português por não serem instruídos não ajudam os filhos/netos a desenvolver habilidades de leitura e escrita na LP. Conclui-se que, há que melhorar o acesso de ensino neste ciclo, há que pensar na reintrodução do ensino pré-primário já a maior parte das crianças são pobres e sem recursos para frequentar uma creche ou escolinha, porque este ciclo é assegurado por privados, urge a necessidade de adequar as políticas publicas de educação para melhorar as metodologias de ensino do português, incluindo o ensino da escrita porque a "escola ensina escrever sem ensinar o que é escrever" (CAGLIARI, 2009, P. 83). Há que priorizar o currículo local, que priorize a experiência cultural da criança, para formar grandes alunos e não a procura de aluno padrão.

 

 

Simpósio 4

Diversidade cultural e custos de produção de textos escritos

Mesmo após dominarem o código da escrita alfabética, os sujeitos escolares da educação básica costumam apresentar custos de produção de textos escritos, não raro persistentes até os anos finais, no ensino médio. Excetuando-se os aspectos sócio-econômicos, os custos de produção de textos têm um importante papel nos episódios de fracasso e evasão escolar, especialmente no ensino médio. Este simpósio reúne trabalhos que discutem diferentes abordagens da questão da produção de textos nos dois segmentos do ensino fundamental e no ensino médio, neste caso, considerando-se um grupo de alunos do curso técnico de formação de professores primários (curso normal). O objetivo do simpósio é provocar discussões sobre as variáveis que interferem na qualidade do texto produzido por sujeitos em condição de diversidade social e cultural, a partir da análise de experiências desenvolvidas em contextos reais de ensino.

 

 

O empoderamento da escrita na escola: cenas de uma aula de produção de texto

Janaina Moreira Pacheco de Souza (Professora do Colégio Federal Brigadeiro Newton Braga e doutoranda em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

A temática presente nesse artigo resulta de reflexões do Grupo de Pesquisa Linguagem, Cognição Humana e Processos Educacionais, as quais tem como um dos objetivos propiciar discussões acerca da relação que se estabelece entre os processos de aprendizagem da escrita na escola, a postura pedagógica do professor enquanto interventor desse processo e o conhecimento significativo a ser atribuído ao aluno real. Para tanto, optei por trazer dados empíricos de minha prática como professora de Língua Portuguesa, com alunos do 2º ano do Ensino Médio em uma escola pública federal do Rio de Janeiro, inseridos em um projeto piloto intitulado “Tirando Dúvidas e Sanando Dívidas”. A motivação para esse diálogo surge da necessidade de entender o motivo da apreensão que esses alunos demonstram no momento da escrita, durante as aulas de redação. Observa-se que, num momento anterior ao processo avaliativo, em que se faz um debate temático, eles protagonizam suas falas, porém, quando têm que transpor para o papel, o distanciamento autoral apresentado em seus textos fica evidente. Para entender um pouco desse contexto, foi pedido a eles que produzissem textos que abordassem a vivência da escrita na escola. Os tópicos apontados nessas produções giraram em torno de uma prática pedagógica, particularmente vivenciada no ensino fundamental II e médio, que promove a prática da “escrita modelo”, como algo pragmático e tecnicista, dando ênfase às correções ortográficas, em detrimento dos benefícios da possibilidade do escrever. Paralelamente a essa questão, aparecem depoimentos que indicam ser o “medo” o fator inibidor no momento da produção textual, sendo ele marcado na fala dos alunos por termos sinônimos como “tenho dificuldade”, “não consigo colocar no papel o que penso” ou “é muito difícil”. Pensar sobre essas justificativas é ter em mente que a responsabilização sobre o processo de escrever pode ser algo criticável. Em primeiro lugar porque ela pode provocar a morte da criatividade e da motivação dos alunos no momento da produção, o que acaba gerando um distanciamento entre o texto e o autor. Em segundo, porque cria uma marca negativa sobre o ato de escrever, propagando a ideia de que isso não é uma tarefa para todos, haja vista que envolve critérios de superioridade, os quais não alcançam a realidade de muitos sujeitos aprendentes. A memória afetiva do prazer em produzir textos na infância foi uma situação recorrente nas falas dos alunos, o que sugere que há um paradoxo entre a representação da escrita nesta fase e o custo dela nos dias atuais. Com o intuito de subsidiar algumas dessas questões, resta-nos a reflexão sobre a necessidade de haver um ajustamento no ensino que rompa paradigmas e que não supervalorize a técnica em detrimento ao pensamento, desmerecendo o papel da produção individual. Ao professor, fica o desafio de repensar uma prática em sala de aula que contemple a diversidade de seus alunos e valorize a escrita como possibilidade de expressão de maneira autoral.

 

 

A diversidade de sujeitos cognoscentes e os custos de produção de textos escritos nos cursos de formação de professores: estratégias didático-pedagógicas para formação do agente de letramento

 

Irina Ribeiro Querette (Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro e mestranda em educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

O presente trabalho pretende discutir a questão do letramento e da apropriação da língua escrita pelos alunos dos cursos de formação de professores em nível de ensino médio e os reflexos disso na prática pedagógica desses futuros professores quando, de fato, iniciam sua atuação no magistério. Essa discussão se justifica em função da diversidade de sujeitos cognitivos que frequentam as escolas brasileiras no papel de alunos e a relação que se estabelece entre tal diversidade e os custos relativos à produção de textos escritos, com especial enfoque nos alunos dos cursos de formação de professores, entendendo como um agravante da situação o fato de que a formação para o magistério desses alunos acontece concomitantemente à sua formação escolar básica. Esse trabalho se alinha ao grupo de pesquisa Linguagem, Cognição Humana e Processos Educacionais, pois procura discutir formas de se trabalhar a questão da produção textual e da diversidade de sujeitos cognitivos nas instituições educacionais, com relevo especial para os professores em formação. Para que seja possível cumprir tal tarefa, analisaremos a questão relativa ao desenvolvimento cognitivo de alunos que são sujeitos historicamente excluídos da cultura escrita, portanto sujeitos que historicamente estão à margem dos processos sociais mediados pela língua escrita em sua modalidade padrão; abordaremos a questão da interdisciplinaridade no desenvolvimento dos processos cognitivos e as estratégias cognitivas utilizadas no processo de leitura e escrita; e discutiremos o conceito de texto bem formado na contemporaneidade. Por fim, discutiremos estratégias didático-pedagógicas que deem conta de promover o desenvolvimento cognitivo necessário à produção e leitura de textos, problematizando o papel da escola no processo de ensino e aprendizagem da língua escrita em sua modalidade padrão; e exemplificaremos com uma proposta de trabalho que visa à produção de conhecimento coletiva e dialógica, com base no desenvolvimento de estruturas cognitivas e linguísticas direcionadas para o processo de argumentação como produto das diversas leituras de mundo e da realidade, de forma que seja possível o desenvolvimento do pensamento abstrato e generativo. Para dar conta de tal tarefa, tomaremos como referencial teórico a teoria de Jerome S. Bruner sobre os modos do pensamento humano e a teoria de Luiz Antonio Gomes Senna, da de Bruner derivada, acerca da forma como os modos do pensamento humano são condição para a sustentação do desenvolvimento cognitivo que possibilita aos sujeitos seu trânsito na cultura escrita. Procuraremos, por meio dos conceitos derivados do paradigma da pós-modernidade e sua aplicação à educação escolar proposta por Doll Jr., dar conta de pensar a escola como lugar de produção de conhecimento. O problema da definição do bom ou do mau texto na contemporaneidade será abordado sob a luz da análise do discurso e da problematização das questões dos gêneros textuais. Ao final do trabalho, espera-se que tenhamos conseguido debater as condições do processo de ensino aprendizagem na formação do futuro professor agente de letramento e, principalmente, a relação que existe entre diversidade de sujeitos que convivem na sociedade brasileira e os processos de formação de escritores.

 

 

Ensino de língua portuguesa - uma proposta pela produção textual

Loide Leite Aragão Pinto (Mestranda em educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Este trabalho tem como objetivo apresentar uma metodologia de ensino de língua portuguesa a partir das práticas de produção do texto, dentro da perspectiva do aprender a escrever, escrevendo (Possenti, 1996) e principalmente numa visão que não culpe o aluno por seu fracasso e ignore sua variante linguística em detrimento norma-padrão culta (SOARES, 2000). Iremos relatar a experiência de trabalho desenvolvida com os alunos do segundo segmento do ensino fundamental do Instituto Politécnico da UFRJ em Cabo Frio, projeto de educação politécnica desenvolvida durante os anos de 2008 e 2016, fechando o ano letivo de 2015, pelo grupo Interdisciplinar UFRJmar, cuja proposta pedagógica envolvida com as práticas de produção de texto e leitura, tinha trabalho como princípio educativo (Vigotsky 2008, 2010; Leontiev 2009, 2010). Apresentaremos aqui os desafios vivenciados pelos professores de Língua Portuguesa do Instituto ao longo destes anos na busca por uma aprendizagem significativa de língua portuguesa, que buscava promover junto com o educando momentos de reflexão e análise de seu material escrito, interligado a um processo de avaliação contínua. Ao longo desses anos nos foi possível analisar a eficácia da proposta na produção escrita autônoma dos alunos (Aragão e Loyola 2011), utilizando o gênero relatório como referência de produção escrita, cujo modelo mais próximo do modo científico do pensamento (Senna, 2003) seria um desafio para muitos alunos cuja base de formação seria majoritariamente no modo de pensamento narrativo. Era a partir dos textos dos alunos que discutimos a questão do sentido da mensagem e de adequação da linguagem para os diferentes gêneros textuais (Marcuschi e Dionísio, 2007), partindo do entendimento de que o texto é um lugar de “inter-ação” entre sujeito sócias e carregado de sentido (Koch, 2003 e 2011) e tomando o texto como um evento comunicativo . No ano de 2014 fizemos nosso primeiro relatório de pesquisa sobre a prática de ensino, cujos resultados e questões nos encaminharam para o desenvolvimento do projeto de pesquisa Relações entre a produção de texto e o ensino de gramática um olhar para a prática em sala de aula em desenvolvido no grupo de pesquisa da Educação Inclusiva e Processos Educacionais do curso de mestrado em Educação da UERJ. O referido projeto de pesquisa tem como objetivo analisar e caracterizar quais propriedades esta proposta pedagógica de ensino apresentou que contribuiu para a promoção do bom desenvolvimento da escrita dos alunos, dentro de uma proposta de ensino de Língua Portuguesa a partir da produção textual dos mesmos. Desse modo buscaremos entender como as diferentes estratégias aplicadas nesse momento de orientação contribuíram para o desenvolvimento do aluno com o texto para a aprendizagem da Língua Portuguesa a partir da prática discursiva. Ao longo deste trabalho descreveremos a metodologia de ensino, seus pressupostos, os resultados obtidos, bem como as conclusões preliminares da pesquisa.

 

 

Simpósio 5

Conhecimento, sujeitos e cultura: vozes sobre a escola a partir da etnografia

A relação dos sujeitos da escola com o conhecimento e a cultura constitui o objeto do presente painel. Tal relação será pautada pelos conceitos de migração, cultura, conhecimento e tecnologia diante do processo de ensino-aprendizagem. Propõe-se, então, como objetivo geral: estudar e investigar, qual o papel da escola diante do conhecimento e da cultura, a partir das vozes dos seus próprios sujeitos. Refletir sobre a diversidade das práticas cotidianas de sala de aula pelo olhar da etnografia e das vozes dos sujeitos possibilita configurar novas dimensões para a educação pública por contribuir, sobremaneira, para o enfretamento do fracasso escolar. É entendido que o binômio ensinar-aprender está imbricado nas relações propostas no campo da Educação. Tais dimensões se coadunam compondo, também, as questões do próprio campo educacional. Assim, o processo de ensino-aprendizagem está na pauta da escola como uma de suas principais funções mediado pela dimensão cultural. O que se propõe neste painel é uma discussão crítico-reflexiva sobre os saberes e fazeres percebidos a partir dos sentidos atribuídos pelos sujeitos da educação à ação pedagógica tomando a etnografia como abordagem teórica-metodológica possível de fazer emergir as vozes silenciadas presentes no contexto escolar.

 

 

Conhecimento, sujeitos e cultura: vozes sobre a escola a partir da etnografia

Luís Paulo Cruz Borges (Professor Assistente do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira – CAP/UERJ e doutorando em educação pela UERJ)

Paula Almeida de Castro (Professora Adjunta do Programa de Pós-Graduação em Formação de Professores da UEPB)

Igor Federici Trombini (Mestrando em Educação pela UERJ)

A relação dos sujeitos da escola com o conhecimento e a cultura constitui o objeto da presente pesquisa. Tal relação será pautada pelo binômio cultura-conhecimento diante do processo de ensino-aprendizagem. Propõe-se, então, como objetivo geral: estudar e investigar, qual o papel da escola diante do conhecimento e da cultura, a partir das vozes dos seus próprios sujeitos. Refletir sobre a diversidade das práticas cotidianas de sala de aula pelo olhar da etnografia e das vozes dos sujeitos possibilita configurar novas dimensões para a educação pública por contribuir, sobremaneira, para o enfretamento do fracasso escolar. Por usos da observação participante, do diário de campo, de entrevistas etnográficas e de produção textual buscou-se compreender holisticamente como ocorre a relação entre sujeitos e conhecimento na escola pública mediada pela dimensão cultural. Por fim, o que se propõe, neste painel, é uma discussão crítico-reflexiva sobre os saberes e fazeres percebidos a partir dos sentidos atribuídos pelos sujeitos da educação à ação pedagógica tomando a etnografia como abordagem teórica-metodológica possível de fazer emergir as vozes silenciadas presentes no contexto escolar.

 

 

Tecnologias na educação básica: um estudo de abordagem etnográfica

Juliana Linhares de Oliveira (Mestranda em educação pela UERJ)

Carmen Lucia Guimarães de Mattos (Professora Associada do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ)

A presente pesquisa tem como objeto de estudo as tecnologias digitais na escola de educação pública brasileira. Busca-se compreender como tecnologias digitais têm sido utilizadas no espaço escolar mediante o contexto cultural digital que permeia a sociedade. Também, deseja-se investigar como acontece os processos de implementação e uso das tecnologias digital na escola pública, sob a perspectiva dos atores da pesquisa e de estudos acadêmicos que discutam as questões da exclusão digital. A abordagem etnográfica sobre o uso das tecnologias digitais com base na realidade de alunas e alunos de uma escola pública por meio uso de recursos de áudio e imagens de vídeo, da observação participante e de grupo focal. Como referencial teórico opera-se com a ideia de exclusão como metacategoria nos estudos sobre tecnologia digital pautando-se em Mattos e a partir da abordagem de tecnologias como produtos de uma sociedade e de uma cultura em Pierre Levy.

 

 

Migração e educação em escolas do rio de janeiro: um estudo de abordagem etnográfica

Antonia Valbenia Aurélio Rosa (Doutoranda em educação pela UERJ)

Carmen Lúcia Guimarães de Mattos (Professora Associada do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ)

Este artigo tem como objeto de estudo a relação entre a migração e a educação. Sua discussão central está em compreender a migração como uma das faces dos processos sociais cujo foco é a educação do aluno pobre e seu processo de escolarização, especificamente, do alunado nordestino presente em escolas públicas na cidade do Rio de Janeiro. A abordagem teórico-metodológica é a etnografia com usos da observação participante, análises indutivas, entrevistas etnográficas e descrição do campo. Os autores que contribuíram para a fundamentação teórica e epistemológica do estudo são Castel (2005; 2008; 2010) Paugam (2003, 2004), Bourdieu e Champagne (2001), Dubet (2001; 2003; 2004). Neste sentido, produzir um estudo sobre a relação entre a migração e a educação contribui para analisar a escolarização do aluno que vive em situação socioeconômica desfavorecida.

 

 

Simpósio 6

Gêneros textuais-discursivos: formas para agir sobre o mundo e dizê-lo em atividades sócio-discursivas

Compreendidos como eventos linguísticos e formas de ação social, os gêneros vinculam-se às práticas linguageiras como meio de organizá-las e de procurar estabilizá-las. Integrado a tais práticas, eles acabam por atender às mudanças vinculadas à vida sociocultural, manifestas com e na linguagem; com isso, ganham-se reinscritos ou novos eventos comunicativos, os quais surgem de acordo com as necessidades interativas. Dada essa integração e mudança, pode-se afirmar que os gêneros são maleáveis, tendo sua estabilidade relativizada nos contextos sociointerativos. A partir desse pressuposto, esse simpósio busca refletir sobre os gêneros a partir de seus usos e condicionamentos sociopragmáticos, observando suas funções comunicativas. Para contemplar o estudo em aspectos mais abrangentes, em se tratando da temática, a proposta prevê uma abordagem sobre a variedade de gêneros e a observância em suas peculiaridades linguísticas e organizacionais, suas propriedades textuais e discursivas. Os trabalhos que se associam ao simpósio discutem o tema intencionando apontar caminhos para uma prática pedagógica à luz das reflexões suscitadas.

 

 

Ativação da memória contextual na produção e intelecção de gêneros no contexto escolar

Raíssa Martins Brito (Graduanda em Letras pela UFPI)

O texto é uma unidade resultante de operações cognitivas em situações comunicativas diversas, sua construção se efetiva no balanceamento de conteúdos que estão implícitos e explícitos, fruto de negociações, no processamento leitor, o qual é auxiliado por conhecimentos arquivados na memória, que servem como mecanismos importantes para a produção de inferências e de hipóteses que o sujeito elabora e reelabora no processamento textual do sentido. Sob uma relação interativa e de cooperação mútua entre fatores cognitivos, situacionais, contextuais no processamento de intelecção de textos é necessário contemplar, na escola, uma diversidade de gêneros, capazes de auxiliar no bom desempenho em atividades de compreensão leitora. Desse modo, esse trabalho tem como objetivo: (i) reconhecer como as estruturas cognitivas acionadas, no momento da leitura, podem auxiliar na compreensão de um gênero; (ii) apresentar a reconstituição de conteúdo do texto a partir de três níveis de representação: a microestrutura, macroestrutura e superestrutura textual, verificando como esse conhecimento opera no domínio do gênero, projetando sua produção e intelecção. Metodologicamente, o trabalho consiste em uma pesquisa bibliográfica, de cunho qualitativo, baseada em autores como: Bakthin (2011), Bazerman (2011), Dolz e Schneuwly (2004), Koch (2000; 2006; 2013), Kleiman (1983, 2004), Marcuschi (2012), Van Dijk (2013) entre outros. As considerações assinaladas, no estudo, intencionam, dentre outros apontamentos, entender como a apreensão dos conhecimentos relacionados aos gêneros: conteúdo temático, organização composicional e estilo são importantes para suprir necessidades comunicativas diárias.

 

 

Componentes situacionais e referenciais no desenvolvimento da competência metagenérica

Maria Angélica Freire de Carvalho (Professora Adjunta do Programa de Pós-Graduação em Linguistica da UFPI)

Em uma dada situação linguística o falante/ouvinte produz uma estrutura comunicativa que se configurará em formas-padrão relativamente estáveis de um enunciado, os gêneros textuais. São formas marcadas a partir de contextos sociais e históricos, que se sujeitam a alterações em sua estrutura, dependendo do contexto de produção e dos falantes/ouvintes que produzem. Diante dessas alterações, conclui-se que são muitas e variadas as formas dos gêneros textuais. O objetivo deste estudo é refletir sobre essas formas como ações de linguagem que requerem do sujeito produtor uma série de decisões que ele necessita ter competência para executar: a primeira delas, é a escolha que deve ser feita a partir do rol de gêneros existentes, em que se deverá escolher aquele que lhe parece adequado ao contexto e à intenção comunicativa; e a segunda, é a decisão e a aplicação que poderá acrescentar algo a forma destacada ou recriá-la, identificando a relação dessas ações e o desenvolvimento de uma competência metagenérica. A reflexão proposta parte de uma pesquisa bibliográfica, de caráter qualitativo, ancorada no estudo bakhtiniano sobre gênero e, ainda, nas leituras de Koch (2012), Adam (1992), Bronckart (2012), Dolz; Schneuwly (2004), Marcuschi (2010, 2011); entre outros. Esses diálogos possibilitarão o entendimento de que a compreensão e o emprego dos componentes organizacionais de gêneros diversos evidencia uma competência comunicativa, mostrando diferentes níveis de letramento desses sujeitos, indicando o modo como eles interagem e constroem suas relações sociointerativas.

 

 

Gêneros discursivos, modos do pensamento e a produção textual do jovem contemporâneo

Maria Aparecida Gomes Barbosa (Professora Assistente da UERN)

As tecnologias da informação detêm um papel significativo no modo como se desenvolvem os sujeitos produtores de textos. Nas universidades e colégios de educação de nível médio, os textos alfabéticos veiculados em plataformas clássicas, como livros e outras mídias em papel) estão relacionados a um modelo de produção de textos que tem se mostrado um desafio para boa parte dos alunos, cujo cotidiano já envolve preponderantemente o emprego de mídias hipertextuais. Este trabalho analisa o impacto das mídias sobre o desenvolvimento dos modos do pensamento humano, tomados a partir de modificações da teoria básica de Jerome Bruner sobre modos narrativo e científico, tendo por objetivo caracterizar o papel do professor do ensino médio e dos cursos de graduação enquanto agente de letramento responsável pela introdução e desenvolvimento de gêneros discursivos acadêmicos entre seus alunos.

 

 

 



[1] Também compreendida como uma macroárea, tamanha a indissociabilidade dos vários campos do conhecimento de que se necessita a verdadeira compreensão dos fatores envolvidos, incluindo-se os sujeitos em devir, os modelos de representação subjacentes, as circunstâncias intereferentes sobre a produção e seu desenvolvimento etc. Cf. SENNA, L. (2007) Prefácio. In: Letramento – princípios e processos. Curitiba: IBEPEX.

[2] Compreende-se como pós-estruturalistas todos os modelos e contextos representacionais que se baseiam em teorias de sistemas não fechados, em transformação e sujeitos a determinações do meio exterior. Cf. MACHADO, C. (1988) O conceito de racionalidade em Habermas: a 'guinada lingüística' da teoria crítica. Trans/Form/Ação, v. 11, p. 31-44. https://dx.doi.org/10.1590/S0101-31731988000100005; OLIVEIRA, G., OLIVEIRA, A., MESQUITA, R. (2013) A teoria do discurso de Laclau e Mouffe e a pesquisa em educação. Educação & Realidade, v. 38(4), p. 1327-1349. https://dx.doi.org/10.1590/S2175-62362013000400017.

[3] O Construtivismo foi o movimento ocorrido no Brasil, preponderantemente entre os anos de 1980 e 2000, baseado inicialmente nas pesquisas em alfabetização que reuniam sob um mesmo discurso acadêmico e aplicado contribuições de Jean Piaget, Lev Vygotsky e Noam Chomsky. Ainda nos anos de 1990, o Construtivismo foi mudando de fisionomia e passando a incorporar contribuições de Bakhtin, vindo a se tornar, mais tarde, em um movimento chamado “estudos culturais”.

[4] A expressão “falante-ouvinte ideal” é oriunda de CHOMSKY, N. (1966) Aspects of the theory of syntax. Cambridge/MS: MIT Press. Está empregada aqui como representação genérica de um sujeito teórico que prevalece em todo o pensamento estruturalista, com propriedades estáveis e conformado a certa abstração modelar associada a um certo padrão de sistema linguístico.

[5] As sociedade pós-industrial introduz diferentes tipos de tecnologias de informação e produção de textos, cujas propriedades intervieram de forma a mais substantiva sobre os perfis e modos de produção textual, assim como sobre os perfis de sujeitos sociais e cognoscentes que se introduzem na esfera pública. Cf. SENNA, L A G (2005) Reflexões sobre mídias e letramento. In: OLIVEIRA, I B; ALVES, N; BARRETO, R G Orgs. Educação - métodos, temas e linguagens. Rio de Janeiro: DP&A.

[6] Cf. SCHMITZ, J. (2010) Some polemical issues. In: Applied Linguistics. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, 10(1), 21-42.https://dx.doi.org/10.1590/S1984-63982010000100003; OLIVEIRA, M. (2013). A noção de verdade e a pesquisa em linguística aplicada: Bakhtin como um possível interlocutor. Trabalhos em Linguística Aplicada. V. 52(2), p. 203-216. https://dx.doi.org/10.1590/S0103-18132013000200002; SENNA, L A G (2008) Formação docente e educação inclusiva. In: Cadernos de Pesquisa v. 38 São Paulo: FCC. ISSN: 0100-1574.

[7] Programas de pós-graduação de diferentes áreas do conhecimento desenvolvem pesquisas de interesse para o campo do letramento e da alfabetização. Porém, como o próprio campo anda não se reconhece como tal, as contribuições dispersas não se referenciam como referências, fato que prejudica imensamente, não somente a pesquisa por fontes de conhecimento, como desenvolvimento de parcerias interdisciplinares. No Brasil, todos os programas de pós-graduação credenciados pelo Governo Federal são obrigados a manter na internet dados atualizados sobre suas vocações acadêmicas e textos integrais de sua produção discente vinculada.

[8] JACOBINA, R. (2000) O paradigma da epistemologia histórica: a contribuição de Thomas Kuhn. In: História, ciência e saúde-Manguinhos, n. 6(3), p. 609-63.