PROPOSTA FUNCIONALISTA DE MUDANÇA LINGÜÍSTICA

 

Lexicalização, semanticização, discursivização e gramaticalização das preposições do eixo transversal no Português Brasileiro

 

Ataliba T. de Castilho (USP, CNPq*)

 

Introdução

 

O presente estudo inscreve-se na agenda das pesquisas sobre mudança gramatical do Projeto para a História do Português Brasileiro (PHPB), como parte de minha bolsa de Produtividade Científica do CNPq. O objetivo do texto é apresentar uma proposta funcionalista de mudança lingüística, com base no estudo das preposições do eixo transversal

 

Ele se compõe das seguintes partes: (1) a gramaticalização à luz de uma teoria multissistêmica da língua; (2) proposta de estudo das preposições; (3) lexicalização das preposições; (4) semanticização; (5) discursivização; (6) gramaticalização. O texto dá continuação a trabalhos anteriores sobre a gramaticalização: Castilho (1997a, b; 2002; 2003 a; 2004 a, b, c, d), constituindo uma revisão de Castilho (2003 b).

 

A proposta aqui desenvolvida foi aplicada em seu todo ou em partes ao estudo dos substantivos (Castilho 2004), verbos (Kewitz 2002, Simões 2004), das conjunções (adversativas: Castilho 1997b; correlativas: Módolo 2004 a, b; modais: Barreto 2004), e das preposições (Castilho 2004 a, d; Kewitz 2004; Módolo 2004 b).

 

Os dados do séc. XIX procedem dos anúncios de jornais publicados por Guedes & Berlinck (Orgs. 2000) e da correspondência de leitores e de redatores publicada em jornais, editada por Barbosa & Lopes (Orgs. 2002). Os dados do séc. XX procedem das amostras de entrevistas do Projeto NURC publicadas por Castilho/ Preti (Orgs. 1986, 1987), Preti / Urbano (Orgs. 1988), Callou / Lopes (Orgs. 1994), Mota / Rollemberg (Orgs. 1994), Sá et alii (Orgs. 1996) e Hilgert (Org. 1997).

 

Os exemplos são identificados da seguinte maneira: o primeiro numeral remete ao século, o segundo à primeira ou à segunda metade do século; as letras que se seguem identificam o Estado e a cidade em que se publicou o documento, e depois o tipo de documento: A[núncios] e C[orrespondência] J[ornal] / R[edator] ou L[eitor]. Assim, [19 1 SP/SP CJ/L] significa que o documento é datado da primeira metade do século XIX, foi publicado em São Paulo Capital, tratando-se de correspondência publicada em jornal, redigida por um leitor. Os dados do Projeto NURC são assim identificados: tipo de entrevista [EF = enunciação formal; DID = diálogo entre o informante e o documentador; D2 = diálogo entre dois informantes], seguido do número do inquérito e da linha da transcrição.

 

 

1. A gramaticalização à luz de uma teoria multissistêmica da língua

 

Uma exegese possível dos estudos de gramaticalização mostraria que seus autores parecem entender a língua como uma entidade heteróclita, estática, passível de representação através de uma linha, na qual podemos reconhecer pontos e estabelecer derivações entre esses pontos. Eis aqui algumas afirmações que parecem integrar a teoria lingüística dos autores desses estudos:

 

(1) As línguas naturais são um conjunto de signos dispostos numa linha. A alteração desses signos se dá por estágios unidirecionais, de tal maneira que a um estágio A se segue um estágio B, a este se segue um estágio C, e assim por diante: Hopper / Traugott (1993/2003: 100). Cada estágio corresponde a um ponto na língua-linha, e portanto uma relação de seqüencialidade pode ser estabelecida entre esses pontos. Em estudo recente, Mattos e Silva (2002) evidenciou a vertente neogramatical desta perspectiva, em suas pesquisas sobre as “leis fonéticas”. Como se sabe, foi o “neogramático” Antoine Meillet quem deu visibilidade ao problema da gramaticalização, em seu estudo sobre as conjunções. Aparentemente, a teoria lingüística dos neogramáticos foi conservada nos estudos contemporâneos sobre esse processo.

 

(2) Depositadas sobre essa linha, categorias lexicais dão surgimento a categorias  gramaticais, e estas a categorias ainda mais gramaticais, entendendo-se por isto os afixos. Quereria isto dizer que os itens lexicais não têm propriedades gramaticais, suficientes para arranjá-los em categorias próprias? Se eles não têm essas propriedades, como entender que as palavras possam ser dispostas em classes lexicais, as conhecidas classes maiores (Pronomes, Nomes e Verbos), intermediárias (Advérbios, Adjetivos), e menores (Artigos, Conjunções e Preposições) que freqüentam estas páginas? Por outro lado, teriam essas classes um estatuto categorial claramente configurado, a ponto de se sucederem perceptivelmente umas às outras na língua-linha, permitindo-nos testemunhar sua metamorfose? Nesse caso, e pensando nos estudos funcionalistas sobre a gramaticalização, onde foi parar a Teoria dos Protótipos? Seriam mesmo tão claros os limites entre as classes lexicais, de tal forma que pudéssemos estabelecer uma relação de derivação entre elas ?

 

(3) Finalmente, na literatura sobre gramaticalização ficam situados no mesmo nível fenômenos tais como erosão fonética, descategorização / recategorização morfológica, ampliação dos empregos sintáticos, perda semântica, sem falar nas pressões do Discurso sobre o sistema. Esse ponto de vista levou diversos autores a dispor o Discurso, a Gramática e a Semântica num “(c)line” - e aqui faço um jogo de palavras associando line e cline - admitindo implicitamente uma hierarquia e uma decorrente derivação entre eles. Essa percepção implica em que no momento da criação lingüística nossa mente funcionaria por impulsos seqüenciais, isolados uns de outros, indo linearmente de uma classe lexical para outra, de um sistema lingüístico para outro.

 

Em resumo, nos textos sobre gramaticalização a língua é postulada como uma combinação linear de itens separáveis. Isto de fato acontece quando falamos ou quando escrevemos - mas fala e escrita são produtos lingüísticos, e a gramaticalização é o estudo de um processo lingüístico. Caso contrário, o que estaria fazendo ali o sufixo -ização?

 

Os pontos acima resumem boa parte da complicação teórica da gramaticalização, embora nossos gramaticalizadores nunca deixassem de reconhecer que estavam tratando de um processo, não de um produto lingüístico. Eles sem dúvida sempre estiveram mais interessados na criatividade lingüística do que no enunciado pronto e acabado - notadamente os autores de corte funcionalista. É por isso mesmo estranho que continuassem apegados a categorias que pressupõem a língua como um enunciado. Estas breves reflexões nos conduzem ao próximo tópico, a saber, uma proposta de teoria multissistêmica da língua.

 

Neste texto, objeto contra os três pontos acima, e procuro achar alternativas para elas. A escolha dessas alternativas é obviamente tarefa para um grupo de pesquisadores. Em conseqüência, este item do texto deve ser considerado como um convite à busca de uma teoria que dê conta da enorme multiplicidade de fenômenos atualmente apresentados como casos de gramaticalização.

 

Num primeiro momento, precisaríamos tirar algumas conseqüências de um fato que goza de grande unanimidade: a gramaticalização é um processo de criação lingüística, o que demandará uma teoria dinâmica sobre a língua. Mais que isso, a gramaticalização é um dentre outros processos de criação lingüística, o que demandará a postulação de uma teoria multissistêmica da língua para a identificação dos demais processos.

 

Uma teoria dinâmica e multissistêmica nos permitiria - se é que em algum dia conseguiremos desenhá-la ! - dar conta da grande quantidade de fenômenos que temos estudado sob a rubrica “gramaticalização”, permitindo, ademais, enquadrar este processo entre outros, igualmente relevantes para o entendimento da criatividade lingüística. 

 

Para começo de conversa, poderíamos assumir que a língua é um multissistema dinâmico, que pode ser graficamente representado numa forma radial, tendo ao centro o Léxico e à volta a Semântica, o Discurso e a Gramática. O seguinte esquema representa o multissistema lingüístico:

 

 

Por postulação teórica, esses sistemas são independentes uns de outros, dispondo cada um de categorias próprias. Admitiremos também que nossa mente opera simultaneamente sobre o conjunto  das categorias recolhidas nesses sistemas - as categorias lexicais, discursivas, semânticas e gramaticais. Quero com isto dizer que qualquer expressão lingüística exibe simultaneamente propriedades lexicais, discursivas, semânticas e gramaticais.

 

Dialogando com os textos de Morris (1938), Franchi (1976) e Nascimento (1993), vou portanto assumir que a língua tem uma natureza multissistêmica, captada em termos dos quatro sistemas acima mencionados.  Insisto em que esses sistemas são independentes uns de outros, não sendo postuláveis implícita ou explicitamente regras de determinação entre eles. Por outras palavras, o Discurso não estipula a criação dos sentidos, e estes não estipulam as estruturas gramaticais que os “empacotam”. No atual quadro dos meus conhecimentos, não vejo vantagem em estabelecer uma hierarquia entre Semântica, Discurso e Gramática, admitida pelos autores ligados às diversas fases da gramaticalização, reproduzidas no item 2 deste texto.

 

Eis aqui uma descrição ainda sumária dos sistemas propostos.

 

O Léxico será definido como um conjunto de categorias cognitivas prévias à enunciação, com base nas quais construímos os traços semânticos inerentes. Entendo por categorias cognitivas VISÃO, OBJETO, ESPAÇO, TEMPO, MOVIMENTO, EVENTO, etc., e por subcategorias, digamos, de VISÃO, (i) FUNDO / FIGURA, (ii) PERSPECTIVA, etc.; de ESPAÇO, (i) VERTICALIDADE / HORIZONTALIDADE / TRANSVERSALIDADE, (ii) DISTÂNCIA / PROXIMIDADE, (iii) CONTINENTE / CONTEÚDO, etc. Os traços semânticos são constituídos a partir dessas categorias, tais como /contável ~ não-contável/, etc., a partir de OBJETO, /télico ~ atélico/ a partir de EVENTO, e assim por diante.

 

Combinando categorias e traços de diferentes modos, obtemos os itens lexicais prototípicos, que serão realizados no dicionário da língua seja como um Nome, um Verbo, um Adjetivo, um Artigo, um Advérbio, uma Conjunção ou uma Preposição. Quer isto dizer que a cada um desses itens corresponde determinado arranjo de traços, não sendo necessário afirmar que um Nome gera um Advérbio, e este uma Preposição, por exemplo. A lexicalização será, assim, o processo de criação de itens, dispostos com maior ou menor clareza nas classes de palavra ou categorias lexicais.

 

É bem visível que estou seguindo os autores que entendem o Léxico como um conjunto de traços semântico-cognitivos, não como um conjunto de palavras, que é o dicionário da língua, situando-o ademais no centro do sistema lingüístico. Quando adquirimos o Léxico, provavelmente adquirimos em primeiro lugar esses traços e a habilidade de combiná-los em diferentes padrões, e em segundo lugar as palavras em que por convenção social esses padrões se abrigam. Em suma, proponho que o Léxico seja entendido nos quadros de uma hierarquia que vai da cognição pré-verbal para a expressão verbal.

 

A Semântica é a criação dos significados baseada em estratégias cognitivas tais como o emolduramento da cena, a hierarquização de seus participantes, a organização do campo visual, a movimentação real ou fictícia dos participantes, sua reconstrução através da metáfora e da metonímia, etc. Daqui resultam as categorias semânticas de dêixis, referenciação, predicação, foricidade e conexidade.

 

O Discurso é uma sorte de contrato social que estabelecemos lingüisticamente, de que decorrem os usos lingüísticos, concretizados no Texto. Esse sistema está fulcrado no eixo dêitico, isto é, na instanciação das pessoas do discurso e em sua localização no ESPAÇO e no TEMPO. Satisfeitas essas condições prévias, dá-se a interação através de estratégias pragmáticas que nos revelam as categorias discursivas de turno conversacional, tópico, foco, unidades textuais, nexos textuais, etc. (Castilho 1989, 1998).

 

Finalmente, a Gramática é um conjunto de estruturas razoavelmente cristalizadas, ordenadas nos subconjuntos da Fonologia, Morfologia e Sintaxe, e governadas por regras de determinação interna. Essas estruturas se expressam por meio das categorias gramaticais, definíveis em termos de classes (palavra, sintagma, sentença), relações (regência, concordância, colocação) e funções (construções de tópico, organização das estruturas argumentais, adjuntos). A regularidade das categorias gramaticais tem sido comumente reconhecida, o que não exclui que a instabilidade é constitutiva da estrutura gramatical.

 

O ponto central desta proposta, ainda em seus lineamentos muito gerais, é que o Léxico é governado por um dispositivo sociocognitivo de caráter pré-verbal, através do qual o falante ativa, reativa e desativa as propriedades lexicais, dando origem às categorias discursivas, semânticas e gramaticais. Esse dispositivo é “social” porque é baseado numa análise continuada das situações que ocorrem num ato de fala. E é cognitivo porque lida com as categorias cognitivas e os traços semânticos já mencionados. Uma conseqüência dessa postulação é negar que as classes de palavra sejam deriváveis umas de outras. 

 

A postulação desse dispositivo repousa nos achados da Análise da Conversação e nos achados dos pesquisadores ligados ao Projeto de Gramática do Português Falado (PGPF). Nos dois casos o objeto empírico é exclusivamente a língua falada, mais reveladora dos processos de criatividade lingüística que a língua escrita.

 

A conversação é a atividade lingüística básica, e pode, portanto, proporcionar-nos alguns princípios de interesse para esta demonstração. Quando conversamos, tentamos o tempo todo prever os movimentos verbais do interlocutor, isto é, se ele completou sua intervenção, se ela ainda está em curso, se devemos antecipar o momento de nossa entrada no curso da fala, etc. Para dar conta desse mecanismo, que assegura a manutenção da conversação, Sacks-Schegloff-Jefferson (1974: 702) postularam um “componente de construção de turnos” cujas unidades-tipo, isto é, palavras, sintagmas e sentenças com os quais o falante contrói seu turno, “projetam a próxima unidade-tipo”, numa sorte de antecipação da atuação verbal do interlocutor. Estas afirmações constituem o princípio de projeção pragmática.

 

Por outro lado, quê mecanismos lingüísticos os pesquisadores do PGPF identificaram, ao longo dos mais de 200 ensaios que escreveram ? Algumas respostas podem ser encontradas em Nascimento (1993), Castilho (1989, 1998a / 2004). Pessoalmente, penso que os pesquisadores do PGPF identificaram três mecanismos, que aqui apresento como princípios - mesmo reconhecendo a precocidade deste rótulo. Esses princípios encontram seu fundamento nas estratégias de gestão dos turnos conversacionais - o que situa a conversação como a manifestação discursiva por excelência. Os princípios aqui propostos assentam, portanto, em observações empíricas, não precedem os dados da língua, não são apriorísticos. Sua postulação aparece em textos anteriores, sucessivamente alteradas: (Castilho 1989, 1998 a/ 2003).

 

1.1 - Princípio de ativação, ou princípio de projeção pragmática

 

A ativação lexical é o movimento mental de escolha das categorias cognitivas e de seus traços semânticos que se agruparão nas palavras. Os diferentes padrões de agrupamento das categorias e dos traços constroem a dimensão semântica, discursiva e gramatical das palavras.

 

A ativação das propriedades semânticas tem o papel de escolher as palavras necessárias à representação da dêixis, da referenciação, da predicação, da foricidade e da conexidade.

 

No sistema discursivo, a ativação seleciona as palavras necessárias à hierarquização dos tópicos, à construção das unidades discursivas e sua conexão, etc.

 

A ativação das propriedades gramaticais é responsável pela construção dos sintagmas e das sentenças, pela ordenação dos constituintes, pela concordância, pela organização da estrutura argumental, etc. Neste particular, entendo que a atribuição de caso e de papéis semânticos decorre do princípio de projeção estrita, a que se referem os termos “transitividade”, “regência”, “valência”, “princípio de projeção”, neste caso, em alguns modelos formais. A projeção estrita é aqui postulada como o correlato da projeção pragmática: Castilho (1998 a / 2004).

 

1.2 -  Princípio de reativação, ou princípio de correção

 

A reativação é o movimento mental por meio de que rearranjamos as propriedades lexicais e as palavras que as representam, retomando por assim dizer a construção do enunciado. O princípio da reativação encontra seu fundamento no sistema de correção conversacional. Como se sabe, no curso de uma conversação temos freqüentemente de mudar seu rumo, seja corrigindo nossas próprias intervenções (= autocorreção), seja corrigindo a intervenção do interlocutor (= heterocorreção). O sistema de correção conversacional busca eliminar os erros de planejamento.

 

A reativação produz no Léxico as ressignificações, vale dizer, as reconstruções das palavras, corrigindo-se sua adequação à representação dos OBJETOS e dos EVENTOS, tanto quanto a regramaticalização das palavras. Na Semântica, a reativação provoca a paráfrase de textos já produzidos, aos quais voltamos com diversos propósitos examinados, por exemplo, por Hilgert (1987). No Discurso, ela abre caminho à repetição dos enunciados para assegurar a coesão do texto, altera o eixo argumentativo, etc. No domínio da Gramática, pelo menos dois rótulos têm sido utilizados na literatura para captar os efeitos desse princípio: a poligramaticalização e a reanálise. A reanálise, dada como um dos princípios da gramaticalização, decorre deste impulso da criatividade lingüística. Reanalisam-se sintagmas e as sentenças, o que acarreta mudanças da fronteira sintática. Repetem-se as palavras, para assegurar a constituência sentencial, fato que examinei em Castilho (1997c).

 

1.3 - Princípio de desativação, ou princípio da elipse.

 

A desativação é o movimento que ocasiona o abandono das propriedades e das palavras que estavam sendo ativadas. Este princípio mostra que o silêncio é igualmente constitutivo da linguagem. A linguagem musical apropriou-se desta característica, alternando-se na pauta as notas, ativadas e reativadas, e as pausas, que são a desativação do som.

 

Também este princípio assenta nas práticas conversacionais, quando ocorre a chamada “despreferência”. A estratégia da “despreferência” consiste em verbalizar o que não é esperado, violando-se o princípio de projeção pragmática. Isso ocorre quando respondemos a uma pergunta com outra pergunta, quando recusamos um convite, etc. Nestes casos, cria-se na conversação um “vazio pragmático”: Marcuschi (1986).

 

O princípio de desativação promove no Léxico a morte das palavras. No sistema semântico, ele está por trás das alterações de sentido presentes nas metáforas, nas metonímias, na especialização e na generalização, por meio dos quais “silenciamos” o sentido anterior e simultaneamente ativamos novos sentidos. Ele produz no sistema discursivo a alteração da hierarquia tópica, levando os locutores a manobras tais como os parênteses e as digressões. Na Gramática, o princípio de desativação é responsável pela categoria vazia, de que se encontram exemplos na Fonologia (sílaba com núcleo vocálico omitido), na Morfologia (morfema flexional zero) e na Sintaxe (elipse de constituintes sentenciais, ou categoria vazia).

 

É importante entender que esses princípios operam ao mesmo tempo, não seqüencialmente, numa forma já prevista por Lakoff (1987). Assim, a desativação ocorre simultaneamente com a ativação, e esta com a reativação, o que compromete o princípio da unidirecionalidade. A mente humana parece funcionar de modo mais complexo que um computador, que obedece a instruções seriais, constantes de entidades opositivas do tipo “zero / 1”, ou “sim / não”. O dispositivo sociocognitivo age por acumulação de impulsos, e somente assim poderemos dar conta da extraordinária complexidade da linguagem. Neste quadro, fica difícil concordar com as análises que mencionam o “desbotamento” do sentido, a “erosão” fonética, pois a língua desvela um processo contínuo de ganhos e perdas.

 

Tendo essas idéias como pano de fundo, parece claro que três programas adicionais precisariam ser desencadeados, no quadro dos estudos sobre mudança gramatical empreendidos pelos pesquisadores do PHPB: o da lexicalização, o da semanticização e o da discursivização, privando a gramaticalização de sua atual centralidade.

 

Neste texto, aplico essas idéias ao estudo diacrônico das preposições do eixo transversal.

 

 

2. Proposta de estudo das preposições.

 

Preposições e conjunções integram a classe dos nexos gramaticais. Ambas ligam palavras e sentenças, diferindo nisto que as preposições em seus usos prototípicos posicionam no ESPAÇO os referentes dos termos que relacionam, papel aparentemente não desempenhado pelas conjunções. A bibliografia sobre as preposições é compreensivelmente rica; para os textos que se aproximam da abordagem aqui adotada, ver uma relação em Castilho (2003b).

 

Tanto as preposições simples quanto as preposições complexas (ou “locuções prepositivas”) podem ser consideradas operadores que realizam uma ligação assimétrica entre um objeto A[1], doravante FIGURA, e um objeto B, doravante FUNDO, com relação ao qual pretendemos localizar A:

 

FIGURA

PREPOSIÇÃO

FUNDO

Bicicleta

diante da

 igreja

Livro

sobre

a mesa

 

A localização de objetos e sua inserção no ESPAÇO é um dos mecanismos básicos na construção dos sentidos, que opera também com outras categorias cognitivas tais como VISÃO, MOVIMENTO, etc.: Castilho (2001).

 

Essa localização parece funcionar à base de assimetrias. É assimétrica a relação entre o objeto que queremos localizar e o ambiente em que vamos localizá-lo, dadas suas diferenças de tamanho, conteúdo, orientação, ordem, direção, distância, movimento ou até mesmo dada a combinação dessas propriedades. São por isso mesmo pouco habituais expressões tais como “igreja atrás da bicicleta”, “mesa debaixo do livro”, etc., embora perfeitamente compreensíveis em histórias infantis, contos fantásticos e em outras articulações discursivas: Svorou (1993: 8 e ss.).

 

Arranjos espaciais são igualmente criados quando um verbo se associa à preposição para relacionar a FIGURA ao FUNDO, tratados então como Origem, Meta, Recipiente, etc.:

 

FIGURA

VERBO + PREPOSIÇÃO

FUNDO

A comida

veio de

casa

A mulher

foi para

casa

O livro

está na

sala

 

Tomando em conta a teoria apresentada em Castilho (2003c) e sumariada no item 6 deste trabalho, proponho que um estudo sistemático das preposições deva formular as seguintes questões, parte das quais reproduzem a trajetória das pesquisas específicas sobre gramaticalização: (1) Lexicalização das preposições: a construção desses itens lexicais; (2) Semanticização das preposições: a construção dos sentidos; (3) Discursização das preposições: a construção do texto; (4) Gramaticalização das preposições: a construção da sentença.

 

Para ordenar as preposições num plano de estudos que tome em conta seus sentidos de base (ver item 3, adiante), proponho sua distribuição pelos seguintes eixos espaciais:

 

A)       Preposições do eixo horizontal: /Horizontal de Origem/ (de, desde). /Horizontal de Meta/ (até, contra, a, para). /Horizontal de orientação lateral/ (à esquerda de, à direita de).

B)       Preposições do eixo vertical: / Vertical Superior/ (sobre, por cima de, em cima de). /Vertical Inferior/ (sob, embaixo de por baixo de, debaixo de).

C)       Preposições do eixo transversal: /Transversal Anterior/ (ante, diante de, antes de, em frente de, em face de, defronte [de,a], à frente de). /Transversal Posterior/ (atrás de, por trás de, após, depois de, em pós de.

D)       Preposições do eixo Continente ~ Conteúdo: /Dentro/ (em, entre, dentro de, em meio de, a, com). /Fora/ (fora de, sem).

E)        Preposições do eixo Proximidade ~ Distância: /Proximal/ (perto de, acerca de, a cabo de, junto de, a par de, em presença de, à beira de). /Distal/ (longe de, distante de, na ausência de).

 

Neste texto, concentro-me nas preposições do eixo transversal.

 

 

3. Preposições e lexicalização

 

Lexicalização é a criação das palavras via seleção de propriedades cognitivas e de traços semânticos derivados, processando-se sua misteriosa concentração numa forma. A Etimologia e a observação dos usos das preposições nos bons dicionários de usos nos permitirão identificar essas propriedades, numa espécie de volta ao momento de criação do item lexical ou, se quiserem, numa espécie de arqueologia lexical. As diferentes classes de palavras, ou categorias lexicais, são o produto resultante da lexicalização.

 

3.1 - As preposições indicativas de espaço /Transversal Anterior/ se calcam em três étimos: Ide. *ant, Lat. fronte e facie.

 

(1) Do ponto de vista etimológico, ante deriva do advérbio latino ante “adiante, antes, anteriormente” que, por sua vez, “deriva-se do ide. *ant- ‘testa, fachada, frontispício’” : Viaro (1994: 178). Em latim, ante tinha derivado de anti, funcionando como advérbio, prevérbio e preposição de tempo e de lugar, que selecionava acusativo. Segundo Houaiss (2001) s.v. ante, a preposição “relaciona por subordinação (vocábulos, termos, orações, etc.) orientando prospectivamente no tempo, no espaço, na noção”; “posição próxima ou frontal”.

 

O étimo deu origem no Latim a três categorias lexicais, exemplificando o fenômeno da polilexicalização: (1) Como pronome-adverbial[2] locativo e temporal, representava habitualmente um participante da cena localizado diante dos olhos, gramaticalizando-se como preposição, como em “innumerabiles supra, infra, ante, post mundos esse” [existem inúmeros mundos em cima, embaixo, atrás, na frente], ou o tempo anterior, gramaticalizando-se como advérbio [na terminologia dos autores citados], como em “tertio anno ante”[três anos antes]. (2) Como preposição, ante selecionava caso acusativo, com significado igualmente locativo, como em “ante oculos ponere” [pôr diante dos olhos], ou temporal, como em “ante Romam conditam” [antes da fundação de Roma]: Gaffiot (1957), s.v. ante. (3) Por algum mecanismo semântico de caráter associativo, a expressão desenvolveu o sentido de comparação, aparecendo na locução conjuncional correlativa ante…quam, “antes que”.

 

No latim vulgar, o item vinha reforçado por uma partícula preposta, donde abante, deante, exante, inante, casos evidentes de regramaticalização, que apontam para a perda de propriedades do item já naquela época: Ernout-Meillet (1967), s.v. ante. Interessante sublinhar que essas partículas de regramaticalização são outras tantas preposições latinas, as quais têm em comum  (i) disporem os participantes, isto é, a figura, num percurso, de que se assinala o marco inicial no eixo horizontal, de onde alguém se afasta (ab), ou (ii) disporem os participantes no ponto superior do eixo vertical (de), ou, finalmente, (iii) situarem-no num ponto de chegada, para o qual alguém se destina ou se inclui (in). Essa regramaticalização deve explicar-se pela vaguidão de termos dêiticos como ante, post. Provavelmente, as preposições agregadas ao advérbio serviam para inserir pontos de referência no espaço, delimitando o ponto inicial ou final.

 

O português preservou as categorias gramaticais herdadas do Latim, encontrando-se nos materiais (i) o pronome-advérbio antes, com –s paragógico, (ii) a preposição  ante, (iii) as regramaticalizações avante, diante [< de in ante], adiante [< ad de in ante], a segunda das quais deu surgimento a adverbiais complexos como de hoje em diante, e (iv) o prefixo ante-, que aparece em substantivos (antanho, antecipação, antebraço, avanguarda / vanguarda, etc.), pronomes circunstanciais de tempo (antes-de-ontem, anteontem, antemanhã), e verbos (arc. avantar, mod. antevir, avançar [<* abantiare]): Machado (1956), s.v. ante.

 

O exame preliminar dos dados revelou que ante lexicaliza-se como uma preposição simples em (1-2), pronome-advérbio em (3), preposição complexa em (4), conjunção coordenativa intersintagmática em (5) e intersentencial em (6), conjunção subordinativa em (7) e expressão volitiva em (8):

 

(1) [19 2 BA/SA CJ/L]Senhor Redator.- Não posso ficar mudo ante o espectaculo doloroso, que acabo de presenciar. Um carroceiro, portuguez, ao que parece, alvo, com barba fechada (…)

(2) [19 2 MG/OP A] Ernesto Augusto de Oliveira, incumbe-se de procuratórios perante todas as repartições públicas da capital.

(3) [19 1 RJ/RJ A] No dia 17 de Fevereiro corrente pelas 10 horas da manhã, se perdeo hum Moleque na Praia do Peixe, o qual terá 15 annos de idade; chama-se Matheus, he de Nação Cabundá, com calças de Amiagem, e Camiza de pano de linho; ignora a lingoa Portugueza por ser comprado dias antes no Valongo: Quem delle souber, vá falar com João Pereira da Silva, morador na Rua da Ajuda Número 52 ao pé do Coronel Antonio Correa da Costa; e delle receberá boas alviçaras.

(4) A sala de jantar é antes da cozinha.

(5) [19 1 BA/SA CJ/R][Desgraça fatal! Ou antes  moles | tia, que tanto persegue a certos | homens, que pelos effeitos de hu- | ma debilidade capital se propõe a dar | Leis ao Mundo, quando elles se não | sabem reger a si proprios.

(6) [19 2 CJ/L]O caipira, é vadio. Vive em sua casa,|mal barreada, e ali vivem, ou antes morrem,|a mulher e filhos, ao desabrigo.

(7) [19 2 PR/LO CJ/L]Entretanto (preceitua o mesmo regulamento) quem, antes de findar os dous annos, quizer pagar o valor da letra, po- | del-o-há fazer mediante um abatimento correspondente ao | tempo, que faltar para o do seu vencimento.

(8) [19 2 SP/SP CJ/L] Infeliz homeopatha !… antes não tivesse vindo a S. Paulo ! Por certo daria um passo muito mais acertado se tivesse procurado um lugar inculto.

 

(2) A preposição complexa defronte (de) (a) deriva do substantivo latino fronte “fronte”, “testa”, “parte anterior do rosto”: Machado (1956) s.v. fronte, que a data do séc. XVI, ao passo que (a) (em) frente (de) (a) deriva de frente, dada pelo mesmo dicionarista como uma variante da primeira forma, datada do séc. XVII. A expressão fazer frente a “encarar”, “enfrentar” preserva o sentido primitido de parte do corpo humano, segundo Ernout-Meillet (1967), s.v. frons, frontis.

 

Esses étimos se lexicalizaram como preposições complexas, em (9) e (10) como pronomes-advérbios em (11) e (12):

 

(9) [19 1 SP/SP A] se dirija a chacra cita adereita da estrada que segue para S.Amaro defronte ao Capitão Gabriel Henriques Pessôa

(10) [19 2 BA/SA CJ/R] ao entrar em casa, notou que dous | degráos da escada, que fica sobre a sua loja de || charutos, na rua d’Alfandega, em frente do | Correio Geral, achavão-se fora do logar compe- | tente

(11) [20 2 PE/RE DID 004] naquela casa ali defronte mora um cidadão que é diretor do SANER...

(12) [20 2 PE/RE DID 004] descobrimos que havia uma diferença muito pequena de nível daqui para a frente: daqui da frente da casa para o final...

 

(3) A preposição complexa em face de deriva igualmente de um substantivo latino, facies “face, semblante, beleza, ar, aparência” (Houaiss 2001, s.v.), cuja forma popular facia foi produtiva em outras línguas românicas e no português facha “cara” e fachada “parte dianteira do prédio”.

 

Este étimo se realizou apenas como preposição complexa, em (13) e (14):

 

(13) [19 2 PR/CR CJ/L] Mas, em compensação, os casamentos mul- | tiplicaram-se espantosamente, e raro é o dia | em que um homem e uma mulher (ás vezes é | uma mulher e um homem) não sejam unidos á | face da Igreja pelos indissoluveis laços do hy- | mineu.

(14) [19 2 RJ/RJ CJ/L] É possivel que em face das provas | que submetti ao juiz que me condem- | nou e submetteo aos integros desembargadores, que o Senhor Souto Carvalho | procurador do Senhor visconde de Santa | Cruz , erre nos seus calculos. 

 

3.2 - As preposições indicadoras do espaço /Transversal Posterior/ se calcam em dois étimos: Latim ad + trans e ad+post.

 

(1) Trás deriva de trans, e atrás de ad+ trans, “no lado oposto à face (nos humanos), lado oposto àquele que se vê ou de que se fala” (Houaiss 2001, s.v.). Trans é uma preposição latina que regia acusativo com o sentido de “além de”, com ou sem movimento.

 

O étimo deu origem à preposição simples, trás, como em (15), não documentado no corpus, às preposições complexas atrás de, por trás de  (16-18) e ao pronome-advérbio atrás, como em (19):

 

(15) Trás mim virá quem melhor me fará. Trás aquela fala macia, existe uma grande raiva contida [exemplo de Houaiss 2001, s.v.).

(16) Vive correndo atrás do prejuízo.

(17) [20 2 BA/SA DID 135: 400] Quando ela nasce, aqui, por trás desse casario, compreendeu (...)

(18) Saiu correndo, atrás de mais dinheiro.

(19) [20 2 SP/SP DID 234: 590] há dez anos atrás  os aviões não tinham o conforto de hoje...

 

Esse étimo se realizou também como prefixo, como em transformar, etc.

 

(2) Pós deriva de post, tendo aparentemente se cristalizado como sufixo, como em pós-graduação. O item, não encontrado até aqui como preposição no corpus disponível, é  documentado por Houaiss (2001, s.v.: “corria o cão em pós de uma lebre”). Após já é uma regramaticalização da forma anterior, tendo derivado de ad+ post “atrás de, depois de, em momento ou ocasião posterior a”. Depois é uma nova regramaticalização da mesma base post, de etimologia controvertida. Aparentemente, as formas de+post > depos, depois e de+ex+post > arc. e pop. despois entraram em variação, recaindo sobre a primeira a preferência da língua culta.

 

O étimo se realizou como preposição (20) e, por regramaticalização, como preposição complexa (21-22):

 

(20) [20 2 PE/RE DID 004] e nos mudamos... de qualquer forma... tanto que assim que as últimas jane:las e as últimas portas foram pintadas já: APÓS a mudança...

(21) [19 1 MG/OP CJ/L] vem pois o supplicante requerer a vossa senhoria se digne man | dar que junta(sic) esta aos autos e sciente este juizo de | ter havido a absolvição fique o supplicante exonerado | do deposito que assignou, visto que o mandado de | levantamento que o executado havia se passar depois | da absolvição, ficou de nenhuma força e vigor e com | pletamente extincta a execução e penhora.

(22) [20 2 PE/RE DID 004] vencido o primeiro satisfação do que se QUER e:: preenchendo também éh::... as intenções da consorte... ((ri)) depois de muita discussão “não porque a cozinha deve ser maior do que aquilo e:: falta a área da::... áh:... éh: área de serviço...

 

Reúno na Tabela 1 os resultados da lexicalização dos étimos examinados.

 

Tabela 1: Lexicalização de *ant,  fronte,  facie, trans, post

ÉTIMO

PRONOME-ADVÉRBIO

PREPOSIÇÃO

CONJUNÇÃO

*ant> ante

81/164 – 49,3%

74/164 – 45,2%

9/164 – 5,5%

Fronte / frente

3/35 – 8,5%

32/35 – 91,5%

---

Facie>em face de

3/16 – 19%

4/16- 25%

9/16 – 56%

Trans>trás

---

1/1 – 100%

---

Ad + trans>atrás

7/7 –100%

---

---

Ad + post>pós / após

---

1/1 – 100%

---

De + post>depois

21/75 – 28%

28/75 – 38%

26/75 – 34%

 

A Tabela 1 mostra que o étimo *ant, mais antigo que os demais, conheceu uma polilexicalização mais acentuada que suas formas variantes, com forte aproximação percentual entre os usos pronômino-adverbiais e os usos preposicionais. Seguem-se facie e de+post, que se polilexicalizaram igualmente pelas três classes lexicais, com uma freqüência de uso um tanto semelhante. Numa dispersão intermediária se concentraram fronte/frente, que deram origem categoricamente a preposições e muito discretamente a pronomes-advérbios. Restringiram-se ao uso apenas preposicional trans e ad+post.

 

Confrontando as preposições /Transversal Anterior/ com as preposições /Transversal Posterior/, observa-se que as primeiras aparecem 110 vezes, contra 30 ocorrências das segundas. Conclui-se que os objetos localizados no espaço diante dos olhos têm mais relevância cognitiva do que aqueles localizados às costas, numa razão de 79% de usos para /anterior/ versus 21% para /posterior/.

      

Seria igualmente interessante comparar de um ângulo diacrônico (1) a produtividade de preposições simples diante das preposições complexas, e (2) se houve alguma mudança do séc. XIX para o séc. XX nos dois casos. Os resultados aparecem na Tabela 2:

 

Tabela 2: Diacronia das preposições /Transversal Anterior/ e /Transversal Posterior/

ÉTIMO / ITEM

SÉCULO XIX

SÉCULO XX

Ante

17/17 – 100%

---

Perante

7/7 – 100%

---

antes de

24/26 – 93%

2/26 – 7%

diante de

15/20 – 75%

5/20 – 25%

defronte (de) (a)

10/11 – 90%

1/11 – 10%

(a) (em) frente (de) (a)

18/21 – 86%

3/21 – 14%

Em face de / face a

4/4 – 100%

---

Trás

---

1/1 – 100%

Por trás de

---

1/1 – 100%

Após

---

1/1 – 100%

depois de

26/29 – 90%

3/29 – 10%

 

A Tabela 2 mostra que as preposições /Tranversal Anterior/ levam vantagem sobre as /Transversal Posterior/ também na dispersão entre preposições simples e complexas, apontando para uma representação gramatical mais rica: 2 itens simples para 5 itens complexos entre as /anteriores/, contra 2 itens simples para 2 itens complexos entre as /posteriores/.

      

Quanto à diacronia, os dados utilizados até aqui assinalam o possível desaparecimento das preposições ante e perante, certamente substituídas pelas muitas preposições complexas do mesmo eixo. Isso contraria a previsão de que a forma regramaticalizada perante estivesse substituindo ante, como ocorreu com  para em relação a a. Estas observações devem ser recebidas com reserva, pois os dados mostram um percentual mais baixo de uso das preposições complexas no séc. XX, que não parecem estar desalojando as simples. Num movimento assimétrico, as preposições /+Posterior/ tiveram um incremento em seu uso no séc. XX, salvo depois de. A análise do comportamento sintático, e, sobretudo, a inclusão de outros gêneros discursivos no corpus poderá matizar este quadro.

 

 

4. Preposições e semanticização

 

Precisamos sem dúvida entender mais claramente os mecanismos semânticos das línguas naturais, para configurar a agenda da semanticização. A criação e as alterações do sentido são algumas das perguntas básicas a formular aqui. Heine / Claudi / Hünnemeyer (1991a) fornecem um quadro interessante para captar as translações de sentido e partir de categorais cognitivas de base, e suas idéias serão levadas em conta neste trabalho. 

 

Vejo dificuldades nas explicações que aludem a um desbotamento semântico (“bleaching”, “fading”), como se a permanente criatividade de que é feita a língua implicasse em perdas, sem ganhos, em desmaios, sem despertares. Em contrapartida, parece adequado aprofundar as pesquisas sobre a dêixis, a referenciação, a predicação, a foricidade e a conexidade, precedendo tudo isso com indagações sobre como criamos os sentidos. Neste trabalho, dou alguns passos na direção do estudo da conexidade. O produto da semanticização são os sentidos das palavras (Semântica lexical), os significados composicionais das expressões multivocabulares (Semântica sintática) e as significações inferenciais (Semântica pragmática).

 

A literatura sobre as preposições sempre reconheceu a importância das categorias cognitivas, sobretudo ESPAÇO. Para ficar com apenas dois autores, vejamos o que pensam sobre a relação “categoria cognitiva - categoria lingüística de preposição” Jerônimo Soares Barbosa, gramático português do século XVIII, e Viggo Brondal, teórico da linguagem do século XX.

 

Soares Barbosa (1803/1881: 218-236) define a preposição como “uma parte conjuntiva da oração, que posta entre duas palavras indica a relação de complemento que a segunda tem com a primeira”. Em seguida, evidentemente fundamentado numa Teoria Localista, reconhece duas classes de Preps, dizendo o essencial sobre essa classe:

 

“PRIMEIRA CLASSE - PREPOSIÇÕES DE ESTADO E EXISTÊNCIA. As preposições d’esta classe exprimem as relações dos objectos por ordem ao logar onde existem, ou absolutamente, ou tambem em respeito a outros objectos que no mesmo se acham. Porque a idéa do logar onde, é geral e indeterminada, e por isso susceptivel de várias determinações particulares, quaes são as differentes situações de um objecto a respeito de outro mesmo logar, e os acompanhamentos que com elle concorrem, ou deixam de concorrer. As situações podem-se considerar relativamente ou ás superficies horisontaes, ou ás perpendiculares. Tudo são modificações do logar onde, que as preposições d’esta classe exprimem do modo seguinte” (...), (p. 227). Ele situa aqui as seguintes Preps.: em, relativa ao lugar onde em geral; sobre, sob, entre, relativas às situações horizontais do mesmo lugar onde; ante, após, contra, relativas à situação perpendicular no mesmo lugar onde; com, sem, relativas aos acompanhamentos no mesmo lugar. “SEGUNDA CLASSE - PREPOSIÇÕES DE AÇÃO E MOVIMENTO. Toda a acção é um movimento ou real ou virtual, e todo o movimento tem um principio d’onde parte, um meio por onde passa, e um fim aonde ou para onde se dirige. Estas são as relações geraes das preposições activas, cujo primeiro destino, tendo sido o de indicar o logar d’onde começa qualquer movimento, o espaço por onde passa, e o termo aonde se encaminha; d’aqui, por analogia do espaço local com o espaço do tempo, passaram a significar as mesmas relações por  ordem ao tempo em que uma coisa começa, pelo qual continua, e aonde termina”, (p. 230) . Ele situa aqui as seguintes Preps.: de, desde, por, pertencentes ao lugar de onde; per, pertencente ao lugar por onde; a, até, para, pertencentes ao lugar para onde.

 

Viggo Brondal, em sua Teoria das Preposições de 1950, apud Borba (1971: 80) afirma que

 

“o primeiro sentido, comum a todas as preposições é o espaço-temporal, ou melhor, a localização no espaço ou no tempo.  Ele explica que “a imagem sensorial é a primeira que se apresenta e muitas vezes é indispensável como ponto de partida do pensamento, ainda que a língua nem sempre se assente sobre imagens sensoriais”.

 

Ora, a literatura sobre as preposições tematiza continuadamente a difícil questão de seu sentido. Teriam elas um sentido de base, de que decorreriam sentidos derivados? Ou seriam completamente vazias de sentido, e a semântica das expressões preposicionadas decorreria dos termos que elas relacionam? Poderia ser o caso de que elas exemplificassem ambas as possibilidades?

 

Nesta pesquisa, vamos hipotetizar que as preposições têm um sentido prototípico, dado pelas categorias e subcategorias cognitivas, que se desdobram por processos vários em traços semânticos derivados[3].

 

Os sentidos prototípicos das preposições correspondem às categorias semântico-cognitivas de POSIÇÃO NO ESPAÇO, DESLOCAMENTO NO ESPAÇO, DISTÂNCIA NO ESPAÇO e MOVIMENTO. A categoria de ESPAÇO poderá ser descrita em termos dos eixos horizontal, vertical e transversal, já mencionados. Reúno tentativamente no Quadro 1 as categorias cognitivas de base e as derivadas, as categorias semânticas que postulo como derivadas destas últimas, e os traços e papéis semânticos derivados do conjunto dessas categorias. Atenho-me àqueles valores de interesse para esta pesquisa.

 

Quadro 1 - Categorias cognitivas, traços e papéis semânticos

CATEGORIAS COGNITIVAS DE BASE

CATEGORIAS COGNITIVAS DERIVADAS

CATEGORIAS SEMÂNTICAS

TRAÇOS E PAPEÍS SEMÂNTICOS

 

VISÃO

FIGURA

FUNDO

PERSPECTIVA, etc

 

Aspecto

/imperfectivo/

/perfectivo/

/iterativo/

 

 

OBJETO

 

 

CONCRETO

ABSTRATO

Quantidade

/contável/

/não-contável/, etc.

 

Qualidade

/causa/, /modo/, /posse/, /matéria/, /instrumento/, /condição/, /finalidade/, /meio/, /beneficiário/, etc.

 

 

 

EVENTO

 

 

DELIMITAÇÃO DE ENTIDADES,

DINAMISMO, etc.

Télico

Atélico

/agentivo/

/passivo/

/médio/

Tempo

/presente/,

/passado/, /futuro/

 

Relação

/coordenação/, /subordinação/, /correlação

 

 

 

 

ESPAÇO

 

POSIÇÃO NO ESPAÇO

Eixo horizontal

/origem/, /meta/

Eixo vertical

/superior/, inferior/

Eixo transversal

/anterior/, posterior/

MOVIMENTO NO ESPAÇO

Real

Imaginário

/dinâmico/

/estático/

PROXIMIDADE NO ESPAÇO

 

/proximal/

/distal/

CONTEÚDO / CONTINENTE

 

/dentro/

/fora/

 

Seria entretanto ingênuo supor que as preposições representam fielmente os eixos espaciais indicados nesse quadro. Como se reconhece amplamente na literatura cognitivista, “entre a linguagem e o mundo físico ou objetivo há um nível intermediário que nós chamamos ‘cognição’”: Svorou (1993: 2). A criatividade humana intervém aí de diferentes modos, promovendo alterações nos sentidos prototípicos, de que derivam Aspecto, Tempo, Quantidade e Qualidade: Castilho (2001).

 

As preposições integradas no eixo transversal preservaram com maior ou menor vigor o valor prototípico de ESPAÇO, cindindo-se em duas possibilidades:

 

(1)      O participante que desejamos localizar (= FIGURA) tem à sua frente o participante que serve de ponto de referência (= FUNDO); diremos que essas preposições exemplificam a subcategoria ESPAÇO ANTERIOR. Por assim dizer, a FIGURA “olha” para o participante FUNDO.

(2)      O participante FIGURA está localizado atrás do participante FUNDO; diremos que essas preposições exemplificam a subcategoria ESPAÇO POSTERIOR. Por assim dizer, a  FIGURA se localizou “às costas” do participante FUNDO.

 

Como vimos no item anterior, a lexicalização desses espaços não se deu com a mesma intensidade na gramática da língua portuguesa, ficando (2) com uma representação mais discreta em relação a (1).

 

Vejamos agora com detalhe os sentidos liberados por essas preposições.

 

4.1 - Preposições que denotam o ESPAÇO ANTERIOR

 

Ante e perante preservam seu valor prototípico quando o FUNDO foi lexicalizado por OBJETO, seja /+ Concreto/, como em (23-24), seja /+Abstrato/, como em (25-26):

 

(23) [19 2 PE/RE CJ/L]O seu comportamento ante o tribunal dos jurados ex- | cedeu em exaltação insensata, em brutalidades vio- | lentas todos os actos da sua vida.

(24) [19 2 MG/OP A] Ernesto Augusto de Oli|veira, incumbe-se de procu|ratorios perante todas as| repartições publicas da ca|pital; e bem assim encarre|ga-se de qualquer negocio| concernente a sua profissão| de procurador. Escriptorio| no largo junto á academia de| direitos.|Ouro Preto.

(25) [19 2 BA/SA CJ/L] Senhor Redactor. - Não posso ficar mudo | ante o espectaculo doloroso, que acabo  de | presenciar. Um carroceiro, portuguez, ao | que parece, alvo, com barba fechada

(26) [19 2 SP/SP CJ/R] se não tivessemos de quixar-nos primeiramente da pouca reflexão com que tem se exprimido sobre esta materia as pessoas incubidas de deffender os nossos interesses perante o jornalismo da corte.

 

Esses exemplos mostram que os sentidos processados relacionados pela preposição reuniam as condições para a preservação de seu sentido prototípico. Um caso de “linking”, como diria Weinreich (1972).

 

Uma primeira alteração de sentido ocorre quando passamos de ESPAÇO ANTERIOR para TEMPO ANTERIOR. Quando o dispositivo sociocognitivo desativa na preposição complexa antes de seu sentido prototípico de ESPAÇO ANTERIOR, ele ativa ao mesmo tempo o sentido de TEMPO ANTERIOR atribuído à FIGURA. Como se sabe, o trâmite ESPAÇO > TEMPO resulta da categoria cognitiva de MOVIMENTO, aplicada a OBJETOS localizados no ESPAÇO. Quer dizer que o tempo passado da FIGURA se situa anteriormente ao tempo futuro do FUNDO, como se pode ver em:

 

(27) [19 1 BA/SA CJ/L] Quem incumbiria aos dous mal ama- | nhados correctores, José da Silva Cer- | queira Junior, e João da Silva Barbosa | a andarem dias antes das eleições de ca- | sa em casa pedindo votos para Luiz Fer- | nandes?

 

Isto é,

 

(27 a) os dois corretores andaram (no passado) e as eleições ocorreram (no futuro).

(28) [19 2 SP/SP A] O Doutor Ricardo Gumbleton Daunt obrigado por circuns|tancias imprevistas á partir da capital antes do dia que havia|designado, não pode cumprir o seu dever despedindo-se pes|soalmente das pessoas que dignarão honral-o por suas relações|durante a sua estada em São Paulo, e por tanto o faz por este an|nuncio, e á todos

 

Nova alteração de sentido ocorre quando o FUNDO for lexicalizado por um EVENTO, fato já anotado por Neves (2000: 720):

 

(29) [19 2 PR/LO CJ/L] e se o maligno | espirito de partido quebrar suas furias ante as considerações | do bem publico, que bradão tão alto pela união dos habi- | tantes do Paraná

 

Entender como se desenvolveu o significado de “por causa das considerações” - um caso de “nesting”, diria o mesmo Weinreich (1972) - é um desafio e tanto. Provavelmente a alteração envolva a noção de TEMPO contida no EVENTO “consideração”, colocado imageticamente à frente de “quebrar suas fúrias”. Se o tempo do EVENTO-FUNDO ocupa imageticamente um lugar cognitivamente mais relevante que o do EVENTO-FIGURA, que ele passa por metonímia a governar, segue-se que “considerações” passa a causador, e “quebrar suas fúrias” passa a causado. Por outras palavras, a metáfora do TEMPO do evento foi o gatilho da metáfora de CAUSA. Nos termos de Fauconnier / Turner (2000), o espaço mental “evento situado num tempo” projeta um novo espaço, o de “evento causador”.

 

Essa observação confirma a hipótese levantada no Quadro 1, segundo a qual subcategorias semântico-cognitivas tanto quanto traços semânticos derivam de categorias semântico-cognitivas de base.

 

Estudar o comportamento do pronome-advérbio antes poderá talvez deitar novas luzes sobre os passos da semanticização que estamos pesquisando. Vejamos alguns exemplos:

 

(30) [19 1 RJ/RJ A] No dia 17 de Fevereiro corrente pelas 10 horas da manhã, se perdeo hum Moleque na Praia do Peixe, o qual terá 15 annos de idade; chama-se Matheus, he de Nação Cabundá, com calças de Amiagem, e Camiza de pano de linho; ignora a lingoa Portugueza por ser comprado dias antes no Valongo: Quem delle souber, vá falar com João Pereira da Silva, morador na Rua da Ajuda Número 52 ao pé do Coronel Antonio Correa da Costa; e delle receberá boas alviçaras.

(31) [19 2 SP/SP A] O abaixo assignado faz sciente aos Senhores|devedores da caza fallida de Dom Victoranno |Jygena, para que quanto antes hajão do annun|ciante no prazo de 30 dias, pena de que não o|fazendo serão indispensavelmente executados.|São Paulo 20 de maio de 1853|Daniel Senra Cardozo

 

Como um operador, esse pronome-advérbio tem seu escopo ora à esquerda, criando um movimento fictício nessa direção, como em [diasß antes], em (30), ora à direita, com o mesmo papel, como em (31) [quanto antes à hajão]. A associação de ESPAÇO a MOVIMENTO produz a metáfora do TEMPO, que será o tempo anterior ou passado no primeiro caso, ou o tempo posterior ou futuro, no segundo. Um objeto se desloca no ESPAÇO, e ao fazê-lo vai ocupando diferentes pontos na linha do TEMPO.

 

Esse pronome-advérbio pode tomar como Especificador uma expressão de graduação, como em [muito antes], [pouco antes], [quanto antes], ou de focalização, como em [bem antes]. Com isto, novas especificações de ESPAÇO e TEMPO podem ser obtidas:

 

Antes, quanto antes: anterioridade proximal

Muito antes: anterioridade distal

Bem antes: anterioridade focalizada

 

Temos lidado até aqui com a a escala ESPAÇO > TEMPO > CAUSA. Se continuarmos examinando os pronomes-advérbios constituídos a partir da mesma etimologia das Preps, será possível agregar também MODO a essa escala. Veja-se o exemplo (32):

 

(32) [19 2 SP/SP CJ/L] “Infeliz homeopatha! . . . antes não tivesse vindo a | S. Paulo ! | Por certo daria um passo muito mais acertado se ti- | vesse procurado um lugar inculto,

 

equivalente a

 

(32 a) que não tivesse vindo a S. Paulo !

 

O caráter modal volitivo desse exemplo está implícito no traço de comparação próprio a antes, documentado já na latinidade. E é que, assinalando o ESPAÇO situado à frente do falante, cuja avaliacão cognitivamente positiva já foi aqui lembrada, antes implicita uma escolha e explicita uma vontade. A comparação está implícita em vir a São Paulo / não vir a São Paulo e a escolha está na opção por não ter vindo a São Paulo.

 

Resumindo o que se viu até aqui, nota-se que as preposições estudadas mantiveram o valor semântico primitivo de ESPAÇO e desenvolveram outros sentidos, ao passo que o pronome-advérbio (e também a conjunção coordenativa ou antes, a subordinatIva antes que e a correlativa antes...do que não exemplificadas aqui) se limitaram aos valores derivados de TEMPO e MODO. Como então sustentar, em face desses resultados, que o Advérbio deu origem unidirecionalmente à preposição e à conjunção? Nas conclusões apresentarei uma alternativa a esse modo de ver as coisas.

 

Outras preposições que remetem ao ESPAÇO ANTERIOR revelam igualmente aspectos interessantes do processo de semanticização. Assim, se compararmos as diversas ocorrências do item face no corpus examinado, notaremos a importância do trâmite /+Concreto/ > /+Abstrato/ nesse processo. Sejam os seguintes exemplos:

 

(33) [19 2 PR/CR CJ/R] Estala a gargalhada rubra na face dos que a | menospresão, e chóra as degraças d'aquelles | a quem acolhe, acaricia, acalenta.

(34) [19 2 BA/SA CJ/R] O que se não pode contestar é que o governo actual, como seus predecessores ultimos, nada têm poupado para mudar a face da situação finan | ceira nacional e promover o desenvolvimento das | riquezas do paiz

 (35) [19 2 PE/RE CJ/L] Para fazer face aos pagamentos que ainda restam, e concluir a | liquidação das despezas de guerra, esta taxa deverá | ser prorogada até março de 1858.

 

 Em (33), face é um substantivo /+Concreto/, designando parte do corpo humano. Em (34) já se trata de um substantivo /+Abstrato/, algo como “rumo da situação”, “ponto para o qual estamos mirando”, que abre caminho à sua utilização com verbo suporte, como em (35), equivalente de encarar, à expressão adverbial face a face, e à preposição complexa em face de, preservando esta a noção de ESPAÇO ANTERIOR, como em:

 

(36) [19 1 BA/SA CJ/L] muito trabalhou, e despendeo á face | de seos superiores e subalternos, para | obter, como obteve sua reforma

 

A mesma escala ESPAÇO ANTERIOR > TEMPO > CAUSA é igualmente documentada nos dados, quando FUNDO é lexicalizado por um item  /+Abstrato/:

 

(37) [19 2 BA/SA CJ/R] E é este o maximo perigo á que nos acha- | mos expostos em face da penuria que se | observa nos mercados.

 

vale dizer, “por causa da penúria que se observa nos mercados”.

 

4.2 - Preposições que denotam o ESPAÇO POSTERIOR

 

As preposições que denotam o ESPAÇO POSTERIOR sofrem processos idênticos de semanticização.

 

Destaco primeiramente os exemplos em que foi preservado o sentido etimológico e cognitivo de base. Requer-se para isso que FIGURA e FUNDO sejam expressos por OBJETOS. Nada de estranhar, pois se tem demonstrado que OBJETOS são mais básicos que QUALIDADES e RELAÇÕES, e assim por diante.

 

Os exemplos mostram que o falante pode inverter a seqüência prevista em 3.1, como se pode constatar em

 

(38) [20 2 RJ/RJ D2 355: 610] e depois da sala de estar se você sobre um lance de escada você chega a dois quartos e um banheiro e depois  mais outro lance e você chega a um outro quarto

 

isto é,

 

(38 a) dois quartos depois da sala de estar

(38 b) sala de estar antes dos dois quartos

 

em que o ponto de vista seleciona a seqüência desejada.

 

Ativa-se TEMPO e se desativa ESPAÇO POSTERIOR se FIGURA e FUNDO são expressões temporais, como em

 

(39) [19 2 SP/SP CJ/L] A 16 minutos depois do meio dia partio a locomotiva | daquelle ponto. || Lia-se o enthusiasmo e alegria em todos os rostos,

 

ou se FUNDO é um evento:

 

(40) [19 2 SP/SP CJ/L] D’antes eu dizia-lhes rua de tal número 20. Depois do | borramento do 2 eu só dizia - rua de tal numero cifra.

 

A categoria TEMPO é preferida para esta preposição complexa, e se mostra mais plenamente realizada nos pronomes-adverbiais e na conjunção subordinativa:

 

(41) [19 2 MG/OP CJ/L] sua vida não foi mais | que um sonho semelhante á roza que vem de desabrochar, | e que depois inclina-se sobre a haste, que a sustinha,

(42) [19 2 PE/RE CJ/L] mas asseguro que nunca me fora ella pedi- | da, e só depois que se dera o julgamento de inter- | dicção pelo juizo de orphãos é que recebi a intima- | cão judicial,

(43) [19 1 BA/SA CJ/R] Agoardente de cochlearia, quantidade sufficiente | para fazer uma massa espessa, que depois de se ha- | ver bem limpo o dente enche-se o buraco com ella.

 

Ao mover imageticamente o participante de FUNDO para as costas, depois de cria o efeito secundário de seqüenciamento, de hierarquização dos participantes:

 

(44) [19 1 BA/SA CJ/R] Um amigo he sem duvida o mais precioso bem | depois da saude;

 

Esse valor é mais nítido em expressões como uns após outros, dia após dia, mencionados por Neves (2000: 723). Estamos aqui a um passo do pronome-advérbio depois, como em:

 

(45) [19 2 BA/SA CJ/L] logo á primeira | vista fiquei extremamente sorprehendido, | mas vindo depois a reflexão, lembrei-me | do seguinte.

 

Os materiais não se mostraram ricos nos casos em que o participante se desloca de um polo transversal para outro, como em de trás para frente, de diante para trás, etc. A única abonação encontrada foi

 

(46) [19 1 BA/SA CJ/L] Ora, si o Diario ja disse que diversos ca- | sos se tem dado nesta provincia antes e de- | pois da epidemia, com todos os sympto- | mas do cholera,

 

 

5. Preposições e discursivização

 

O processo de discursivização tem por resultado as categorias textuais de tópico (= seleção e hierarquia tópica, desvios tópicos por digressão e por parênteses), correção sociopragmática, fluxo da informação, conexão textual, focalização, entre outras. Alguns lingüistas brasileiros têm estudado a discursivização: ver, pelo menos, Castilho (1997a: 60), Bittencourt (1999), Gorski / Gibbon / Valle / Rost / Mago (2002), Braga / Silva / Soares (2002), Braga / Paiva (2003). Essas referências têm o  mérito de mostrar que há certo desconforto em tratar os temas acima como  casos de gramaticalização, o que significaria fazer confluir para uma mesma dimensão processos lingüísticos de variada ordem. O estudo pormenorizado da utilização das preposições na organização do texto poderia verificar se elas atuam em questões tais como (1) introdução do tópico discursivo, (2) agregação de informação secundária, enriquecendo a elaboração do tópico, via adjuntos, (3) determinação / indeterminação / impessoalização do tópico, (5) articulação do texto, etc. O produto da discursivização é o texto.

 

Em todos os casos que respondam aos quesitos acima, entenderei que dispõem de propriedades textuais as expressões preposicionadas não governadas por verbo ou por outra classe predicadora.

 

A preservação das categorias de ESPAÇO (ou LUGAR) e TEMPO concorrem para o funcionamento das preposicões do eixo transversal como Construções de tópico (CTs), desativando-se o valor de lugar físico e de tempo cronológico, ativando-se significações  tais como “espaço do discurso”, “tempo do discurso”. Vejam-se os seguintes exemplos de CT Delimitadora:

 

(47) Antes de tudo, me explique que assunto é esse.

(48) [19 2 PE/RE CJ/R]Ante tão eloquentes e convicentes palavras, e, ainda mais, perante o § XIV do artigo 102 que, como dissemos, foi um corolário do artigo 5º da constituição do imperio, permitta-nos o Excelentíssimo Senhor bispo que lhe digamos, com profunda magoa, que andou mal aconselhado o seu esclarecido espirito, quando deixou-se dominar pelas razões que expôs no citado capitulo IV da sua estirada pastoral.

(49) [19 2 BA/SA CJ/L] Para nós e diante dos factos, reque- | rimentos e actos do governo o unico | concessionorio(sic) em condições de dispor | da estrada é o senhor Leopoldo José da Sil- | va, que nos apresentou escriptura de | cessão em seu favor.

 

Em (49) são observadas duas CTs Delimitadoras expressas por expressões preposicionadas.

 

Se o núcleo do SN relacionado pela preposição mantém muito vivaz o sentido lexical, bloqueia-se seu uso, o que explica a inexistência de CTs formadas a partir de fronte, frente, face.

 

São raros os usos destas preposições como conectivos textuais. Como era de esperar-se, restringem-se tais usos à preposição /+Posterior/, que associada a outro dêitico faz a ponte entre “o que foi” e “o que virá”, funcionando como seqüenciador do discurso:

 

(50) [19 2 PR/CR CJ/R] Depois disto, para que mais a minha prosa | charra, chilra, chôca, chula? ....

 

Os pronomes-advérbios de mesmo étimo são muito freqüentes como conectivos textuais, como destacaram os pesquisadores do Projeto de Gramática do Português Falado, ao analisarem exemplos semelhantes a:

 

(51) [19 2 PR/CR CJ/R] Depois, o amor é extremamente, demasiada- | mente pueril, e até extravagante; é mais lyri- | co do que épico,

(52) [19 2 PR/CR CJ/R] E depois .... o infinito! O céo e o mar, | aqui; ali, o céo e o mar; além ainda, o céo e | o mar! || O céo e o mar! As duas enormes circumfe- | rencias cujo centro está em toda a parte! || E depois .... Paris! Paris maravilhosa, mag- | nifica, sublime!

 

Finalmente, a grande quantidade de adjuntos adverbiais constituídos por essas preposições mostram que seu papel discursivo mais importante é o de agregar informações secundárias à estrutura tópica. Esta consideração nos leva ao item seguinte.

 

 

6. Preposições e gramaticalização

 

Hopper / Traugott (2003: 18) definem a gramaticalização como um ramo bifurcado da Lingüística que se ocupa do seguinte: (i) estudo do relacionamento entre materiais lingüísticos léxicos, construcionais e gramaticais, sincrônica e diacronicamente, tanto numa dada língua quanto numa perspectiva interlingüística; (ii) estudo da mudança em que itens lexicais e construções adquirem funções gramaticais em certos contextos lingüísticos e, uma vez gramaticalizados, continuam a desenvolver novas funções gramaticais.

 

A gramaticalização cinde-se em três subprocessos: fonologização (alterações no corpo fônico das palavras), morfologização (alterações que afetam o radical e os afixos) e sintaticização (alterações que afetam os arranjos sintagmático e sentencial). Esses subprocessos ocorrem simultaneamente, sem uma hierarquia de precedência entre eles. Entretanto, observa-se um ritmo unidirecional no tratamento das palavras no interior de cada um desses subprocessos. Acredito que a ação do dispositivo sociocognitivo mencionado em (6), uma vez mais detalhado e melhor entendido, fornecerá as bases teóricas para o entendimento da gramaticalização, da regramaticalização e da desgramaticalização. O produto da gramaticalização são as estruturas fonológicas, morfológicas e sintáticas.

 

A partir do final dos anos 90, surgiram no Brasil diversos estudos sobre gramaticalização, enumerados em Castilho (2002b). No caso das preposições, devem ser lembrados Viaro (1994, 1995), Baião / Arruda (1996), Macêdo (1997, 2003), Poggio (1999 / 2002), sem referir aquelas pesquisas que trataram indiretamente desse processo, como Bomfim (2000), entre outros.

 

Como hipótese inicial, agruparemos as preposições em pelo menos três pontos em sua escala de gramaticalização: (i) as mais gramaticalizadas, isto é, as que se comportam exclusivamente como preposições (como parece ser o caso de de, em, a, para, com, por), (ii) as medianamente gramaticalizados (sem, sob, sobre, até, entre, contra, desde, após) e, finalmente, (iii) as menos gramaticalizadas (ante, perante, durante, exceto, salvante, salvo, conforme, trás, segundo), considerando-se que os itens de (ii) e (iii) podem operar também como outras categorias lexicais. Essa espécie de “escala interna” vai dos itens mais freqüentes e com maior amplitude sintática, para os itens menos freqüentes, de menor amplitude sintática. Como se vê, a escalaridade da gramaticalização das preposições nada tem a ver com sua escalaridade semântica, comprovando que não há determinações entre os sistemas lingüísticos.

 

Observando o papel das preposições na construção da sentença, serão considerados os seguintes quesitos: (1) funções sentenciais das expressões preposicionadas: argumentos e adjuntos preposicionados, (2) posição do constituinte preposicionado na sentença, (3) elipse de preposições, (4) troca lexical de preposições, (5) grau zero, ou desaparecimento de preposições.

 

Braga / Botelho (1981) mostraram que os Adjuntos Adverbiais de Tempo [e de Aspecto] movimentam-se para a esquerda mais que os de Lugar, Modo, Quantidade e Companhia, numa proporção de 43,5% deslocados para os temporais, e de 56,5% não deslocados para os demais:

 

(53) Naquele dia, eles me levaram... [SP / Tempo]

(54) Æ Sábado e domingo eu não gosto de passar sem dinheiro. [SP / Tempo, com apagamento da preposição a]

(55) Às vezes, ela fica em casa. [SP / Aspecto iterativo]

(56) Sempre o carnaval dá mais preocupação. [Sadv / Aspecto imperfectivo]

 

Admitindo que (i) adjuntos e argumentos são polos extremos de um continuum funcional das sentenças, identificáveis por gradiência, não por oposição, e  que (ii) um adjunto pode ser reanalisado como argumento, (iii) habitualmente argumentos ocupam uma posição mais rígida na sentença, será necessário em conseqüência descrever o grau de mobilidade de uns e outros, para o estudo de sua diacronia.

 

6.1 - Sintaticização das preposições do eixo transversal

 

As preposições aqui estudadas desempenham as funções de argumento e adjunto adverbial, com larga predominância desta última função.

 

A Tabela 3 resume os achados até esta altura da pesquisa.

 

Tabela 3: Diacronia das funções sentenciais

/+ANTERIOR/

/+POSTERIOR/

SÉC. XIX

Argumentos

5/92 – 6%

Adjuntos

87/92 – 94%

Argumentos

0/0

Adjuntos

25/25 – 100%

OI

OBL

Lugar

Tempo

Qualidade

OI

OBL

Lugar

Tempo

Qualidade

0/0

5/5  100%

56/87  64%

25/87

29%

6/87

7%

0/0

0/0

1/25

4%

24/25

96%

0/0

SÉC.

XX

0/0

10/10 – 100%

 

0/0

5/5 – 100%

0/0

0/0

7/10

70%

2/10

20%

1/10

10%

0/0

0/0

2/5

40%

3/5

60%

0/0

 

Vejamos alguns exemplos:

 

(57) Argumento Oblíquo

a)      [19 2 BA/SA CJ/L] E a prova é que o senhor Bahiana confes- | sa esbarrar diante delle quando, combi- | nando datas a seu bel prazer declara | que somente depois de 28 de fevereiro | proximo e no caso de não satisfazermos | os nossos compromissos para com o senhor | Leopoldo é que elle reclamará o direito | de reversão da linha em seu favor.

b)      [19 2 RJ/RJ CJ/L] porém recorde-se que temos o bastante co- | ragem de chegarmos ante os degraos do THRONO | e dizermos ao MONARCHA - “SENHOR os mi- | nistros de V.M.I. arrede de S.I. esses TRAIDORES: o ministro da guerra é UM PREVARICADOR, o ministro do imperio é CONCUSSIONARIO, e o fazenda foi com- | vencido perante o jury desta côrte como TESTE- | MUNHA FALSA no processo do Illustre tutor de | V.M.I. E DE SUAS AUGUSTAS IRMÃAS.

(58) Adjunto adverbial de lugar

a)      [19 2 MG/OP A] Ernesto Augusto de Oli|veira, incumbe-se de procu|ratorios perante todas as| repartições publicas da ca|pital; e bem assim encarre|ga-se de qualquer negocio| concernente a sua profissão| de procurador. Escriptorio| no largo junto á academia de| direitos.|Ouro Preto.

b)      [20 2 BA/SA DID 135: 400] Quando ela nasce, aqui, por trás desse casario, compreendeu (...)

(59) Adjunto adverbial de tempo

a)      [19 2 BA/SA A] COITADO! || Grande barulho entre dois ca|sados hontem antes do jantar| coitados!!

b)      [19 1 MG/OP CJ/L] vem pois o supplicante requerer a vossa senhoria se digne man | dar que junta(sic) esta aos autos e sciente este juizo de | ter havido a absolvição fique o supplicante exonerado | do deposito que assignou, visto que o mandado de | levantamento que o executado havia se passar depois | da absolvição, ficou de nenhuma força e vigor e com | pletamente extincta a execução e penhora.

(60) Adjunto adverbial de qualidade (causa)

[20 2 SP/SP D2 360: 33]é e:: mas... depois diante das dificuldades de conseguir quem me ajudasse... nó::s paramos no sexto filho...

 

De um ponto de vista descritivo, a Tabela 3 confirma a assimetria entre as preposições /Transversal Anterior/, em face de /Transversal Posterior/:

 

(1)      /+Anterior/ preenche todas as células dessa tabela, com a exceção esperada do Objeto Indireto, mostrando-se semanticamente conservadora em seus usos adjuncionais, em que predomina a categoria de base Lugar.

(2)      /+Posterior/ não opera como introdutora de argumentos e não exemplifica os adjuntos adverbiais de Qualidade, mais alterados semanticamente que os de Lugar e Tempo. Em compensação, essa preposição oferece um percentual mais elevado de Tempo, valor quase categórico nesta subclasse das preposições do eixo transversal.

 

De um ponto de vista diacrônico, embora disponhamos ainda de poucos dados para o séc. XX, é notável

 

(1)      O desaparecimento do uso argumental nas duas subclasses, o que aponta para uma especialização dessas preposições.

(2)      No quadro dessa especialização, fica evidente entre as preposições /Anterior/ a tendência a concentrar os usos adjuncionais em Lugar, sendo que as /Posterior/ atenuam a tendência a concentrá-los no valor de Tempo.

 

Vejamos agora a questão da colocação dos adjuntos adverbiais, em que se contata uma preferência pela posição adsentencial, com incursões pobres no interior da sentença, conforme demonstra a Tabela 4:


Tabela 4 - Diacronia da posição sentencial dos constituintes preposicionados

SÉCULO

 

/+ANTERIOR/

/+POSTERIOR/

 

 

XIX

Posição

Argumento

Adjuntos

Argumento

Adjuntos

Oblíquo

Lugar

Tempo

Qualidade

Oblíquo

Lugar

Tempo

Qualidade

__S

--

6/56

11%

4/25

16%

--

--

--

11/24

46%

--

S__

--

34-56

60%

17/25

68%

5/6

83%

--

--

7/24

29%

--

S__V

--

5/56

9%

1/25

4%

--

--

--

2/24

8%

--

V__O

5/5 – 100%

(pós-verbal)

11/56

20%

3/25

12%

1/6

17%

--

1/1

100%

4/24

17%

--

 

 

XX

__S

--

4/7

57%

2/2

100%

1/1

100%

--

--

2/3

67%

--

S__

--

3/7

53%

--

--

--

2/2

100%

1/3

33%

--

S__V

--

--

--

--

--

 

--

--

V__O

--

--

--

--

--

 

--

--

 

A Tabela 4 mostra que no séc. XIX os adjuntos adverbiais formados pelas preposições em estudo se situam predominantemente às margens da sentença, com 71% dos casos para os Locativos e 84% dos casos para os Temporais, predominando a posição pós-sentencial. Nos restantes casos, os adjuntos se localizam, respectivamente, em 29% e em 16% no interior da sentença. Essa distribuição se acentua no séc. XX. O achado infirma por um lado a suposição corrente na literatura de que as expressões de Tempo situam-se adjacentes ao V, internalizando-se na sentença, e confirma por outro lado a análise de Tarallo-Kato et alii (1992), válida para a língua falada culta do séc. XX, segundo a qual os espaços mais permeáveis à inserção de elementos lexicais são aqueles entre o S e V, e os menos permeáveis são aqueles entre V e O. Seguem-se alguns exemplos:

 

(61) ___S

a)      [19 2 PR/LO CJ/L] Antes do estabelecimento de um banco rural (…), não se deve esperar por um movimento lento em favor da colonisação.

b)      [19 2 SP/SP A] Diante de vantagem tão reaes e incontestaveis, excusado é encarecer os meritos desta machina, e para sua significativa importancia nos limitamos a reclamar em|geral a attenção da lavoura do paiz, a favor da qual revertem os seus beneficios.|

(62) S___

a)      [19 2 SP/SP CJ/L] (…) curvemos a cabeça ante os dictantes (sic) do Altíssimo

b)      [20 2 PE/RE DID 004] e nos mudamos... de qualquer forma... tanto que assim que as últimas jane:las e as últimas portas foram pintadas já: APÓS a mudança...

(63) S__V

       [19 2 PE/RE CJ/L]O seu comportamento ante o tribunal dos jurados ex- | cedeu em exaltação insensata, em brutalidades vio- | lentas todos os actos da sua vida.

(64) V__O

a)      [19 2 PR/LO CJ/L] creio até que é uma razão para se organisar quanto antes a propaganda agricola, pois mais depressa attingirá provincia á sciencia de seus interesses.

b)      [19 2 BA/SA CJ/L] sobre o crime do infeliz meu parente José  Pinto | de Carvalho, corre-me o indeclinavel dever de affir- | mar que eu nunca me  comprometti perante o meu | amigo o tenente- coronel Joaquim Elias Machado de | Faria de perseguir ao Srº José Pinto de Carvalho,

c)               [19 2 PR/CR CJ/R] Tenho diante de mim, e ao alcance da mão, | o excellente livro de versos de Emiliano Per- | netta - Musicas.

 

6.2 - Morfologização

 

Tratando-se de itens invariáveis, as preposições não têm interesse para o estudo da morfologia flexional diacrônica. Sua importância neste aspecto da gramaticalização se concentra na morfologia derivacional que, entretanto, não será considerada nesta fase do trabalho.

 

6.3 - Fonologização

 

Os itens estudados exemplificam o problema da paragoge de –s no pronome-advérbio antes, a prótese de a- e a redução do grupo ns em ad+trans > atrás, por regramaticalização de trans, o mesmo tendo ocorrido em post, alterado para depois (<de+post), cujo iode deve ter resultado da ditongação da vogal acentuada o quando travada por alveolar surda (cf arroz > pop. arroiz). O item está sendo novamente regramaticalizado, na forma pop. adispois.

 

 

CONCLUSÕES

 

Um entendimento multissistêmico e diacrônico das preposições no Português Brasileiro somente será alcançado quando os instrumentos de análise forem refinados, e a casuística aumentada. Para a construção de um pano de fundo que embase nossas análises, poderá ser de interesse que algum pesquisador proceda a uma investigação sobre o comportamento das preposições no século XV, que Moraes de Castilho (2001) supõe ser a base do PB.

 

Este trabalho representa um passo adicional na direção do estudo multissistêmico, tendo-se escolhido as preposições que integram o eixo transversal. Reproduzo a seguir as conclusões parciais que foram sendo obtidas ao longo do texto.

 

Quanto à sua lexicalização, observou-se uma freqüência maior das preposições que apresentam o traço /+Anterior/, numa razão de 79% de usos versus 21% para /+Posterior/.

      

Comparando de um ângulo diacrônico a produtividade de preposições simples diante das preposições complexas, e a ocorrência de alguma mudança do séc. XIX para o séc. XX nos dois casos, constatou-se que as preposições /+Anterior/ também aqui levam vantagem sobre as /+Posterior/, pois dispõem de uma representação gramatical mais rica: 2 itens simples para 5 itens complexos entre as /+Anteriores/, contra 2 itens simples para 2 itens complexos entre as /+Posteriores/. Outra questão diacrônica é o possível desaparecimento das preposições ante e perante, certamente substituídas pelas muitas preposições complexas do mesmo eixo. Isso contraria a previsão de que a forma regramaticalizada perante pudesse substituir ante, como ocorreu com  para em relação a a. Num movimento assimétrico, as preposições /+Posteriores/ tiveram um incremento em seu uso no séc. XX, salvo depois de.

 

Essas observações abrem caminho para uma explicação fundamentada no funcionamento do dispositivo sociocognitivo, responsável pela dispersão do étimo *ant por três classes de palavras. Considerando apenas os usos mais freqüentes de cada uma delas, pode-se dizer que elas resultam do agrupamento dos seguintes categorias:

 

(1)      As preposições ante e perante resultam da ativação de ESPAÇO ANTERIOR e da desativação de TEMPO; depois de ativou TEMPO e desativou ESPAÇO POSTERIOR. As preposições diante de, perante resultam da reativação de ESPAÇO.

(2)      O pronome-advérbio antes resulta da desativação de /ESPAÇO/ e da ativação de TEMPO.

(3)      As conjunções e/ou antes, antes que, antes de + {r} resultam da desativação de ESPAÇO e da ativação de RELAÇÃO e TEMPO ANTERIOR; no caso da conjunção volitiva antes + subjuntivo, ativa-se também MODO; e depois, depois que, depois de + {r}resultam da ativação de TEMPO POSTERIOR e da desativação de ESPAÇO POSTERIOR.

 

Por este raciocínio, torna-se irrelevante derivar uma classe de outra, valorizando-se em seu lugar os arranjos semânticos localizáveis no interior de cada uma delas, regidos pelo dispositivo sociocognitivo. A mudança diacrônica dos itens se explicaria apenas pelas alterações na seleção de categorias e traços, visto que todos eles convivem numa mesma sincronia. Assim, em agina “ponto de apoio dos braços da balança” > arc. aginha “depressa”, desativou-se a categoria OBJETO CONCRETO e se ativou MOVIMENTO NO ESPAÇO. Associações metafóricas embasaram a mudança.

 

Quanto à semanticização, as preposições do eixo transversal mantiveram a categoria semântico-cognitiva de base ESPAÇO e desenvolveram categorias derivadas, tais como TEMPO e QUALIDADE, mais propriamente CAUSA. Uma nova assimetria foi notada, pois as preposições /+Anterior/ exibem com maior freqüencia o valor de ESPAÇO, enquanto que /+Posterior/ se concentram quase que categoricamente em TEMPO. O exame dos dados mostra uma tendência a mudar /+ Concreto/ para /+Abstrato/, o que não é uma novidade, consagrando-se a escala ESPAÇO > TEMPO > QUALIDADE. Escalas como esta têm mais poder explanatório que a suposição de que Classes maiores (Nome, Verbo) dão lugar a Classes intermediárias (Adjetivo, Advérbio), migrando estas para as classes menores (Artigo, Preposição, Conjunção).

 

A discursivização das preposições do eixo transversal se concentrou no fornecimento de CTs delimitadoras e de conjunções textuais seqüenciadoras. Do ponto de vista da estrutura informacional do texto, essas preposições se prestam à veiculação de informações secundárias, gramaticalizadas como adjuntos.

 

A gramaticalização, e mais propriamente, a sintaticização, revelou uma alta concentração na função de adjunção, dispondo-se as expressões nas margens sentenciais.

 

Na continuação deste trabalho, examinarei o comportamento das preposições que integram os eixos horizontal e vertical. A síntese que se vier a obter destas pesquisas permitirá - talvez - melhorar nosso conhecimento sobre o estatuto da “preposicionalidade”, tanto quanto considerar a correlação entre lugares sintáticos e papéis semânticos desempenhados pelas expressões preposicionados. Isso poderá ser um primeiro passo para desenhar um algoritmo semântico da sentença e, em seguida, indagar diacronicamente se tais correlações são estáveis ou não.

 

Finalmente, e tendo em vista a agenda do PHPB, creio que este texto oferece os seguintes pontos para debate: (1) A pesquisa sobre a mudança lingüística de cunho funcionalista precisará definitivamente assumir um caráter interdisciplinar, pois individualmente não poderemos desenvolver uma argumentação competente sobre o Léxico, a Semântica, o Discurso e a Gramática. Em termos práticos, precisaríamos criar GTs de Lexicologia e de Semântica, propondo uma agenda comum tanto a eles quanto ao já criado GT de Análise Diacrônica do Discuso. (2) Particularmente com respeito à gramaticalização, será conveniente negar a centralidade desse processo, incluindo nas pesquisas considerações sobre a lexicalização, a semanticização e a discursivização. (3) O gatilho da mudança lingüística deve residir no dispositivo sociocognitivo, vale dizer, nas necessidades e estratégias conversacionais. (4) Assume-se que a mudança começa pela palavra. (5) Deixa-se de lado o tratamento derivativo, unilinear, que alguns autores estabeleceram entre Discurso, Semântica e Gramática; num segundo momento seriam avaliados os pontos de contacto entre esses sistemas. Aparentemente, compreenderemos melhor as eventuais relações entre esses sistemas se postularmos que elas são indeterminadas, pancrônicas, muldirecionais.

 

 

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* Este trabalho integra o projeto “Para a História do Português Brasileiro: gramaticalização e mudança gramatical”, bolsa de Produtividade Científica do CNPq (Proc. 306319/88-8). Agradeço a Mário Eduardo Martelotta, Jânia Ramos, Margarida Basílio e Marilza de Oliveira pela leitura crítica da versão anterior, tanto quanto aos colegas da equipe de São Paulo do PHPB. Os erros continuam de minha inteira responsabilidade.

[1] “Objeto” (às vezes “participante”) é um termo genérico que remete a pessoas, animais, coisas. “Estado de coisas” é igualmente um termo genérico que remete a ações, processos e eventos.

[2] Para uma discussão sobre os pronomes-advérbios (ali denominados pronomes circunstanciais de tempo e lugar), ver Ilari et alii (1990/2002). Dada a escalaridade entre pronomes circunstanciais de tempo e lugar e advérbios não predicativos, adotarei aqui a expressão “pronomes-adverbiais” para denominar as expressões de tempo e lugar.

[3] As categorias e subcategorias cognitivas são representadas em VERSALETES, e os traços semânticos, entre barras inclinadas.