Ataliba T. de Castilho (USP, CNPq)

(Organizado

HISTORIANDO O PORTUGUÊS BRASILEIRO

História das línguas: variedades, gramaticalização, discursos

 

Relatório das atividades desenvolvidas ao abrigo do Programa CAPES-DAAD-PROBRAL, de 2000 a 2003 (Projeto 109/00)

Coordenadores:

Ataliba T. de Castilho (USP / Brasil) – Konstanze Jungbluth (Tübingen / Alemanha)

Aspectos sincrônicos e diacrônicos do Português Brasileiro

Universität Tübingen

Blaubeuren, 4 – 7 de julho de 2003 

Blaubeuren

2003

SUMÁRIO 
Apresentação

 

 Cap. I - Ataliba T. de Castilho (USP) e Jânia Ramos (UFMG)

– Perspectivas sobre a Gramaticalização no “Projeto para a História do Português Brasileiro” .................. 1

 

Cap. II - Ilza Ribeiro (UFBa) e Marilza de Oliveira (USP)

– Mudança gramatical no Português Brasileiro: século XIX ................. 54

 

Cap. III - Tânia C. F. Lobo e Klebson Oliveira (UFBa)

_ A História Social lingüística do Brasil no âmbito do “Projeto para a História do Português Brasileiro” .........   80

 

Cap. IV - Afrânio Gonçalves Barbosa e Célia Regina dos Santos Lopes (UFRJ)

– Corpora do Projeto para a História do Português Brasileiro de 1997 a 2003.................. 139

 

Cap. V - Ataliba T. de Castilho (USP)

– Planejando a continuação do Acordo Brasil / Alemanha. Anexo: Produção bibliográfica do PHPB ................  155

 

 

Conclusões

Ataliba T. de Castilho (USP) – Planejando a continuação do Acordo Brasil / Alemanha

 

 

Apêndice

Afrânio Gonçalves Barbosa (UFRJ)

– Para uma Tipologia Textual do Português (Pós-) Classico: a pluriortografia em documentos oficiais ............. 166

 

 

Apresentação

 

De 31 de maio a 5 de junho de 1999, realizou-se na Universidade Estadual de Campinas o III Seminário do Projeto para a História do Português Brasileiro, o qual contou com a participação dos pesquisadores brasileiros Afânio Barbosa [UFRJ], Ângela C. S. Rodrigues [USP], Ataliba T. de Castilho [USP], Célia Maria Moraes de Castilho [doutoranda, Unicamp], Clotilde Murakawa [Unesp/Araraquara], Dinah M. I. Callou [UFRJ], Emílio Pagotto [UFSC], Gilvan Müller de Oliveira [UFSC], Gladis Massini-Cagliari [Unesp/Araraquara], Heliana Mello [UFMG], Heitor Megale [USP], Ilza Ribeiro [UEFS], Jânia Ramos [UFMG], Márcio Leitão [UFF], Maria Aparecida T. Morais [USP], Maria Eugênia L. Duarte [UFRJ], Marlos Pessoa de Barros [UFPe], Mário E. Martelotta [UFRJ], Marymarcia Guedes [Unesp/Araraquara], Mateus C. Oliveira [UFAM], Mônica Alkmim [UFOP], Norma de Almeida [UEFS], Renato Venâncio [UFOP], Rosa Virgínia Mattos e Silva [UFBa], Rosane Berlinck [Unesp/Araraquara], Sônia Cyrino [UEL], Tânia Alkmim [Unicamp], Zenaide Carneiro [UEFS], e dos pesquisadores alemães Brigitte Schlieben-Lange [Universidade de Tübingen], Wulf Oesterreicher [Universidade de Munique], Eberhard Gärtner [Universidade de Dresden] e Roland Schmidt-Riese [Universidade de Munique].

 

         Além da agenda habitual a esses seminários, os pesquisadores brasileiros e alemães ali presentes decidiram estabelecer um convênio de estudos que tinha por objetivos versar conjuntamente os seguintes domínios:[1]

 

1.     1.      Gramaticalização e tipologia lingüística: neste domínio, devem se analisar e descrever numa perspectiva românica e tipológica formas processuais da mudança gramatical e lexical. Este subprograma coloca no centro do interesse investigativo problemas gramaticais das línguas, suas evoluções e resultados.

 

2.     Tradições discursivas entre oralidade e escrita: neste domínio, será examinada a relevância das tradições textuais da escrita para um conhecimento do desenvolvimento lingüístico. Diferentes tipos de textos devem ser caracterizados e interpretados em função de seu encaixamento pragmático. Este subprograma envolvia pelo menos quatro quesitos: (1) aspectos formais dos textos, a serem considerados em seus aspectos filológicos e paleográficos; (2) proximidade do oral e do escrito, buscando-se caracterizar a relação entre independência contextual e autonomia formal do texto; (3) encaixamento institucional: o textos surgiram em contextos relacionados com o alto grau de profissionalização ? (4) caracterização das tradições discursivas em relação à força ilocutiva dominante e ver em que medida elas podem ser caracterizadas como conjuntos de atos de fala.

 

3.      Contacto, variação e normas lingüísticas: em primeiro lugar, as realidades lingüísticas devem ser descritas e avaliadas em relação ao nível historico da língua portuguesa; em segundo, será considerada a dinâmica da mudança lingüística resultante dos contactos e conflitos entre línguas, variedades e normas. Este subprograma prevê um conjunto de pesquisas sobre a Sócio-história do Português Brasileiro.

 

De acordo com a proposta, os trabalhos seriam desenvolvidos sob a forma de missões de trabalho, abertas aos pesquisadores doutores, e missões de estudos, abertas aos pesquisadores doutorandos. O financiamento foi posteriormente solicitado e obtido junto à CAPES e ao DAAD, ao abrigo do Programa Brasil-Alemanha [PROBRAL], tomando no Brasil o número de Projeto 109/00, com vigência de 2000 a 2003.

 

Foram indicados para coordenar o programa, do lado alemão, a Profa. Dra. Brigitte Schlieben-Lange, da Universidade de Tübingen, e do lado brasileiro o Prof. Dr. Ataliba T. de Castilho, da Universidade de São Paulo. Infelizmente, pouco tempo após aprovado o financiamento, falece a Profa. Dra. Schlieben-Lange, substituída pela Profa. Dra. Konstanze Jungbluth.

 

Durante os quatro anos do projeto de cooperação foram realizadas as seguintes missões:

 

PESQUISADORES BRASILEIROS

PESQUISADORES ALEMÃES

Missões de Trabalho

Missões de Estudos

Missões de Trabalho

Missões de Estudos

Ano 2000

Ano 2000*

Marlos Barros Pessoa (UFPe)

Gilvan M. de Oliveira (UFSC, doutorando Unicamp)

Konstanze Jungblugth

(Tübingen)

Uli Reich

(Munique)

Sônia Cyrino (UEL)

 

Roland Schmidt-Riese

(Munique)

Lars-G. Wigger

(Tübingen)

 

 

Johannes Kabatek

(Tübingen)

 

Ano 2001

Ano 2001

Jânia Ramos

(UFMG)

 

Konstanze Jungbluth

(Tübingen)

Graziela Romanha

(Munique)

 

 

Cornélia Doll

(Leipzig)

Ulrich Detges

(Tübingen)

 

 

Christine Hundt

(Leipzig)

 

Ano 2002

Ano 2002

Helena Nagamine Brandão

(USP)

 

Johannes Kabatek

(Freiburg)

 

Afrânio G. Barbosa

(UFRJ)

 

Roland Schmidt-Riese

(Munique)

 

Ano 2003

Ano 2003

Ataliba T. de Castilho

(USP)

Verena Kewitz

(doutoranda, USP)

 

 

Marilza de Oliveira

(USP)

 

 

 

Mário E. Viaro

(USP)

 

 

 

 

Dificuldades várias explicam os claros observados na coluna do Brasil. Com isso, deixaram de viajar o Prof. Dr. Mourivaldo Santiago, que organiza uma equipe do projeto na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, e os Profs. Marcelo Módolo, doutorando na USP, e Marcelo Camargo, doutorando na UFMG.

 

Finalmente, por ocasião do V Seminário do PHPB, coordenado por Jânia Ramos e realizado em Ouro Preto (outubro de 2002), decidiu-se apresentar ao Seminário de Blaubeuren, organizado por Konstanze Jungbluth e previsto para julho de 2003, este relatório das atividades dos pesquisadores brasileiros, composto das seguintes partes:

 

1.Ataliba T. de Castilho (USP) e Jânia Ramos (UFMG) - Perspectivas sobre a gramaticalização no “Projeto para a História do Português Brasileiro”

2. Ilza Ribeiro (UFBa) e Marilza de Oliveira (USP) - Mudança gramatical no PB: século XIX

3. Tânia C. F. Lobo e Klebson Oliveira (UFBa) - A História Social Lingüística do Brasil no âmbito do “Projeto para a História do Português    Brasileiro”  

4. Afrânio Gonçalves Barbosa e Célia Regina dos Santos Lopes (UFRJ) - Corpora do Projeto para a História do Português Brasileiro

5. Coordenadores do PHPB - Planejando a continuação do acordo Brasil / Alemanha (redação de Ataliba T. de Castilho, USP)

 

Este relatório será encaminhado ao DAAD e à CAPES, como prestação de contas. Os coordenadores brasileiros do PHPB propõem que uma vez revisto e ampliado de forma a incluir textos dos colegas alemães, o texto seja vertido para o inglês e publicado na série Para a História do Português.

 

 

Campinas / Blaubeuren, junho de 2003.

 

 

Prof. Dr. Ataliba T. de Castilho

Coordenador pelo lado brasileiro


                                         _________________________________________________________________________

 

 

CAP. I - PERSPECTIVAS  SOBRE A GRAMATICALIZAçÃO NO

“PROJETO PARA A HISTÓRIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO”

 

Versão preliminar

Ataliba T. de Castilho (USP, CNPq[2])

ataliba@uol.com.br

 

Jânia M. Ramos (UFMG, CNPq[3])

jania@dedalus.lcc.ufmg.br

 

 

Apresentação

 

Um conjunto de textos sobre gramaticalização foi produzido no interior do Projeto para a História do Português Brasileiro (PHPB). Estes textos podem ser distribuídos em dois subconjuntos, tomando-se como critério os pressupostos teórico-metodológicos adotados. A diferença entre as duas abordagens pode ser sintetizada num só conceito: a adoção ou não da categoricidade.

Este texto tem como objetivo debater problemas teóricos da gramaticalização e fazer uma síntese das pesquisas desenvolvidas sobre o tema no contexto dessse projeto coletivo de pesquisa. Na Parte I, Jânia Ramos discute a formalização do epifenômeno. Na Parte II, Ataliba T. de Castilho enumera algumas das complicações teóricas nos trabalhos sobre gramaticalização, propondo uma alternativa de cunho cognitivista-funcionalista. Na Parte III, são apresentados resumos de estudos sobre a gramaticallização, elaborados até aqui pelos pesquisadores do PHPB. 

 

PARTE I – TRATAMENTO FORMAL DO EPIFENÔMENO DA GRAMATICALIZAÇÃO

Jânia Ramos

As seguintes complicações ou inconsistências, de um modo ou de outro, são comumente apontadas nos estudos sobre gramaticalização:

 

(i)“Os autores de trabalhos sobre gramaticalização parecem entender a língua como uma entidade heteróclita, estática, passível de representação através de uma linha, na qual podemos reconhecer pontos e estabelecer derivações entre esses pontos: Castilho (2003:9).

(ii) A gramaticalização é feita de estágios unidirecionais, de tal maneira que a um estágio A se segue um estágio B, a este se segue um estágio C, e assim por diante: Hopper / Traugott (1993: 95). Cada estágio corresponde a um ponto na língua-linha, e portanto uma relação de seqüencialidade poderia ser estabelecida entre esses pontos.

(iii) Depositadas sobre essa linha, categorias lexicais dão surgimento a categorias  gramaticais, e estas a categorias ainda mais gramaticais, entendendo-se por isto os afixos. Quereria isto dizer que os itens lexicais não têm propriedades gramaticais, suficientes para arranjá-los em categorias próprias? Nesse caso, como entender que as palavras possam ser dispostas em classes lexicais, as conhecidas classes maiores (Pronomes, Nomes e Verbos), intermediárias (Advérbios, Adjetivos), e menores (Artigos, Conjunções e Preposições) que freqüentam estas páginas? Por outro lado, teriam essas classes um estatuto categorial claramente configurado, a ponto de se sucederem perceptivelmente umas às outras na língua-linha, permitindo-nos testemunhar sua metamorfose? Nesse caso, e pensando nos estudos funcionalistas sobre a gramaticalização, onde foi parar a Teoria dos Protótipos? Seriam mesmo tão claros os limites entre as classes lexicais, de tal forma que pudéssemos estabelecer uma relação de derivação entre elas ? (Castilho 2003:10).

(iv) Na literatura sobre gramaticalização ficam situados no mesmo nível fenômenos tais como erosão fonética, descategorização / recategorização morfológica, ampliação dos empregos sintáticos, perda semântica, sem falar nas pressões do Discurso sobre o sistema. Esse ponto de vista levou diversos autores a dispor o Discurso, a Gramática e a Semântica num(a) “(c)line”, admitindo implicitamente uma hierarquia e uma decorrente derivação entre esses sistemas. Essa percepção implicaria em que no momento da criação lingüística nossa mente funciona em termos de instruções seqüenciais, isoladas umas das outras, indo linearmente de uma classe lexical para outra, de um subsistema lingüístico para outro? (Castilho 2003:10). 

        

A partir das questões (i)-(iv), é possível identificar a não explicitação de dois eixos distintos no tratamento da gramaticalização. Em (i) o problema decorre da suposição de que a noção de língua seria única. Entretanto, há pelo menos duas noções distintas, decorrentes de duas distintas noções de gramática: aprimeira assume a noção de  unidades estruturais como um primitivo (tal como na gramática gerativa) e a segunda, de corte funcionalista, as concebe como um processo em andamento, sempre em constante re-sistematização (Coseriu, 1974, apud Bybee & Hopper, 2001: 2).

Em (ii) assume-se implicitamente haver uma correlação um a um entre item lexical e definição categorial: cada item seria pré-definido quanto a seu estatuto categorial. Há aqui uma simplificação. A noção de item lexical depende da definição do que se entende por léxico. Novamente, pelo menos duas noções distintas se apresentam. A primeira noção, reconhecida como dogmática entre os lingüistas, admite uma linha divisória entre gramática e léxico (as noções de numeração e componente computacional, nos recentes trabalhos de Chomsky estariam de acordo com essa vertente). A concepção alternativa é que o próprio léxico não contém representações esquemáticas [indicadoras de categorias], mas sim representações mais específicas e locais que dependem da freqüência de uso.(...) O léxico não estaria separado da gramática. Como as pessoas não falam através de morfemas isolados ou palavras, em muitos casos as unidades da memória e processamento contêm múltiplos morfemas e múltiplas palavras. As unidades de uso são armazenadas, formando uma cadeia, a partir da própria experiência com a língua e, a partir dessa cadeia, padrões recorrentes emergem (Bybee, 1998 apud Bybee & Hopper, 2001:8-14). Em conseqüência, palavras funcionais, por exemplo, não teriam representação independente, já que só ocorrem em construções (idem,12).

Na questão (iii), a referência à noção de estatuto categorial deixa claro o problema central: a suposição de que a categoricidade seria um axioma. Entretanto, conforme assinala Chambers (1995: 33), a categoricidade é apenas uma dentre outras suposições que podem ser adotadas no  tratamento de fenômenos lingüísticos. Para esse autor, várias sub-áreas da Lingüística têm adotado posicionamentos alternativos: a sociolingüística laboviana seria um exemplo, com domínio e procedimentos metodológicos independentes. Cada um desses tratamentos poderiam ser associados à dicotomia “percepts” e “concepts”, proposta por James (1911), em que se distinguiriam, respectivamente, por um lado a apreensão da realidade e, por outro, a idealização da realidade.

A questão (iv) focaliza a noção de aquisição da linguagem e o estatuto cognitivo dos pressupostos teóricos assumidos. Se, por um lado, admitirmos uma hierarquia entre os níveis Gramática e Discurso, estaremos assumindo que a noção de emergência não coincide com a de ontogênese gramatical. A noção de emergência,  surgida na sociologia, refere-se a condições que regem a continuidade e dissolução de estruturas e tipos de estruturas (Giddens 1977:120).  Se, por outro lado, não aceitarmos  essa hierarquia, estaremos assumindo um modelo modular, tal como proposto por Chomsky (1981, e trabalhos posteriores).

Os pontos acima resumem boa parte da complicação teórica da gramaticalização, embora nunca se tenha deixado de reconhecer que se trata de um processo, não de um produto lingüístico. Argumento nesta secção a favor de um tratamento formal do epifenômeno da gramaticalização. Sustento que a adoção da categoricidade é não só uma abordagem possível como também desejável. São também mostradas as conseqüências da adoção de uma posição a favor da não categoricidade.

Para os formalistas, a gramaticalização é um fenômeno diacrônico que consiste no desenvolvimento de núcleos lexicais em núcleos funcionais. Esse desenvolvimento estaria encaixado na teoria da marcação, de caráter mais amplo, no aprendizado da língua e na mudança lingüística em geral, sendo essa última  essencialmente randômica do ponto de vista da Gramática Universal. Uma conseqüência é que a irreversibilidade dos fenômenos tratados como gramaticalização seria apenas aparente. Outra conseqüência é que as seis propriedades da gramaticalização depreendidas por Lehmann (1985)[4] decorreriam do caráter imanente de um primitivo da Gramática Universal: a existência de categorias funcionais, que, por definição, não possuem estrutura argumental nem outras propriedades semânticas, sendo por isso resultantes, diacronicamente, de categorias lexicais empobrecidas fonética e semanticamente (Roberts & Roussou (1999:23) [5].

Dois mecanismos seriam responsáveis pela gramaticalização: a reanálise e o Princípio Lexical de Subconjunto. A reanálise consistiria na simplificação estrutural, que é o tipo de mudança preferido pelo mecanismo de fixação de parâmetro, conforme Clark e Roberts (1993)[6]. Ao lado da reanálise, um segundo mecanismo seria o Princípio Lexical de Subconjunto, que requer que itens lexicais sejam interpretados no menor conjunto de contextos consistentes com o “input”[7] (Kiparsky, s/d apud Roberts e Roussau (1999).

Grosso modo, na gramaticalização teríamos o seguinte esquema:

 

(1)          (1)              (1)          (1)  x> x [+F], onde F é um traço de dependência relevante.

 

Para alguns autores, F é o traço que vai ser visível pela Teoria da Checagem[8], tal como definida em Chomsky, 1995. Para Roberts e Roussou, F seria o traço visível na Forma Fonética[9], como resultado das operações Merge, Move ou ambas.

Como é fácil ver, a abordagem formalista da gramaticalização entra em conflito com a abordagem funcionalista quanto a questões basilares. Lightfoot, um formalista bastante representativo, critica os funcionalistas por sua insistência em relação à continuidade e direcionalidade da mudança tratada como gramaticalização. Já os funcionalistas criticam Lightfoot por ignorar o desafio que os dados de gramaticalização parecem colocar aos modelos que assumem a descontinuidade.

De acordo com Vincent (2001)[10], os gerativistas teriam preterido, em suas discussões, a gradualidade das mudanças, isto é, as mudanças de pequena escala, tendo ficado atentos apenas às mudanças de larga escala. Já os funcionalistas deveriam se colocar a seguinte questão: a direcionalidade faz parte da definição de gramaticalização ou é uma hipótese empírica?

Para os funcionalistas[11], a premissa de que a estrutura da língua é independente do uso da língua é rejeitada. Segundo Bybee & Hopper (2001:1-3),  estes lingüistas começaram a pensar a estrutura da língua (a gramática) como uma resposta a necessidades do discurso, e a considerar seriamente a hipótese de que a gramática vem através da repetida adaptação de formas do discurso vivo. Situam-se nesta perspectiva  Hopper (1979), Givón (1979, 1983), Hopper e Thompson (1980, 1984), Du Bois (1985). 

Um conceito central seria o de emergência (Hopper 1987, 1988, 1993), entendido como processo de estruturação em andamento (Giddens 1984). Na sociologia recente, estruturação refere-se a  condições que regem a continuidade e dissolução de estruturas ou tipos de estruturas (Giddens 1977:120). Emergência, nesse sentido, é distinta de ontogênese: estruturas emergentes seriam instáveis e se manifestariam por acumulação. (...) A noção de emergência constitui uma ruptura com as idéias padrão sobre gramática,(...) [na medida em que concebe] a estrutura,  como uma resposta em andamento a pressões do discurso e não como uma matriz pré-exitente. Segue daí que para dar conta da estrutura gramatical e  fonológica  é necessário ter em conta o modo pelo qual a freqüência e a repetição afetam e, em última instância, contribuem para a forma da língua (Bybee 1985, to appear; Bybee et al. 1994).

Nesse contexto, a afirmação de Langacker (1987) adquire um papel demarcador entre as abordagens funcionalista e formalista no estudo da gramaticalização: A noção de língua como sistema monolítico tem de dar lugar à noção de língua como uma coleção massiva de construções heterogêneas, cada uma como afinidades com contextos diferentes e em constante adaptação estrutural ao uso.

Portanto, para os funcionalistas a rejeição das noções de categoria e estrutura como um primitivo, a atribuição de um papel central ao uso e, conseqüentemente, à freqüência seriam as balizas do debate sobre gramaticalização. É no interior delas que se situam os seguintes temas, que têm ocupado a agenda de discussão nos momentos mais recentes: o caráter processual da gramaticalização (Traugott, 2001), a unidirecionalidade (Joseph, 2001), o estatuto teórico ou epifenomênico (Newmayer, 2001), se a ontogênese e a mudança lingüística se dissociam (Hopper & Bybee, 2001) e  ainda se a sintaxe é ou não autônoma (Hopper & Bybee, 2001). Há também um conjunto de pseudoproblemas: relação arbitrária ou não entre realização fonética e semântica dos items, unicidade entre forma e função e caráter eminentemente sincrônico das abordagens formalistas. Conforme argumenta Newmayer (2001), nenhum formalista assumiria qualquer um desses pressupostos, ao contrário do que dizem os funcionalistas. Um fator muito importante, cujo estatuto continua indefinido, é o da freqüência: os duas partes em debate fazem menção à freqüência, embora atribuindo estatutos diferentes ao uso. Outro pseudoproblema seria o de que a gramaticalização seria um processo autônomo. Traugott (2001) admite que não o é, na medida em que, como qualquer processo de mudança, não se poderiam fazer predições, não havendo determinismos.

Depois desta exposição sobre os pontos de controvérsia mais gerais entre formalistas e funcionalistas, passo a abordar questões pontuais, que dizem respeito aos temas tratados e ao modo como foram desenvolvidos no âmbito do projeto para a História do Português Brasileiro.

De modo geral, a discussão da gramaticalização desenvolve-se através dos seguintes passos: O primeiro consiste em identificar itens que foram recategorizados e descrever a alteração em termos de: (i) [especificador > núcleo]; (ii) [núcleo>núcleo] e (iii) [especificador>especificador],  assim como o tipo de operação aplicada, “juntar” e/ou “mover”.  Tal alteração seria resultado de reanálise. O segundo passo consiste em detalhar o processo com base na distribuição sintática, com o propósito de justificar ter ocorrido, de fato, uma reanálise, como também identificar  o momento esse fenômeno se deu.  O terceiro passo consiste em identificar o gatilho, isto é, o fator responsável pela reanálise. Outro passo, consistiria em “traduzir” os resultados e generalizações elaborados, com base em pressupostos não gerativistas,  de modo a obter uma terminologia coerente com o modelo gerativista e, desse modo, alcançar uma descrição dos fenômenos estudados que seja coerente e legível. A ordem em que os passos acima foram apresentados não retrata uma ordem  cronológica do trabalho desenvolvido. Tendo essa última consideração em mente, passemos a uma síntese dos resultados obtidos.

Inicialmente identificamos três temas: O primeiro foi a recategorização de sintagma nominal em pronome: “Vossa Mercê”> você” e “a gente> a gente”. O primeiro, que era uma forma de tratamento, passou a pronome pessoal. O segundo, que indicava agrupamento de pessoas de um determinado local passou a indicar “nós”. Em termos gerativistas, tivemos um processo spec> núcleo. Outro fenômeno foi a recategorização de dois pronomes do português brasileiro em clíticos: “você>cê”; “eles>es”, que também podem ser descrito spec>núcleo. O terceiro foi a recategorização de verbo principal em auxiliar, isto é, núcleo>núcleo. O quarto foi a negação, que seria spec>núcleo. De fato, como veremos mais adiante, estas descrições estão longe de serem avaliadas como definitivas.

Nestas discussões ressentimo-nos, imediatamente, de uma definição formal dos termos em (i)-(ii) e da explicitação das correlações (iii)-(iv), que aparecem abaixo em formato de perguntas:

 

(i)          o que é um pronome? Seria esse um primitivo?;

(ii)         o que é um clítico?;

(iii)        as alterações fonológicas e semânticas observadas decorrem ou não da recategorização?;

(iv)        que tipo de correlação se pode estabelecer entre sintaxe de uma construção e “erosão fonética” e “empobrecimento semântico”?

(v)         a recategorização, a erosão fonética e o empobrecimento semântico são concomitantes?

 

As questões (i-v) constituíram-se em um roteiro de trabalho, que teve como produto a elaboração de quatro dissertações de mestrado (Correa, 1998; Alves, 1998; Vianna, 2000; Maia (2003)); duas teses de doutorado (Alkmim, 2000; Lopes, 2000), quatro artigos (Vitral, 1996; Vitral e Ramos, 1999; Vitral 1999; Vitral 2003) e cinco capítulos de livros (Ramos, 1996/2002; Ramos, 2000; Vitral, 2000), além várias comunicações em eventos científicos. 

Para chegar aos resultados, utilizamos análise quantitativa em alguns trabalhos. Utilizamos também dados de fala e escrita, em outras palavras, fizemos uso de corpora. Para justificar essa decisão metodológica no âmbito de uma análise gerativista, assumimos que os dados de uma época, seja ela qual for, constituem “input”da gramática de aprendizes. E aprendizes reanalisam os dados do “input”.

Se, por hipótese, a ocorrência de reanálises condicionam novas reanálises, isso leva-nos a supor que não só é possível capturar ocorrência de reanálises gramaticais, nos dados, como também quantificar estruturas reanalisadas de modo a medir sua frequência. A freqüência de estruturas reanalisadas, por su vez, fornece o perfil de duas gramáticas em competição: a nova,  que incorpora a reanálise e a antiga, que rejeita a reanálise. Assim, pudemos chegar a uma concepção de corpus que, em vez de ser um retrato da língua-E, é um indicador de línguas-I em competição[12].

Trabalhar com a frequência constituiu um recurso metodológico importante, embora não peculiar a nosso estudo, pois vários gerativistas têm feito uso desse instrumento.

Feitas essas considerações, passemos ao que julgamos contribuições obtidas ao tratamento formal da gramaticalização.

A recategorização nome> pronome, manifestada através do par “vossa mercê”> ”Vossa Mercê”, mostra perda de propriedades conotativas. Não é adequado, entretanto, descrever essa “perda” como empobrecimento semântico, mas sim como “perda de referência virtual”, nos termos de Milner (1982). Retomando a distinção entre referência virtual e referência real, Rouveret (1987) propõe que os nomes comuns são termos dotados de referência virtual e real próprias; já os pronomes pessoais são termos desprovidos de referência virtual,  mas dotados, no enunciado em que aparecem, de referência real. De posse dessa distinção, pode-se retomar as etapas (1), definidas por Croft (1990) apud Hopper e Traugott (1993:157), detalhando-as em (2).

 

(1)   +def/+ref > -def+ref > -def-ref

(2)   ref. Real> ref. Virtual > sem ref.

 

Concluímos, então, que (2) descreve melhor que (1) a diferença semântica entre o nome “Vossa mercê”, no sentido de “favor vosso” “ Vossa Mercê’ como forma de tratamento  e como pronome pessoal. A descrição (2) é também mais adequada que (1) para descrever a recategorização de “a gente”> “a gente”(Ver Lopes 2000, texto resenhado na Parte III, e Maia, 2003).

As evidências gramaticais dos  dois casos de recategorização são encontrados na distribuição das ocorrências nos seguintes contextos: Se NP, os itens que compõem a expressão (i) podem ser flexionados;  e (ii) podem vir modificados por outros itens (Para maiores detalhes, ver Vitral e Ramos, 1999 e Lopes, 2003).

Retomanto o processo diacrônico Vossa Mercê>você>cê, Vitral (1996) formula a hipótese de que “você” seria um pronome e “cê”, um clítico. Esse último, sendo um núcleo funcional, deveria ter uma distribuição sintática típica: (i)não poder receber foco, (ii)ocorrer contíguo ao verbo, (iii) não ser objeto de preposição. As propriedades (i) e (iii) foram confirmadas, mas não (ii). Esse resultado levou o autor à formulação de duas hipóteses: (a) A não obediência à propriedade (ii), manifestada no contexto “cê não vem hoje”, seria apenas aparente, já que a negativa e V estariam ambas ocupando um mesmo núcleo funcional?; (b) será que o clítico ‘cê”, por ser recente na língua, está ainda num estágio de uma trajetória que teria sido percorrida por outros clíticos mais antigos, não tendo ainda chegado a um comportamento típico?

A hipótese (b) levou a um estudo diacrônico, que recobre o período do século XIV a XX, em que se traça a trajetória do clítico “se” e se compara à trajetória do clítico “cê”, conforme veremos mais adiante.

A hipótese (a) levou, por sua vez, à descrição da negação. Ramos (1996/2002) apresenta evidências a favor da cliticização do ‘não”, registrando as realizações plena e reduzida do item, respectivamente, “não” e “num”, o que para a autora constitui uma evidência a favor de que seqüência “cê não vem hoje” não viola a propriedade (ii). A cliticização manifestada foneticamente através nos itens não/num seria, por sua vez, um estágio de um processo mais longo e antigo, envolvendo o item “não”, presente na expressão “não, senhor”. De acordo com Alkmim (2000), a expressão “não, senhor”, usada com muita freqüência até o terceiro quartel do século XIX,  no Brasil, caiu em desuso abruptamente, pois o item “senhor” deixou de ser usado, por razões político-sociais. Essa alteração teria constituído o gatilho para que o item “não”, que antes se ancorava no item “senhor”, buscasse novo “hospedeiro”. A conseqüência imediata foi o surgimento da negação do tipo [não V não], ausente no Português Brasileiro até aquele momento. 

Vitral (1999), entretanto, discorda de que “não” seja um clítico. Argumenta a favor da distinção entre núcleo>clítico> afixo,e sustenta que “não” é um núcleo. Argumenta que línguas que possuem Neg, núcleo da categoria funcional, preenchido por um item cujo estatuto fonético é forte, também apresentam Neg [+forte]; ao passo que línguas que possuem item negativo com estatuto de clítico ou afixo possuem Neg [-forte], no sentido chomskyano desse traço. Conclui que tal reconhecimento permite atribuir à gramaticalização a vantagem de retirar o caráter estipulativo das distinção [+forte/-forte], utilizada pela teoria de checagem.

No que diz respeito à correlação entre enfraquecimento semântico e erosão fonética e o processo item lexical> item gramatical apresentados em Hopper & Traugott (1993), Vitral e Ramos (1999) formulam a seguinte questão: haveria concomitância entre esses processos? A partir dos contextos em que ocorrem os itens “você” e “cê”, os autores confirmam a conclusão de Duarte (1997) de que o item “você” ocorre como expletivo, isto é, sem referência. Esse resultado é surpreendente, pois, sendo a hierarquia (3) justificável , do ponto de vista semântico, e a hieraquia (4) justificável do ponto de vista fonético, era de se esperar que o item foneticamente mais reduzido, isto é “cê”, fosse aquele que se realizasse como expletivo.

 

(3)  +ref,+def> +ref,-def> - ref (Croft, 1990)

(4)   você      >    ocê     >     (Ramos, 1997)

 

Assim, o fato de o item ‘você” estar mais à esquerda da  hierarquia (4) e apresentar conteúdo semântico que na hierarquia (3) aparece mais à direita constitui uma evidência de que não há concomitância entre os processos semântico e fonético.

Será que o fato de os processos não serem concomitantes constitui evidência de que os processos semântico e fonético sejam independentes? Vitral (2003) argumenta que não, pois , são as categorias gramaticais que atraem itens pertencentes a outras categorias gramaticais, e também pertencentes às categorias. Essa “cooptação” de itens, exercida pelas categorias gramaticais, provoca a redução fonética e a alteração da natureza do significado (ou “esvaziamento semântico”) captadas por meio da noção de processo de gramaticalização (p.14).

 Outra recategorização identificada no Português Brasileiro  foi eles>es. De acordo com Correa (1998), o pronome “eles” foi reanalisado como clítico. Embora a ocorrência da forma reduzida, “es”, seja registrada no português desde o século XIV, a atribuição do estatuto de clítico é recente, datando século XX. Ramos (2003) retoma o processo eles>es, e discute o estatuto teórico das noções de clítico e pronome. A partir das propostas Cardinaletti (1997) e Dèchaine e Wiltschko (2002), argumenta a favor de que se deve levar em conta que diferentes objetos sintáticos podem ter uma mesma realização fonética. No que diz respeito ao item realizado como “es”, esse parece ter sido objeto de reanálise, sendo-lhe atribuído, por alguns falantes, o estatuto de traços-phi, enquanto que outros falantes lhe atribuem estatuto de DP. Conclui que assim como um pronome não seria um primitivo, conforme argumentam Déchaine e Wiltschko, também um clítico não seria. Tal reconhecimento permitiria descrever o comportanto de “es” nos contextos em que o verbo aparece flexionado na terceira pessoa do plural, em que “es” é um elemento que entra numa relação Spec/núcleo com o verbo, e nos contextos em que “es”ocorre com o verbo no singular. Nesse último caso, “es” é o núcleo de T, comportando-se como uma flexão de número afixada ao verbo. Os dados relevantes são:

 

(5) a. Eles vão embora.

      b Es vai longe.

 

Aqui a marca de “plural”, presente em “es”, é capaz de “compensar” a ausência de marca morfológica de plural no verbo. Portanto, seu estatuto aqui seria o de afixo.

Dando prosseguimento ao estudo do par você/cê, Vitral (2003) descreve a cliticização como um processo diacrônico, previsto através de estágios discretos, a serem percorridos pelos  diferentes itens na língua (p.3). Conforme mencionamos, esse estudo resulta da comparação entre “cê” e “sê” e visa a testar  a hipótese (b), também já referida acima, segundo a qual “cê” seria um clítico. Com base nos dados dos séculos XIV a XX, Vitral argumenta inicialmente que o fenômeno da não contigüidade entre clítico e verbo seria uma conseqüência desses diferentes estágios.

Em sua origem, “se” se vincularia à raiz indo-européia *SE, que significa “à parte, separando para si”, de acordo com Romanelli (1975:169). Inicialmente, portanto, teria sido uma categoria XP lexical. Por volta do século XIV, “se” teria sido atraído pelo complementizador. No estágio seguinte, “se” é atraído pela categoria Flexão. A atração por C acarreta a não contigüidade com o verbo, já a tração por Flexão acarreta contigüidade com o verbo.Portanto, conclui Vitral, a propriedade (ii), referente à contigüidade de “se” com V, seria uma manifestação superficial de um processo de mudança que envolveria diferentes estágios.

A partir dessas conclusões, o autor aponta o seguinte paralelo entre “se” e ‘cê”: ambos seriam XPs nos estágios iniciais da cliticização; e a não contigüidade presente hoje entre “cê” e o verbo seria decorrente de seu surgimento no português ser mais recente do que o surgimento de “se”.

Por fim, a recategorização verbo principal>verbo auxiliar, descrita como núcleo lexical> núcleo funcional, foi analisada por Vianna (2000). Sua hipótese é que haveria um processo de gramaticalização, afetando os verbos modais no português. Esse autor comparou dados dos períodos arcaico, moderno e contemporâneo, e observou, no eixo do tempo, o seguinte: aumento de freqüência dos modais, menor quantidade de material interveniente entre modal e infinitivo, aumento progressivo da estrutura Neg+Modal+Infinitivo, maior ocorrência de alçamento de clítico, menor número de formas de flexão dos modais e aumento de uso de modais na acepção epistêmica. Estes resultados foram interpretados como evidência da recategorização verbo lexical> verbo auxiliar.

Feita essa breve síntese dos resultados, passemos à parte final desse trabalho em que, à guisa de conclusão, faremos um breve diagnóstico das complicações e inconsistências detectadas na literatura atual sobre gramaticalização. Nosso propósito, ao retomar esses problemas, é fazer deles diretrizes diretrizes a partir das quais definir nossa futura agenda de trabalhos futuros no âmbito do Projeto Para a História do Português Brasileiro.

 

 


PARTE II – PARA UMA ABORDAGEM COGNITIVISTA-FUNCIONALISTA DA GRAMATICALIZAÇÃO

Ataliba T. de Castilho

 

Em Castilho (2003) enumerei as principais complicações teóricas que identifico nos estudos sobre gramaticalização, reproduzidas no texto de Jânia Ramos (ver Parte I). Precisaríamos encontrar alternativas para essas questões, tarefa sem dúvida complexa que poderia ser encaminhada por um grupo de pesquisadores. No que se segue, adianto alguns argumentos para a consideração dos que estiverem interessados em buscar alternativas. Duas conjunturas me levaram a propor esse debate: de um lado, o Seminário de Blaubeuren, em que pesquisadores alemães e  brasileiros darão um balanço às atividades desenvolvidas durante a vigência do Projeto 109/00 [CAPES/DADD/PROBRAL] e discutem o planejamento futuro; de outro, a organização em 2002 vários grupos de trabalho no interior do PHPB, entre eles o de Mudança gramatical de um ponto de vista funcionalista, que tenho a honra de coordenar.

Num primeiro momento, precisaríamos tirar algumas conseqüências de um fato que goza de grande unanimidade: a gramaticalização é um processo de criação lingüística, o que demandará uma teoria dinâmica sobre a língua. Mais que isso, a gramaticalização é um dentre outros processos de criação lingüística, o que demandará a postulação de uma teoria multissistêmica da língua, a que correspoderá um conjunto de processos.

Uma teoria dinâmica e multissistêmica nos permitiria  - se a desenharmos algum dia!  - dar conta da grande quantidade de fenômenos que temos estudado sob a rubrica “gramaticalização”, permitindo, ademais, enquadrar este processo entre outros, igualmente relevantes para o entendimento da criatividade lingüística. 

Para escapar da estatividade, poderíamos assumir que a língua é um multissistema dinâmico, que pode ser graficamente representado numa forma radial, tendo ao centro o Léxico e à volta o Discurso, a Semântica e a Gramática. Tais subsistemas seriam por postulação teórica independentes uns em relação aos outros, dispondo cada um de categorias próprias. 

Admitiríamos também que nossa mente opera simultaneamente sobre o conjunto  das categorias lexicais, discursivas, semânticas e gramaticais. Os produtos lingüísticos que daí resultam podem ser representados sob a forma de uma constelação. Quero com isto dizer que uma mesma expressão lingüística exibe simultaneamente propriedades lexicais, discursivas, semânticas e gramaticais, variando o grau de saliência entre elas, por razões pragmáticas.

Dialogando com os textos de Morris (1938), Franchi (1976) e Nascimento (1993), vou portanto assumir que a língua tem uma natureza multissistêmica, capturada em termos dos quatro sistemas acima mencionados. Insisto em que esses sistemas são independentes uns de outros, não sendo postuláveis implícita ou explicitamente regras de determinação entre eles. Isto quer dizer que o Discurso não estipula a criação dos sentidos e das estruturas gramaticais. Analogamente, Semântica não estipula a criação das categorias discursivas, nem as estruturas gramaticais que “empacotam” sentidos e categorias gramaticais. No atual quadro dos meus conhecimentos, não vejo vantagem em estabelecer uma hierarquia entre Discurso, Semântica e Gramática, como tacitamente pretendem os autores de estudos sobre a gramaticalização.

 

1. A língua como um multissistema

 

Eis aqui uma descrição sumária desses subsistemas.

 

O Léxico será definido como um conjunto de propriedades cognitivas abstratas, potenciais, prévias à enunciação, com base nas quais construímos os traços semânticos inerentes. Entendo por categorias cognitivas VISÃO, COISA, ESPAÇO, TEMPO, MOVIMENTO, etc., e por subcategorias, digamos, de VISÃO, FUNDO / FIGURA, de ESPAÇO, a (i) VERTICALIDADE / HORIZONTALIDADE / TRANSVERSALIDADE, (ii) a DISTÂNCIA / PROXIMIDADE, (iii) o CONTINENTE / CONTEÚDO, etc.  Os traços semânticos inerentes são constituídos a partir dessas categorias, tais como /animado ~ inanimado/ a partir de COISA, /télico ~ atélico/ a partir de MOVIMENTO, e assim por diante.

Combinando categorias e traços de diferentes modos, obtemos os itens lexicais, que serão realizados no dicionário seja como um Nome, um Advérbio, uma Conjunção ou uma Preposição. Quer dizer que a cada um desses itens corresponde determinado arranjo de traços, não sendo sustentável que de um Nome derive um Advérbio, e deste uma Preposição, por exemplo.

É bem visível que estou seguindo os autores que entendem o Léxico como um conjunto de traços semânticos, não como um conjunto de palavras, situando-o ademais no centro do sistema lingüístico. Quando adquirimos o Léxico, provavelmente adquirimos em primeiro lugar esses traços e a habilidade de combiná-los em diferentes padrões, e em segundo lugar as palavras em que por convenção social esses padrões se abrigam. Estou, portanto, propondo que o Léxico seja entendido nos quadros de uma hierarquia que vai da cognição pré-verbal para a expressão verbal. 

O Discurso é uma sorte de contrato social que estabelecemos lingüisticamente, de que decorrem os usos lingüísticos. Esse subsistema está fulcrado no eixo dêitico, isto é, na instanciação das pessoas do discurso e em sua localização no ESPAÇO e no TEMPO. Satisfeitas essas condições prévias, dá-se a interação através de estratégias pragmáticas que nos revelam as categorias discursivas do turno conversacional, tópico, unidades discursivas, nexos textuais, etc. (Castilho 1989). Situam-se nesta perspectiva a organização dos gêneros discursivo, as operações de parafraseamento, parentetização, e assim por diante.

A Semântica é a criação dos significados baseada em estratégias cognitivas tais como o emolduramento da cena, a hierarquização de seus participantes, a organização do campo visual, a movimentação real ou fictícia dos participantes, sua reconstrução através da metáfora e da metonímia, etc. Daqui resultam as categorias semânticas de dêixis, referenciação, predicação, foricidade e conexidade.

Finalmente, a Gramática é um conjunto de estruturas razoavelmente cristalizadas, ordenadas nos subconjuntos da Fonologia, Morfologia e Sintaxe, e governadas por regras de determinação interna. Essas estruturas se expressam por meio das categorias gramaticais, definíveis em termos de classes palavra, sintagma, sentença), relações (regência, concordância, colocação) e funções (argumentos e adjuntos). A regularidade das categorias gramaticais tem sido comumente reconhecida, o que não exclui que a instabilidade é constitutiva da estrutura gramatical.

O ponto central desta proposta, ainda em seus lineamentos muito gerais, é que o Léxico é governado por um dispositivo sociocognitivo de caráter pré-verbal, através do qual o falante ativa, reativa e desativa as propriedades lexicais, dando origem a categorias discursivas, semânticas e gramaticais. Esse dispositivo é “social” porque é baseado numa análise continuada das situações que ocorrem num ato de fala. E é cognitivo porque lida com as categorias cognitivas e os traços semânticos já mencionados. Uma conseqüência dessa postulação é negar que as classes de palavra sejam deriváveis umas de outras. 

A postulação desse dispositivo repousa nos achados dos pesquisadores ligados ao Projeto de Gramática do Português Falado (PGPF). Que mecanismos lingüísticos esses pesquisadores identificaram? Algumas respostas podem ser encontradas em Nascimento (1993), Castilho (1989, 1998b). Pessoalmente, penso que os pesquisadores do PGPF identificaram três mecanismos, que aqui apresento como princípios -mesmo reconhecendo a precocidade deste rótulo. Esses princípios encontram seu fundamento nas estratégias de gestão dos turnos conversacionais- o que situa a conversação como a manifestação discursiva por excelência. Os princípios aqui propostos assentam, portanto, em observações empíricas, não precedem os dados da língua, não são apriorísticos. Sua postulação aparece em versões anteriores, sucessivamente alteradas: Castilho (1998a, b).

 

1.1 - Princípio de ativação, ou princípio de projeção pragmática

 

A ativação é o movimento mental de escolha das propriedades lexicais que se agruparão nas palavras. Os diferentes padrões de agrupamento das propriedades lexicais constroem a dimensão discursiva, semântica e gramatical das palavras.

Quando conversamos, tentamos o tempo todo prever os movimentos verbais do interlocutor, isto é, se ele completou sua intervenção, ou se ela ainda está em curso, se devemos antecipar o momento de nossa entrada no curso da fala, etc. Para dar conta desse mecanismo, que assegura a manutenção da conversação, Sacks-Schegloff-Jefferson (1974: 702) postularam um “componente de construção de turnos” cujas unidades-tipo, isto é, palavras, sintagmas e sentenças com os quais o falante contrói seu turno, “projetam a próxima unidade-tipo”, numa sorte de antecipação da atuação verbal do interlocutor. Estas afirmações constituem o princípio de projeção pragmática.

No subsistema discursivo, a ativação seleciona as palavras necessárias à hierarquização dos tópicos, à construção das unidades discursivas e sua conexão, etc. A ativação das propriedades semânticas tem o papel de escolher as palavras necessárias à representação da dêixis, da referenciação, da predicação, da foricidade e da conexidade. A ativação das propriedades gramaticais é responsável pela construção dos sintagmas e das sentenças, pela ordenação dos constituintes, pela concordância e pela estrutura argumental. Neste particular, entendo que a atribuição de caso e de papéis semânticos decorre do princípio de projeção estrita, descrita na reflexão tradicional como “transitividade”, “regência”, “valência”, e como “princípio de projeção” em alguns modelos formais. A projeção estrita é uma abstratização obtida a partir da projeção pragmática: Castilho (1998b).

 

1.2 - Princípio de reativação, ou princípio de correção

 

A reativação é o movimento mental por meio de que rearranjamos as propriedades lexicais e as palavras que as representam, retornando por assim dizer a construção do enunciado. Trata-se portanto de uma volta ao enunciado já produzido, abrindo caminho para sua simples repetição, ou para sua paráfrase, ou para a alteração de seu eixo argumentativo, para a mudança do arranjo sintagmático, etc.

Pelo menos dois rótulos têm sido utilizados na literatura para captar este princípio: a poligramaticalização e a reanálise. A reanálise, dada como um dos princípios da gramaticalização, decorre deste impulso da criatividade lingüística. Reanalisam-se as palavras, o que dá lugar às regramaticalizações. Reanalisam-se sintagmas e de sentenças, o que acarreta a mudança da fronteira sintática.

Esse princípio encontra seu fundamento no sistema de correção conversacional. Como se sabe, no curso de uma conversação temos freqüentemente de mudar seu rumo, seja corrigindo nossas próprias intervenções (= autocorreção), seja corrigindo a intervenção do interlocutor (= heterocorreção). O sistema de correção conversacional busca eliminar os erros de planejamento.

O princípio de reativação opera no subsistema lexical dando origem às ressignificações. No subsistema discursivo ele promove a repetição de grandes segmentos, com o objetivo de assegurar a coesão do texto. No sistema semântico a reativação promove a paráfrase, e no sistema gramatical, através da repetição de palavras, esse princípio assegura a constituência sentencial, fato que examinei em Castilho (1997c).

 

1.3 -  Princípio de desativação, ou princípio do silêncio.

 

A desativação é o movimento que ocasiona o abandono das propriedades escolhidas e das palavras que estavam sendo ativadas. Este princípio mostra que o silêncio é igualmente constitutivo da linguagem. A linguagem musical apropriou-se desta característica, alternando-se na pauta as notas, ativadas e reativadas, e as pausas, que são a desativação do som.

Também este princípio assenta nas práticas conversacionais, quando ocorre a chamada “despreferência”. A estratégia da “despreferência” consiste em verbalizar o que não é esperado, violando-se o princípio de projeção pragmática. Isso ocorre quando respondemos a uma pergunta com outra pergunta, quando recusamos um convite, etc. Nestes casos, cria-se na conversação um “vazio pragmático”: Marcuschi (1986).

O princípio de desativação promove no Léxico a morte das palavras. Ele produz no sistema discursivo uma alteração da hierarquia tópica, levando os locutores a manobras tais como os parênteses e as digressões. No sistema semântico, ele está por trás das alterações de sentido presentes nas metáforas, nas metonímias, na especialização e na generalização, por meio dos quais “silenciamos” o sentido anterior e simultaneamente ativamos novos sentidos. Na Gramática, o princípio de desativação é responsável pela categoria vazia, de que se encontram exemplos na Fonologia (sílaba com núcleo vocálico omitido), na Morfologia (morfema flexional zero) e na Sintaxe (elipse de constituintes sentenciais, ou categoria vazia).

É importante entender que esses princípios operam ao mesmo tempo, não seqüencialmente, numa forma prevista por Lakoff (1987). Assim, a desativação ocorre simultaneamente com a ativação, e esta com a reativação. A mente humana parece funcionar de modo mais complexo que um computador, que obedece a instruções seriais, constantes de entidades opositivas do tipo “zero / 1”, ou “sim / não”. O dispositivo sociocognitivo age por acumulação de impulsos, e somente assim poderemos dar conta da extraordinária complexidade da linguagem. Neste quadro, fica difícil concordar com as análises que mencionam o “desbotamento” do sentido, a “erosão” fonética, pois a língua desvela um processo contínuo de ganhos e perdas.

Tendo essas idéias como pano de fundo, parece claro que três programas adicionais precisariam ser desencadeados, o da lexicalização, o da semanticização e o da discursivização, privando a gramaticalização de sua atual centralidade. Examinarei o item vez  à luz dessas possibilidades; parte dos exemplos vêm de Castilho (2001).

 

2. Lexicalização de vez

 

Lexicalização é a criação das palavras via seleção de propriedades cognitivas e de traços semânticos derivados, processando-se sua misteriosa concentração numa forma. A etimologia e os usos de vez permitem identificar essas propriedades.

Vez tem por origem o lat. uicis, “turno, sucessão, alternativa, destino, retorno, reciprocidade, o turno / o papel / o ofício de alguém ou de alguma coisa”. A palavra era defectiva: não dispunha de nominativo, sendo uicis se genitivo, uicem seu acusativo, usado adverbialmente no sentido de “no lugar de”, e uice seu ablativo, igualmente usado como um adverbial, com o mesmo sentido, podendo vir preposicionado (in uicem “para tomar o lugar de, no lugar de”, ad uicem, “no lugar de”): Gaffiot (1947: s.v. vicis), Ernout-Meillet (1967, s.v. uicis, uice, uicem). Para sua história em português, ver Machado (1952-1959, s.v. vez), Cunha (1982, s.v. vez).

 

Os bons dicionários da língua portuguesa mostram que os usos do termo revelam as seguintes propriedades cognitivas de base, de que foram resultando outras propriedades:

 

·       /LUGAR/, perceptível em “tirar a vez de alguém”, de que derivam (i) “substituir / ocupar o lugar de outrem”, como em “fez as vezes do cobrador, para ficar com o dinheiro”, “começou logo a gritar, em vez de discutir calmamente”, (ii) lugar no eixo argumental, como em “em vez de entrar, saiu”, “uma vez que / de vez que você não me ouve, desisto”, “uma vez que você me dê ouvidos, te atenderei”, deslizando já para /TEMPO/ e /QUALIDADE – condição/, nestas acepções.

·       /TEMPO/, que deriva metaforicamente de /LUGAR/, de que decorrem (i) “momento de um evento, próximo ou remoto”, como em “era uma vez uma princesa”, “na vez dele, fique quieto !”, “chegou sua vez”, “desta vez ele não me escapa”, “esta fruta ainda está de vez” [isto é, antes de madura], (ii) “alternância de momentos”, como em “falava de vez em quando / de quando em vez / por vezes” 

·       /QUALIDADE/, conceito abstrato que deriva metaforicamente de /TEMPO/, na indicação de “momentos que se repetem”, de que decorre o Aspecto Iterativo, como em “o trem-de-ferro às vezes chega no horário”, “muitas vezes reclamei contra isso”, “por vezes acho que não tenho a razão”

 

Veremos adiante como o dispositivo sociocognitivo opera sobre essas categorias de base, dando surgimento a diferentes categorias lexicais, gramaticais e afixais.

 

3. Discursivização de vez

 

A agenda da discursivização inclui indagações sobre topicalização (= hierarquia tópica, desvios tópicos por digressão e por parênteses), correção sociopragmática, tratamento da informação, entre outros temas. Alguns lingüistas brasileiros têm estudado a discursivização, sem uma elaboração teórica maior: ver, pelo menos, Castilho (1997a: 60), Bittencourt (1999) e Gorski / Gibbon / Valle / Rost / Mago (2002). Essas referências têm entretanto o mérito de mostrar que há certo desconforto em tratar os temas acima como  casos de gramaticalização, o que significaria fazer confluir para uma mesma dimensão processos lingüísticos de variada ordem.

Um estudo pormenorizado da utilização de vez na organização do texto deveria explorar os seguintes aspectos:

 

(1) Introdução do tópico discursivo, como em:

 

(1) tinha vez que eu não jogava... mas lá  em casa havia umas pessoas que achavam graça... ouviu...(RJ 374)

(2) L1 uhn uhn ... que hoje:: dentro da nossa profissão ainda mais uma vez  falando nela ... até parece que sou emPOLGAdo por ela não é ? ((risos)) não acha? (D2 SP 62)

 

(2) Agregação de informação secundária, enriquecendo a elaboração do tópico, via adjuntos:

 

(3) quando eu estive uma vez em Uberaba houve uma exposição de gado... impressionante os fazendeiros daqueles lugares todos... (RJ 374)

(4) e muitas vezes era uma verdadeira luta domar o carneiro...(RJ 374)

(5) mas depois de você passar...várias vezes na porta da loja...sabendo que lá existia aquela televisão...você...passou a querer... a televisão... (RJ 341)

 

(3) Determinação / indeterminação / impessoalização do tópico, como em

 

(6) A primeira vez a gente nunca esquece.

(7) Muitas vezes já é tedioso.

 

(4) Iniciação de narrativa: seu sentido primordial de “ocasiäo, oportunidade” permite que vez inicie as narrativas, fato observado por Ilari (1992: 183). Nesse papel, a palavra opera como argumento único de verbos monoargumentais apresentacionais, como ser, ter (8), ou como estimulador de uma narração (9):

 

(8) tinha vez que eu não jogava... mas lá  em casa havia umas pessoas que achavam graça... ouviu...(RJ 374)

(9)        L1 - por que o quê ? por onde passa a barata?... os caminhos que ela faz?... os caminhos...

L2 - ah ... verdade ‚...

D1 - e outros animais? como ‚ que fazem pra... pra... com esses animais pra se livrarem deles...

L2 - eu uma vez...

L1 para?

D1 - pra se livrarem deles não ‚...

L1 - ah...

D1 - a senhora ia contar uma história... uma vez...

L1 - [ Baygon...

L2 - ah... eu fui a uma casa antiga... uma casa que pertencia a uma família amiga... então eles queriam que nós fôssemos visitar aquela... aquele solar e... antes de eles venderem queriam que a gente conhecesse (RJ 374)

 

(5) Articulação do discurso, papel em que vez ainda está engatinhando:

 

(10) Das vez, é isso mesmo que ela estava querendo [port. pop., exemplo recolhido por R. Ilari].

(11) Uma vez, um rei procurava um príncipe para casar com sua  filha..  

 

Nesses exemplos, vez ocorre na cabeça do enunciado, articulando o que se segue com o que precede, recuperando seu sentido original de “ocasião”, “momento”.

 

4. Semanticização de vez

 

Precisamos sem dúvida entender mais claramente os mecanismos semânticos das línguas naturais, para configurar a agenda da semanticização. Parece inadequado derivar sentidos abstratos de sentidos concretos, o que teria por fundamento pressupor mentes primitivas, restritas à produção de sentidos concretos, de que teriam resultado mentes mais desenvolvidas, capazes de alçar vôos para domínios abstratos. Outra dificuldade, como já disse, está nas explicações que aludem a um desbotamento semântico (“bleaching”, “fadindg”), como se a permanente criatividade de que é feita a língua implicasse em perdas, sem ganhos, em desmaios, sem despertamentos. Em contrapartida, parece adequado aprofundar as pesquisas sobre a dêixis, a referenciação, a predicação, a foricidade e a conexidade, precedendo tudo isso com indagações sobre como criamos os sentidos.

A semântica de uicis mostra que “do sentido de ‘no lugar de’, passou-se ao sentido de ‘no turno de’, ‘na vez de’” Ernout-Meillet (1967). Cunha (1982, s.v. vez) destaca outros desdobramentos do sentido básico de lugar: “termo que indica um fato na sua unidade ou na repetição, ensejo, ocasião”. Essas observações captam o processo de semanticização do item, que desenvolveu por metáfora vários sentidos: da representação do ESPAÇO (Locativo: “em determinado momento”, “no lugar de”) > TEMPO (“ocasião”) > QUALIDADE (= Aspecto Iterativo / “repetição”, Conjunção  / “condição”).

Esta seqüência foi formulada por Heine / Claudi / Hünnemeyer (1991a), a qual fornece um quadro interessante para captar as translações de sentido e partir de categorais cognitivas de base. Convém lembrar que na notação desses autores, as letras maiúsculas remetem a sentidos abstratos; entre parênteses, anotei os sentidos específicos de vez, sempre lembrando que em minha representação o sinal “>” significa disposição radial, não linear.

Algumas palavras derivadas de vez preservaram os elos acima representados: lat.  uicario > port. vigário, “o que fica no lugar de”, “substituto”, preservou /LUGAR/; lat. *uicata > port. arc. vegada “uma ocasião”, “uma vez” preservou /TEMPO/; revezar  “ter seu turno de novo” preservou /QUALIDADE/ - Aspecto.

Ilari (1992 e 1998) discrimina na semântica dessa palavra vez1, que “expressa a reiteração cíclica de eventos”, construindo expressões que respondem à pergunta quantas vezes?, e vez2, “ensejo”, “ocasião”, “oportunidade”, que “intervém nas expressões certa vez, uma vez, normalmente utilizadas para introduzir desenvolvimentos narrativos bastante amplos”. O arranjo que apresentei no item 2 inverte a indiciação proposta por Ilari, pois considero /LUGAR/ mais básico que / TEMPO/. Seria necessário, também, debater o estatuto da homonímia na perspectiva oferecida por este texto.

É alta a freqüência de uso de vez, seja compondo um adverbial predicativo aspectualizador (Ilari 1992, Castilho 1999 a, b), seja compondo um adverbial semelfactivo, como em:

 

(12) e uma vez por semana eu me dou o luxo de comer do::ces...sabe ? (DID RJ 328: 47).

(13) você disse... uma vez... em aulas passadas... que...(RJ 364)

 

 e o iterativo, como em

 

(14) tu viajas deixa o apartamento e muitas vezes essa segurança também pifa (D2 POA 291: 1382).

(15) ao rever os seus objetivos muitas vezes o professor se dá conta de que (...) (EF POA 278: 60).

(16)   a temperatura às vezes de 40 graus à sombra... o pessoal de gravata e calça comprida (D2 POA 291: 788).

(17) o brasileiro come muito mal (...) às vezes... muitas vezes talvez seja o... o aspecto do... do poder aquisitivo de cada um...né ? (D2 POA 291: 19)

(18)    não... não come [peixe cru] já se fez várias vezes... na tua casa mesmo (D2 POA 291: 50).

(19)    algumas vezes já vi [essas danças] até já enjoei (DID POA 45: 478).

(20) mandavam a gente copiar a mesma lição uma porção de vezes (DID POA 45: 344).

 

É comum omitir o núcleo do sintagma nominal constituído por vezes, em função adverbial, restando apenas o especificador quantificador preenchido por muito, pouco, bastante, numa forma aparentemente neutra, preservada a noção de iteratividade:

 

(21) se usa muito o termo extrapolação (EF POA 278: 221].

(22) eu que saio bastante (DID POA 45: 103),

 

isto é,

 

(21a) se usa muitas vezes o termo extrapolação

(22a)   eu que saio bastantes vezes

 

A iteratividade representada pelos adverbiais constituídos a partir do item vez pode ser universal, partitiva ou distributiva, na dependência do especificador do sintagma nominal de que ele é o núcleo.

Na iteratividade universal, o adverbial seleciona a totalidade dos indivíduos que compõem o conjunto verbalizado pela classe-escopo:

 

(23)    síntese é toda vez que for produzida uma nova comunicação (EF POA 278: 360)

(24)    chove em São Paulo todas as vezes que saio sem guarda-chuva.

 

Na iteratividade partitiva, o adverbial seleciona uma parte dos indivíduos que compõem o conjunto descrito pela classe-escopo, como em muitas vezes, poucas vezes, às vezes, inúmeras vezes, várias vezes, algumas vezes, uma porção de vezes. A quantificação partitiva se acentua naqueles casos em que antes de vezes aparece a preposição de, como em a maior parte das vezes, a menor parte das vezes.

 

Finalmente, na iteratividade distributiva o adverbial seleciona alguns desses indivíduos, omitindo outros:

 

(25)    cada vez que chego à Universidade, lá está ele plantado na porta.

(26)    esse meu orientando me procura umas vezes sim, outras vezes não, já estou ficando maluco por causa dos prazos.

 

5. Gramaticalização de vez

 

5.1 - Fonologização: no singular, o item perdeu uma sílaba, continuando dissilábico no plural. Isso mostra que a palavra não sofreu alterações fonológicas muito profundas, nem mesmo quando usado como afixo.

 

5.2 - Morfologização: operando sobre o elenco de traços lexicais apresentado anteriormente, o dispositivo sociocognitivo compôs diferentes classes de palavra:

 

(1) Substantivos, ativando /LUGAR/ e desativando as categorias derivadas de /TEMPO/ e /ASPECTO/:

 

(27) Não pretendo tirar a vez de ninguém.

 

(2) Adverbiais semelfactivos e iterativos, ativando /QUALIDADE/ e /ASPECTO/, e desativando /LUGAR/, podendo o N vir    preposicionado ou não:

 

(28) não... tive uma vez com uma moça que era... trabalha na pesquisa... no Rio Grande do Sul eh... e ela estava falando dessas coisas (RJ 374)

(29) você alguma vez jogou no bicho? (RJ 374)

(30) às vezes quando eu era pequena meu pai tinha uma fazenda em Queluz... cidade de São nós íamos... lá ...

(31) de vez em quando a gente lê em jornal mesmo no Brasil e em outros países também mais ( ) problemas ligados a certos animais que estão desaparecendo né      ? (RJ 374)

 

Repetindo o item, e mantido o mesmo arranjo acima, obtém-se:

 

(32) De vez em vez penso que as coisas estão melhorando.

 

O papel das preposições precisaria ser aqui examinado com mais detalhe.

 

(3) Advérbio modalizador de dúvida, português arcaico tamalavez, moderno talvez, ativando /QUALIDADE/ e /MODO/ e desativando /LUGAR/ e /TEMPO/:

 

(33) muitos de vocês tenham chegado à adolescência um pouco mais cedo… ou talvez… um pouco mais tarde (RJ 364)

(34)    é claro… e o ponto mais BACANA é o aspecto é… da história de (   ) talvez… mas é que em muitos casos o ratinho se salva…(RJ 251)

(35) não sei se seria cobra não venenosa… não … talvez fosse…(RJ 374)

 

(4) Locução conjuncional, ativando /LUGAR/ como “substituição” e como “espaço no eixo argumental”, /QUALIDADE/ como “condição”, e desativando /TEMPO/:

 

(36) o que acontece é que em vez de se ampliar… pertinentemente o âmbito do ensino… o que está ocorrendo nos nossos alunos é uma fragmentação do ensino…(RJ 356)

(37) então em vez de o professor riscar aqui o arbitrário com agá… o professor apenas sublinha o arbitrário e dá ao aluno as fontes onde ele pode encontrar essa palavra corretamente escrita… ou seja… um dicionário.(RJ 356)

(38) uma vez que a renda... nós vimos na Revolução Industrial... estava mais uniformemente dividida...(RJ 382)

(39)  uma vez que partimos do pressuposto... de que o estudante universitário não pode ser analisado como um fenômeno isolado daquela realidade...(RJ 356)

(40) Uma vez que você faça tudo certinho, o emprego será seu.

 

(5) Afixo, ativando /LUGAR/ como “substituição” e desativando os demais valores. A seleção desse traço se encontra no prefixo culto vice-, popular e arcaico viso-, em viso-rei, com a variante vis-, em visconde.

 

Como conjunção e como prefixo, vez se desnominaliza, atingindo o ponto máximo de sua morfologização.

           

5.3 -  Sintaticização

 

A defectividade morfológica de vez tem como correlato a diversidade de suas propriedades funcionais. Com efeito, num primeiro levantamento no corpus do Projeto NURC, vez está em processo de desnominalização, predominando a função de adjunto adverbial (51,5%), e a de nexo (39,3%), se juntarmoss aqui as ocorrências enquanto conjunção e articulador discursivo. A isso se contrapõe o seu papel como argumento único (6%) e como complemento oblíquo (3.2%). Ernout-Meillet mostram que o fato já se notava no latim, em que predominava o uso adverbial, agregando que ele ocorria seja no acusativo, seja no ablativo (como em uice uersa, literalmente,  “alternado o lugar”).

 

Primeiras conclusões

 

Os argumentos arrolados mostram que há certa urgência em debater teoricamente os processos de lexicalização, discursivização, semantização e gramaticalização. Reconheço, naturalmente, que muita pesquisa precisa ainda ser feita para arredondar meus argumentos. Caminhando nessa direção, proponho a seguinte agenda para os debates futuros sobre a gramaticalização:

(1) No que diz respeito ao Léxico, vamos temporariamente deixar de lado a afirmação segundo a qual categorias menores derivam de categorias intermediárias, e estas de categorias maiores, num ritmo unidirecional. Os movimentos sociocognitivos contínuos e simultâneos de agrupamentos de propriedades parecem suficientes para explicar a criação das palavras, e mostram a multidirecionalidade desse processo. A criação  do Vocabulário das línguas naturais deve proceder daqui, muito menos do que estranhas mudanças de uma classe para outra. O grande desafio continua a ser a identificação das categorias cognitivas básicas e dos traços semânticos derivados, tarefa que poderá desvendar esse mecanismo. Será necessário refinar as pesquisas nessa direção, somando esforços com aqueles que vêm trabalhando na Semântica Cognitiva e na Semântica de traços.

(2) Outra questão a retirar de nossa agenda é o tratamento derivativo que se estabeleceu entre Gramática, Discurso e Semântica. Deixando de lado uma percepção linear desses subsistemas da língua, compreenderemos melhor as relações entre eles se postularmos que são de caráter (i) indeterminado, (ii) pancrônico, (iii) radial, (iv) muldirecional. Juntamente com a lexicalização, os processos de constituição lingüística gerados nessas instâncias precisariam ocupar nossas atenções, concentrando-se nossos esforços para o entendimento das línguas naturais em sua dinamicidade. É claro para mim que centralizar toda a criatividade lingüística na gramaticalização restringe e obscurece o entendimento de como as línguas funcionam.

(3) A gramaticalização cinde-se em três subprocessos: fonologização, morfologização e sintaticização, os quais ocorrem simultaneamente, sem uma hierarquia de precedência entre eles. A unidirecionalidade só pode ser comprovada no tratamento das palavras no interior de cada um desses subprocessos – e por aqui vai ficando o famoso princípio da unidirecionalidade. Acredito que a ação do dispositivo sociocognitivo, uma vez mais detalhado e melhor entendido, fornecerá as bases teóricas para o entendimento da gramaticalização, da regramaticalização e da desgramaticalização.


 

PARTE III- RESENHA DOS ESTUDOS SOBRE GRAMATICALIZAÇÃO

 

Apresentamos inicialmente uma relação não exaustiva dos estudos sobre gramaticalização, desenvolvidos ultimamente no Brasil, assinalando com um asterisco aqueles resumidos neste texto. Esses estudos, muitos dos quais realizados fora do PHPB, cobrem os seguintes tópicos [13]:

 

·       Trabalhos de conjunto: Martelotta / Votre / Cezario (Orgs. 1996), Castilho (1997a), Neves (1999).

·       Aspectos teóricos e metodológicos: Martelotta / Votre / Cezario (1996), Ferreira / Cezário / Oliveira / Martelotta / Votre (2000), Naro / Braga (2001), Gorski et alii (2003).

·       Nome: Bittencourt (1999), Castilho (2001).

·       Verbo: Ilari (1986), Martelotta / Leitão (1996), Mattos e Silva (1999), Galvão (2000, 2002), Callou / Avelar (2001), Kewitz* (2002a,b), Gonçalves (2003).

·       Pronomes e expressões de tratamento: Freitas (1995), Omena / Braga (1996), Vitral (1996), Vitral / Ramos (1999*), Lopes (1999 / 2003, 2002), Ramos (2000*), Ramos / Oliveira (2002*), Salles (2002), Menon / Lambach / Mandarin (2003), Souza (2003).

·       Advérbios: Cunha (1996), Vitral (2000), Braga / Silva / Soares (2001), Ramos (2002), Braga / Paiva (2003), Costa (2003), Martelotta / Barbosa / Leitão (2002a,b*).

·       Conjunções e integração de sentenças: Cezário / Gomes / Pinto (1996), Castilho (1997b), Barreto (1999), Pezatti (2000), Ignácio / Hintze (2001), Longhin (2003), Módolo (em andamento).

·       Preposições: Viaro (1994), Baião / Arruda (1996), Macêdo (1997), Poggio (1999), Castilho / Viaro et alii (2002*), Guedes / Berlinck (2002).

·       Operadores discursivos e argumentativos: Risso (1993, 1996), Martelotta (1996), Martelotta / Rodrigues (1996), Martelotta / Alcântara (1996), Braga / Silva / Soares (2001), Souza (2001), Gorski / Gibbon / Valle / Rost / Mago / Freitag (2002), Tavares / Görski (2002), Mago / Görski (2002).

 

 

1. Gramaticalização de Pronomes

 

 

1.1   - Célia Regina dos Santos Lopes - O percurso de a gente em tempo real de longa duração. Em R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, Volume II – Tomo I – Primeiros Estudos. pp. 127-148). Resumo feito por Ilza Ribeiro.

 

O texto trata da gramaticalização ou pronominalização da forma substantiva gente como pronome indicador de primeira pessoa: a gente. A autora traça um percurso histórico desta forma, desde o português arcaico.

A análise mostra que, neste processo da gramaticalização, houve perdas e ganhos de propriedades formais e semânticas. A identificação e interpretação dos traços formais e semânticos de gênero, número e pessoa em relação a gente (substantivo) e a gente (pronome), seguindo a perspectiva de Rooryck (1994) para as subespecificações destes traços nas línguas humanas, ilustram esta questão:

 

a) GÊNERO: gente (nome) [+fem, OFEM] > a gente (pronome) [Ofem, αFEM], com perda do traço formal [+fem] e ganho de subespecificação para o traço semântico.

O exemplo a seguir mostra a não-correlação entre traço formal [+fem] e traço semântico [OFEM = neutro, não-marcado] de gênero no substantivo gente:

 

(1) ... quem governava, e mandava era elle Epifanio e Manoel Congo, e que todos os dias de manhã mandava reunir a gente e contava o número della (Insurreição dos negros, fala de Miguel Crioulo, p. 48/49, séc. XIX)

 

O substantivo a gente coocorre com o pronome della, indicando que o gênero formal é [+fem]; contudo seu significado não é [+FEM], pois se refere a um agrupamento de pessoas de ambos os sexos (o réu e seus companheiros escravos)

Por outro lado, a forma pronominal tem o gênero formal neutro ou não-marcado [Ofem], mas o gênero semântico pode ser subespecificado para [+FEM] ou [-FEM], como ilustrado nos seguintes exemplos:

 

(2) a)  A gente ficou arrasada com as inundações

b) A gente ficou arrasado com as inundações

 

Também nos pronomes pessoais “legítimos” (eu, tu, nós,..), o gênero formal é zero [Ofem], mas são subespecificados quanto ao gênero semântico [αFEM].

 

b) PESSOA: gente (nome) [Oeu, OEU] > a gente (pronome) [Oeu, +EU], com ganho, para o pronome, de subespecificação do traço semântico de pessoa, incluindo a pessoa que fala. O traço formal de pessoa [Oeu] se mantém, por continuar a se combinar com verbos em P3:

 

(3) a)  a gente, dentro da nossa cabeça, ... (AC01, NURC/RJ)

b) a gente tem uma paisagem bonita no Rio (NURC/RJ)

 

c) NÚMERO: gente (nome) [αpl, +PL] > [Opl, +PL] > a gente (pronome) [Opl, OPL], com dois estágios evolutivos. No segundo, o traço formal de número passa a ter valor default, mantendo a interpretação semântica [+PL]:

 

(4) a) Quando viu o mundo quel o eu vi, / e viu as gentes que eran enton (Canc. Ajuda, séc. XIII)

b) mas o monge lla cuidou / fillar, mas disse-ll” a gente (Cant. de Santa Maria, séc. XIII)

 

Assim, há perda da possibilidade de construções como a exemplificada em (4a).

No terceiro estágio da gramaticalização, a interpretação semântica também passa a ter um valor default, designando um todo abstrato, indeterminado e genérico, designando o conjunto “ser-pessoa” e perdendo gradativamente o sentido de “+de um”, o que possibilitou sua combinação com verbos no singular. Os exemplos a seguir ilustram as (im)possibilidades de construções, segundo as três fases:

 

FASE I = [αpl, +PL] (substantivo gente ~ gentes)

 

(5) a) Sobre as armas e caualos que tem as gentes dos conçelhos são feitas tantas e tam boas ordennações que não saberia hy al diujsar (D. Duarte. L. Da Cartuxa)

 b) ... a geral gente sera ysto proueytosso çerto non mas antes non proueytosso (D. Duarte)

 

FASE II = [Opl, +PL] (substantivo gente)

 

(6) a)   Muita gente gosta de fazer isso.

b) *Muitas gentes gostam de fazer isso.

 

FASE III = [Opl, OPL] (pronome a gente)

 

(7) a) *As gentes comem mal.

b)  A gente come mal

 

A autora trabalha com uma amostra de 270 ocorrências, sendo 126 do substantivo gente e 144 da forma pronominal. As ocorrências de gente como pronome são atestadas na segunda metade do século XIX; entre os séculos XVI e primeira metade do XIX, há exemplos esporádicos que apresentam ambiguidades quanto a uma leitura de substantivo (=pessoas) ou de pronome (=nós), como nos seguintes exemplos:

 

Séc. XVI

(8) Também há muita infinidade de mosquitos prinçipalmente ao longo dalgu) Rio antre hu)as aruores q) se chamão manges não pode nenhu)a pessoa esperallos e pello matto quando não há viração são muj sobeios e perseguem muito a gente. (GÂNDAVO, P. 1965:235)

 

Séc. XVII

 (9) (...) E os tigres, em tanta cantidade (por não haver descampados), que, em se metendo u)a rês no mato, não sae, e o mesmo risco corre a gente, se não anda    acompanhada, e pelos rios e lagos dos jaguarés ... (BERNARDO, 1996:28)

 

Séc. XVIII

Rosinha - A prima Maricota disse-me que era uma coisa de pôr a gente de queixo caído. (JÚNIOR, 1882:165)

Nos três exemplos, parece que a interpretação semântica de pessoa genérica do substantivo gente começa a sofrer mudança. A possibilidade de incluir o falante na interpretação dos exemplos indica uma mudança no traço semântico de pessoa.

O traço de subespecificação do número formal [αpl] está presente até o século XIX, embora, paulatinamente, o traço [Opl] ganhe terreno, apresentando uso categórico no século XX. É no século XVI que se tem evidência da segunda fase do processo de gramaticalização, com 75% dos dados apresentando os traços [Opl, +PL].

Outro aspecto considerado atuante na pronominalização é a diminuição gradativa de realização do artigo diante do substantivo gente: no séc XIII, é comum o uso do artigo (a gente, as gentes); nos séculos subseqüentes, o artigo torna-se mais raro e outros tipos de determinantes começam a ocupar  sua posição (minha gente, essas gentes, muita gente, ...). À medida que o artigo se cristaliza na forma pronominal (a gente), mais rara se torna sua realização diante do substantivo gente.

 

1.2 - Célia Regina dos Santos Lopes - De gente para a gente: o século XIX como fase de transição. Em: T. Alkmim (Org. 2002: 25-46). Resumo feito por Ilza Ribeiro.

 

O texto apresenta uma análise quantitativa e qualitativa da mudança categorial do substantivo gente para o pronome a gente, com base em dados do século XIII ao XX, mostrando que o processo de gramaticalização foi lento e gradual. Os pesos relativos indicam os séculos XVII-XVIII como os períodos em que se inicia a pronominalização do substantivo gente, embora as taxas de uso sejam baixas até antes do século XX. Dos 212 dados levantados em textos do século XIX, 31% são de a gente pronominal e 69%, de emprego da forma substantiva; para os séculos XVII e XVIII foram levantados 125 dados, dos quais 90.4% são da forma substantiva.

Nos séculos XIII-XVI, as ocorrências de gente não apresentam, em geral, ambigüidade interpretativa; são poucas as ocorrências de usos de a gente ambíguos em relação a uma leitura de "pessoas" (substantivo - a não-pessoa) ou de "nós" (pronome - +EU). A partir do século XVI, começa uma escala de ampliação dessa ambigüidade interpretativa, com 2 casos no século XVI; 2, no XVII; 9, no XVIII; e 36, no XIX. Exemplos são dados a seguir:

 

(1) O jograr por tod' aquesto | non deu ren, mas violou como x' ante violava, | e a candea pousou outra vez ena vyola; mas o monge lla cuidou fillar, mas disse-ll' a gente: "Esto vos non sofreremos".

A virgem Santa Maria ....(p. 27, V.I, CSM, Século III)

(2) Quanto mais se chega a fim do mundo, atodo andar, tanto a gente é mais ruim! (Gândavo, p. 230, século XVI)

(3) (...) E os tigres, em tanta cantidade (por não haver descampados), que, em se metendo ~ua rês no mato, não sae, e o mesmo risco corre a gente, se não anda acompanhada, e pelos rios e lagos dos jaguarés ... (Bernardo, 1996: 28 - Século XVII)

(4) Rosinha - a prima Maricota disse-me que era uma coisa de pôr a gente de queixo caído (Júnior, 1882:165 - século XIX)

 

O século XVII é visto como o início do período de transição, em que gradualmente o traço de pessoa do a gente passa a permitir de forma mais nítida uma leitura incluindo o falante: cresce o número de casos ambíguos, decresce o número de emprego de a gente como sinônimo de "pessoa"; no século XIX, as interpretações ambíguas deixam de ser possíveis, o que caracteriza este período como o momento decisivo neste processo de gramaticalização. (Figura 4.5). Desta forma, a mudança é vista de forma dinâmica, refletindo um continuum de perda gradativa de traços formais.

Além do fator relacionado com a categoria lexical (substantivo ou pronome), a autora controlou os seguintes fatores:

 I - Concordância interna no SN, para controlar a subespecificação de número formal no substantivo (esta gente / estas gentes); os usos de formas no singular favorecem o processo evolutivo gente > a gente. No século XVI, há 74% de casos sem o traço formal de número; a partir desse período, o uso de gente só no singular ganha terreno, chegando a 100% no século XX.

 II - Traços formais e semânticos de gênero, desde que gente substantivo se refere a um agrupamento de pessoas [+genérico], enquanto a gente pronome apresenta subespecificação semântica quanto ao gênero [?FEM]. Do século XIII ao XV, há várias possibilidades de concordância de um predicativo adjetival com o sujeito gente/a gente, ocorrendo 17 casos no feminino (9 no plural) e 6 no masculino plural; nos séculos XIX e XX, a morfologia realizada é de feminino singular. O uso significativo de dados que apresentam ambiguidade interpretativa e a concordância de a gente com adjetivos no feminino referindo-se a personagens masculinos evidenciam a transitoriedade do processo.

 III - Traços de pessoa, verificando-se uma preferência pelos usos de P6 nos século XIII-XIV (68%), comparados aos 28% no século XV, chegando a 0% no século XX. Assim, a partir do século XVI é que a freqüência de P3 começa a se tornar relevante.

 IV -Os dados do século XIX mostram, quanto ao fator gênero (sexo), uma maior realização de a gente pronominal na fala feminina, com .77 de peso relativo. Nas obras analisadas, as mulheres representam personagens populares, caricaturais. Isto permite concluir que a disseminação desta gramaticalização resulta de um processo de baixo para cima, tendo sido implementada pelas mulheres. Caracteriza-se também como conseqüência de uma mudança encaixada lingüística e socialmente, iniciada com as reestruturações das formas nominais e pronominais de tratamento entre interlocutores. O uso dêitico da forma a gente também é apontado como favorecedor da gramaticalização, com peso relativo de .94. Também a forma pronominal a gente é favorecida com a interpretação +genérica (.62) do que específica (.44). Associados à interpretação genérica, os tempos verbais do subjuntivo (.92), do presente do indicativo (.51) e formas infinitivas (.87) favorecem a forma pronominal a gente.

 Separando dados do português europeu dos do PB, a autora considera que a mudança no Brasil ocorre realmente a partir do século XX, pois no século XIX o peso relativo para a probabilidade de ocorrência de a gente pronominal é de .19, sendo de .84 no século XX.

 

1.3 – Marilza de Oliveira e Jânia Ramos (2002) -  O estatuto de 'você' no preenchimento do sujeito. Comunicação apresentada no XIII Congresso Internacional da ALFAL, Costa Rica.

 

Estudos como os de Duarte (1993, 1995), Roberts (1993), Galves (1993), Faraco (1996) apontam para a perda do sujeito nulo no PB. Duarte (1993) atribui a mudança na realização do sujeito à redução do paradigma flexional do verbo no PB. A entrada da forma "você", originalmente um pronome de tratamento, no sistema de pronomes pessoais levou à neutralização das formas verbais de 2a. e 3a. pessoas. Apoiando-se nesses dados, Roberts (1993) sugere que o enfraquecimento da morfologia verbal no PB não se deve a mudanças fonológicas, mas sim à reorganização do sistema pronominal.

Oliveira (2001, 2001a) propõe que o enfraquecimento da flexão verbal do PB está pautado em uma mudança fonológica ocorrida no português medieval (séc. XV), a saber, a queda do /d/ nas formas verbais de 2a. pessoa do plural. A autora sugere que a queda do /d/ cria encontros vocálicos que são desfeitos pela semivocalização e pela crase. Essas duas resoluções para a dissolução do hiato configuram duas gramáticas distintas: a primeira reconstitui o paradigma verbal com a inserção da semivogal; a segunda, resultado da crase, provoca a composição de uma paradigma verbal com formas neutralizadas para a 2a. pessoa do singular e a 2a. pessoa do plural. Tem-se aí a representação das gramáticas do PE e do PB, respectivamente. Textos quatrocentistas registram a variação nas formas de 2a. pessoa do plural:

 

(1) E quero logo saber de vos se vos prazerá que os tyre fora, ou a maneira que em ello quereis ter, ... (Crônica de D.Pedro, de E. Zurara, p.378)

(2) Como querês, Rruy Gomez, _ disserã allg~us dos outros _ que vamos a cometer tall pelleja, ... (Crônica de D.Pedro, de E. Zurara, p.374)

 

O apagamento do /d/ intervocálico podia atingi tanto o morfema lexical quanto o morfema flexional do verbo. A queda do /d/ no morfema lexical deixa intacta a diferença entre as formas do singular e do plural:  

 

(3) Rei Bandemaguz, eu hei mui gram pesar porque vaas a esta demanda, ca tu i morrerás. (Demanda do Santo Graal:48)

(4) Senhor, verdade é, mais rogo-vos, se vos aprouguer, que vaades comigo a aquela foresta...(Demanda do Santo Graal:19)

 

Em alguns casos /d/ intervocálico do morfema lexical é mantido à expensa do morfema flexional (podetis > podedes > podees > podês) e a distinção entre a 2a. pessoa do singular e plural é mantida apenas pela distribuição do acento:

 

(5) Senhor, vos nom devees n~e podees dereitamente emtrar em Portugall (Cronica del Rei Dom Joham I, Fernão Lopes, p.96)

(6) [...] E assy, senhor, que não ponhais fundamento nessas cousas, caa podês por ellas ficar muito ~eganado. (Cronica de D.Pedro, de Zurara, p. 531)

(7) Ora _ disse elle _ podes dezer o que te prouver, ca pois Abu me tem nessa pose e eu não quero sayr della... (CP:416)

 

Em outros casos, nem a distribuição do acento garante a distinção entre singular e plural. A diferença entre o singular (tomasses) e o plural (tomassês) está apenas na forma tensionada da vogal <e> na 2a. pessoa do plural, resultado da crase:

 

(8) E porque ally nõ estaa tall capitão em que nos tenhamos tall fiança, queriamos que vos tomassês parte dessa empresa. (CP:562)

 

Na Demanda e nas cartas enviadas aos jornais do século XIX a variação morfofonológica entre as formas do singular e do plural se estende para outras expressões verbais, como o pretérito perfeito:

 

(9) Rei Artur, eu me vou pera o Paraíso, que me tu quisestes tolher per tua luxúria; (DSGraal:225)

(10) Galvam, vós me havedes morto e escarnido, que me mataste meu sobrinho... (DSGraal:114)

(11) Dizeis ainda, meu jurisconsulto de tarimba, que o delegado não podia derrogar um uso, e invocastes o chavão, que citasteis de orelha _ que o uso faz lei. Para que vos metteis á tralhão, meu rabula quadrado? Já que fallasteis em uso fazendo lei, pergunto-vos, com que condição o uso faz lei? (...)Porque não pescasteis isto ahi com algum moço do 3.o anno? Isso evitaria que viesseis tocar rabeca com arco de taquara. (O Correio Paulistano 22/07/1854)

 

Oliveira (2001a) correlaciona o percurso evolutivo das formas verbais com o aparecimento das formas nominais de tratamento, em particular Vossa Mercê (de que deriva 'você'), introduzidas também em meados do século XV (Santos Luz 1957). Oliveira e Ramos (2002) observam que as formas de tratamento podiam concordar com o verbo na 2a. pessoa do plural ou na 3a. pessoa do singular, respectivamente em:

 

(12)  Senhor, _ disse elle _ eu farey vosso mamdado, pero eu quisera que vos ho forais amte per mão do comde, meu senhor e padre, que he tam homrrado como vossa merçe sabe e como he sabido per muitas partes do mundo. (CP:694)

(13) Mas vossa merçee sayba que Aabu me disse que eu viesse a vos... (CP:416)

 

A concordância das formas de tratamento na 2a. pessoa do plural deve ter ocorrido na gramática que recompôs o paradigma verbal, o PE; a concordância das formas de tratamento na 3a. pessoa do singular deve ter sido comum à gramática representada pela neutralização das diferenças entre as formas do singular e do plural, o PB.

 

Além da diferença na pessoa do verbo, a forma nominal 'Vossa Mercê' passou por um processo de perda de massa fonética¨, que levou à sua gramaticalização: nome > pronome > clítico. Uma vez gramaticalizado, 'você' constituiu uma escolha para a efetivação do preenchimento do sujeito na gramática II, que caracteriza o PB, mas não foi o gatilho para o preenchimento. Essa hipótese está em consonância com a proposta de Moraes Castilho (2001) de que o PB tem base quatrocentista.

 

 

2. Gramaticalização de Advérbios

 

2.1 - Mário Eduardo Martelotta (UFRJ) / Afranio Gonçalves Barbosa (UFRJ) / Mário Martins Leitão (UFRJ) -Ordenação de advérbios intensificadores e qualitativos em -mente em cartas de jornais do século XIX: bases para uma análise discrônica. Em Duarte / Callou (Orgs. 2002: 167-176).

 

O trabalho analisa as tendências de ordenação dos advérbios indicados em cartas de jornais e em anúncios do século XIX, comparando-os com ocorrências do século XVI.

 

Foram considerados apenas os advérbios que têm um verbo por escopo, dada a maior possibilidade de colocações nesse ambiente. A hipótese que anima o trabalho é a de Pagotto (1999), segundo a qual até o século XVIII a posição pré-verbal era disponível para qualquer tipo de advérbio, situação que se altera do século XIX em diante, continuando aí apenas as estruturas comparativas.

 

As seguintes posições foram consideradas:

 

P1 – antes do sujeito

P2 – entre o sujeito e o verbo

P3 – antes do verbo sem sujeito expressso

P4 – depois do verbo, sem outros complementos ou advérbios

P5 – entre o verbo e o objeto

P6  - depois do objeto, sem outros complementos ou advérbios

P7  - entre o objeto direto e o objeto indireto

P8 -  entre o verbo e o advérbio, sem complementos

P9 – depois do advérbio

 

No português arcaico, como no atual, predomina a posição pós-verbal, e, 67% dos casos. Os advérbios em –mente e os intensificadores predominaram em P3, disposição não considerada por Pagotto:

 

(1)          [P2] ... o padre e madre direitamente falando

(2)          [P3] honra esta que muito apreciará quem tem a satisfação de confessar-se

 

Os intensificadores apurados nas cartas do século XIX não mudaram muito o quadro do português medieval, com duas “novidades”: (1) ausência de ocorrências em P6 e P9, o que pode ser interpretado como um movimento de aproximação do advérbio em relação ao verbo; (2) diminuição dos casos de P2 e aumento dos de P3, ratificando a hipótese de que a posição entre o sujeito e o verbo é mais típica do português arcaico. Os qualitativos em –mente acentuam essas tendências, como se vê em

 

(3)          V. Ex. Considerava vago o lugar que ele dignamente enchia no senado

(4)          ... sobre os eleitores nós cordialmente lhe agradecemos

 

Observou-se nos anúncios de jornais a tendência à posição pré-verbal P3, predominando P4, o que favorece a hipótese de Pagotto para este século.

 

Em conclusão, comparando as duas fases do português constata-se que no século XIX diminui a liberdade de colocação dos advérbios estudados, o que aponta para uma sintaxe mais rígida.

 

2.2 - Mário Eduardo Martelotta (UFRJ) / Afranio Gonçalves Barbosa (UFRJ) / Mário Martins Leitão (UFRJ) – Advérbios qualitativos e modalizadores em –mente: do português arcaico ao português do século XIX. Texto apresentado ao V Seminário do PHPB (Ouro Preto, MG).

 

Este trabalho analisa os advérbios qualitativos em -mente, observando, em seus usos, três aspectos que são aparentemente distintos, mas, que um estudo mais atento revela estarem bastante relacionados: as suas tendências de ordenação, a polissemia que os caracteriza e o fenômeno da gramaticalização.

Esses advérbios parecem poder se colocar, no português arcaico, não apenas depois do verbo, como é normal atualmente, mas também antes do verbo, aparecendo, inclusive, entre o sujeito e o verbo. Tudo indica, portanto, que havia uma situação de variação no que diz respeito à colocação desses advérbios no português arcaico, que, salvo recurso de estilização, desapareceu na fase contemporânea.

Levando em conta a mudança por gramaticalização, podemos observar que, com o desenvolvimento desse processo, novos usos surgem, especializando-se em posições específicas. É o caso dos advérbios em -mente, que, perdendo valor de qualitativo e assumindo valor modalizador, assumem tendências de colocação diferentes. 0Isso demonstra a importância de se observar a polissemia dos advérbios nos diferentes momentos evolutivos da língua estudados.

Nossa análise pretende verificar a ocorrência e a posição dos advérbios em -mente em textos do português arcaico e do século XIX. Para tanto, utilizamos os corpora: Bíblia Medieval Portuguesa, organizado por Silva Neto (1958), Livro das aves, de Rossi et alii (1965), Livros dos conselhos de El-Rei D. Duarte, transcrito por Dias (1982) e O Orto do Esposo, de Maller (1956) e os Registros médicos, de Bastos (1993), para o português arcaico. Já os exemplos do século XIX são retirados dos corpora do Projeto Para a História do Português Brasileiro (PHPB): cartas publicadas em jornais oitocentistas e de cartas pessoais manuscritas. Os dados recolhidos das cartas pessoais são do Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e Bahia, ao passo que os dados retirados de jornais, além de oriundos desses mesmos lugares, contam, também, com material de São Paulo. A referência à atualidade está baseada em uma pesquisa feita em Pinto (2002), com base em dados de língua falada e escrita, recolhidos do corpus do Projeto Discurso e Gramática, do Departamento de Lingüística e Filologia da UFRJ.

Com respeito aos advérbios em –mente, Pereira (1935) propõe que um processo novo desenvolveu-se em português e nas outras línguas românicas para a formação de advérbios qualitativos: aglutinar o substantivo feminino mente (do latim mentem = maneira, intenção) aos adjetivos, que, com isso passam à forma feminina: justamente, honradamente, etc.

Mas há ainda determinados aspectos do uso de alguns advérbios em -mente que são interessantes para a análise da gramaticalização relacionada a esses elementos. É o que propõem Traugott (1995) e Tarbor e Traugott (1998). Esses autores repensam a noção de unidirecionalidade, com o objetivo de englobar alguns usos de marcadores discursivos que não podem ser explicados pela teoria da gramaticalização, tal como apresentada nas primeiras propostas do início da década de 1990. Nesse sentido, os marcadores podem ter seus usos explicados pela trajetória de gramaticalização advérbio interno à cláusula > advérbio sentencial > marcador discursivo. Essa trajetória caracteriza alguns advérbios portugueses como de fato, com certeza e formações em -mente, como certamente, realmente, verdadeiramente, seguramente, fatalmente, praticamente, obviamente, entre outros.

No que diz respeito ao português arcaico, os dados demonstraram uma a forte tendência dos qualitativos em -mente para ocorrer em posições pós-verbais. Entretanto, há uma quantidade significativa desses elementos em posição pré-verbal, sobretudo entre o sujeito e o verbo. Esses fatos apontam para uma abertura às posições pré-verbais, que não é comum ao português atual. Notamos também uma tendência mais geral que esses advérbios apresentam de ocorrerem próximos ao elemento que modificam, no caso, o verbo. Percebe-se ainda que, quando o sujeito ocorre antes do verbo, há uma tendência maior de o advérbio assumir posição pós-verbal. Isso pode ser visto como uma espécie de processo de equilíbrio entre os elementos na oração. Quanto aos modalizadores, esperávamos, uma quantidade grande de desses advérbios no início da oração. Mas constatou-se quase um equilíbrio com as ocorrências no meio da oração.

No que diz respeito ao português do século XIX, percebemos a mesma tendência do português arcaico para as posições pós-verbais: com as posições pré e pós verbais apresentando percentagens muito parecidas e, do mesmo modo, uma quantidade considerável de ocorrências entre o sujeito e o verbo. Esses fatos vão contra nossa hipótese inicial de que o século XIX apresentaria bem menos casos de qualitativos em -mente em posição pré-verbal, especialmente entre o sujeito e o verbo. Esperávamos encontrar mais modalizadores no início e, em menor escala, no fim da oração, já que esses advérbios se referem à oração como um todo. De fato a maioria das ocorrências se deu no início da oração. Entretanto, além de não encontrarmos ocorrências no final da oração, detectamos alguns casos no meio da oração. Embora, nesses casos, o advérbio se refira à oração como um todo, ele parece enfatizar um elemento que ocorre no seu interior.

 

3. Gramaticalização de Preposições

 

Ataliba T. de Castilho / Mário Eduardo Viaro / Marcelo Módolo / Verena Kewitz / Nanci Romero / Rafael Coelho / Tasso A.C. dos Santos – Gramaticalização das preposições ante, até, de, entre / com / para. Comunicação apresentada ao V Seminário do PHPB (Ouro Preto, 2002).

 

O trabalho acima tem por objetivo o estudo da gramaticalização das preposições no corpus do PHPB, a partir das seguintes questões, adiante detalhadas: (1) Propriedades lexicais das preposições: do Léxico para a Gramática; (2) Propriedades discursivas das preposições: do Discurso para a Gramática; (3) Propriedades semânticas das preposições: das categorias cognitivas para a Gramática; (4) Propriedades sintáticas das preposições: a estrutura argumental e as adjunções.

 

1 – Propriedades lexicais das preposições: do Léxico para a Gramática

 

Para avaliar a trajetória das preposições do Léxico para a Gramática, iniciamos o trabalho pelo estudo de sua etimologia. Caso um mesmo étimo tenha dado origem a diferentes classes de palavras, todas as ocorrências destas serão estudadas, para se comparar os diferentes graus de gramaticalização das preposições em relação a essas outras classes. Tendo por pano de fundo essa decisão metodológica, poderemos no final da pesquisa identificar as condições da “preposicionalidade”, entendendo melhor o estatuto categorial dessa classe. Como hipótese inicial, as preposições foram agrupadas em pelo menos três pontos em sua escala de gramaticalização: (i) as mais gramaticalizadas, isto é, as que se comportam exclusivamente como preposições (como parece ser o caso de de, em, a, para, com, por), (ii) as medianamente gramaticalizados (sem, sob, sobre, até, entre, contra, desde, após) e, finalmente, (iii) as menos gramaticalizadas (ante, perante, durante, exceto, salvante, salvo, conforme, trás, segundo).  Essa espécie de “escala interna” vai dos itens mais freqüentes e com maior amplitude sintática, para os itens menos freqüentes, de menor amplitude sintática.

 

2 – Propriedades textuais das preposições: do Discurso para a Gramática

           

Para o estudo das propriedades textuais das preposições, foram formuladas as seguintes perguntas: (1) que expressões preposicionadas topicalizam o enunciado, vale dizer, que expressões fornecem o quadro de referências dentro do qual deve ser entendido o enunciado que se segue ? é possível identificar os papéis dessas construções de tópico ? (2) que expressões preposicionadas operam como conectores do enunciado ? (3) há competição entre as preposições que desempenham essas funções textuais? Vejam-se ss seguintes exemplos:

 

2.1 - Preposições que atuam nas construções de tópico (= CTs), identificando-se seu papel:

 

(1) CT modalizadora:

De certo / sem dúvida, logo havendo o uniforme fica sempre o mesmo vicio que se quer evitar [SP CJ 19, 1]. [hiperpredicaçãoda sentença por modalização asseverativa].

(2) CT delimitadora:

(a) Para nós, a situação de Ruanda é igual à de Botsuana.[o conteúdo proposicional é considerado verdadeiro dentro do quadro de referências criado pela CT].

(b) Com respeito à globalização, eu gostaria que o senhor falasse sobre o significado da globalização no mundo moderno.

           

Foram consideradas como CTs as expressões preposicionadas que tomam por escopo toda a sentença, e não apenas um de seus constituintes. As CTs se situam fora das fronteiras sentenciais. Isto quer dizer que se distinguiu “topicalização” (= [i] mecanismo discursivo de seleção de um tópico textual; [ii] deslocamento de constituinte para a esquerda da sentença) de “construção de tópico” (=  estruturação de um constituinte extra-sentencial). Adjuntos se movem na sentença, mas as CTs já são produzidas em sua periferia. Tanto assim é que, adotado o expediente de movê-las para dentro da sentença, altera-se o significado proposicional, como se pode constatar em

 

(2’) Eu gostaria que o senhor falasse com respeito sobre o significado da globalização,

 

isto é,

 

(2’’) Eu gostaria que o senhor colocasse respeitosamente o significado da globalização,

 

que não parafraseia (2b). Neste caso, o SP está em adjunção ao SV, funcionando como um adjunto adverbial de qualidade.

 

2.2 - Expressões preposicionadas que funcionam como conectivos textuais:

 

(3) As chuvas chegaram com uma fúria incontrolável, as lavouras foram destruídas,perdeu-se a criação. Com isso / desse modo os prejuízos se avolumaram, e a miséria se abateu sobre a região.

 

3 – Propriedades semânticas das preposições: das categorias cognitivas para a Gramática

           

A literatura sobre as preposições tematiza continuadamente a difícil questão de seu sentido. Teriam elas um sentido de base, de que decorreriam sentidos derivados ? Ou seriam completamente vazias de sentido, e a semântica das expressões preposicionadas decorreria dos termos que elas relacionam ?

Nesta pesquisa, hipotetizou-se que as preposições têm um sentido prototípico de base, que se desdobra por metáfora em sentidos derivados.

Os sentidos prototípicos das preposições correspondem às categorias semântico-cognitivas de POSIÇÃO NO ESPAÇO, DESLOCAMENTO NO ESPAÇO, DISTÂNCIA NO ESPAÇO e MOVIMENTO. A categoria de ESPAÇO poderá ser descrita em termos dos eixos horizontal, vertical e transversal, como se pode ver pelo quadro abaixo:

 

CATEGORIAS SEMÂNTICO-COGNITIVAS DE BASE

 

 

 

 

 

 

 

 

POSIÇÃO NO ESPAÇO

Eixo

horizon-tal

Origem

 

Meta

 

Eixo vertical

Inferior

 

Superior

 

Eixo

trans-versal

Anterior

 

Posterior

 

Conti-nente / conteúdo

Dentro

 

For a

 

DESLOCAMENTO NO ESPAÇO

+ Movimento

 

- Movimento

 

DISTÂNCIA NO ESPAÇO

Proximal

 

Distal

 

CATEGORIAS SEMÂNTICO-COGNITIVAS DERIVADAS

 

Aspecto

Imperfectivo

 

Perfectivo

 

Iterativo

 

 

Tempo

Passado

 

Presente

 

Futuro

 

 

 

 

Qualida-de

Causa

 

Modo

 

Posse

 

Matéria

 

Assunto

 

Instrumento

 

Condição

 

Finalida-de

 

Meio

 

Beneficiário

 

 

 

 

 

 

 

Seria entretanto ingênuo supor que as preposições espelham perfeitamente os eixos espaciais indicados nesse quadro. Como se reconhece amplamente na literatura cognitivista, “entre a linguagem e o mundo físico ou objetivo há um nível intermediário que nos chamamos ‘cognição’”: Svorou (1993: 2). A criatividade humana intervém aí de diferentes modos, promovendo alterações nos sentidos prototípicos, de que derivam os sentidos de Aspecto, Tempo e Qualidade, recolhidos na parte inferior do quadro acima.

Num trabalho anterior, Viaro (1994) havia proposto várias categorias para dar conta do desenvolvimento semântico das preposições latinas em sua mudança para o português e o romeno. Ele opera com as seguintes categorias: (1) Afastamento (ab, ex, de, sine, se(d), *an, dis-); (2) Aproximação (ad, usque, tenus, paene, illac); (3) Meio (per); (4) Circularidade (circum, circa, ambi-); (5) Verticalidade (de, *an-, au-, *ni-, infra, sub, super, sursum, deorsum, subter, subtus, supra, per); (6) Seqüência (ob, prae, por-, pri-, pro, ante, contra, erga, re-, pos, secus); (7) Interioridade (ex, in, inter, indu-, intro-, intra, foras, foris, penes); (8) Proximidade (apud, iuxta, cum, ad, ab, prope, cis, citra, uls, ultra, trans, longo).

Os termos “afastamento”, “aproximação”, “meio” e “seqüência” de Viaro (1994) correspondem ao percurso horizontal, captado pelo eixo respectivo; “verticalidade”, ao eixo vertical; “interioridade”, à oposição recipiente / conteúdo. No quadro acima, ficou de fora o parâmetro de “circularidade”, gramaticalizado em português por meio das preposições complexas.

A pergunta a formular aqui é: haveria uma mudança diacrônica nessas representações ? Para responder a essa pergunta, teríamos de investigar a estabilidade das preposições em sua representação das categorias cognitivas:

 

(4.1) Que categorias semântico-cognitivas as preposições exemplificam ? Que posição ou posições elas ocupam nas células do quadro matricial  proposto ? Houve mudança nessa distribuição ?

(4.2) Os usos apurados são de natureza prototípica, mais concretos, ou de natureza metafórica, mais abstratos ?

(4.3) Uns e outros se distribuem por igual entre argumentos e adjuntos preposicionados ?

Os dados apurados no conjunto das pesquisas serão reunidos em quadro próprio, permitindo que se compare a atuação das preposições estudadas.

 

4 -  Propriedades sintáticas das preposições: argumentos e adjuntos preposicionados

 

Foram considerados os seguintes quesitos: (1) Funções sentenciais das expressões preposicionadas, distinguindo-se argumentos de adjuntos adverbiais. Os adjuntos adnominais não foram considerados nesta fase da pesquisa. (2) Posição do constituinte preposicionado. (3) Elipse de preposições. (4) Troca lexical de preposições. (5) Grau zero, ou desaparecimento de preposições. (6) Conjunções sentenciais formadas por preposições.

 

4.1 – Funções sentenciais: argumentos e adjuntos preposicionados, posição desses constituintes na sentença, e estudo de seu movimento

 

Para o estudo dos lugares de figuração dos constituintes preposicionados, foi adotada com pequenas alterações a seguinte representação da sentença proposta por Tarallo / Kato (1992: 321):

 

[…Tóp (...Suj...V...OD...O1...OBL) Antitóp…]

           

Na formulação acima, substituiu-se da representação original V+FLEX por V, Co por OD, Ci por OI, tendo-se incluído OBL para “complemento oblíquo”. Caso de trate de perífrase, V se desdobrará em V1 e V2. As reticências assinalam os espaços passíveis de preenchimento por adjuntos adverbiais.

Para o estudo da movimentação desses constituintes, partiu-se da hipótese de que adjuntos adverbiais preposicionados movem-me mais na sentença do que os argumentos. A pesquisa procurará correlacionar os tipos de adjuntos adverbiais e sua posição preferida, identificando quais os que se movimentam mais, e se é verdadeiro que os argumentos preposicionados têm perfil diferente. Braga e Botelho (1981) mostraram que os Adjuntos Adverbiais de Tempo [e de Aspecto] movimentam-se para a esquerda mais que os de Lugar, Modo, Quantidade e Companhia, numa proporção de 43,5% deslocados para os temporais, e de 56,5% não deslocados para os demais:

 

(4) Naquele dia, eles me levaram... [SP / Tempo]

(5) Æ Sábado e domingo eu não gosto de passar sem dinheiro. [SP / Tempo, com apagamento da preposição a]

(6) Às vezes, ela fica em casa. [SP / Aspecto iterativo]

(7) Sempre o carnaval dá mais preocupação. [Sadv / Aspecto imperfectivo]

           

4.2 - Elipse de preposições

 

Expressões preposicionadas movidas para a esquerda elidem habitualmente a preposição. Rocha (1996) estudou os adjuntos sem cabeça no PB, concluindo que os papéis temáticos temporal, locativo e freqüentativo favorecem a elisão das preposições. Os seguintes nomes encabeçam os adjuntos sem cabeça: unidades do calendário (dia, mês, ano, minuto, hora), intervalos particulares do calendário (abril, segunda, manhã, noite, dia, sábado), nomes comuns (tempo,vez, ocasião, férias, época), nomes comuns ou próprios indicativos de lugar. Em outro trabalho, tratando de “adjuntos que ocorrem à margem esquerda da sentença sem serem regidos por um núcleo visível”, Rocha (2001: 41) dá o seguinte exemplo:

 

(8)Æ  O Norte, principalmente no Amazonas e no Pará, a influência indígena é muito grande.

 

O exemplo mostra a elipse da preposição em em O Norte e sua retenção quando o constituinte vem focalizado: principalmente no Amazonas e no Pará..

 

4.3 – Troca lexical de preposições

 

Alguns autores admitem que as seguintes preposições estão em processo de substituição no PB: a por em / para, em por ni, de por desde, ante por diante de e após por depois de. Como se vê, a troca lexical em alguns desses casos se dá por regramaticalização, fato já documentado no latim vulgar e no português arcaico (de que são exemplos sempre lembrados de > des > desde, migo > comigo, entre outros), ou por substituição por locuções prepositivas, como em ante / diante de. O item que sai e o item que o substitui entram inicialmente em variação, assumindo uma das variantes um valor mais geral, e a outra um valor mais específico, até a consumação da troca lexical.

Alguns casos terão de ser examinados mais de perto. Por exemplo, há de fato substituição de a por para ? Borba (1971: 133) mostra que com os verbos ir, vir, levar, chegar, conduzir, voltar, mandar, descer, etc., a preposição a indica a direção desse movimento, como em ir ao restaurante, voltar à fazenda, ao passo que a preposição em indica que o falante não está interessado em representar a direção em si, mas apenas sua inclusão no ponto de chegada, como em ir no restaurante, voltar na fazenda. Nova diferença entre essas preposições, ainda que em outro contexto sintático, vem apontada à pág. 142: na indicação de datas, a “tem valor pontual”, como em “às oito horas, às nove horas”, ao passo que em indica a duração, empregando-se com períodos mais longos, como em “em agosto, em 1970”. Borba está repercutindo o ensinamento de Varrão, para quem essas preposições não são sinônimas, visto que “in forum ire” significa “entrar no forum”, ao passo que “ad forum ire” significa “ir a um lugar próximo ao forum”. Pontes (1992: 25) dá exemplos em que a é mais geral e em é mais específico, quando introduzem complementos de verbo de movimento; em é mais geral que ni; de é mais geral que desde. Mollica (1996) sustenta que a variação a / para e em depende de características morfossintáticas do N encaixado no SP, explicando-se ainda por fatores discursivo-textuais. Morais (1999/2002) tratou do emprego da preposição a na introdução de SPs dativos topicalizados, com papel temático /origem/, hoje substituída por de como em “a Antonio José de Babo Broxado (…) fugiu (…) um negro crioulo de idade de 50 annos”. Como ambas as preposições trazem associado o papel /origem/, a autora explica a mudança como uma competição entre as formas, vencida por de quando a perdeu esse papel. Nesta sessão, Marilza de Oliveira retomará esse assunto, de outro ângulo.

 

4.4 – Grau zero da gramaticalização das preposições

 

Quando uma preposição A é trocada por uma preposição B, é de supor-se que A esteja morrendo. O grau zero da gramaticalização das preposições sobreviria após uma troca lexical.

Hipóteses gerativistas sobre a mudança do PB previram que alterações no quadro dos pronomes acarretariam perdas no sistema das preposições. Mollica (no prelo) notou que no português do Rio de Janeiro, entre os anos 80 e 90, prevaleceram as relativas cortadoras, o que confirma essa hipótese. Berlinck (1997, 2000 a, b, 2001) pesquisou os complementos preposicionados no português paulista do séc. XIX. Ela constatou uma diminuição progressiva da freqüência de a, em favor de para, confirmando-se assim o prognóstico de Pontes (1992: 20-31). Comparando o PB moderno com o PB do séc. XIX, tal como documentado em textos de Martins Pena, Simões Lopes Neto e em anúncios de jornais, ela encontrou os seguintes valores, que falam por si:

 

Época / preposição

A

PARA

EM

PB séc. XIX

72%

20%

8%

PB contemporâneo

4%

74%

22%

 

O desaparecimento progressivo de a deve explicar as dificuldades atuais em operar com a questão da crase.

 

4.5 – Conjunções sentenciais formadas por preposições

 

Os dados levantados até aqui mostram que as preposições, em geral acompanhadas por outras expressões, podem funcionar como conjunções sentenciais:

 

(9) Conjunção coordenativa: O caipira é vadio. Vive em sua casa, mal barreada, e ali vivem, ou antes,morrem a mulher e filhos, ao desabrigo [SP CJ 19 2]

(10) Conjunção subordinativa: Entretanto, quem, antes de findar os dous annos, quizer pagar o valor da letra, podê-lo-á faze mediante um abatimento (…) [PR CJ 19 2[

(11) Conjunção correlativa: Hoje gastamos mais do que vendemos, nossa venda é menor que a despesa (…). [SP CJ 19 2].

 

Os primeiros resultados da pesquisa estão disponibilizados na página www.fflch.usp.br/dlcv/lport

 

 

4. Gramaticalização de verbos

 

Verena Kewitz – Gramaticalização de ser e estar no português medieval e no século XIX. São Paulo: FFLCH/USP, dissertação de mestrado, 2002.

 

A revisão da literatura pertinente mostrou que o tratamento dado aos verbos ser e estar tem contemplado o estudo de um verbo em relação ao outro, procurando delimitar os contextos lingüísticos em que cada um desses verbos atua no português atual, ou procurando apontar a restrição do uso de ser e ampliação de estar em estruturas locativas e atributivas. Nenhum desses estudos visava a observar o percurso de cada uma dessas formas independentemente.

O trabalho buscou justamente preencher esta lacuna. Tomando o recorte funcionalista, observou-se o processo de gramaticalização desses verbos no período medieval (séculos XIV e XV) e no século XIX. Para tanto, foram propostos grupos de fatores semânticos e sintáticos.

Foram observados dois processos de gramaticalização: o primeiro diz respeito à recategorização de ser e estar, de verbos plenos a verbos funcionais. Com base em fatores como tipo de sujeito e presença ou ausência de termo adjacente, foi possível observar que esses verbos, definidos como “verbos de postura”, passaram a ter uma acepção mais geral de localização. Esse processo ocorreu no período medieval.

O segundo processo de gramaticalização observado está correlacionado com o conceito de metaforização (cf. Heine, Claudi & Hünnemeyer 1991, Lakoff & Johnson 1980). A partir de combinações de ser e estar + termo adjacente, verificou-se que esses verbos, cujo significado primário indicava espaço, passaram a ser usados para expressar outros domínios conceituais, como por exemplo, modo, posse, aspecto etc. Esse processo ocorreu entre os dois períodos analisados.

Nos dois processos de gramaticalização identificados, os fatores semânticos analisados se mostraram relevantes. Além disso, verificou-se uma hierarquia em relação aos traços semânticos do sujeito: o traço animacidade precede o traço concretude. Considerando que essa hierarquia ocorreu na recategorização e na metaforização de ser e estar, propus um esquema que descreve a atuação desses fatores.

Ao longo de todo o trabalho, foi possível verificar que ser apresenta-se num estágio de gramaticalização mais adiantado que estar. Praticamente todos os fatores lingüísticos selecionados apontavam que os dois verbos caminham paralelamente, no que concerne ao processo de gramaticalização, no entanto, ser está sempre mais à frente nesse processo. Em decorrência disso, observou-se que, em alguns momentos, ser e estar acham-se em distribuição complementar. Em outras palavras, estar era usado em contextos lingüísticos que já haviam sido exemplificados por ser. Esses aspectos podem auxiliar na interpretação da transição de ser para estar, como aponta a literatura, e foram devidamente ilustrados, ainda que não tenha sido este o objetivo central desta pesquisa.

 

 

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CAP. II - MUDANÇA GRAMATICAL NO PORTUGUÊS

BRASILEIRO: SÉCULO XIX

(Versão preliminar)

Ilza Ribeiro / UFBA

ilzaribeiro@uol.com.br

 

Marilza de Oliveira /USP

marilza@usp.br

 

Por ocasião do II Seminário do PHPB, Oliveira (2000) apresentou um programa de estudos para a análise lingüística do corpus do PHPB baseado na hipótese de que o léxico funcional determina a variação lingüística e que o número limitado das categorias funcionais inibe a proliferação dos Parâmetros e o caráter aleatório de seu estabelecimento. Assumiu-se que as categorias funcionais integram três grandes sistemas: o sistema que dá conta dos elementos na periferia esquerda da oração (C), o sistema constituído de elementos flexionais (I) e o sistema não-oracional marcado pelo determinante (D). A articulação entre as categorias lexicais e as categorias funcionais dá conta de diferentes relações gramaticais.

A grande quantidade de estudos envolvendo o sistema I no PB, a partir dos trabalhos pioneiros de Mary Kato e Fernando Tarallo na Universidade Estadual de Campinas, levou o grupo do PHPB a optar pelo estudo inicial do sistema I, para confirmar ou não as mudanças observadas nos trabalhos diacrônicos orientados por esses dois professores. Assim, em reunião de 26 de novembro de 1999, fixou-se o seguinte conjunto de temas para a análise da mudança gramatical (Castilho 1999): (i) Descrição de fenômenos sintáticos, negação em S; (ii) ordem dos constituintes sentenciais; (iii) realização plena/nula do sujeito e do objeto; (iv) verbos pronominais e modais; (v) preposição em complementos verbais; (vi) auxiliares; (vii) flexão nominal e verbal. Com essa análise lingüística, pretendia-se responder especificamente às seguintes questões:

a)     houve variação/mudança?

b)    Que lugar têm os resultados encontrados na história social do PB?

c)    Que variações/mudanças podem ser explicadas por fatores sócio-históricos (encaixamento social, implementação e avaliação)?

 

A circulação do trabalho de Ribeiro (2001), apresentado no primeiro Seminário, e a apresentação do trabalho de Moraes de Castilho (2001) no III Seminário colocaram novos questionamentos no que concerne à diacronia do PB. O trabalho de Ribeiro, cujo título é bastante sugestivo, A mudança sintática do PB é mudança em relação a que gramática?, salienta que as comparações entre o PB e o PE têm sido pautadas no PE moderno, o que vai na contramão da história da colonização do Brasil, que recebeu portugueses em diferentes períodos. Segundo a autora, a base do PB atual se acha em duas gramáticas portuguesas, que, grosso modo, correspondem aos séculos XVI-XVIII e XIX-XX.

Moraes de Castilho (op.cit.) vincula o PB ao português quatrocentista. De acordo com a autora, os textos quatrocentistas exibem muitas variantes lingüísticas e a diferença entre o PE e o PB pode estar na opção diferenciada por uma dessas variantes. A autora propõe, então, um extenso programa de estudo do português quatrocentista para elucidar a formação do PB.

Com esses dois trabalhos, as perguntas específicas da mudança gramatical são ampliadas:

 

d)    quais são as estruturas que o PB desenvolveu a partir do português medieval e quais as mudanças que se pode creditar ao século XIX, período de relevo para o desenvolvimento do PB (Tarallo, 1993)?

e)     a estrutura gramatical do PB moderno está toda modelada no século XIX ou há desenvolvimentos no século XX?

f)     A mudança está implementada na escrita? A escola recupera os fósseis lingüísticos?

 

Essas perguntas, disseminadas nos trabalhos elaborados até o presente momento, têm norteado os estudos sintáticos dos pesquisadores que integram o PHPB. Neste artigo, fazemos uma releitura dos textos apresentados nos vários seminários e buscamos recuperar as idéias centrais dos trabalhos, cuja exposição se faz a seguir, para traçar o primeiro quadro geral dos resultados a que se tem chegado. Como se verá, os trabalhos, que seguiram a Agenda proposta no II Seminário, trazem importantes revelações sobre o sistema I (flexão) do PB. O texto está organizado da seguinte maneira: na primeira seção, fazemos uma breve retrospectiva dos estudos sintáticos do PB, com base no quadro da Teoria de Princípios e Parâmetros; na segunda seção, trataremos da realização dos argumentos; na terceira seção, apresentamos os resultados da análise da preposição em complementos verbais; na quarta seção, agrupamos os resultados da análise da ordem dos constituintes sentenciais em sentenças declarativas; na seção cinco, são abordadas as estruturas negativas e na seção seis dá-se atenção aos verbos auxiliares. Por fim, fazemos algumas considerações finais. 

 

I – A mudança lingüística no PB: breve retrospectiva

 

1. Parâmetro pro-drop 

 

As idéias iniciais que deram origem ao que hoje se conhece como Parâmetro do Sujeito Nulo surgiram de estudos comparativos entre o inglês e línguas românicas como o italiano e o francês. (Chomsky 1981, Rizzi 1982, Jaeggli & Safir 1989): em inglês, a realização do sujeito pronominal é obrigatória, mesmo quando não-referencial ou expletivo (it, there), caracterizando-se como uma língua [-pro-drop]; em italiano e em espanhol, ao contrário, o sujeito pronominal só deve ser realizado sob certas condições sintático-discursivas, em geral em contextos em que o pronome recebe um acento enfático ou contrastivo, sendo, portanto, línguas [+pro-drop].

O Português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) se distinguem em relação aos valores atribuídos a este parâmetro, marcado positivamente para o PE e negativamente para o PB. Essa diferença motivou o estudo do preenchimento do sujeito no PB por pesquisadores com diferentes abordagens teóricas, quer numa abordagem sincrônica, quer numa abordagem diacrônica. Entre eles, destacamos aqui só alguns, por a natureza do nosso texto não permitir uma apresentação mais ampla da questão (sobre outros estudos, cf. referências). Tarallo (1983/1985) apresenta evidências diacrônicas para a tendência, observada no PB, ao preenchimento pronominal da posição de sujeito, a partir dos inícios do século XIX; Duarte (1993/1995) também apresenta evidências de mudança em tempo real e em tempo aparente, em direção à marcação negativa para o parâmetro pro-drop. Ambos relacionam o fenômeno à redução da morfologia verbal no PB, devida aos usos do pronome você(s) para segunda pessoa (em substituição a tu[14] e vós) e a gente para primeira pessoa do plural.

Kato (1993/1996/1999) procura explicar formalmente a perda da propriedade pro-drop do PB como resultante de uma análise da morfologia verbal como [-pronominal], o que condiciona a realização obrigatória do sujeito pronominal (pronome fraco). Para Galves

(1984/1991/1993), a perda da propriedade pro-drop também está relacionada com a natureza da morfologia verbal, embora com uma proposta distinta da de Kato: a flexão verbal contém pessoa apenas como um traço puramente sintático, não mais conseguindo identificar a pessoa do sujeito nulo. Negrão (1999), Modesto (2000), entre outros, consideram que o enfraquecimento da morfologia verbal leva a uma reanálise categorial do sujeito nulo no PB, como uma variável A'-ligada.

 

2. Objeto nulo 

 

O estudo das propriedades paramétricas do objeto nulo tem sido feito por Rizzi (1986), Farrell (1987/1990) e Kato (1987,1991,1993), citando só alguns. O estudo inicial deste fenômeno é o de Huang (1984), que analisa o objeto nulo como uma variável ligada a um tópico discursivo nulo. O segundo estudo sobre este fenômeno, o de Raposo (1986), também caracteriza o objeto nulo como uma variável, pois o objeto nulo sofre restrições em ilhas sintáticas no PB. Para o autor, o objeto nulo, uma variável, deriva do movimento de um OP vazio para a posição COMP; este OP nulo estaria vinculado ao tópico nulo do discurso. Com isto, Raposo consegue explicar as restrições de objeto nulo em ilhas no PE.

As possibilidades de realização de objeto nulo, bem como o estudo das suas características estruturais, também têm estado no âmbito dos estudos sobre a sintaxe do PB, sincrônica e diacronicamente. Com base nos estudos de Huang (1984/1989), Galves (1987/1989/1991, entre outros, aponta as diferenças entre objeto nulo no PB e no chinês. No que concerne à comparação entre o objeto nulo no PE e no PB, Raposo (1986) e Galves (cf. referências) sugerem que no PE o objeto observa as restrições de ilhas e que, no PB, as possibilidades de objeto nulo são mais amplas, podendo ocorrer mesmo em ilhas. Cyrino (1990/1992/1993/1997) traça um percurso diacrônico desta mudança paramétrica, no que diz respeito ao PB.

Outros estudos surgiram mostrando que o fenômeno conhecido como objeto nulo não é homogêneo, nem sempre se caracterizando como uma variável, como muitos dos objetos nulos observados em PB, em quíchua e no italiano. Cole (1987), por exemplo, mostra que o objeto nulo do quíchua imbabura se comporta como um pronome e não como uma variável. Farrell (1987) compara diferenças entre PB e chinês e analisa o objeto nulo do PB como um pronome. As propostas de Galves (1987, 1989) e Kato (1991, 1993) também caracterizam assim o objeto nulo do PB como categoria pronominal.

Em artigo de 1991, Huang reformula sua análise, caracterizando o objeto nulo do chinês como um epíteto nulo. Kato (1991) propõe que o objeto nulo dêitico seja analisado como um nome nulo. Outros casos de "objeto nulo" são analisados como resultantes de elipse de VP, aceita por todos os lingüistas citados acima, como possibilidades de manifestação superficial de objeto nulo. Assim, vê-se que o fenômeno é complexo e pode resultar de estruturas que podem ser confundidas com o chamado objeto nulo. Há uma variação entre as línguas no que diz respeito a este fenômeno, apresentando ocorrências bem restritas em umas, e mais amplas em outras. As diferenças entre PE e PB são analisadas como definição de diferentes valores paramétricos.

          

3. Ordem VS 
 

A possibilidade de inversão entre sujeito-verbo, em sentenças declarativas simples, tem sido associada à possibilidade de sujeito nulo, como em (Chomsky 1981 e Rizzi 1982). Assim, desde que a inversão livre de sujeito é considerada uma propriedade de línguas de sujeito nulo, estudos têm observado a crescente fixação da ordem SVO no PB, correlacionada com a perda da propriedade pro-drop (Torres Morais 1995, Lopes Rossi 1996, Berlinck 1995, Cyrino, Duarte & Kato 2000, e Kato 2000). Nascimento (1984) e Kato & Tarallo (1988) e Kato (2000), entre outros, mostram que a ordem VS no PB contemporâneo é restrita a ambientes de monoargumentos, ocorrendo sobretudo em construções apresentativas. A hipótese de Kato (2000, cf. também outros textos da autora) é que os afixos de concordância do PB não são pronominais, não funcionando como argumento do verbo. Desse modo, o pronome fraco deve ocupar a posição de sujeito (Spec/TP). A ordem VS ainda é possível em construções apresentativas (inacusativas e existenciais) por o PB ainda manter um afixo -0 de concordância com valor pronominal, que funciona como um tipo de expletivo neutro (tipo it do inglês / il do francês).

 

No âmbito do projeto PHPB, tem-se procurado fazer a descrição desses tópicos tomando como norte as diferentes hipóteses sobre a organização da sintaxe do PB aqui delineadas. A seguir, apresentamos os resultados a que se tem chegado com a análise do corpus do século XIX, previsto na Agenda do PHPB. 

 

II - A realização lexical dos argumentos

 
A. Questões relacionadas com a realização do sujeito 
 

Os estudos sobre as questões relacionadas com as possibilidades de realização do sujeito pronominal, lexicalmente realizado ou foneticamente nulo, permitiram uma caracterização ampla deste fenômeno no PB em relação não só a sujeitos de referência definida/determinada, como também a sujeitos com referência indeterminada, genérica, além de sujeitos não referenciais. Diferentes estudos apresentados pelo PHPB abordam estes tópicos. A seguir, fazemos algumas considerações sobre os resultados dos trabalhos e sobre as interpretações dadas pelos pesquisadores do projeto, com vistas a fazer um balanço dos estudos sintáticos realizados no âmbito do PHPB. Iniciamos com o sujeito referencial e o sujeito arbitrário.

 

1. O sujeito referencial

 

A terceira pessoa

 

Partindo da constatação de que a 3a. pessoa resiste mais ao preenchimento do sujeito (Duarte 1995, Oliveira 1996), pois a identificação do sujeito nulo pode ser realizada pela coindexação com um antecedente (Negrão & Muller 1994), Oliveira (1999) analisou a realização pronominal de 3a. pessoa nas estruturas de subordinada com correferente. A autora observou que nesses contextos o sujeito podia ser realizado pronominalmente, inclusive nos casos em que entre o sujeito da matriz e o da encaixada houvesse a interveniência de um SN, contrariando a hipótese de Calabrese (1985).

A autora observou no corpus recorrente separação do sujeito, por meio de vírgulas, o que a levou a hipotetizar que essa marca pode ser um indício da marcação de fronteira entre a posição do sujeito e do tópico (SN [__VX]), uma evidência de que a posição de sujeito estava se tornando vaga para o preenchimento do sujeito, o que teria permitido o aparecimento da estrutura de duplo sujeito no PB (Duarte 1995).

Como o trabalho se restringe ao documento anúncios, a presença da vírgula separando o sujeito do verbo pode ser uma estratégia de focalizar o elemento anunciado, sem com isso estabelecer uma marcação da fronteira. A análise de outros documentos para a averiguação dessa hipótese ainda não foi realizada, mas merece investigação, uma vez que o sujeito duplo está sendo implementado no PB e tem importantes conseqüências na aprendizagem da realização pronominal dos argumentos (Cordeiro, em andamento).  

 

A segunda pessoa

 

No que concerne à segunda pessoa, Oliveira (2001a) observou nas cartas do século XIX o uso das formas verbais de 2a. pessoa do singular para a 2a. pessoa do plural e vice-versa. A presença das mesmas alterações na Demanda do Santo Graal levou a autora a analisar as formas verbais da 2a. pessoa do plural, pois, de acordo com Mattos e Silva (1994), essas formas verbais sofreram a queda do /d/ intervocálico.

Estudando a queda do /d/ intervocálico nas formas verbais no Português Medieval, Oliveira (2001, 2001a) observou que a dissolução do hiato era feita com a semivocalização e com a crase. A autora interpreta essas duas resoluções como a configuração de duas gramáticas distintas: a que optou pela crase criou um paradigma com neutralização das formas do singular e do plural, da qual deriva o PB; a que optou pela semivocalização reconstituiu o paradigma de seis formas distintivas, derivando o PE.

A autora observa ainda que a queda do /d/ intervocálico coincide com o aparecimento das formas de tratamento e correlaciona o preenchimento do sujeito do PB a esses dois fenômenos lingüísticos, i.e. o enfraquecimento da morfologia verbal, decorrente de um processo fonológico, e o aparecimento de formas pronominais de tratamento em substituição ao pronome vós, cuja forma verbal apresentava-se morfologicamente enfraquecida. O longo período de tempo entre a manifestação do enfraquecimento da morfologia verbal, a partir da queda do /d/ intervocálico ocorrida no século XV, e o preenchimento do sujeito no PB, que ocorre no século XX (Duarte 1993), se explica pelo longo processo de gramaticalização das formas nominais de tratamento, assunto não desenvolvido pela autora nesse trabalho.

Oliveira e Ramos (2002) recuperam a hipótese da correlação entre o enfraquecimento da morfologia verbal e o surgimento das formas nominais de tratamento. Na esteira de Oliveira (2001, 2001a), as autoras sugerem que o pronome você não foi o gatilho do preenchimento do sujeito (Duarte 1993), ainda que a gramaticalização desse pronome tenha sido uma escolha para a efetivação do preenchimento do sujeito. Nesse trabalho as autoras discutem a avaliação das formas pronominais tu e você no Brasil e em Portugal para explicar o avanço da forma você no PB. O trabalho é uma tentativa de dar uma explicação, dentro da história social, à escolha do pronome você para a efetivação do preenchimento do sujeito no PB. As autoras sugerem que a avaliação negativa de você em Portugal se explica pela abertura da vogal nesse pronome, remetendo-o ao vós, e pela  concordância desse na 3a. pessoa do singular. O pronome você no PB, cuja vogal é fechada, não remetendo, portanto, à segunda pessoa, pode estabelecer a concordância verbal com a 3a. pessoa. Essa proposta deve ser melhor investigada do ponto de vista diacrônico. 

 

2. O sujeito arbitrário

 

2.1. Formas de sujeito arbitrário em sentenças finitas

 

Cavalcante (2001) analisa o sujeito arbitrário em uma gramática do século XIX e em uma gramática do século XX e observa que a primeira cita três tipos de sujeito arbitrário, a saber: a 3a. pessoa do plural, o uso do pronome se e a expressão a gente. A gramática do século XX prescreve apenas o uso dos dois primeiros tipos. O trabalho parte da observação de Duarte (1995) de que na fala espontânea do PB o sujeito arbitrário é majoritariamente realizado por formas pronominais como você, a gente, eles e o pronome se nas estruturas com verbos na 3a. pessoa do singular é de uso variável.

Cavalcante (op.cit.) retoma os resultados de trabalhos sincrônicos sobre o sujeito arbitrário e observa que no PB atual o sujeito arbitrário pode ser realizado por a gente, você, eles e nós. O uso de você é mais freqüente na variante culta e o uso de a gente compete com nós na variante popular. O pronome eles tem baixo índice de freqüência na amostra analisada. Esses tipos de sujeito arbitrário aparecem realizados lexicalmente, independentemente do nível de escolaridade do falante.

Analisando dados provenientes da imprensa carioca dos séculos XIX e XX, Cavalcante (2002) observou que o uso de nós e de a gente como sujeito arbitrário é atestado desde o primeiro quartel do século XIX (1848-1869) e que o uso de você é atestado apenas um século depois (1964-1968).   

O que podemos observar nos resultados desses trabalhos é que de todas as formas de sujeito arbitrário, o pronome eles é o que apresenta mais baixo índice percentual de preenchimento, seguindo a mesma trajetória do sujeito referencial, ou seja, a 3a. pessoa é a que mais resiste ao preenchimento do sujeito. Se de um lado, pode-se aventar a hipótese de que a realização nula da 3a. pessoa é responsável pelo menor uso do pronome eles como sujeito arbitrário, de outro, deve-se levar em conta uma reorganização do sistema pronominal com interpretação arbitrária em torno das pessoas do discurso (você, a gente/nós), que efetivamente apresentam maior índice percentual de preenchimento nos casos de sujeito referencial. 

 

2.2. A gramaticalização de a gente como sujeito arbitrário

 

Lopes (2001) estuda a gramaticalização do item a gente, em tempo real de longa duração, partindo do português medieval. Analisando os traços de número, gênero e pessoa, a autora observa perdas e ganhos no processo de gramaticalização de a gente.  O traço formal de gênero [+fem] é eliminado e o traço formal de número passa a ter valor default, designando um todo abstrato, indeterminado e genérico. Ganha a subespecificação do traço semântico de gênero e de pessoa, incluindo a pessoa que fala, e mantém a interpretação semântica de número [+PL].

A autora propõe três fases no processo de gramaticalização do item a gente: a) na primeira fase, observa-se a alternância no nome gente/gentes; b) na segunda fase, o número deixa de ser marcado formalmente no nome gente/*gentes; c) na terceira e última fase, o nome é recategorizado como pronome, pois observa-se a inclusão da pessoa que fala.

Cavalcante (2002) mostra que a transitoriedade do processo de gramaticalização de a gente é marcada pela perda do traço formal de número (*gentes), o que ocorre no século XVI (74%), pela concordância desse item com adjetivos no feminino, referindo-se a personagens masculinos e pela ambigüidade interpretativa, que começa a se manifestar de forma relevante no século XVI, período a partir do qual P6 começa ceder espaço para a freqüência de P3. De fato, entre os séculos XVI e primeira metade do XIX, há casos esporádicos de uso de a gente com leitura ambígua, nome (pessoas) ou pronome (“nós”). As primeiras ocorrências desse item como pronome são atestadas na segunda metade do século XIX.

A autora conclui que a gramaticalização de a gente é uma mudança encaixada, pois inicia-se com as reestruturações das formas nominais e pronominais de tratamento. A mudança efetiva no PB ocorre no século XX, período em que a gente pronominal alcança .84 de peso relativo e, acrescentamos, a forma você também passa a ser usada como sujeito arbitrário, o que nos leva a assumir a reorganização do sistema pronominal de leitura arbitrária na órbita das pessoas do discurso. 

 

2.3. O uso variável de se nas construções de sujeito arbitrário

 

2.3.1. Sentenças finitas

           

Duarte (2002) observou que o argumento em posição pré-verbal favorece a concordância e o posposto a desfavorece, pois o peso relativo para não concordância é de .38 e .56 para SNs antepostos e pospostos, respectivamente.

Na análise das formas de indeterminação do sujeito nas cartas publicadas nos jornais do século XIX, Duarte e Lopes (2002) observam três ocorrências de verbo no singular sem o pronome se e atestam dois tipos de alternância nas construções com se nas sentenças coordenadas: a) se+verbo no singular alterna com formas verbais no plural sem se; b) se+verbo no singular alterna com o pronome nós. Além dessa alternância em um mesmo período, as autoras observaram o uso predominante de nós nas cartas de redatores, o que pode ser indício da transmissão da voz do jornal, e de se nas cartas de leitores, em que se comentam assuntos gerais.

O apagamento de se nas sentenças finitas e alternância entre se e nós em sentenças coordenadas podem ter criado espaço para a implementação do uso do item a gente, em processo de gramaticalização. Esta hipótese, ainda não explorada, se apóia na constatação de que a forma pronominal reflexiva para o item a gente é homófona à forma do pronome com interpretação arbitrária se.

 

2.3.2. Sentenças não finitas

 

Analisando os anúncios publicados nos jornais do século XIX, Duarte (2002) observou o predomínio de se nas reduzidas de gerúndio (78%) e o predomínio das construções sem se nas reduzidas de infinitivo (64%).

Segundo Cavalcante (2002), que analisa dados do século XIX e XX, a presença de se nas infinitivas é favorecida pela preposição, embora Cavalcante (2001) tenha observado a alternância entre a realização lexical e nula de se nas sentenças não finitas do PB atual (Há muita coisa para _ ver e uma ou outra dá até para se comprar).

No que concerne à concordância verbal nas infinitivas com se, Duarte (2002) observou maior ocorrência de sua não realização com SNs na forma pluralizada ou coordenados. Cavalcante (2002), por sua vez, sugere que a não-concordância verbal nas infinitivas com se apresenta uma curva de variação estável e conclui que nas sentenças não finitas ocorre a passagem de se indeterminador para se apassivador, em contraposição às sentenças finitas em que se verifica a passagem de se apassivador para se indeterminador. A autora sugere que a escola tem sido bem sucedida na manutenção dos traços de concordância.

A autora não explica de que forma a escola tem atuado para a manutenção de traços de concordância em uma construção (inf+se) que configura uma inovação no PB (Nunes, 1990). 

Quanto ao uso de se nas infinitivas, vale salientar que essa forma pronominal não apresenta traços de concordância, como me e te (Pagotto 1993), o que pode ter motivado o seu uso justamente nas sentenças em que o verbo também não exibe traços de concordância. O favorecimento de se nas infinitivas preposicionadas pode estar relacionado à posição dos clíticos. A preposição tem sido apontada como um fator que favorece a próclise. Atuando na posição dos clíticos, é possível que a preposição atue também na sua realização fonológica.

 

B- A realização lexical dos complementos verbais

 

Há três propostas para explicar a realização do objeto no PB: a) o objeto nulo é licenciado pelo V em T, o que caracteriza o PB em oposição ao português seiscentista; b) o objeto nulo é reanálise da elipse proposicional e está relacionado à hierarquia da referencialidade e c) o pronome tônico é resultado do apagamento do clítico nas estruturas de redobro.

 

3.1. O objeto nulo 

   

Cyrino (2001) analisou o objeto direto e indireto no português do século XVI e comparou os resultados com os de trabalhos sincrônicos do PB. Observou-se que no caso de verbos ditransitivos o PB manifesta o apagamento simultâneo dos dois complementos e o português seiscentista exibe o preenchimento simultâneo dos dois complementos. Nas duas variedades o objeto direto nulo é predominantemente [+específico, -animado]. No português seiscentista, o objeto indireto nulo era exclusivamente [+animado], ao passo que no PB objetos [-animado] também podem ser nulos.

Considerando que o objeto nulo é licenciado pela posição do V em T, Cyrino propõe que o português seiscentista e o PB se diferenciam no que concerne à posição do V. Seguindo Torres Morais (1997) e Ribeiro (1997), Cyrino sugere que no português seiscentista, o V achava-se acima de I e que no PB o V se acha em T. O problema está em saber se a mudança na posição do V está relacionada ou não com o enfraquecimento da morfologia verbal, como no inglês.  

Cyrino (2002) analisou o objeto nulo nos anúncios e nas cartas enviadas aos jornais do século XIX, tendo constatado 25% de objeto nulo nos anúncios e 15% nas cartas. Nos anúncios o objeto nulo é mais freqüente quando o verbo se acha no infinitivo, gerúndio e subjuntivo; nas cartas a autora não registrou nenhuma ocorrência do objeto nulo com os infinitivos (complemento de V) e com o gerúndio.

No que concerne ao traço semântico, observou-se que nos anúncios o objeto nulo ocorria com antecedentes de traço [+ ou - animado], em contraposição com os estudos feitos para as peças teatrais, em que se registra objeto nulo apenas com antecedente [-animado]. A análise particularizada dos antecedentes [+animado] revelou que o objeto nulo ocorria com o antecedente escravo. A interpretação do escravo como uma mercadoria deve explicar o uso de nulos com traço [+animado] nos anúncios.

O traço animacidade se revelou fundamental para a análise do objeto nulo, o que levou a autora a relacionar o objeto nulo à elipse proposicional. Apoiando-se na Hierarquia da Referencialidade (Cyrino, Duarte e Kato 2000) a autora sugere que o objeto com baixa hierarquia referencial, como o que ocorre com o clítico sentencial,  tende a elidir, pois a sua interpretação depende do antecedente, o que leva à sua reconstrução na FL.

 

3.2. O objeto na forma de pronome tônico

 

Moraes de Castilho (s/d) sugere que ele acusativo e dele possessivo do PB atual derivam do apagamento de parte da estrutura que apresenta o redobramento sintático dos pronomes, entendendo o redobramento como uma relação de interdependência entre duas estruturas de classes distintas X e Y.

A autora propõe três etapas para a mudança, entendida aqui como o apagamento de um dos elementos que compõem o redobramento sintático: 1) clítico e pronome tônico acham-se adjacentes; 2) clítico e pronomes perdem a adjacência; 3) um dos constituintes é elidido. Com o apagamento do pronome tônico, tem-se a gramática do PE que privilegia os clíticos e os pronomes fracos para o possessivo; com o apagamento do clítico, tem-se a gramática do PB que privilegia os pronomes fortes. A conservação dos pronomes fortes no PB depende não só do apagamento das formas fracas, mas da gramaticalização dos itens retidos: o pronome tônico é reanalisado como acusativo e o P+ele é reanalisado como possessivo.     

A autora sugere a coocorrência das formas redobradas e das não redobradas durante algum tempo. O redobramento desaparece da Língua-E, mas permanece como um princípio da Língua-I. As mudanças iniciaram-se no português quatrocentista, com o apagamento de um dos constituintes da estrutura de redobramento, e se desenvolveram no domínio do PB com o processo de gramaticalização dos pronomes fortes.

 

III- A preposição nos complementos verbais

 

A. Construções com alta produtividade da preposição a no PB do século XIX

 

A preposição a tem predomínio quase absoluto no corpus do PB do século XIX nas construções com verbos dativos e nas construções com objeto direto preposicionado. Torres Morais (2002) sugere que o PE exibe a correlação entre a preposição a e o clítico lhe, pois essa forma pronominal cliticiza exclusivamente o NP introduzido pela preposição a, que não tem conteúdo semântico, mas tem o papel morfológico de marcar Caso superficialmente, cuja atribuição é feita inerentemente pelo verbo. Considerando que no PB coloquial a preposição para é mais produtiva do que a com verbos dativos e que o clítico lhe está sendo substituído por a ele/a ela, Torres Morais (2001, 2002) assume que no PB o OI é uma função oblíqua, realizada quase exclusivamente por um SP.

No texto de 2001, a autora faz estudo quantitativo dos anúncios de São Paulo e do Rio de Janeiro e observa que tanto a preposição a quanto o clítico lhe são dominantes na expressão do OI, o que sugere que ou esse tipo de corpus não revela a mudança ou essa reanálise é mais recente na língua.

A análise quantitativa do OI nas cartas e anúncios do século XIX de diferentes regiões (Oliveira 2002) confirma o domínio quase absoluto da preposição a no PB do século XIX, ainda que a preposição para já apareça introduzindo argumentos marcados [+meta] e [+benefactivo].  A preposição a também é fortemente presente nas construções com objeto direto preposicionado no século XIX, com elementos nominais que apresentam o traço [+pessoa].  

Torres Morais (2002) assume que a substituição de a por para, uma preposição plena, que atribui papel temático e Caso oblíquo a seu argumento, retira do verbo a propriedade lexical de atribuir papel temático e Caso inerente dativo a seus argumentos. No que concerne às formas a ele/a ela, Moraes as interpreta como formas oblíquas. A preposição a se alinha à preposição para, i.e. torna-se uma preposição semanticamente ativa no sentido de que seleciona um argumento e lhe atribui o Caso inerente.

 

Oliveira (2002) busca observar o aparecimento de para com verbos dativos. Partiu da hipótese de que o uso de para com verbos dativos segue o percurso: verbo de movimento > verbo híbrido > verbo dativo. Essa hipótese foi descartada porque, nos contextos de verbo híbrido (levar, trazer, etc), a preposição a, e não para, é usada categoricamente com os nomes [+pessoa].

Apoiando-se na proposta de Figueiredo Silva (s/d) de que para projeta os elementos fora de VP, como os adjuntos, e nos dados extraídos do corpus do século XIX, em que o verbo dar aparece com objeto indireto arbitrário nulo e com a preposição para introduzindo um SP deverbal, com valor final e com função oblíqua, Oliveira postulou a hipótese de que o uso de para no OI deriva da reanálise do SP com função oblíqua, i.e. com valor final. A preposição para teria seguido o seguinte percurso: verbo final > deverbal > N [-animado] > N [+humano].  A autora não explica os casos em que, no PB atual, tem-se o uso da preposição a. Se considerarmos que a preposição a também aparecia em contextos oblíquos, com valor final, o que é bastante saliente nos dados do corpus analisado, podemos hipotetizar que tanto a quanto para com essa função foram reanalisadas, no sentido de que passaram a introduzir os elementos selecionados[15] pelo verbo.

 

Quanto à preposição a, com função de marcar Caso, Oliveira sugere que a sua presença é marcada pelo traço [+pessoa] no complemento dos verbos híbridos, no complemento acusativo preposicionado e na realização do argumento dativo pelo clítico lhe. Portanto, a perda dessa preposição está relacionada a uma perda mais geral no PB, a saber, a perda do traço [+pessoa], verificado na morfologia verbal (Galves 1993) e na preposição a. 

No que concerne à seleção do verbo, no caso dos verbos de dois lugares registrou-se a variante zero. A realização do argumento na forma de um clítico acusativo e a forma da passiva são evidências da reanálise do OI como OD. No que concerne aos verbos ditransitivos, não se verificou a variante zero. Há duas possíveis análises:

 

a)     os verbos ditransitivos estão perdendo a propriedade lexical de atribuição de Caso inerente dativo e papel temático ao NP (Raposo), funções agora da preposição lexical (a/para) que projeta fora de VP, como os adjuntos;

b)    os verbos ditransitivos mantêm a propriedade de atribuição de Caso e de papel temático e juntamente com a preposição descarregam o papel temático (Larson 1988). Nesse caso, o elemento preposicionado é um argumento, i.e. é projetado dentro de VP.

 

Se se assume a análise a), então os verbos do PB, independentemente do número de argumentos, estão perdendo a propriedade lexical de seleção de um argumento dativo. Com os verbos de dois lugares, o argumento passa a ter função acusativa; com os verbos de três lugares, o “argumento” é “expelido” para fora de VP e passa a ter a função oblíqua. Se se assume a análise b), tem-se que os verbos de dois lugares deixam de selecionar um argumento dativo e os de três lugares continuam a selecionar argumentos dativos. Nos dois casos, tem-se um movimento de “introjeção” do elemento nominal. No caso dos verbos de dois lugares, o argumento que antes era gerado em baixo de SP passa a ser gerado sob VP; no caso dos verbos de três lugares, o SP antes gerado fora de VP, em adjunção a VP, passa a ser gerado dentro de VP.

   

B. Construções em que a preposição a entra em variação com outras preposições no PB do século XIX

 

1.1. Verbos de movimento

 

Três são os tipos de construções em que a preposição entra em variação com outras preposições no PB do século XIX: 1) com verbos de movimento; 2) nas construções de dativo de posse e 3) nas construções causativas e perceptivas.

No que concerne aos verbos de movimento, Guedes e Berlinck (2001) e Oliveira (2002) apontam para o avanço da preposição em com verbos de movimento, em lugar da preposição a. Com base nos verbos do tipo aparecer/comparecer, que apresentavam variação no uso da preposição, Oliveira sugere que os verbos apresentativos constituem contexto para o uso da preposição em com verbos de movimento, estabelecendo o seguinte percurso para a extensão do uso de em: estado > existencial-apresentacional > movimento.   

 

2. Dativo de posse

 

A análise dos NPs possessivos com verbos inacusativos (Ramos 1999) mostrou que o licenciamento desses deixa de ocorrer no último quartel do século XIX, seguindo as seguintes etapas: 1) NPs plenos ocupam a esquerda de VP; 2) NPs plenos ocupam a direita de VP; 3) substituição da preposição a por de. A queda da preposição a tem o mesmo perfil da queda do clítico lhe, evidência da correlação entre essa preposição e o clítico dativo.

A autora assume que aNP faz parte do DP e adota a estrutura de Small Clause para a seqüência [NP possuidor NP possuído]. O clítico lhe tem a função de recuperar, através do traço de concordância, a relação entre o NP possuidor, na posição de tópico, e o NP possuído. Uma alteração no valor de Agr/D impede a projeção de Spec de Agr/D e, por conseguinte, do movimento de aNP. Se Caso, este elemento deixa de ser visível na FF e a construção passa a ser mal-formada. Para a autora, somente o movimento de núcleos é  licenciado, o que explica a realização de posse apenas com lhe no PB atual. Esta análise deixa de captar a relação entre a queda do clítico lhe e a da preposição a, que, segundo Ramos, apresentam o mesmo perfil.           

 

3. As construções causativas 

 

Baseando-se no italiano em que as construções causativas diferem das perceptivas no que se refere à posição do NP em relação ao verbo infinitivo, mas se assemelham no que concerne ao tipo de argumento acusativo ou dativo, em função da transitividade do verbo não finito, Oliveira (2002) analisou essas construções nas cartas e anúncios do século XIX.

Observou-se que nas estruturas monoargumentais do verbo causativo tem-se a ordem V+Vinf+NP e nas do verbo perceptivo predomina a ordem V+NP+Vinf. Nas estruturas biargumentais, a ordem V+NP+Vinf é majoritária para os perceptivos e começa a avançar no caso dos causativos.

No que concerne ao tipo de argumento, verifica-se que nas estruturas biargumentais dos verbos perceptivos tem-se um NP ou clítico acusativo. No caso dos verbos causativos, é mais alta a freqüência de SPs. Curiosamente, o clítico acusativo tem maior freqüência do que o dativo nessas construções. Portanto, a mudança começa a partir dos verbos perceptivos, atingindo a ordem e a realização do argumento. Além disso, a mudança no tipo de clítico precede a mudança SP>NP. A autora não analisou em que medida a mudança na ordem dos constituintes sentenciais nas declarativas (Berlinck 1989, 2000) está correlacionada com a mudança na ordem dos constituintes das construções perceptivas e causativas.

 

IV- A ordem dos constituintes sentenciais: declarativas

 

Ribeiro (2001) analisa a inversão do sujeito a partir da constatação de que o PB, ao contrário do PE, não apresenta a ordem (X)VS em sentenças declarativas e interrogativas. Em outras palavras, no PB a ordem VS é restrita à inversão românica e às estruturas inacusativas ao passo que no PE a ordem VS inclui também a inversão germânica. A autora observa que o Português Arcaico também exibia os três tipos de estruturas VS e se propõe a analisar se a perda da ordem VS é resultante de uma mudança na gramática do século XIX, conforme a literatura, ou se é resultado de uma mudança mais remota. Para isso, Ribeiro analisa dados provenientes do século XVI, pois assume que as raízes do PB devem ser buscadas nesse período.

A autora observa que, assim como no PB atual, o Português Clássico exibe baixa freqüência da ordem VS, a qual também se limita aos contextos de posposição do sujeito e de estruturas inacusativas.  Esses dados sugerem que a inversão germânica não fazia parte da sintaxe do português clássico como Língua-I e parece não ter sido presente no vernáculo brasileiro. Assim, a sua ausência no PB não deve ser tratada como uma mudança em termos de Língua-I.

No que concerne ao PE, Salvi (1990), Galves (1991), Martins (1994) e Torres Morais (1995) observam mudanças prosódicas e sintáticas entre os séculos XVII e XVIII. No século XVIII, o sistema gramatical do PE volta a exibir a inversão germânica. Baseando-se em Torres Morais (1993), segundo a qual no século XVIII a inversão germânica aparece de forma reduzida em escritores brasileiros, Ribeiro sugere que o século XVIII marca a perda da inversão germânica no PB e se pergunta se a inversão germânica nos escritores brasileiros do século XVIII pode ser analisada como objetos de língua-I ou se faz parte de construções periféricas, efeitos de língua-E.

Como o objetivo da autora era o de explicar a ausência da inversão germânica no PB, Ribeiro não buscou explicar o retorno da inversão germânica no PE. Entretanto, uma vez que se questiona se a inversão germânica nos escritores brasileiros do século XVIII é um objeto de língua-I ou de língua-E e uma vez que se assumiu que o português clássico não exibia esse tipo de inversão, faz-se mister estudar diacronicamente a inversão germânica no PE.

Ao lado da hipótese de que a inversão germânica não era objeto de língua-I do Português Clássico e o seu reaparecimento no PE se deve a mudanças prosódicas e sintáticas assinaladas para o século XVIII, é possível alinhar, graças à argumentação da autora, uma segunda hipótese: a inversão germânica não se manifestava na Língua-E do Português Clássico, mas era um princípio invisível da Língua-I, o que teria motivado o seu reaparecimento no PE. Além disso, a hipótese de que a inversão germânica fosse um objeto de língua-I só pode ser proposta se se assume que essa construção era um princípio invisível da língua-I, pois, segundo a autora, o vernáculo brasileiro não exibia a inversão germânica.

Retomando a questão da perda da ordem VS no PB, Ribeiro (2002) analisa a inversão do sujeito em um corpus que representa o uso culto da língua, textos de gramáticos dos séculos XVI, XVIII e XX, e compara os resultados com os dados provenientes das cartas publicadas nos jornais do século XIX. Ribeiro observou que o corpus do século XVI atestava seja a inversão VS seja a ausência da inversão nas estruturas de topicalização.

No que concerne à focalização, obteve-se que, em todos os materiais de análise, a focalização é realizada por meio da clivagem. Nesse tipo de focalização, não há movimento do verbo para o Foco, pois esta posição já está ocupada pela forma expletiva “é que”. Com o uso da estratégia da clivagem, as evidências de movimento do verbo para Foco deixam de ser robustas e deixam de ser atestadas no século XVIII. Considerando que o PB atual tem topicalização sem inversão VS e que a clivagem é uma estratégia é bastante recorrente nessa variedade lingüística para focalizar constituintes, Ribeiro conclui que as estruturas que suplantam a ordem VS no PB já estão presentes nos documentos portugueses do século XVI e XVIII.

 

V- Estruturas negativas

 

Torres Morais (2001) observou que as estruturas de dupla negação do português moderno apresentam uma assimetria na realização do não sentencial. Se o indefinido negativo está em posição pré-verbal, a presença do não é excluída; se o indefinido negativo está em posição pós-verbal, a presença do não é obrigatória. A análise da dupla negação no português arcaico e no século XVI mostrou que, no português medieval, o licenciamento dos itens negativos exigia a presença do marcador negativo. A dupla negação se manifesta na posição pré-verbal e pós-verbal. Nas sentenças formulaicas observava-se já a variação da concordância negativa em posição pré-verbal. No século XVI a obrigatoriedade da presença do marcador negativo é relaxada quando os itens negativos se acham em posição pós-verbal. A autora conclui que a dupla negação foi um fenômeno do galego-português. Não foi possível datar a cronologia da perda da dupla negação em posição pré-verbal, pois os séculos XV e XVI ainda atestam essas construções.

Alkmim (2002), analisando as estruturas negativas nos anúncios publicados nos jornais do século XIX, atestou a dupla negação no século XIX.  No que concerne especificamente à partícula negativa não, verificou-se a sua ocorrência na posição pré e pós-verbal. A partícula também aparece interpolada entre o verbo e o clítico, o que ocorre em 33,5% dos dados. A autora salienta que a interpolação é um dos aspectos que distinguem o PE do PB atual e que, nesse aspecto, as estruturas negativas devem ter sofrido mudanças em período subseqüente. A autora observou também que, além da partícula não ter escopo sentencial, os dados do século XIX mostram que ela pode negar outros constituintes, formados por SP e por Adjetivo. A negação de constituinte nominais, entretanto, não é atestada no material analisado, o que pode ser indício de que construções como “o não-pagamento” sejam inovações lingüísticas que também remetem ao século XX.

 

VI – O estudo dos auxiliares: ter e haver

   

Callou & Avelar (2002) estudaram estruturas com verbo Ter e Haver nos anúncios do século XIX com o objetivo de analisar a passagem de haver para ter, que caracteriza o PB. Dentre as estruturas analisadas (existenciais, posse, V+particípio passado e modal), as existenciais são as que mais resistem ao uso de ter (22%). As estruturas com particípio passado ocorrem, majoritariamente, com o verbo ter (94%).

Os autores verificaram a presença de uma expressão locativa nas estruturas existenciais e nas de posse com ter e haver, indício do elo semântico e sintático entre as duas construções. Nas estruturas de posse, foram analisados aspectos como semânticos como animacidade, características inerentes ao objeto, bem material ou abstrato do possuidor e do elemento possuído. Observou-se que construções com X animado e Y intrínseco também apresentam uma expressão locativa e estabelecem um elo entre estruturas existenciais e possessivas (José Antonio tem uma cicatriz no peito). Desse tipo de estrutura podemos derivar: a) O peito de José tem uma cicatriz; b) No peito de José tem uma cicatriz.

Estruturas existenciais e possessivas com Y concreto e não intrínseco, comuns no PB atual, não foram atestadas nos anúncios: a) A mesa tem um livro; b) Na mesa tem um livro.

Com os resultados desse trabalho pode-se vislumbrar a hipótese de que  a gramaticalização de ter, passagem de verbo pleno para funcional, antecede o uso desse verbo nas construções existenciais. Pode-se aqui levantar a questão: há correlação entre a gramaticalização de ter e o seu uso nas estruturas existenciais?

 

Considerações finais:

 

Os trabalhos apresentados confirmam as hipóteses de Ribeiro (2001) e de Moraes de Castilho (2001), a saber: (i) o PB é resultado de mais de uma gramática e não pode ser descrito comparativamente apenas em relação ao PE moderno; (ii) algumas questões gramaticais são derivadas das variantes lingüísticas do português quatrocentista, cujo desenvolvimento está no domínio do PB.  

As mudanças gramaticais creditadas ao português quatrocentista são as seguintes: a) o enfraquecimento da morfologia verbal; b) o apagamento de um dos constituintes do redobramento sintático, do qual deriva o uso do pronome tônico na posição de objeto e na estrutura possessiva; c) a perda da ordem VS de inversão germânica.

No domínio do PB verificamos mudanças na realização dos argumentos e nas preposições em complementos verbais. Na realização dos argumentos, observamos: a) o preenchimento do sujeito nas encaixadas com sujeito correferencial; b) a gramaticalização das formas pronominais, seja na posição de sujeito, seja na posição de objeto; c) a extensão do uso das formas pronominais gramaticalizadas para a realização do sujeito arbitrário; e d) a reorganização do sistema pronominal arbitrário, que sai da órbita da 3a. pessoa para as pessoas do discurso. No que concerne às preposições em complementos verbais, foram registrados os primeiros indícios da perda gradual da preposição a nos verbos de movimento, nos verbos dativos e nas estruturas perceptivas e causativas.  

No que diz respeito à gramaticalização das preposições nos complementos verbais e à gramaticalização dos pronomes, seja para o sujeito referencial seja para o sujeito arbitrário, parece que precisamos esperar o século XX para a implementação e difusão da mudança. Nesse sentido, o século XIX apresenta apenas algumas poucas evidências do que vinha a se firmar no século subseqüente.   

De uma maneira geral, pode-se dizer que a realização dos argumentos verbais, preposicionados ou não, depende do processo de gramaticalização dos elementos pronominais, que se faz gradualmente, em um percurso de LONGA duração, como mostrou Lopes, no estudo da gramaticalização do item a gente, e como mostraram os trabalhos de Duarte e Cavalcante no estudo do sujeito referencial e arbitrário.  Além disso, o apagamento e o preenchimento de um elemento argumental se submetem à hierarquia da Referencialidade (Cyrino, Duarte e Kato 2000), cujos pólos são atingidos após um LONGO período de tempo, dada a interação dos diferentes traços semânticos envolvidos.

É possível que o enfraquecimento da morfologia verbal e o apagamento de um dos constituintes do redobramento sintático sejam mudanças mais instantâneas, retardadas apenas pelas diferentes gramáticas que se alinham com as diferentes ondas migratórias.

Em suma, pode-se dizer que os trabalhos de descrição lingüística desenvolvidos no âmbito do PHPB são altamente elucidativos na explicação da formação do PB e a sua continuidade se faz necessária para que possamos delinear o quadro descritivo da sintaxe do Português do Brasil e para fornecer explicação gramatical dos epifenômenos descritos, tarefas do PHPB, conforme Castilho (1999).

 

 

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CAP. III - A HISTÓRIA SOCIAL LINGÜÍSTICA DO BRASIL NO

ÂMBITO DO “PROJETO PARA A HISTÓRIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO”

(Versão preliminar)

Tânia C. F. Lobo (UFBA)

mailto:tanlobo@ufba. Br

 

Klebson Oliveira (PPGLL-UFBA)

mailto:klebsonoliveira@bol.br

 

Introdução

 

O Projeto Nacional para a História do Português Brasileiro (PHPB) estruturou-se, desde a sua origem, a partir de três campos de atividades: a) estudos sobre mudança gramatical; b) estudos sobre história social lingüística e c) organização de corpora. O objetivo deste relatório é apresentar uma síntese das reflexões e das investigações produzidas no âmbito do referido Projeto relativamente à história social lingüística do Brasil, o segundo, portanto, dos três campos de atividades anteriormente mencionados; para tal, foram considerados os textos publicados em Castilho (1998), Mattos e Silva (2001), Alkmim (2002) e Duarte & Callou (2002)[16].

   Embora o critério para a leitura dos textos tenha sido o cronológico, obedecendo-se, portanto, à seqüência da sua comunicação aos Seminários realizados, a apresentação que a seguir se fará está pautada em critério temático, tendo-se agrupado os textos em três subconjuntos, com o objetivo, assim, de que, para além de permitirem visualizar o já feito, permitam também melhor planejar as investigações futuras:

1.             Projetos gerais para a história social lingüística do Brasil e/ou para a história social do português brasileiro[17];

2.             Questões relativas à constituição sócio-histórica do português popular e do português culto brasileiros;

3.             Projetos e investigações sobre a história social lingüística do Brasil e/ou sobre a história social do português brasileiro em regiões específicas do país[18].

Ao final, referem-se, na Bibliografia, os textos a partir dos quais este relatório foi elaborado, todos exclusivamente produzidos no âmbito do PHPB.

 

1. Projetos Gerais

 

No âmbito do PHPB, durante a realização do seu I Seminário, destacam-se dois textos de caráter geral, programático, em que se explicitam concepções teórico-metodológicas sobre o campo de investigação história social lingüística, mais especificamente sobre a história social do português brasileiro. São eles: Idéias para a história do português brasileiro: fragmentos para uma composição posterior de Rosa Virgínia Mattos e Silva (1998) e História social do português brasileiro: perspectivas de Jânia Ramos (1998).

 

Em Idéias para a história do português brasileiro: fragmentos para uma composição posterior, Mattos e Silva (1998) organiza sua exposição em duas partes. Na primeira – “Sobre o português brasileiro” –, expressa, calcada numa concepção sociolingüística, a sua compreensão do objeto português brasileiro e, na segunda – “Em direção a uma história do português brasileiro” –, propõe quatro grandes campos de pesquisa para a reconstrução e a escrita de uma história do português brasileiro.

Para explicitar a sua compreensão sobre o português brasileiro, parte de Serafim da Silva Neto (1986 [1950])[19], formulador e defensor da tese da unidade e conservadorismo do português no Brasil - expressão que o referido autor prefere à designação português brasileiro[20].  O cárater reducionista da tese da unidade e do conservadorismo é ressaltado por Mattos e Silva, quando afirma:

 

Reduzir a unidade ou variedade e a conservadorismo ou inovação a compreensão da heterogeneidade – sobretudo social, mas também espacial – do português brasileiro é extremamente simplificador; mas era o de que se dispunha. São os avanços mais recentes, sobretudo nos estudos da morfossintaxe e sintaxe do português brasileiro, que vêm permitindo delinear de forma menos redutora a realidade multifacetada do português brasileiro.” (27-28)

 

Visando à superação da visão reducionista acima referida, Mattos e Silva acolhe  proposta de caracterização sociolingüística do português do Brasil, elaborada por Lucchesi (1994)[21], que, capitalizando “os conceitos teóricos de variação, mudança e norma formulados pela lingüística contemporânea e os resultados de estudos e debates sobre o português brasileiro, a partir dos anos 80 para cá, [vai] demonstrar argumentativamente que o português brasileiro é não apenas heterogêneo e variável, mas também plural e polarizado.” Segundo tal proposta, no diassistema heterogêneo do português do Brasil, distinguem-se dois subsistemas igualmente heterogêneos – daí  polarização e pluralidade –, designados pelo autor como norma(s) culta(s) e norma(s) vernácula(s), designações que, mutatis mutandis, se aproximariam das mais correntemente referidas português culto e português popular. Enquanto a(s) norma(s) culta(s) tenderiam a perder características que as aproximam do padrão europeu original, a(s) norma(s) vernácula(s) tenderiam a adquirir características que as aproximam da(s) norma(s) culta(s), num processo de convergência, mas com nítidas diferenças, entendendo-se que uma mesma comunidade de fala se poderia caracterizar por sistemas de valores e padrões de uso lingüísticos distintos, ou mesmo antagônicos. Mattos e Silva destaca ainda que a referida polarização tem sido tratada por Kato (1993) como diglossia[22].

Antes de passar à apresentação de propostas referentes à reconstrução e à escrita de uma história do português brasileiro, Mattos e Silva discute duas questões: 1. Se a construção da história de uma língua não pareceria extemporânea, anacrônica a lingüística histórica, cuja motivação central, contemporaneamente, tem sido a busca de teorizações sobre a mudança lingüística em geral, focalizando aspectos significativos de mudanças lingüísticas em línguas específicas e 2. Se as mudanças lingüísticas são ou não tratáveis de maneira rigorosamente científica, já que decorrem sempre de complexos condicionamentos extra e intralingüísticos.

 

Relativamente à primeira questão, afirma:

A língua portuguesa, das suas origens (...) até a nossa contemporaneidade, não dispõe de um relato histórico circunstanciado e fundamentado teórica e empiricamente.” (31)

 

E ainda:

Quanto à história específica do português brasileiro nos seus cinco séculos de constituição, o trabalho de 1950 de Serafim da Silva Neto (...) e seu artigo-síntese de 1960 ainda constituem os dois estudos mais aprofundados sobre questões referentes ao português brasileiro, integrados nas concepções teóricas e ideológicas próprias do seu tempo. O ensaio [de 1985] de Antônio Houaiss é uma renovada, mas sintética visão de conjunto sobre o português brasileiro (...) (32)

 

Quanto à segunda questão, afirma:

(...) na minha compreensão, a reconstrução histórica do português brasileiro se movimentará em direção à reconstrução tanto histórico-social quanto lingüística do Brasil; e aí teremos de estar ancilares à historiografia sobre o Brasil. Palmilhando os caminhos da ars interpretandi, palmilharemos também os caminhos da sociolingüística histórica ou sócio-história lingüística, tentando estabelecer – o que é difícil, e muito, para o passado – a correlação entre fatores extralingüísticos e lingüísticos; palmilharemos, ainda, os caminhos previstos por teorias de mudança intralingüística, quer sejam segundo os modelos teóricos explicativos e considerados científicos da teoria da gramática de orientação chomskiana, quer sejam caminhos interpretativos que outras vertentes da lingüística nos possam fornecer, mesmo que hoje considerados não-científicos, porque meramente descritivos.” (33-34)

 

Ao discutir como tratar a questão histórica do português brasileiro, Antônio Houaiss (1985)[23] sugere quatro vias, que vêm abaixo mencionadas, por serem o ponto de partida de Mattos e Silva para os quatro grandes campos de pesquisa que propõe para a reconstrução e a escrita de uma história do português brasileiro:

 

1. a do levantamento exaustivo de depoimentos diretos e indiretos sobre todos os processos linguageiros havidos a partir (e mesmo antes, para com os indígenas e negros) dos inícios da colonização, levantamentos já em curso assistemático desde os historiadores dos meados do século XIX para cá; 2. o mapeamento confiável da dialectologia brasileira [...]; 3. o incremento da dialectologia vertical em tantos quantos possíveis grandes centros urbanos e focos rurais antigos, a fim de se poder ver a interinfluência entre o rural e o urbano na transmissão adquirida e induzida; 4. a penetração da língua escrita no Brasil, das origens aos nossos dias, não numa leitura “estética” [...] mas essencialmente lingüística.

 

Os quatro grandes campos de pesquisa referidos são:

 

a, campo que se moverá na reconstrução de uma história social lingüística do Brasil; b, campo que se moverá na reconstrução de uma sócio-história lingüística ou de uma sociolingüística histórica; c, campo que se moverá na reconstrução diacrônica no interior das estruturas da língua portuguesa em direção ao português brasileiro; d, campo que se moverá no âmbito comparativo entre o português europeu e o português brasileiro.

 

A caracterização detalhada de cada um dos campos é apresentada a seguir:

Dentro do campo a – ou campo da história social lingüística –, que “se moverá fundado na história social do Brasil, [sendo, assim,] dos quatro campos (...) aquele em que o historiador da língua estará mais próximo do historiador tout court”, Mattos e Silva indica duas vertentes de investigação: a) uma referente à reconstrução da articulação entre fatos demográficos e fatos lingüísticos e b) a outra referente à  reconstrução da história da escolarização no Brasil, que aponta como fundamental para compreender-se a polarização entre norma(s) vernácula(s) e norma(s) culta(s) do português brasileiro.” As vias 1 e 2, previstas por Houaiss, estariam contempladas nesse campo.

A abordagem dos campos b, c e d é feita interligadamente, tomando Mattos e Silva como orientação três dos conhecidos problems formulados por Weinreich, Labov e Herzog (1968)[24] para a investigação da mudança lingüística: o transition problem – na sua dupla face, transition na sociedade e transition na estrutura –, o embedding problem – também na sua dupla face, embedding na sociedade e embedding na estrutura – e o evaluation problem – ou seja, a questão da avaliação social das variantes.

Dentro do campo b – ou campo da sociolingüística histórica –, “que se moverá numa perspectiva de estabelecer correlações entre fatores lingüísticos e fatores sociais”, as investigações teriam como objetivo captar a variação histórica no âmbito (i) do embedding problem, o encaixamento na sociedade, (ii) do transition, a difusão de variantes na sociedade, e ainda (iii) do evaluation, a captação das avaliações que favorecerão ou não a mudança. Para a realização dos objetivos apresentados em (i) e em (ii), prevê a organização de um conjunto significativo de documentos, seriados tanto do ponto de vista estilístico quanto do ponto de vista cronológico. A seriação estilística proporcionaria a visão da variação sincrônica em momentos determináveis do passado, já que o objetivo é a reconstrução histórica do chamado português popular e do português culto do Brasil, e a seriação cronológica proporcionaria a visão do processo da mudança lingüística ao longo do tempo. Já para a realização dos objetivos apresentados em (iii), prevê a exploração de fontes indiretas, particularmente, porque passível de se fazer de forma sistemática, dos instrumentos gramático-filológicos, não descartando, contudo, a recuperação de avaliações dispersas em testemunhos históricos os mais inesperados.

Os campos c e d correspondem ao que, tradicionalmente, se designa como história interna; movem-se ambos, pois, no âmbito de um dos aspectos do embedding problem. Enquanto o objetivo do campo c seria o de “descrever e buscar explicitar ou explicar (...) o encaixamento no interior das estruturas e a difusão da variante em mudança pela estrutura”, a questão central do campo d seria “verificar se, em comparação com o português europeu, as mudanças ocorridas no português brasileiro já estariam prefiguradas ou encaixadas nele. Para tanto, terá de dispor do conhecimento do português europeu no seu processo histórico de constituição.”

 

Em História social do português brasileiro: perspectivas, Jânia Ramos (1998) organiza sua exposição em três partes. Na primeira – “História interna, história externa e concepções de gramática” –, a dicotomia história interna x história externa é retomada “à luz dos desenvolvimentos recentes da sociolingüística quantitativa referentes ao tratamento da mudança sintática”; na segunda – “Inter-relação dos aspectos sociais e lingüísticos no passado e no presente” –, argumenta “a favor de que a busca de resposta aos (...) problemas formulados por Weinreich, Labov e Herzog (1968), revisitados por Labov (1982)[25], continua sendo uma formulação adequada para explicitar a interação entre linguagem e sociedade, tomadas como componentes da história da língua de uma comunidade” e, finalmente, na terceira –  “Perspectivas” –, “a partir do ponto de vista definido nas duas primeiras sub-partes (...), [retoma] um plano de trabalho para a sócio-história do português brasileiro apresentado por Houaiss (1985)” e tece considerações sobre proposta de trabalho para a investigação da história social do português brasileiro. Considerando o conjunto de temas propostos para o I Seminário, quando, no que concerne à mudança lingüística, se deu privilégio exclusivo à reflexão sobre a mudança sintática, Ramos aponta o seguinte problema: “como se pode integrar a noção de mudança sintática, definida como resultado de contato de gramáticas, num estudo que reconhece a atuação de fatores de ordem sócio-histórica?”. A sua reflexão, portanto, será no sentido de contribuir com parâmetros que norteiem a construção de uma história social não na perspectiva do campo a – conforme proposto por Mattos e Silva e por ela designado campo da história social lingüística –, mas na perspectiva do campo b – designado de campo da sociolingüística histórica.

A revisão da clássica dicotomia história interna x história externa é feita, partindo-se da oposição entre uma concepção estruturalista e uma concepção sociolingüística de sistema. A autora destaca, assim, que, ao conceber o sistema como homogêneo, o estruturalismo “impede uma abordagem que investigue a força dos diferentes grupos socais no interior de uma mesma comunidade de fala, porque esta é vista como um todo e a mudança lingüística, concebida como resultado da atuação de forças internas à gramática.” Todavia, ao conceber o sistema como heterogêneo, sendo tal heterogeneidade passível de sistematização a partir da noção de que a unidade do sistema é uma variável, a sociolingüística laboviana  “leva à formulação de um quadro em que a dicotomia história interna x história externa fica diluída.” A noção de variável / de variação lingüística permite, pois, integrar ao sistema a heterogeneidade social.

A seguir, Ramos traz ao debate a hipótese, formulada por Kroch (1989)[26], de que a origem da mudança é sempre externa, hipótese que tem a força de recolocar em foco a questão do contato na explicação da mudança, porém não mais em termos de contato entre línguas, mas entre gramáticas. De tal hipótese, decorreria que “informações sócio-históricas, principalmente as de natureza demográfica, vão ser de interesse central em análises cujo objetivo é fornecer explicações para fenômenos de natureza diacrônica.” Decorreria ainda que “[se se aceita] a variação/mudança como resultantes de contato e [se se assume] que o contato tem como conseqüência a produção de enunciados representativos de gramáticas distintas, [se podem buscar], na variação sintática presente no corpus selecionado, evidências da presença das especificidades das gramáticas presentes na comunidade de fala.” Finaliza essa primeira parte do seu texto, concluindo que a investigação diacrônica, no sentido de “recompor o caminho de cada variante no contexto sócio-histórico, de modo a identificar em que momento e em que lugar geográfico e social a variante ocorreu, (...) equivale a responder à seguinte questão: com que gramática se deu o contato, quando, onde, como?”

Na segunda parte do seu texto, justamente com o objetivo de “exemplificar um tratamento [da mudança] que poderia ser rotulado de sócio-histórico”, conjuga os resultados de dois estudos sobre as formas de tratamento você e : Ramos (1996)[27]  que as investiga no dialeto mineiro – e Faraco (1996)[28] – que faz uma abordagem histórica de você. A perspectiva a ser demonstrada, como já se disse, é a de que a busca de respostas aos problemas clássicos da sociolingüística, formulados por Weinreich, Labov e Herzog (1968) em termos de questões, torna evidente a imbricação entre os aspectos sociais e lingüísticos no passado e no presente.

O estudo de Ramos (1996) “verificou que as formas você e são freqüentes no dialeto mineiro e que os contextos em que a forma é usada constituem um subconjunto daqueles em que você o é”, resultados que forneceram “evidência a favor da hipótese formulada por Vitral (1996)[29], segundo a qual seria um clítico no estágio atual do português brasileiro.” A partir do exposto, formula Ramos, então, as seguintes questões:

(i)             sabendo-se que no português europeu a forma você tem uso restrito e que a forma tu é preferida, qual teria sido a razão da “opção”  por você no dialeto mineiro?;

(ii)           em que momento a forma você entrou no português brasileiro?;

(iii)          qual a correlação entre a cliticização de e outras tendências sintáticas manifestadas no português brasileiro contemporâneo?

 

A seguir, sintetiza as conclusões de Faraco (1996). Segundo Ramos, nesse estudo, o autor, ao traçar “panorama econômico da sociedade portuguesa do século XII ao século XVII, com o propósito de evidenciar a correlação entre o tratamento dispensado ao rei (...) e o aumento do poder a ele conferido”, conclui que é justamente no “contexto de dependência ao rei (...) que se multiplicam as formas de tratamento. O tratamento por vós, usado no século XII, dá lugar a outros cinco, todos tendo seu primeiro registro nos séculos XIV ou XV: Vossa Mercê (1331), Vossa Senhoria (1434), Vossa Majestade (1440), Vossa Alteza (1450) e Vossa Excelência (1455).” A forma de tratamento Vossa Mercê, por sua vez, vulgariza-se: “No século XIV, torna-se forma habitual de tratamento não-íntimo entre aristocratas; no século XV, entre aristocratas e não-aristocratas; no século XVI, entre não-aristocratas (baixa burguesia); e, no século XVII, é ainda recomendada em cartas, tendo-se arcaizado e já convivendo com a nova forma: você.” Para finalizar a aborgagem histórica, Ramos chega à atual sincronia do português, para a qual, considerando o uso de você e de tu, em Portugal e no Brasil, aponta as seguintes diferenças: a) em Portugal, o uso de você, além de, segundo Paiva Boléo (1946)[30], ser avaliado negativamente em regiões rurais de Portugal, é observado entre iguais não-solidários e com interlocutor de status social inferior; já tu corresponde a tratamento íntimo e em expansão; b) no Brasil, o uso de você está em expansão e o de tu, restrito a certas regiões, utilizando-se a forma verbal correspondente à 3a pessoa do singular.

Finalmente, após ter sido traçado o panorama histórico, os problemas são abordados:

·       Questão da restrição [constraint problem]: Que mudanças são possíveis e que mudanças não são? Um estudo como esse não oferece elementos para a formulação de uma resposta.

·       Questão do encaixamento [embedding problem]: Por que se expande o uso de tu no PE e de você no PB? Encaixamento social: a forma você, usada pela baixa burguesia, era a forma corrente na fala dos colonizadores que vieram para o Brasil, por isso estabeleceu-se entre nós. Encaixamento lingüístico: a forma tu, indicativa de uma flexão mais rica, possivelmente seria, e de fato foi, preferida pelo dialeto cuja flexão possui tal característica: o PE. A forma você com flexão de terceira pessoa foi preferida pelo PB. No momento atual, em que há extensão de uso nos dois dialetos, mantém-se a opção diferenciada, o que mostra ser essa extensão subordinada a propriedades mais abstratas das respectivas gramáticas (...)

·       Questão da transição [transition problem]: Como a língua muda? Qual foi o percurso que vai de vós a você? Por quais caminhos a língua muda? Primeiro momento: Vós -> 2a  pessoa do plural; segundo momento: V+N -> 2a  pessoa do plural (oscilação da 3a pessoa do singular) concordância; terceiro momento: V+N -> 3a pessoa do singular -> Você -> 3a pessoa do singular. Inicialmente tem-se uma escolha lexical entre as várias formas V+N, depois a escolha é morfossintática (2a ou 3a pessoa?) e, por fim, há a escolha entre clítico ou  não-clítico.

·       Questão da implementação [actuation problem]: Por que a mudança tu/você/ocê ocorreu? Quando ocorreu? Onde ocorreu? Essas respostas são obtidas através de informações de natureza sócio-histórica e análise lingüística quantitativa (...)

·       Questão da avaliação [evaluation problem]: Como os membros de uma comunidade avaliam a mudança? Quais os efeitos dessa avaliação sobre o processo de mudança em si? Novamente aqui informações tanto de natureza sócio-histórica quanto de natureza propriamente lingüística são requisitadas, de modo a evitar a conclusão de que a extensão do uso de tu no PE resulta do fato de você ser usado em contextos de relação assimétrica, sem levar em conta as propriedades gramaticais abstratas, que se manifestam no PB contemporâneo como tendência de preenchimento de sujeito e marcação não-redundante da concordância.

 

Na finalização dos seu texto, Ramos retoma as quatro vias do plano de trabalho para a sócio-história do português brasileiro apresentado por Houaiss (1985) e sugere alternativas, justificando-as a partir do que expôs nos itens anteriores[31]:

 

·           Primeira via: (...) selecionar o mais brevemente possível um conjunto de tópicos sintáticos a ser investigade e um conjunto mínimo de dialetos regionais e, em seguida, empreender o levantamento sugerido.

·           Segunda via: (...) um mapeamento da dialectologia brasileira que informe satisfatoriamente sobre construções sintáticas á algo ainda por fazer. Por onde começar? Como? Um ponto de partida, a meu ver, seria identificar duas microrregiões cujo perfil evidencie diferenças sócio-históricas claras. O segundo passo seria tomar como referência um grupo de informantes representativo do dialeto urbano e um grupo de informantes representativo do dialeto rural: comparar-se-iam dados lingüísticos das duas comunidades, os quais refletissem os tópicos sintáticos inicialmente definidos e, em seguida se faria um histórico da formação de ambas as comunidades, evidenciando fatos relativos ao contato com falantes de outras gramáticas.

·           Terceira via: (...) essa via se confunde com a anterior, diferenciando-se apenas na ênfase dada ao aspecto vertical. A alternativa de abordagem sugerida em relação à via anterior permite integrar a dialetologia vertical e horizontal, uma vez que se adotam a noção de variação sociolingüística e um conjunto mínimo de variantes (...).

·          Quarta via: (...) o recorte alternativo inicialmente sugerido poderia ainda ser mantido. Se se leva em conta, no conjunto global das informações, referentes às duas comunidades inicialmente selecionadas, a penetração da língua escrita em diferentes momentos do tempo e nos diferentes segmentos sociais, será possível depreender tendências lingüísticas diretamente condicionadas pelo fator letramento.

 

2. Questões relativas à constituição sócio-histórica do português popular e do português culto brasileiros

 

Seis textos dedicam-se à constituição sócio-histórica do português brasileiro, enfocando-o não como uma unidade, mas privilegiando o ponto de vista que o reconhece como uma realidade heterogênea, para a qual, sempre dentro de enfoque sociolingüístico, se distinguem caracterizações que ou o concebem como um diassistema constituído por pelo menos dois subsistemas, também eles heterogêneos, designados de normas vernáculas e de normas cultas, ou o interpretam como um diassistema constituído por três subsistemas, grosso modo correspondentes a uma variedade rural inculta, uma variedade urbana inculta e uma variedade urbana culta.

Os textos a serem apresentados a seguir, portanto, contribuem diretamente para uma reconstrução mais aproximada da formação histórica daquilo que mais correntemente se tem designado de português popular brasileiro e de português culto brasileiro. São eles: De fontes sócio-históricas para a história social lingüística do Brasil: em busca de indícios de Rosa Virgínia Mattos e Silva (2001); A variedade  lingüística de negros e escravos: um tópico da história do português no Brasil e Estereótipos lingüísticos: negros em charges do século XIX de Tânia Maria Alkmim (2001 e 2002, respectivamente); Tentativa de explicação diacrônica de alguns fenômenos morfossintáticos do português brasileiro de Eberhard Gärtner (2002); Português padrão, português não-padrão e a hipótese do contato lingüístico de Heliana Ribeiro de Mello (2002) e, finalmente, Quais as faces do português culto brasileiro? de Ilza Ribeiro (2002).

 

Em De fontes sócio-históricas para a história social lingüística do Brasil: em busca de indícios, de Rosa Virgínia Mattos e Silva (2001), o objetivo principal é argumentar, a partir de indícios[32] extraídos de fontes sócio-históricas, a favor do papel predominante de africanos e afro-descendentes como difusores e formatadores do português popular brasileiro (PPB), variante social majoritária do português brasileiro e cujo antecedente histórico propõe ter sido o que designa de português geral brasileiro.

Ao iniciar o seu texto, Mattos e Silva retoma a caracterização sociolingüística do português brasileiro contemporâneo proposta por Lucchesi (1994) e por ela acolhida[33] e destaca que a compreesão e explicitação da complexidade do diagnóstico feito só será possível a partir de uma abordagem diacrônica. Embora não seja objetivo da autora tratar do passado do português culto brasileiro (PBC) – que, afirma, só começará a elaborar-se tardiamente, da segunda metade do século XVIII para cá, “a partir da política geral e da política lingüística pombalinas, que definem a língua portuguesa como língua oficial da colônia brasileira e iniciam o incentivo ao seu ensino” –, julga oportuno apresentar dados do primeiro recenseamento geral do Brasil, de 1872, colhidos em Fausto (1994)[34], que revelam indícios da difusão provavelmente restrita do PCB, ao fim do período colonial e do período imperial:

 

Os primeiros dados gerais sobre instrução mostram enormes carências nessa área. Em 1872, entre os escravos, o índice de analfabetos atingia 99.9% e entre a população livre aproximadamente 80%, subindo para mais de 86% quando consideramos as mulheres. Mesmo descontando-se o fato de que os percentuais se referem à população total [estimada nesse recenseamento em 4.6 milhões], sem excluir crianças nos primeiros anos de vida, eles são bastante elevados. Apurou-se ainda que somente 16.8% da população entre seis e quinze anos freqüentavam a escola. Havia apenas 12 mil alunos matriculados em colégios secundários. Entretanto, calcula-se que chegavam a 8.000 o número de pessoas com educação superior no país. Um abismo separava, pois, a elite letrada da grande massa de analfabetos e gente com educação rudimentar. (Fausto 1994:237)

 

Conclui, a partir dos dados acima referidos, que a polarização em norma(s) vernácula(s) e norma(s) culta(s) destacada por Lucchesi se enraíza no abismo a que se refere o historiador.

A seguir, concentra-se na questão da dinâmica do multilingüismo/ multidialetalismo no período colonial, enfocando, sobretudo, a emergência do antecedente histórico do PPB, que designa de português geral brasileiro, mas tecendo, previamente, considerações acerca do português europeu e das línguas gerais indígenas.

Ao enfocar o português europeu no Brasil colonial, Mattos e Silva vai buscar, nos dados demográficos reunidos por Alberto Mussa (1991)[35], resposta para a questão relativa ao contingente demográfico que teria sido o forte candidato a usá-lo ou a usar o português mais europeizado. A questão é relevante, pois, “o português europeu (ou o português mais europeizado) seria o modelo a perseguir na elaboração do [PCB], que, certamente, se distanciava do português geral brasileiro (...)”, e também porque “falantes dessas variedades de português – o europeu e o geral brasileiro – estiveram, certamente, em situações de contacto, portanto de interinfluências, ao longo, pelo menos, do período colonial.”. Sobre tal questão, afirma:

 

(...) os europeus e os brancos brasileiros, que se supõe terem falado o português mais próximo do português europeu, por causa da própria história familiar e conseqüente forma de aquisição do português, constituíram, ao longo do período colonial, uma constante (...): à volta de 30%, só crescendo para 41% na segunda metade do século XIX.

 

Ainda acerca do português europeu no período colonial, destaca que, para além da necessidade de se ter em conta a existência de diferenças dialetais geográficas e de diferenças dialetais sociais entre as variantes aqui chegadas, se deve considerar ainda  que “os portugueses e sua língua chegaram ao Brasil em 1500 e continuaram a vir por todo o período colonial”, a fim de que se possa avaliar se é pertinente a postulação tradicional segundo a qual o português brasileiro seria mais conservador em relação ao europeu, mantendo características do período arcaico e quinhentista[36].

No tópico relativo às línguas gerais indígenas no Brasil, a autora discute uma uma questão que considera fundamental na reconstrução de uma história lingüística do Brasil e, conseqüentemente, na reconstrução da história do português brasileiro, ou seja, a questão relativa a saber o que de diversidade lingüística recobre a designação língua geral, que, utilizada no singular e genericamente, continua a ser repetida por lingüistas e historiadores:

 

O percurso histórico do conceito língua geral no Brasil teria de ser reconstruído para que se tivesse uma aproximação mais exata dos valores semânticos recobertos pelo significante língua geral.

 

O ponto de partida apontado para a compreensão da diversificação que está embutida na expressão língua geral, é o estudo de Aryon Rodrigues (1986)[37], em que trata não de uma, mas de duas línguas gerais distintas – a paulista e a amazônica[38]. A situação referida leva-a a supor que, entre essas duas língus gerais, se pode idealizar um continuum de situações, com maior ou menor marca das línguas em contato, o português e a(s) língua(s) indígena(s). É, contudo, com base em trabalho do historiador John Manuel Monteiro (1995)[39] - segundo o qual, nas palavras do referido autor, “observadores portugueses da época colonial (...) facilmente confundia[m]-se com o português colonial, corrompido pela presença de barbarismos africanos e indígenas” – que vai levantar uma hipótese ainda não explorada, a de que

 

[aquilo] que na documentação colonial se designa por usar a língua geral, falar a língua geral, saber a língua geral se refira a um português simplificado, com interferências de línguas indígenas e também de línguas africanas

 

Ou seja, mais concretamente,

 

deveria ter havido [dificuldade] em distinguir [as] línguas gerais [descendentes do encontro do português europeu e de línguas da família tupi-guarani] do português geral brasileiro das camadas sociais que constituíam a maioria, a base da sociedade colonial polarizada

 

A hipótese de investigação proposta complexifica-se ainda mais, na medida em que não teriam sido os índios os difusores – no geral do Brasil – do português geral brasileiro, já que, a taxa de índios integrados à sociedade colonial descresceu drasticamente do século XVI para o século XIX: 50% no século XVI; 10% no século XVII; 8% no século XVIII; 4% na primeira metade do século XIX e, finalmente, 2% na segunda metade do século XIX[40]. A argumentação da autora[41] será, pois, no sentido de demonstrar que africanos e afro-descendentes foram os principais difusores e formatadores do português geral brasileiro, antecedente histórico do PPB. A defesa desse ponto de vista baseia-se nos argumentos apresentados a seguir:

 

a.              a.                  a.     a.     A massa de africanos e de afro-brasileiros (negros e mulatos) foi extremamente significativa na dinâmica da demografia colonial e pós-colonial brasileira: 20% no século XVI; 60% no século XVII; 60% no século XVIII e 65% no século XIX. Não tendo havido a possibilidade de se estabelecerem no Brasil línguas africanas, os africanos adotaram o português do colonizador, reestruturando-o profundamente, porque adquirido em situações de oralidade e sob o second language learning effect[42];

b.              b.                  b.     b.     A presença dos africanos e afro-descendentes foi generalizada por todo Brasil colonial, ainda que com menos representatividade no Brasil meridional e no Brasil Amazônico. Para além de terem estado sempre presentes nas grandes frentes de exploração mercantil, desempenharam ainda múltiplos e pequenos, mas essenciais, papéis[43] no interior das famílias dos colonizadores e também no espaço extra-doméstico, tanto nos núcleos urbanos em formação, como nas áreas rurais.

 

A caracterização feita para o português geral brasileiro apresenta-o como altamente diversificado e, embora afirmando a autora não ser tal diversificação verificável empiricamente, considera  provável ter havido denominadores comuns entre as suas variedades, as quais permitiriam a intercomunicação, pelo menos desde fins do século XVII e início do século XVIII. Destaca, então, o período da mineração como primeiro momento da integração colonial e afirma: “Muito provavelmente a língua de comunicação generalizada nesse momento integrador da sociedade colonial seria o português geral brasileiro (...).”

A parte final do texto trata da questão lingüística dos quilombos, aspecto da história afro-brasileira apresentado como essencial para a compreensão da difusão do PPB em perspectiva histórica. Houve, durante o período colonial, centenas, senão milhares de quilombos[44]. Segundo J. J. Reis e F.S. Gomes (1996)[45] – organizadores da coletânea de estudos Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil –, os quilombos, espaços ilegítimos da escravidão, apesar de terem de se isolar para sobreviverem, também, por causa da sua sobrevivência, se articulavam com a sociedade legítima. A partir de indícios extraídos desta última fonte sócio-histórica, Mattos e Silva diz:

 

Embora os estudos do  livro não falem da “língua” dos quilombos como gostaríamos, poder-se-ia conjecturar (...) que, nessas situações sociais, se encontrariam múltiplas falas correntes no Brasil: africanas, indígenas, português africanizado, português indígena, até português europeu, já que acoitavam fugitivos. Seriam laboratórios de formação (...) de um português geral brasileiro, necessário à articulação com a sociedade, sobretudo à do segmento escravo, mas não só, externa a esses espeços ilegítimos.

 

As referências explícitas à questão da língua em Palmares são transcritas pela autora e apresentadas a seguir:

 

não sabemos que língua se falava em Palmares. Aparentemente, contudo, os palmarinos, como uma população de origem variada, congregando     africanosde diferentes tribos, índios e europeus, deveriam usar uma espécie de língua comum, não necessariamente banto (Funari 1996)[46].

 

A língua falada pelos palmarinos, de acordo com o que li, era um tipo de português misturado com elementos africanos, mas diferente o suficiente para que outros brasileiros não a entendessem. Havia sempre intérpretes acompanhando as entradas com o objetivo de interrogar os prisioneiros de guerra. (Price 1996)[47].

 

Em ambos os casos, confirma-se, pois, que não seria uma língua africana a do quilombo dos Palmares. Então, para concluir, reforça a autora o ponto de vista defendido:

 

Provavelmente cada quilombo teria tido sua própria configuração lingüística, a depender dos membros componentes desses coletivos, mas muito provavelmente haveria sempre aqueles, em cada quilombo, que se articulariam com os espaços legítimos do seu entorno geográfico e social, já que havia uma articulação com os grupos sociais envolventes, importantes para a sobrevivência, pelo menos econômica, dos quilombos. Essas configurações também seriam diferentes, provavelmente, no que se refere aos quilombos da periferia dos centros pré-urbanos da época em relação aos rurais.

 

Os dois textos da autoria de Tânia Maria Alkmim dedicam-se à caracterização da variedade lingüística de negros e escravos.

No primeiro, justamente intitulado A variedade  lingüística de negros e escravos: um tópico da história do português no Brasil, após destacar a atuação pioneira de Serafim da Silva Neto (1950) no registro de informações importantes, coletadas em fontes históricas, sobre o tópico em questão, pergunta-se se haveria outras informações pertinentes e responde afirmativamente a esta questão, dizendo que “a leitura de um conjunto de obras que tratam da escravidão e do negro se mostrou fundamental com relação à questão da documentação de fatos de linguagem.” O seu objetivo, pois, no texto em questão, é, partindo essencialmente das informações extraídas de Serafim da Silva Neto (1950), sistematizar um conjunto de informações extraídas de outras fontes: Cunha (1985)[48]; jornais e periódicos do século XIX e ainda textos literários brasileiros do século XIX, particularmente a prosa de ficção (romances e contos) e o teatro.

 

Quanto aos dados extraídos de charges de jornais e de obras literárias, observa que, “os dados relativos à linguagem coletados em obras literárias devem, antes de mais nada, ser avaliados enquanto elementos que integram a criação artística. Além disso, como no caso da reprodução de linguagem em charges, a análise de tais dados é inseparável da questão dos estereótipos”. Chama ainda a atenção para o fato de que, apesar de as informações e as fontes apresentadas serem muito distintas, não permitindo generalizações, apontam fatos importantes para uma pesquisa sobre a linguagem de negros e escravos, referindo-se a quase totalidade dos registros ao século XIX.

As informações coletadas foram organizadas nos sete grupos seguintes:

(i)             Atitudes

(ii)           Idade de escravos africanos

(iii)          Consideração da influência de línguas africanas

(iv)          Uso de línguas africanas

(v)           Situações de contato e de interação

(vi)          Aquisição e domínio da língua portuguesa

(vii)        Dados lingüísticos

 

Quanto ao último dos sete grupos referidos – Dados lingüísticos –, os fenômenos lingüísticos observados são de forma resumida, apresentados pela autora como vem a seguir:

 

-       formas de tratamento;

-       uso do próprio nome em lugar do pronome de 1a pessoa;

-       uso de forma verbal/pronominal de 3a pessoa;

-       gênero incorreto;

-       ausência da marca redundante de plural;

-       omissão de artigo;

-       concordância verbal incorreta;

-       presente do indicativo em lugar do presente do subjuntivo;

-       indefinido tudo em lugar de todos;

-       uso da forma subjetiva do pronome em função de objeto;

-       forma do pronome possessivo incorreta (mi, );

-       ausência do reflexivo se;

-       ausência do r final;

-       ausência do l final;

-       l em lugar de r;

-       r em lugar de l;

-       r fraco em lugar de r forte;

-       fechamento do timbre da pretônica;

-       fechamento do timbre da vogal de monossílabos;

-       ieísmo;

-       despalatalização;

-       redução de ditongos;

-       metátese;

-       paragoge;

-       prótese;

-       epêntese de vogal em grupo consonantal;

-       aférese;

-       assimilação.

 

Na conclusão destaca que

 

o trabalho apresentado carece de aprofundamento, particularmente no sentido de obter um volume bem maior de informações relevantes

 

 

No segundo texto, Estereótipos lingüísticos: negros em charges do séc. XIX, a autora destaca, inicialmente, Labov (1972)[49], para quem estereótipos são formas lingüísticas fortemente estigmatizadas, de grande impacto social. E acrescenta:

 

Produto de avaliação social, os estereótipos constituem-se como marcas que  representam a fala de indivíduos, de grupos ou classe de indivíduos. Nesse sentido, os estereótipos resultam da seleção de algumas formas – as mais freqüentes, as mais salientes, as mais privativas – que, simbólica ou efetivamente, funcionam como índices de pertencimento social, regional, sexual, etário, etc.

 

Neste trabalho, Alkmim analisa charges escritas entre 1831 a 1876 e observa que, nelas, a fala de negros e escravos brasileiros faz contraste absoluto com a fala de personagens brancas, o que permite caracterizar as formas lingüísticas identificáveis como próprias ao grupo. Os negros e escravos são identificados como ‘negro’ (1831), ‘pretos de ganho’ (1864),  ‘negros minas’ (1868), ‘sargento pretalhão’ (1870) e ‘casal de pretos’ (1876) e, no que diz respeito às formas de tratamento atestadas, distinguem-se:

a)     formas utilizadas dos negros para brancos: ssió (1831), meu sinhô (1864), seu moço urbano (1868), sinhô velho (1868) e nhonhô;

b)    formas utilizadas dos brancos para negros: paizinho (1864) e

c)     formas utilizadas entre negros: pai Zuaquim (1868), mãe Zuana e pai Zuão.

 

Apresentam-se, a seguir, as marcas de linguagem que chamam a atenção nas charges, as quais destacam aspectos fonéticos e gramaticais das figuras de negros e escravos representados:

 

1. Marcas fonéticas

-       ausência de r final

-       ausência de l final

-       l pós-vocálico → r

-       fechamento do timbre da pretônica

-       fechamento do timbre da vogal de monossílabos

-       aférese

-       síncope de fone

-       síncope de fone em paroxítono

-       epêntese de vogal em grupo consonantal (CVV)

-       Zz

-       ditongação

-       lλ

-       paragoge (CVC)

-       lr

-       rl

-       desnasalização

-       redução de ditongos – a) ewe

                                                                  b) oyo

                                                                  c) ow u

                                                                  d) õwno

-       λy

 

2.                       2.                              2.     2.     Marcas gramaticais:

 

-       concordância de gêneros incorreta

-       flexão verbal de número e pessoa incorreta

-       ausência de artigo

-       quantificador “tudo” em lugar de “todo”etodas”

-       ausência de marca redundante de número

-       ausência de concordância sujeito-verbo

-       forma do pronome após preposição

-       presente do indicativo em lugar de presente do subjuntivo

 

Frente a esse conjunto de dados, pergunta-se a autora: “estamos, de fato, diante de estereótipos lingüísticos de negros e escravos brasileiros? Ou ainda: os estereótipos observados e fixados nas charges tinham correspondência com usos reais?”. E a sua resposta é positiva, já que, em dados coletados em fontes literárias (prosa de ficção e teatro) do século XIX, a quase totalidade das marcas fonéticas e gramaticais é observada nos dois tipos de fonte, excetuando, para as marcas fonéticas, ditongação e l → λ e, para as marcas gramaticais, forma do pronome após preposição e presente do indicativo em lugar de presente do subjuntivo.                                                                                                                                                       

A questão final colocada é: tais marcas – ou algumas delas – seriam privativas do grupo de negros e escravos? Segundo a autora, algumas delas parecem indissociáveis da origem africana de seus usuários; outras, com certeza, não.

 

Em Tentativa de explicação diacrônica de alguns fenômenos morfossintáticos do português brasileiro, Eberhard Gärtner (2002), a partir de estudos realizados na década de 80 sobre o português não-padrão de Angola e Moçambique e ainda sobre a respectiva produção literária daqueles países, afirma aceitar a tese do contato lingüístico como explicação primordial de certos fenômenos brasileiros[50] e propõe uma caracterização sociolingüística do PB, a partir de um diassistema constituído por três variedades designadas de variedade rural inculta, variedade urbana inculta e variedade urbana culta.

 

A primeira parte do texto é, pois, dedicada a discutir a formação do referido diassistema, entre cujas variedades não supõe existirem barreiras rígidas. Segundo o autor, as línguas africanas e as indígenas com as quais o português entrou em contato no Brasil pertencem a grupos tipológicos que não conhecem o processo de flexão típico do português. Dadas as condições em que foram obrigados aprender o português, os falantes dessas línguas teriam simplificado todos aqueles elementos cuja função não lhes fosse transparente, resultando deste processo o que é geralmente suposto ter sido um pidgin[51], crioulo ou semi-crioulo[52], ou seja, um português extremamente simplificado. É com base em um processo posterior de reaportuguesamento ou descrioulização, que afirma ser decorrente da imposição do português a partir do século XVIII, que vai explicar a formação das variedades incultas, a rural e a urbana, as quais apresentariam traços lingüísticos também encontrados nas variedades não-padrão do português de Angola e Moçambique:

 

[o processo de reaportuguesamento ou descrioulização] terá contribuído para que o sistema extremamente simplificado do pidgin ou semi-crioulo adotasse, nas regiões influenciadas pela irradiação lingüística dos centros urbanos, pelo menos alguns dos elementos e processos morfossintáticos do português normal, o que terá resultado na formação da linguagem rural do interior, na forma dos dialetos matuto[53] e caipira[54];

 

uma vez que as camadas baixas da população urbana se constituíram (e se vêm constituindo até hoje) por elementos humanos de procedência rural, a linguagem dessas camadas incultas, sob a influência direta do português normal das classes dominantes, se terá ido paulatinamente transformando numa nova variedade lingüística, no que costumamos chamar de linguagem urbana inculta, língua popular, linguagem popular ou vulgar.

 

Explicado, assim, o processo de formação das duas variedades incultas, passa à explicação do processo de formação da variedade urbana culta, cujo início vai situar em momento posterior:

 

No século XIX, depois da Independência do Brasil, com a urbanização da sociedade, começou a formar-se a linguagem urbana culta (...), sob a influência de dois fatores opostos: a linguagem falada nas cidades, bastante heterogênea (...) e a norma culta européia, imposta até o nosso século, por meio do ensino escolar. Na medida em que essa nova variedade ia tomando corpo próprio, o que parece coincidir no tempo com a constituição da República em fins do século XIX, ela foi aceitando determinados fenômenos do português popular, arraigados já irremediavelmente no uso oral.

 

Gärtner conclui o item relativo à explicação do processo de formação da variedade urbana culta, observando ter sido tal processo descrito como alteração de parâmetros[55] e apresentado, às vezes, como uma mudança intra-sistêmica do PB[56], comparada à mudança similar no francês medieval[57]; contudo a sua posição é a de que:

 

 parece antes tratar-se de mudança dentro de uma determinada variedade, provocada pela entrada nela de fenômenos que tiveram a sua origem no contato lingüístico da época colonial, e que se expandiram da linguagem rural para a urbana inculta e daí para a falada culta.

 

   Passa a seguir à análise de fenômenos de simplificação ocorridos no português brasileiro. O procedimento adotado em todos os casos é o de verificar se os fenômenos sob análise se verificam: a) no suposto português extremamente simplificado do passado, do qual só se teria conhecimento muito indireto através da imitação da fala de negros em três peças de Gil Vicente[58] ou ainda através da imitação da fala de índios das missões numa tragicomédia representada por padres jesuítas em 1620[59] b) nos falares crioulos ou semi-crioulos de Helvécia-Ba[60]; c) em manifestações do folclore afro-brasileiro e d) no português não-padrão de Angola e Moçambique.

 

1. Simplificação da flexão verbal e suas conseqüências

No âmbito da flexão verbal, o autor destaca a queda do morfema número-pessoal, levando à generalização da 3a pessoa do singular e à presença obrigatória do pronome sujeito[61]. A partir de Marques (1985)[62], a explicação proposta para a queda do morfema é a ausência da flexão verbal nas línguas bantas, que exprimem estas categorias mediante prefixos concordantes do sujeito: 

 

Os falantes de línguas bantas terão identificado os pronomes retos do português com os sujeitos pessoais das suas línguas, e, descobrindo no português processo de concordância prefixal, terão passado a expressar o sujeito só pelo pronome, tornando-o assim obrigatório e negligenciando os morfemas verbais.

 

Propões Gärtner que o sistema primitivo “terá ido sendo gradativamente alterado posteriormente, sob a influência crescente do português normal, morfologicamente intato, dos imigrantes portugueses a partir do século XVIII” e identifica na reconstituição do morfema verbal na primeira pessoa do singular, com o que se obtém o sistema morfológico característico da linguagem rural, o primeiro passo do gradativo processo de alteração. A reconstituição do sistema terá tido como conseqüência a redundância da expressão do sujeito, que também ocorre com as formas semicorretas das primeira e terceira pessoas do plural. Finalmente, na sociedade urbana, “a confluência do sistema rural com o do PE terá levado à constituição do sistema redundante, com o emprego obrigatório do pronome sujeito e do morfema verbal de pessoa e número em todas as pessoas do verbo (ainda) usadas no PB”.

 

2. Simplificação da flexão nominal e suas conseqüências

2.1 Flexão de gênero

 

No âmbito da flexão nominal, a primeira situação referida é a confusão do gênero dos substantivos (e até dos pronomes pessoais), observada, às vezes, na alteração da forma do próprio substantivo (ou pronome)[63], porém, na maioria das vezes, na atribuição do morfema inadequado de concordância aos artigos e adjetivos adnominais ou predicativos[64]. Observa-se ainda que a alteração se pode fazer em qualquer um dos dois sentidos: do masculino para o feminino e vice-versa. Também aqui a explicação proposta para o fenômeno estaria na diferença tipológica das línguas em contato, ou seja, o fato de as línguas bantas não conhecerem a subclassificação dos substantivos segundo o gênero.

 

2.2. Flexão de número

 

O segundo fenômeno enfocado é a queda da concordância de número, ou seja, a redução da sua expressão muitas vezes ao primeiro elemento do sintagma nominal[65]. Segundo Gärtner, não seria este um processo fonológico generalizado, uma vez que o /s/ se mantém, por exemplo, no primeiro elemento do SN, mas, antes, um processo morfológico, que, mais uma vez, explica, a partir Marques (1985), pelo contato de línguas:

 

Nas línguas bantas, cujos substantivos se subclassificam em classes semânticas, caracterizadas por um prefixo característico com formas para o singular e o plural, respectivamente, o número é designado pelos prefixos variáveis dos substantivos e pelos prefixos concordantes dos adjetivos. A concentração no prefixos, elementos iniciais, terá levado os aloglotas africanos a negligenciar, mais uma vez, os morfemas gramaticais dos nomes portugueses, por se encontrarem no fim da palavra.

 

2.3. Determinação: o artigo

 

O terceiro fenômeno tratado é a omissão, embora não sistemática, do artigo[66]. A este respeito, afirma:

 

Como as línguas africanas também não conhecem a categoria de determinação, expressa pelos artigos, parece natural atribuirmos sua omissão igualmente à simplificação introduzida no português pelo aloglota.

 

2.4. Função sintática: preposições

2.4.1. Omissão

 

Segundo o autor, por serem as preposições um recurso específico das línguas flexionais, não causa espécie encontrar-se, na imitação da linguagem de negros e índios, exemplos da omissão de preposições em complementos adverbiais de direção e em construções perifrásticas. Nota ainda que, apesar de, em construções perifrásticas a omissão da preposição também se encontrar no PE, o fenômeno teve maior desenvolvimento no português extra-europeu, tendo sido atestado nas linguagens rural e urbana inculta brasileiras, mas, sobretudo, no português africano, onde não se limitou às construções perifrásticas com a preposição a, estendendo-se a outras preposições e afetando mesmo o objeto preposicional, as locuções preposicionais e adverbiais e até construções de infinitivo regidas por verbos.

 

2.4.2. Extensão funcional da preposição em

 

O comportamento divergente das preposições foi atestado não apenas no que toca aos casos de omissão anteriormente comentados, mas também quanto ao fenômeno da extensão funcional da preposição em. No PE, em complementos adverbiais, em designa normalmente o ‘lugar onde’, tendo passado, no entanto, no português extra-europeu a designar também o ‘lugar aonde[67].  Apoiando-se mais uma vez em Marques (1985), Gärtner afirma:

 

vemos a causa da confusão entre ‘lugar onde’ e ‘lugar aonde’, mais uma vez, na falta da respectiva distinção nas línguas bantas. Segundo a referida autora angolana, ‘para casa’ e ‘em casa’ dão indistintamente ‘ku nzo em kikoongo, ‘konjoem umbundo e ‘ku bata em kimbundo

 

E ainda:

À mesma causa será devido o emprego da preposição em para designar proximidade (...), função reservada em PE à preposição a. A tese da origem no contato de línguas é apoiada adicionalmente pela grande extensão que o emprego da preposição em em vez da preposição a tem tido no português africano e que ultrapassa de muito as possibilidades do português arcaico. Usa-se em adjuntos modais (...), em objetos preposicionais (...), no objeto direto pleonástico (...), mas sobretudo, e nomeadamente no português angolano, no objeto indireto dativo (...)

 

3. Simplificação da flexão pronominal e suas conseqüências

 

Nas variedades incultas do PB, nos subsistemas dos pronomes pessoais,  constata o autor a neutralização da oposição entre o caso reto e o oblíquo, e, na terceira pessoa, também entre o dativo e o acusativo etimológicos. A este respeito afirma que

 

Embora as línguas bantas conheçam o processo de pronominalização anafórica, utilizando o umbundo e o kimbundo até formas diferentes para o caso reto e o oblíquo, ao passo que o kikoongo usa as mesmas formas para os dois casos, o sistema pronominal do português terá sido pouco transparente para o aloglota. Assim, optou por duas estratégias: (1) evitar seu emprego quando o sentido estivesse claro pela situação ou (2) empregar as formas tônicas mais facilmente segmentáveis na cadeia falada portuguesa, mas sem distinguir os casos reto e oblíquo e dando aos pronomes o mesmo tratamento sintático que aos substantivos.

 

3.1. Omissão do pronome pessoal objeto

A omissão do pronome (=objeto nulo) acontece sobretudo, embora não exclusivamente, no caso do objeto direto[68].

 

3.2. Pronomes sujeito em função de objeto

 

A linguagem rural brasileira apresenta solução radical quanto à oposição de casos, empregando as formas retas na função de objeto direto e mesmo depois de preposição, com exceção, talvez, do objeto indireto dativo, onde se atesta sistematicamente a forma mim. Gärtner considera que o fato de a substituição das formas oblíquas pelas retas ter afetado todas as pessoas torna pouco plausível a hipótese da sobrevivência de uso arcaico[69], explicando o fenômeno a partir do contato do português com línguas que não conhecem um sistema pronominal com distinção de pessoa, número, caso e gênero[70]. Supõe ter tido o processo do reaportuguesamento, a partir do século XVIII, o papel de fortaler o emprego das formas átonas, mas a reconstituição deu-se apenas parcialmente, já que ainda se encontram formas retas em função de objeto direto na linguagem urbana inculta. Destaca ainda, a ocorrência da forma reta da terceira pessoa (ele, ela) em registros informais da linguagem falada culta[71]. Para o autor,

 

A maior aceitabilidade deste pronome em função de objeto direto se explicará pelo fato de ele, como os substantivos e o pronome-substantivo você, não ter formas distintas para os casos reto e oblíquo (...). Temos, portanto, que o resultado de uma simplificação efetuada em situação de contato lingüístico passou tal e qual para a linguagem urbana inculta, arraigando-se de tal maneira que o emprego das formas átonas do PE é hoje sentido como pouco brasileiro. A substituição das formas oblíquas átonas pelas tônicas retas de primeira e segunda pessoa parece ser mais acitável depois de verbos causativos (deixar, fazer, mandar) e sensitivos (ver, ouvir, sentir) seguidos de infinitivo (...). Isto se deverá a uma reinterpretação da função sintática do pronome.

 

Em Português padrão, português não-padrão e a hipótese do contato lingüístico, Heliana Ribeiro de Mello (2002) destaca inicialmente que “um dos primeiros fatores a se levar em consideração ao analisar a ecologia lingüística caracterizadora do Brasil colonial é o multilingüismo.” Assim,  a questão fundamental a se discutir é como se teria desenvolvido, a partir de tal contexto lingüístico, o que hoje se chama de português brasileiro. Apoiando-se em Thomason and Kaufman (1998)[72], propõe  hipótese para o desenvolvimento do português brasileiro, levando em conta a interação de fatores sócio-históricos e suas implicações no âmbito da mudança lingüística.

Mello distingue, no português brasileiro, duas variedades:

-       a não-padrão (PNP): dialetos falados pela massa populacional que pouco ou nenhum acesso teve à educação escolar, ou por pessoas que  dominam variedades dialetais padrão, mas se expressam em PNP em contextos relaxados, íntimos, familiares;

-       a padrão (PP): modalidade predominantemente utilizada nos contextos de interação formal por uma parcela da população que teve acesso à educação formal.

 

Chama a atenção para o fato de que não haveria um corte abrupto entre PNP e PP e, sim, gradações de marcas lingüísticas. Contudo, dentres outras, seriam  cacterísticas apenas de variedades do PNP as seguintes:

 

a)     redução do paradigma de concordância verbal;

b)    marcação de concordância de número no primeiro elemento do SN;

c)     predominância de construções analíticas (por exemplo a quasi-passiva em lugar de passivas sintéticas);

d)    relativas cortadoras e com estratégias de uso do pronome lembrete.

 

Para a autora, dois quadros, não mutuamente excludentes, se colocam no estudo da formação do PNP:

1.     mudanças lingüísticas intra-sistêmica e deriva (fatores internos) – “tendências internas presentes em dialetos portugueses, incluindo-se aí variedades arcaicas, além de inovações, simplificações e mudanças que ocorrem espontaneamente em todas as línguas ao longo do processo de transmissão pelos seus falantes”;

2.     inovações induzidas pelo contato lingüístico (fatores intersistêmicos) – “possíveis efeitos acarretados por situações de contato lingüístico, ou seja, empréstimos, transmissão incompleta e crioulização.”

 

   Apesar de reconhecer ser a deriva, dentre os processos de mudança, o mais bem estudado, afirma que “muitas dúvidas quanto aos mecanismos que levam à sua aplicação permanecem”. Enfocando a vertente de estudos comparativos entre PNP e Português Arcaico (PA), observa que se tem sugerido que muitos dos traços diferenciadores do PNP seriam resultado de tendências evolutivas não apenas do PA, mas do próprio latim. Da comparação entre o PNP e o PA, vai destacar:

Para o nível fônico:

Pontos de divergências:

a)     “parecem diferir quanto ao número de consoantes e na qualidade de algumas vogais”;

   b)    “[no PNP, ocorre] simplificação da estrutura silábica, especialmente no que diz respeito à quebra de grupos consonantais pela inserção de vogais e apagamento de consoantes”;

    c)     “não encontrei evidências, nos dados consultados, que confirmassem a afirmação de Naro e Scherre (1993) sobre a possível origem fonológica no PA para o apagamento de –s de sílaba final (...)”.

 

Pontos de aproximação:

d)    “um dos processos fonológicos que aparentemente já estavam em andamento no PA e que se manifesta no PNP é a desnalazação das vogais átonas em sílabas finais”

 

Para o nível da morfossintaxe:

Pontos de aproximação:

a)     uso do verbo ter em sentido existencial;

b)    uso da preposição em com sentido locativo e direcional;

c)     uso da preposição para em lugar de a;

d)    uso de orações ativas com sujeito indeterminado substituindo construções passivas;

e)     no paradigma verbal, uso do pretérito imperfeito pelo futuro do pretérito e uso do presente pelo futuro do indicativo;

 

São ainda apresentados no nível da morfossintaxe outros fenômenos possivelmente resultantes da deriva, mas que aparecem esporadicamente nos dados consultados:

f)     uso de pronomes nominativos em função de objetos;

g)     construções relativas com pronome lembrete.

 

Observando que, aparentemente, nos dois últimos casos, as ocorrências se davam em contextos enfáticos, vai propor, como explicação possível, que os portugueses utilizassem construções enfáticas ao se comunicarem com falantes de outras línguas numa tentativa de facilitar a comunicação e que, com tempo, o tom enfático se tivesse perdido e essas construções entrado no uso corrente da língua.

Tocando na questão do contato que, com a emigração massiva para o Brasil, houve entre falantes de diferentes dialetos portugueses, vai  afirmar ter-se processado um nivelamento dialetal e que “o efeito genérico [desse] nivelamento dialetal português no Brasil foi o desenvolvimento de um autêntico dialeto brasileiro, que não passou pelas inovações que se alastraram em Portugal após o pico da emigração para o Brasil.”
Passando, a seguir, à discussão do contato entre línguas no Brasil colonial, vai distinguir duas situações:

-       a de transmissão normal, que “preserva a língua geneticamente, mesmo que haja mudanças resultantes de contato”;

-       a de transmissão imperfeita, que “resulta na formação de línguas novas, mistas, como é o caso das línguas crioulas”.

 

Segundo Mello, Thomason e Kaufman (1998) concluíram que é a sócio-história dos falantes de uma língua, e não a estrutura da língua, que determina o resultado do contato linguístico. Embora concordando quanto à importância dos aspectos sócio-históricos, diz que alguns fatores puramente lingüísticos – os de natureza tipológica, implicaturas universais ou regras de naturalidade – têm grande relevância na interpolação da gramática de uma dada língua a outra e não podem ser excluídos da análise.

Na parte final do seu texto, Mello dedica-se a apresentar a sua hipótese para o desenvolvimento do PNP. Segundo a autora, a maioria dos primeiros colonizadores falava dialetos vernáculos e apenas uma pequena parcela, modalidades dialetais mais prestigiadas. Os primeiros nivelaram seus falares para uma modalidade lingüística que eliminou formas marcadas, dando início ao processo de distanciamento entre o português falado no Brasil e o português de Portugal. Em áreas rurais, supõe, os portugueses devem ter aprendido alguma forma de pidgin para comunicação com escravos africanos e, em áreas de ameríndios, devem ter usado algum dialeto de contato, como a língua geral. Quanto aos escravos africanos, falariam as suas línguas de origem, dentre elas, inclusive o crioulo satotomense, já que “uma porcentagem dos escravos vindos para o Brasil se originou em São Tomé” e devem ter usado alguma forma de pidgin português – aprendido nos entrepostos escravagistas africanos ou nas fazendas e zonas mineiras – para se comunicarem entre si e também com os falantes de português. Escravos de segunda geração falariam as línguas nativas de seus pais e o pidgin, já as crianças escravas, criadas com as brancas, falariam o português, com marcas de reestruturação. Escravos domésticos falariam um português menos pidginizado. Com o tempo, escravos nascidos no Brasil falariam variedades nativizadas do português com traços de línguas de substrato e erros de aquisição de segunda língua. a população rural branca, em muitos casos, teria a fala escrava como modelo de sua aquisição nativa.

Propõe que, ao final do século XVII, já deveria ter-se formado um contínuo de variedades da língua portuguesa no Brasil – PNP –, em cujo extremo mais reestruturado figuraria a fala dos escravos nascidos na África; em cujo centro fugurariam as variedades faladas por escravos de zonas rurais nascidos no Brasil e, finalmente, em cuja extremidade menos reestruturada, figurariam as variedades faladas pelos escravos domésticos e pela população branca de baixa renda. Propõe ainda que a difusão de traços gramaticais no PNP seja, em parte, explicada por meio de um nivelamento dialetal secundário, desencadeado em sua maioria por movimentos migratórios[73]. Destaca, finalmente, que o grupo populacional que mais cresceu foi o mestiço e que “um dos elementos de coesão na identidade desse grupo teria sido a língua por ele falada, (...) uma variedade do PNP.”

 

A autora sintetiza a sua proposta como vem a seguir:

 

         foram propostas a interação e a confluência de três grupos de fatores para a emergência dos chamados traço distintivos do PNP, quais sejam, fatores intra-sistêmicos (mudanças internas do português, deriva, evolução lingüística), nivelamento dialetal e faores inter-sistêmicos (aquisição imperfeita de segunda língua, transferência de traços de língua de substrato, reestruturação gramatical).

 

Em Quais as faces do português culto brasileiro?, Ilza Ribeiro (2002) contribui com o debate, enfocando duas questões: a) a questão a história da escolarização no Brasil, sobretudo a do ensino superior, cujo conhecimento é necessário para se rastrear a formação do português culto brasileiro e b) a questão da caracterização das propriedades lingüísticas que diferenciariam o PB culto do PB popular; relativamente à última questão, pergunta-se “se é possível caracterizar sintaticamente a pluralidade e a polaridade do PB culto, em oposição ao PB popular.”

No seu passeio pela história da escolarização no Brasil, Ribeiro vai partir de uma fotografia que retrataria não só a situação do presente, mas também do nosso passado, próximo e longínquo:

 

em 1991[74], de um total de 34.734.715 chefes de família, menos de 6% tinham formação universitária completa, sendo que aproximadamente 30% tinham entre zero e um ano de escolarização; o maior índice de escolarização, aproximadamente 30%, diz respeito a uma média entre quatro e sete anos de estudo. Sendo de menos de 6% a porcentagem de chefes de família candidatos ao domínio da norma culta, essa porcentagem tão irrisória de algum modo se dilui na massa de brasileiros não-falantes da norma culta.

 

Quanto ao Brasil Colônia, vai destacar, a partir de Rossato (1998)[75], que a realização dos cursos de Filosofia e Teologia “tem levado historiadores a julgar que os colégios dos jesuítas em quase nada se diferenciavam das instituições de ensino superior das colônias hispânicas”. Assim, em 1638, com o curso de Filosofia no Colégio do Rio de Janeiro, teria tido início o ensino superior no Brasil. Em meados do século XVIII, os jesuítas são expulsos do Brasil, resultando daí a destruição do sistema de ensino colonial, pois inicialmente nada foi organizado para substituí-lo. Apesar dos cursos superiores que, paulatinamente, foram surgindo, Ribeiro conclui, com base em Fávero[76], ter havido, ao longo do período que vai da Colônia à República, grande resistência à idéia de criação de instituições universitárias. Relativamente à questão de saber quantos, no período colonial e imperial, freqüentaram cursos superiores, sendo, assim, os prováveis falantes de um português culto brasileiro, vai observar que, “com 30% de portugueses e descendentes na composição demográfica da sociedade brasileira de então[77], só uma parcela deles deveria participar desses cursos, [já que] muitos dos portugueses que para cá vieram eram adultos, analfabetos ou semi-alfabetizados e pobres”. De acordo com Ribeiro (1978:20)[78], ao longo de todo o período colonial, aproximadamente apenas 2.800 bacharéis e médicos se formaram em Coimbra; ainda segundo o mesmo autor, por ocasião da Independência, seriam em torno de 2.000 os brasileiros com formação superior, número que, segundo Fausto (1997), se eleva um pouco em 1872, quando se calcula que 8.000 pessoas teriam educação superior no país. Adverte ainda a autora para o fato de que “essas prováveis 8 mil pessoas com curso superior correspondiam a uma pequeníssima parcela da população, desde que eram analfabetos 99.9% dos escravos e aproximadamente 80% da população livre.”

Com a criação do Ministério da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, a República (1889), mais sensivelmente, vai instaurar a preocupação com a erradicação do analfabetismo, com a expansão da educação escolarizada. Todavia, só a partir da década de 20 surgem as universidades, sendo a Universidade do Rio de Janeiro, de 1920, considerada a primeira[79] e cabendo ao período getulista (1930-1945) a organização teórica e prática da universidade brasileira: cria-se o Ministério de Educação e Saúde Pública, fundam-se 95 novas instituições de ensino superior e elabora-se o primeiro estatuto da universidade brasileira. Mais uma vez, relativamente à questão de saber sobre a progressão do número dos que freqüentaram cursos superiores, os dados abaixo extraídos de Rossato são elucidativos:

 

a.    De 1950 para 1960, passa-se de 44 mil para 96 mil matrículas no ensino superior, o que, contudo, era era pouco expressivo para o volume da população do país, que ultrapassava os 70 milhões na entrada da década de 1960. Em 1960, portanto, menos de 2% da população freqüentavam cursos universitários;

b.     De 1960 para 1970, passa-se de 96.691 para 425.478 matrículas no ensino superior;

c.     De 1970 para 1980, passa-se de 425.478 para 1.377.286 matrículas no ensino superior ;

d.     De 1980 a 1994, passa-se de 1.377.286 para 1.594.668 matrículas no ensino superior; razão por que a década de 80 considerada como uma década perdida para a educação;

 

O crescimento do número de matriculados no ensino superior, apesar de não significativo na última década, e também do número de instituições superiores não teria alterado significativamente o quadro geral do ensino escolarizado no país, já que, a partir de Cunha (1978)[80], diz a autora:

 

do número total de crianças com 7 anos de idade, zonas urbana e rural, só 30.9% freqüentavam a 1a série em 1964 e so 34.4%, em 1970. (...) em 1960, de 1.000 alunos matriculados na 1a série, só 63 chegaram à 3a série colegial; desses só 48 alcançaram a 1a série superior (...). Para 1971, do número total de ingressos na 1a série (5.657.999 matrículas), apenas 40.1% chegaram à 2a série, apresentando-se índices de 28.3% de reprovação e de 13.1% de evasão. Quando é observado o número de matrículas na 2a série, para 1972, constata-se uma evasão de 35.7% durante as férias.

 

Cunha analisa ainda, para 1970, a distribuição percentual de escolarização das pessoas de 10 anos e mais, segundo anos de estudo e zonas urbana e rural. Com base nos resultados que apresenta Ribeiro afirma:

 

A  comparação entre os percentuais de pessoas com 6 anos de escolarização (2.5%), com 7 anos (2.0%), com 8 anos (1.7%) e com 9 a 17 anos (7.9%) mostra claramente o baixo índice de formação da população brasileira, o abismo que separa uma minoria com curso superior da maioria com nenhum (36.6%) ou poucos anos de escolarização (variando entre 6.3% e 13.8%).

 

Finalmente, para o período que vai de 1991 a 1994, apresenta os seguintes dados:

-       analfabetismo (pop. + 15 anos): 1991 – 20.1%; 1994 – 17.2%

-       escolaridade (crianças 7-14): 1991 – 91.6%; 1994 – 92%

-       repetência (1o grau): 1991, sem dados; 1994 – 33%

-       evasão (1o grau): 1991, sem dados; 1994 – 5.6%

 

A conclusão da autora é a de que

neste Brasil semiletrado, a aprendizagem da norma culta deve ser como aprender uma língua estrangeira (...), pois muitos da pequena parcela que atinge o nível superior devem ser oriundos de ambientes lingüísticos diversificados, com muito pouco ou nada da norma culta a lhes ser apresentado, de modo natural, como modelo durante o processo de aquisição da língua materna.

 

Passando à segunda questão, a da caracterização das propriedades lingüísticas que diferenciariam o PB culto do PB popular, a opinião de Ribeiro é que este não seria um problema de fácil solução. Considerando inicialmente características fônicas, a autora vai afirmar a necessidade de se considerar a pluralidade das normas, já que, conforme os exemplos a seguir o demonstram, não seria possível caracterizar uniformemente a fala da população não escolarizada ou semi-escolarizada[81]: a) redução de ditongo [ne‘gosu]; b) elisão de consoante final [‘õnibu]; c) metátese [frevenu]; d) confusão das líquidas [‘gawfu] e e) simplificação de encontros consonantais [‘otu].

No que tange a fatos morfossintáticos, julga difícil definir características próprias às normas populares, em oposição às cultas, exceto no que diz respeito ao fenômeno da concordância, nominal e verbal. Adverte ainda para o fato de que “nem todos os casos de não realização da concordância verbal e nominal podem servir de indicadores de norma culta X popular”, como se pode notar a partir dos exemplos abaixo: a) Segue as blusas; b) Vende-se casas e c) Pega essas cadeira aí e coloca tudo ali, naquele lugar.

Finalmente, lista algumas propriedades que não permitiriam distinguir normas cultas de normas vernáculas:

 

1. Propriedades pertinentes à realização do sujeito oracional:

a)     “A maior realização do sujeito pronominal, em construções como “Eu vou ao cinema”, é um fenômeno geral na fala dos brasileiros (...);

b)    “Também é de uso geral o sujeito a gente (...)

c)     A substituição da forma do pronome sujeito de 2a pessoa singular tu por você e do do pronome sujeito de 2a pessoa do plural vós por vocês;

d)    “O uso do pronome oblíquo como sujeito de infinitivo (Isto é para mim fazer);

e)     “Vários tipos de construções em que um sujeito paciente se realiza em uma estrutura verbal ativa “O texto está xerocando”

2. Realizações e colocações dos complementos pronominais:

a)     “uso de pronome em início de sentença (...)

b)    “uso de pronome tônico como objeto

c)     “ausência do pronome se reflexivo (Maria casou ontem); ausência do se em passivas (Assoalho de madeira não encera – Galves 1993)

d)    “uso de lhe como acusativo (Eu lhe abraço)

3. Orações relativas – são características do PB também identificadas na fala culta:

a)     “uso de relativa cortadora (Vi o artista que te falei ontem)

b)    “uso de relativa lembrete (Conheço uma moça que ela só gosta de música sertaneja)

c)     “ausência de cujo (A casa que as janelas (dela) estão sujas)

 

Na conclusão destaca:

penso que a definição da norma culta em termos de escolarização superior não permite delinear sintaticamente os dois pólos – culto e popular – identificados pelos pesquisadores dos fenômenos da variação. Com exceção de alguns traços mais estigmatizadores da concordância verbal e nominal, parece-me que a sintaxe dos falantes com e sem curso superior não apresenta propriedades tão diferenciadoras como os fatos fonológicos levam a supor.

 

3. Projetos e investigações regionais

           

Apresentam-se, neste item, as sínteses dos projetos e investigações sobre a história social lingüística do Brasil e/ou sobre a história social do português brasileiro em regiões específicas do país. Nos quatro Seminários realizados, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e a Região Sul foram as regiões que se destacaram por apresentar trabalhos específicos. Os trabalhos apresentados e já publicados foram:

 

São Paulo

CASTILHO, Ataliba T. de. (1998). Projeto de História do Português de São Paulo.

CASTILHO, Ataliba Teixeira de. (2001). Para um programa de pesquisa sobre a história social do português de São Paulo.

GROPPI, Mirta. (2001). Problemas e perspectivas para um estudo da situação lingüística de São Paulo no século XVIII.

 OLIVEIRA, Marilza de; KEWITZ, Verena. (2002). A representação do caipira na imprensa paulista do século XIX.

 

Rio de Janeiro

CALLOU, Dinah. (2002). Da história social à história lingüística: o Rio de Janeiro no século XIX.

CALLOU, Dinah; AVELAR, Juanito. (2002). Subsídios para uma história do falar carioca: mobilidade social no Rio de Janeiro do século XIX.

 

Minas Gerais

VITRAL, Lorenzo. (2001). Língua geral versus língua portuguesa: a influência do “processo civilizatório”.

VENÂNCIO, Renato Pinto. (2001). Migração e alfabetização em Mariana colonial.

RAMOS, Jânia Martins; VENÂNCIO, Renato Pinto. (2002). Topônimos mineiros: uma  fonte para a história social da língua portuguesa.

 

Região Sul

OLIVEIRA, Gilvan Müller. (2001). Matrizes da língua portuguesa no Brasil Meridional (1680-1830).

AGUILERA, Vanderci de Andrade. (2002). Para uma história do português paranaense: nas veredas do Atlas Linguístico do Paraná.

 

3.1. São Paulo

 

Ataliba de Castilho inicia texto de 1998 caracterizando o que designou de ‘nova’ lingüística histórica, que, segundo ele, se peculiariza por uma forte atuação interdisciplinar, maiormente com a sociolinguística e a psicolínguística, e pela escolha da sintaxe como área preferida de atuação. A seguir, debruça-se sobre as pesquisas na área da lingüística histórica do português no que chamou de România Velha e România Nova. Quanto à România Velha, buscou-se, de maneira geral, identificar as contribuições fonéticas e léxicas dos povos pré-romanos e dos povos pós-romanos; reconstruir o latim vulgar e rastrear a variedade hispânica do latim vulgar que dera surgimento ao galego-português. No que toca à România Nova, as pesquisas focalizam as mudanças do português, do espanhol e do francês da América.

Passa o autor a enumerar as fases do Projeto de História do Português de São Paulo, que objetiva: (I) constituição de um corpus para a diacronia do português de São Paulo; (II) rastrear a história social do português brasileiro e das particularidades do português de São Paulo e (III) flagrar as mudanças lingüísticas do português de São Paulo.

Para a constituição do corpus, de acordo com Castilho, as melhores fontes escritas para a pesquisa histórica são as que mais se aproximam da linguagem corrente. Ressalta ainda a preocupação filológica com a formação dos pesquisadores. A pesquisa propriamente dita se iniciará com a fase de recolha e a conseqüente informatização dos fundos documentais; os materiais identificados serão digitados de acordo com critérios técnicos em discussão na Associação Brasileira de Lingüística. No caso de São Paulo, o projeto considerará eventuais contrapontos linguísticos relacionados com aspectos sócio-históricos, tais como o povoamento da cidade, os ciclos econômicos a que estava sujeita, os movimentos migratórios, entre outros tópicos. Além disso, as seguintes questões entrarão em pauta de discussão: variedade(s) do português trazida(s) ao Brasil; contatos lingüísticos do português de Portugal no Brasil; necessidade de se pesquisar o português quinhentista, a fim de se dar conta sobre o português transplantado para o Brasil. Para o desenvolvimento do Projeto referido, será necessário levar em conta o debate teórico atual sobre a mudança lingüística. Por fim, informa o autor que as pesquisas sobre o português do Brasil na sua variedade paulistana começarão pela sintaxe, orientadas pelas descrições fornecidas pelo Projeto NURC e pelo Projeto Gramática do Português Falado, portanto partirão do presente para o passado.

 

Em texto de 2001, Ataliba de Castilho retoma o Projeto de História do Português de São Paulo. Neste trabalho, expõe o seu ponto de vista sobre o que é a história social de uma língua e apresenta, em seguida, um plano de pesquisa sobre a História Social do Português de São Paulo centrado em dois momentos, que considera relevantes: (1) implantação e expansão do “português europeu em São Paulo”, entre os sécs. XVI e XVIII, e (2) caracterização da variedade paulista do português brasileiro, durante os séculos XIX e XX, dando-se ênfase ao português da capital.

Segundo o autor, a identificação dos dois momentos históricos mencionados assenta em peculiaridades do Português Europeu desses séculos e em duas tendências observadas na formação da sociedade paulista: uma tendência centrífuga e uma tendência centrípeta. Quanto aos fatos demográficos, a tendência centrífuga predominou dos primórdios do povoamento até 1765. Eis os aspectos sociais que caracterizam essa fase: movimentos das bandeiras e das viagens dos tropeiros; escassez da população; predomínio da língua geral paulista; período de colonização do planalto e, portanto, de estagnação e de despovoamento da cidade de São Paulo. Por outro lado, a tendência centrípeta caracterizou a capital paulista a partir da segunda metade do século XIX. O cultivo do café e integração de São Paulo na economia de mercado; milhares de imigrantes externos e internos; aumento drástico da população; predomínio da língua portuguesa, que sofre a influência do italiano e, posteriormente, do falar caipira interiorano e dos falares nordestinos são fatos que caracterizam o momento referido.

O autor procura identificar os processos constitutivos da língua falada e apresenta uma teoria modular da língua: um módulo de partida, o Léxico, e dois módulos de chegada, a Gramática e a Semântica. Alojado no centro da capacidade lingüística, um programa discursivo-computacional, de natureza pré-verbal, faria a mediação entre esses módulos. É através desse programa que se estabelecem as identidades constitutivas do discurso, vale dizer, a subjetividade (=locutor) e a alteridade (=interlocutor). Continuamente alimentado pela análise da situação de fala que envolve o locutor e o interlocutor, o programa discursivo-computacional conduz à tomada de decisões sobre como administrar o Léxico, que palavras escolher, e que propriedades semântico-gramaticais nele ativar, reativar ou mesmo desativar. Disso surge a hipótese de que o mencionado programa discursivo-computacional deve desempenhar um papel igualmente importante na mudança gramatical. Hipotetiza o autor que, numa situação de estabilidade social, diminuem as variantes gramaticais da mesma língua. A heterogeneidade lingüística, cuja natureza constitutiva não nega, atenua-se nessa situação, as gramáticas em confronto não são muito distanciadas. Sem a necessidade de buscar adaptações, diminui o ritmo da mudança. Por outro lado, numa situação de grande mobilidade social, aloglotas disputam o mesmo espaço, cresce o número de variantes gramaticais, locutor e interlocutor vivem uma situação de “afastamento lingüístico”, e todo um processo de ajuste se desencadeia, visando a sustentar a cooperação conversacional. Como decorrência disso, acelera-se a mudança lingüística. Se esta hipótese for verdadeira, é um mecanismo discursivo de avaliação das identidades lingüísticas envolvidas no ato de fala que freia ou dispara a mudança, via excitação da busca de ajuste entre o eu e o outro. O momento decisivo da mudança gramatical se localizaria, portanto, na interação conversacional, e nas avaliações continuadas a que os locutores sujeitam as múltiplas imagens geradas nesse espaço. Como se vê, esta é uma abordagem funcionalista da mudança.

Castilho discute ainda a importância dos contatos, tanto intra como interlingüísticos, como gatilhos discursivos da mudança lingüística. Situações de contacto interlingüístico caracterizam o ponto máximo do afastamento discursivo, impeditivo da natural tendência que têm os humanos de interagir através da linguagem articulada. Em São Paulo, o invasor português adotou por três séculos a língua do outro, dando lugar à “Língua Geral Paulista”. A partir do final do século XVIII, a língua do invasor se torna vitoriosa, desaparecendo progressivamente a língua indígena, e também o “dialeto das senzalas”, se é que ele existiu em São Paulo. Novos aloglotas afluem no século XIX. As situações de contato intralingüístico, por sua vez, caracterizam o ponto máximo da proximidade discursiva, não impeditiva da interação. Em relação a São Paulo, a constituição da metrópole pôs em contato, inicialmente, falantes paulistas da zona rural com falantes paulistas da zona urbana. Depois, falantes do português nordestino e do português do sudeste convivem com os falantes do português paulista. Lembra-se ainda o contacto entre falantes cultos e falantes analfabetos de uma mesma variedade geográfica. Além disso, portugueses continuam a chegar.

Debruça-se ainda o autor sobre a implantação e expansão do português europeu em São Paulo. Segundo ele, marcavam a São Paulo colonial: a) “A característica mais acentuada de São Paulo Colonial é o desenvolvimento de atividades voltadas para o comércio interno, enquanto no Nordeste a produção era orientada para o exterior.” b) “Um novo modelo de povoamento gerado em São Paulo [e motivado por razões geográficas] separa essa cidade das demais comunidades brasileiras fundadas no século XVI. Com efeito, pela primeira vez ocorre um povoamento no interior do país, e não na região costeira, prática comum aos colonizadores portugueses (...)”. No século XVI, com a fundação da Vila de São Vicente, em 1532, tem início todo um período de adptação do imigrante português às novas terras. É pequeno o número de portugueses e grande o número de índios, surgindo o mestiço, o mameluco. As escolas existentes pertenciam aos jesuítas e são criadas essencialmente para evangelizar os índios. A língua do cotidiano é o Tupinambá, ou Tupi Antigo. No século XVII, começa a expansão das fronteiras. Durante a primeira metade desse século, a invasão do Nordeste por estrangeiros desarticula o tráfico de negros para o Brasil, aumentando a procura de escravos índios. Assim, os paulistas, que já escravizavam os índios, passaram a atacar as missões jesuíticas para aprisionar índios e depois vendê-los no mercado interno. Surgem as bandeiras de aprisionamento. Essas bandeiras começam a ampliar as fronteiras do Brasil. A população branca continua minoritária, registrando-se grande quantidade de escravos índios e mamelucos. Produz-se uma época de grande esvaziamento da cidade, motivada pelas bandeiras. Na segunda metade do século, terminam as invasões estrangeiras no Nordeste e se restabelece o tráfico de negros para o Brasil. As bandeiras deixam de perseguir índios, transformando-se em bandeiras de contrato, com a finalidade de capturar negros fugitivos. Prossegue a tendência ao despovoamento de São Paulo. O século XVIII caracteriza-se pelo desenvolvimento de um mercado interno e a fundação de aglomerados que mais tarde se tornarão cidades. Na primeira metade desse século, tem início um novo ciclo de bandeirismo, as bandeiras de monções, “frotas fluviais voltadas para o abastecimento da região aurífera de Mato Grosso e no comércio do gado muar do Rio Grande até a Região das Minas Gerais” (Bellloto 1979:33). O ponto máximo da expansão territorial ocorre em 1709, com a criação da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro. A partir daí sucessivos desmembramentos reduzem consideravelmente o território.

 

Groppi (2002), como anuncia no título de seu texto, discutirá problemas e perspectivas para um estudo da situação lingüística de São Paulo no século XVIII. Segundo ela, para se poder ter uma idéia aproximada dos dados que atuaram, numa comunidade, como input para a formação das gramáticas dos falantes em situação de aquisição, num certo período histórico, é importante possuir uma visão da situação lingüística dessa comunidade. Buscará, então, se aproximar de uma imagem da comunidade paulista do século XVIII como fase prévia ao início do estudo do corpus pertinente.

Para justificar a escolha pelo século XVIII, a autora apóia-se nas opiniões de historiadores, entre os quais:

a)       Wehling e Wehling (1994)[82]: destacam o século XVIII como época da consolidação do projeto colonial português;

b)      Queiroz (1992)[83]: “o período que vai fundamentar a futura projeção da cidade de São Paulo se inicia em 1765. A data marca a restauração do governo autônomo da capitania (...)”;

c)       Marcílio (1973)[84]: “depois de dois séculos em que as condições tinham sido muito especiais, de vida em isolamento, de convivência de culturas diferentes, com períodos em que a vila era abandonada por boa parte da população, nas últimas décadas do séculos, as condições econômicas começam a mudar, assim como as condições administrativas (...)”.

Groppi destaca ainda dois aspectos que têm interesse para uma história lingüística: aumento da população de escravos e início de uma política lingüística para levar a uma situação hegemônica da língua portuguesa. Ao enveredar pelo campo da história social, a autora elege dados demográficos como ponto de partida: “entre os dados da realidade histórica que devemos conhecer para chegar a entender a realidade lingüística da sociedade paulista daquela época, aparecem os dados demográficos em primeiro lugar.” Portanto, será nos trabalhos de recenseamento do século em questão em que se centrará a autora. Conforme Groppi, houve trabalhos de recenseamento no século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX. Em 1765, após ter estado sob a jurisdição do Rio de Janeiro, a autonomia é devolvida à Capitania [de São Paulo] e um Capitão Geral, Luiz Antônio Souza Botelho, o Morgado de Mateus, é enviado com fins muito precisos. Os primeiros censos, registros de população, aparecem depois de 1765. No século XIX, o governo provincial vai encarregar o Marechal Daniel Pedro Müller de um trabalho de recenseamento que vai ser publicado em 1838 como Ensaios de um Quadro Estatístico da Província de São Paulo. Os dados de ambos, segundo a autora, não são confiáveis.

Para o tópico que desenvolveu a seguir – O território e a ocupação -, Groppi apóia-se em Marcílio (1973). Segundo ela, o estudo da ocupação do território de São Paulo traz algumas diculdades dificilmente transponíveis, uma vez que:

 

Não se conhece a importância das migrações que, provenientes quer do exterior – da Europa e da África – quer do sertão e de outras capitanias povoaram São Paulo. Nem mesmo uma ordem de grandeza pode-se arriscar. Nenhum estudo sistemático foi realizado no setor (Marcílio, 1973)

 

Outra dificuldade consiste na diferença que aparece nos documentos entre os registros de brancos, negros e índios. Muitas vezes os registros de população referem-se exclusivamente aos brancos. Além disso, sabe-se que São Paulo foi cidade depois de 1711, mas qual a área que recebia esse título? Aquilo que era considerado como cidade de São Paulo era, de fato, uma área diferente em momentos diferentes que eram cotejados como se implicassem a consideração do mesmo espaço habitado. Como a primeira divisão territorial das aglomerações urbanas na Colônia foi a paróquia, Marcílio estuda o povoamento de São Paulo através da história das paróquias. Dessa maneira consegue reconstruir as relações território-habitantes na época de diferentes recenseamentos.

Passa, então, a autora às fontes dos registros de população para a história de São Paulo. Inicia com o que chamou de Listas de habitantes: “(...) é depois de 1765 que começam os trabalhos de censo com certa regularidade. A partir dessa data, cada ano, são organizadas listas de habitantes da cidade e seus distritos. As listas de habitantes das cidades como os quadro de população estão no Arquivo do Estado como Maços da População da Capital.” Embasada nos dados dos recenseamentos de 1765, 1798 e 1836, os números a que chega para o total da população livre são: 1765 – 14.760 habitantes; 1798 – 21.304; 1836 – 21.933.

Para ter uma idéia do total da população, os dados foram reconstruídos empregando as listas de escravos feitas pelos vigários da Capitania enviadas ao governador em 1768. Entre 1765 e 1768, a população da cidade ficou em 20.873 habitantes. Através da reconstrução dos dados, Marcílio contesta a idéia de um período de decadência que teria se estendido depois de 1765 até a independência, segundo alguns autores que sustentavam que teria havido uma regressão ou estagnação da população da cidade. Marcílio acredita que houve uma estimativa errada dos números pelo fato de não terem sido levadas em conta as perdas de território que a cidade teve nesses anos. Em 1765, a cidade que compreendia também as vilas de Atibaia, Nazaré, Jaguari e Santo Amaro tinha, como foi dito, 20.873 habitantes, e, com o mesmo território, em 1836, teria 48.993 habitantes. A conclusão de Marcílio contribui para dar a mesma imagem que a opinião de Queiroz (1992): o século XVIII, ao contrário do que uma bibliografia mais antiga supunha, parece ter marcado o início de um caminho de progresso para São Paulo. Queiroz salienta o sucesso da implantação da lavoura de cana na Capitania. Segundo a autora, são de 1797 os primeiros dados de excedentes de açúcar destinados à exportação. Queiroz indica um aumento notável da população na capitania nessa mesma data. Os números que ela apresenta são os seguintes: 1776 – 58.071 habitantes; 1797 – 158.450.

Resta a seguinte questão: esse aumento é devido à introdução de mão-de-obra escrava africana? Ou também houve influência da mudança de vida que a lavoura de cana trouxe, um vez que, ao contrário da lavoura de subsistência, fixou o homem à terra?

Os registros paroquiais constituem outra fonte através da qual a autora busca chegar a números aproximativos da população de São Paulo. Pautada em Marcílio (1973), a autora tece alguns comentários acerca dos Registros Paroquiais do Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo: “Até a proclamação da República os registros de batizados, casamentos e óbitos eram da competência da Igreja. Essas três categorias de documentos estão classificadas em duas coleções: Livres e Escravos.”

A partir dessas datas, existem, segundo a autora, informações mais seguras:

a)    1740 para batismos

b)    1728 para casamentos

c)    1731 para sepulturas

Os registros de casamentos parecem apresentar o maior número de dados e, segundo Groppi, isso não varia no decurso dos anos. Entende que a informação contida nesses documentos pode ser especialmente interessante para o estudo de cárater lingüístico. Uma das indicações que esses registros fornecem –  embora não sistematicamente – é a origem dos cônjuges: indiretamente, ao especificar a origem geográfica dos noivos, identificam-se quais foram as prováveis principais correntes migratórias. Segundo Bacellar (1991): “A percentagem dos que jamais saíram de suas vilas de nascimento varia desde os 64% na vila de Itu até os 100% de Campinas, índices simultaneamente elevados e diferenciados de vila para vila. Os resultados das tabelas que aparecem na obra de Marcílio confirmam que a mobilidade das mulheres da cidade de São Paulo era muito inferior à dos homens. Da mesma forma, fica comprovado que a corrente migratória da metrópole apresentava predomínio de elementos masculinos. Esses dados também confirmam o retorno das populações das zonas mineiras, por volta de 1760; que os casamentos entre pessoas de São Paulo com pessoas do Rio eram relativamente importantes; e que, através de 80 anos de observação, o número de “negros novos” (nascidos na África) libertos era pequeno (52 homens e 12 mulheres).

Por fim, volta a autora para o que chamou de Setores de produção. Segundo ela, de 1765 a 1836 os escravos representavam um pouco mais de um quarto de toda população da cidade. Já a população ativa livre foi dividida em três categorias das atividades produtivas: setor primário, secundário e terciário. A população ativa livre da cidade consagrava-se em grande parte à agricultura.

 

Oliveira e Kewitz (2002) investigam no seu texto a noção do caipira no século XIX e sua representação no linguajar paulista oitocentista a partir de dois eixos: Rio de Janeiro x São Paulo e São Paulo-cidade x São Paulo-interior. Inicialmente pesquisam a representação do caipira em obras literárias, sociológicas, depreendendo que se identificava com adjetivos pejorativos: atrasado, preguiçoso, etc. Possivelmente os padrões europeus no modo de trajar, de portar-se e de falar implantados no Rio teriam servido de contraponto para a definição do paulista como ‘caipira’. Com esse objetivo, estruturam o trabalho em quatro partes: (I) Levantamento numérico da população da cidade de São Paulo ao longo do século XIX e os principais fatos sócio-econômicos responsáveis pela organização da cidade; (II) dados extraídos dos jornais do século XIX a respeito do epíteto ‘caipira’ atribuído ao paulista; (III) Comparação entre as estruturas morfossintáticas dos anúncios paulistas e cariocas numa tentativa de buscar traços que caracterizam o falar paulista; (IV) Alinhavamento das idéias principais.

Com base nos anúncios do século XIX do Rio e de São Paulo, as autoras fazem um estudo morfossintático a fim de verificar o português paulistano e carioca do século XIX, baseando-se nas seguinte dicotomia:

-       Paulistas - rural, barbárie, ridicularizado, rústico e popular;

-       Cariocas - urbano, progresso, civilizado, elegante e culto.

Eis os aspectos lingüísticos confrontados:

1)   Concordância verbal e nominal - Embora os dados dos anúncios de São Paulo apresentem maiores índices de ausência da concordância, não se podem diferenciar os dois eixos, uma vez que os dados não são suficientes.

2)   Grupos verbais - verbos de controle que selecionam uma sentença infinitiva cujo sujeito é correferencial com o objeto da matriz para averiguar o fenômeno da concordância - o uso categórico da preposição a e da concordância verbal nos grupos verbais nucleados por verbos de controle nos dados paulistanos sugere o distanciamento das demais variedades.

3)   Locuções prepositivas - RJ: predominância das locuções formadas pela preposição de. SP: predominância das locuções formadas pela preposição a, assim como na Constituição do Império

4)   Emprego do advérbio onde/aonde - Rio: imperava o emprego do onde. SP: imperava o emprego do aonde, exatamente a forma mais corrente na Constituição do Império.

 

Os indícios mostram que o falar paulista se diferenciava dos demais em seus aspectos discursivos.

As autoras elencam, através de duas cartas de 1865, características do português do interior paulista. Não há diferenças que permitam caracterizá-las como expressão de um português culto ou popular.

 

3.2.  Rio de Janeiro

 

Os dois textos que versam sobre a história social do Rio de Janeiro são de autoria de Dinah Callou, um dos quais em co-autoria com Juanito Avelar.

O primeiro, apresentado ao III Seminário do  PHPB, realizado em Campinas/SP, pauta-se na afirmação de que dar conta da história linguística de uma língua implica, necessariamente, dar conta da sua história social. Disso, começa a autora apresentando aspectos da cidade do Rio de Janeiro no século XIX. Segundo ela, o ano de 1808 marca o início de uma nova fase cultural do Rio de Janeiro. A vinda da família real e a conseqüente fixação do centro político do Império determinou a elevação da cidade a centro de uma civilização luso-brasileira  e há, ao menos até 1822, uma unidade culural. Dentre as mudanças promovidas pela permanência da Corte Portuguesa estão a criação das cátedras de ensino, a fundação da Academia Militar e o processo de implantação da impresa. Desse modo, a cidade do Rio de Janeiro começa a transformar a sua forma urbana  e a apresentar uma estrutura espacial estratificada em termos de classes sociais.

A vinda da família real impõe ao Rio uma classe social até então inexistente, impondo também novas necessidades materiais que atendam não só aos anseios dessa classe, como facilitem o desempenho das atividades econômicas, políticas e ideológicas que a cidade passa a exercer. No que se refere à Divisão administrativa, a cidade do Rio dividia-se em freguesias ou paróquias. Ao final da Monarquia, contava com 21. Havia diferença social entre as 5 freguesias urbanas.

O grande volume de escravos deu à corte características de uma cidade quase negra e, a partir de 1840, de uma cidade meio africana. Essa composição étnica e social vem a modificar-se em consequência da imigração portuguesa. A expansão urbana não foi acompanhada de uma preocupação social igualitária, uma vez que não beneficia as áreas em que as camadas mais pobres da população residiam. O primeiro recenseamento oficial de 1872 mostra diferenças quanto à composição étnica e quanto à alfabetização entre as paróquias do Rio de Janeiro.

A mobilidade espacial e populacional como privilégios de poucos talvez possa explicar, em parte, as diferenças linguísticas que existem hoje na fala dos moradores das tradicionais áreas da cidade. Pode-se verificar uma possível influência do ambiente espacial em que vive o falante carioca tomando como ponto de referência a distribuição do R.

Enfatiza a autora os anúncios de jornais como fontes ricas que permitem o levantamento historiográfico da vida social, política e cultural do Rio de Janeiro de 1850 a 1870 e também o registro do panorama linguístico. Por fim, faz uma longa discussão para afirmar que a palatalização do S, em posição de coda silábico, parece ter sido introduzida no falar culto do RJ no início do século XIX, trazido pela corte de D. João VI.

 

No outro texto também de 2002, Callou e Avelar iniciam apresentando os contrastes geográfico, social e econômico no Rio de Janeiro atual, para se perguntarem: esse contraste sócio-econômico implica em contraste linguístico?

O trabalho é parte integrante de um projeto que busca interpretar o português carioca, marcadamente heterogêneo, numa perspectiva sócio-histórica, e assim contribuir para a descrição da História Social do Português Brasileiro. O objetivo é correlacionar instâncias que parecem ter sido fundamentais para a formação do atual quadro linguístico da cidade. De outro modo: correlacionar fatores da história da capital fluminense com a configuração atual da fala carioca. Busca também estabelecer de que forma a heterogeneidade e polarização do português se organizam no espaço da cidade, num intervalo que se inicia nos primeiros anos do século XIX e se estende até os dias atuais.

Segundo Mattos e Silva (1998), os principais atores no cenário do Brasil colonial seriam as línguas gerais indígenas, o português europeu e o português geral brasileiro em formação. Dessa maneira, tentam os autores, por meio dos contrastes resultantes do processo da mobilidade social, depreender quais seriam os principais ‘atores linguísticos’ no Rio de Janeiro no século XIX.

Uma questão posta diz respeito à metodologia da pesquisa, mais especificamente sobre como implementar estudos em História Social que tenham a língua como seu objeto. Por conta de não haver essa metodologia, adotam o que chamaram de metodologia particular. Procurar-se-á correlacionar, prioritariamente, o processo da mobilidade social à migração portuguesa.

O processo da mobilidade que culminou numa série de contatos interlinguísticos sugere que, ao final do século XIX, o português carioca seja marcado, pelo menos, por quatro grandes resultantes:

um

1.   falar de maior prestígio, das classes altas, localizadas na Zona Sul

2.   um falar de caráter mais popular, das classes desfavorecidas, localizadas nas freguesias mais centrais (Santa Rita, Esp. Santo e Santana)

3.   um falar rural, localizado nas freguesias mais afastadas do centro (Guaratiba, Jacarepaguá e Campo Grande)

4.   um falar oriundo da confluência entre os habitantes das regiões rurais e das regiões centrais (Inhaúma e Engenho Novo).

 

Focalizam os autores a imigração portuguesa por se apresentar como um fato polêmico para a interpretação sócio-histórica do falar carioca. Após colocar em termos numéricos a quantidade de portugueses que, no Rio de Janeiro, desembarcaram ao longo do século XIX, põem, em termos lingüísticos, as seguintes questões: (1) se a leva de portugueses vai caracterizar uma disposição em termos geográficos, permitindo uma diferenciação entre as diferentes regiões da cidade; (2) de que forma essa leva vai interagir, em termos sociolingüísticos, com os que já se encontravam na cidade, e as repercussões dessa interação para uma possível nova configuração lingüística e (3) qual ou quais modalidade(s) do português de Portugal chegou/chegaram junto com esses imigrantes.

Um primeiro passo para responder a essas questões seria definir a ‘funcionalidade’ social e/ou profissional dos novos profissionais. Para a última questão, um complicador aparece: supõe-se que, com a família real, o uso lingüístico predominante não foi o do português popular, se se considera que a maioria dos imigrantes fazia parte do ‘aparato administrativo’.

Quanto à distribuição dos portugueses pelas diversas freguesias, os dados dos censos de 1872 e 1890 sugerem diferenciação entre as freguesias urbanas e rurais: quanto mais centrais as freguesias, maior a incidência de portugueses. Em termos lingüísticos, as freguesias mais centrais teriam tido a oportunidade de absorver uma quantidade maior de marcas do português europeu que as demais, uma vez que abrigavam um número maior de imigrantes. Se a hipótese estiver certa, o ponto nevrálgico será identificar quais foram essas marcas e para que regiões da cidade foram levadas. A única chance de a hipótese não estar no caminho correto se situa na idéia de os portugueses terem tido as marcas dos seus falares absorvidas pelas marcas do falar local, uma vez que o percentual de portugueses não correspondia à maioria da população em nenhuma das freguesias.

 

3.3. Minas Gerais

 

Vitral (2001) afirma que, na literatura tradicional sobre o português brasileiro, é comum a idéia de que houve, no Brasil, uma vitória da língua portuguesa sobre suas concorrentes indígenas e africanas. Discutir, portanto, quais acontecimentos da nossa história influíram nessa vitória da língua portuguesa será o objetivo do artigo do autor. Pretende examinar, mais exatamente, a influência do chamado “processo civilizatório”[85] no fato de o uso da língua portuguesa ter superado o uso da língua geral do sul no decurso do século XVIII.

A seguir, discute Vitral o significado do termo língua geral. Conforme o autor, “o que exatamente é designado pelo termo língua geral continua a ser tema de discussão entre nós.” (304). Adota nesse artigo a definição de Rodrigues (1996)[86], que é a seguinte: “a expressão língua geral tomou um sentido bem definido no Brasil nos séculos XVII e XVIII, quando, tanto em São Paulo, como no Maranhão e Pará, passou a designar as línguas de origem indígena faladas, nas respectivas províncias, por toda a população originada no cruzamento de europeus e índios tupi-guaranis (especificamente os tupis em São Paulo e os tupinambás no Maranhão e Pará), à qual foi-se agregando o contingente de origem africana e contingentes de vários outros povos indígenas, incorporados ao regime colonial, em geral na qualidade de escravos ou de índios de missão.” O auge do predomínio das línguas gerais ocorreu no século XVII. A partir do século XVIII, a balança começa a pender para o lado da língua portuguesa. O que houve na passagem do seiscentos para o setecentos que determinou a vitória da língua portuguesa no Brasil?

Dois acontecimentos da nossa história colonial são, normalmente, associados ao sucesso da língua lusitana. O primeiro deles foi gerado pela política do Marquês de Pombal, que incluiu um decreto, de 1758, tornando obrigatório o uso da língua portuguesa na colônia. Além desse decreto, fez parte da política pombalina a expulsão dos jesuítas do Brasil, cuja presença, nos dois primeiros séculos de colonização, foi determinante para a primazia das línguas indígenas. O segundo acontecimento é a vinda de D. João VI e da corte portuguesa para a colônia. Os cerca de quinze mil portugueses que se instalaram no Rio de Janeiro contribuem, segundo Teyssier, para “relusitanizar” a então capital do Brasil.

Rejeita o autor a idéia de que a instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro tenha contribuído para a vitória da língua portuguesa. Parece a Vitral mais adequado considerar que esse evento contribuiu para a consolidação dessa vitória. Tal não parece ser o caso da reforma pombalina. A decretação de obrigatoriedade da língua portuguesa teve, provavelmente, um papel determinante na sua prevalência sobre as línguas gerais. É preciso evitar, no entanto, assumir uma perspectiva “legalista” em relação à história. No que diz respeito a fenômenos de linguagem, esse cuidado deve ser ainda maior: não parece possível obrigar o uso de uma língua por meio de decreto. O principal instrumento do decreto pombalino foi a reforma do ensino. Pretendeu-se subordinar ao estado português a educação formal na colônia, que, até então, estava a cargo de inacianos e religiosos em geral. O analfabetismo imperava e a submissão à língua portuguesa de grande parte da população da colônia, prevista pela política pombalina, não se fez de forma indireta, quer dizer, através da escola. Apesar disso, a política lingüística arquitetada por Pombal obteve seu intento.

O trabalho do sociólogo alemão Norbert Elias mostrou que, a par das mudanças políticas e econômicas, a idade moderna caracterizou-se por promover um processo de revisão do mundo de crenças dos europeus, que foi nomeado de “processo civilizatório”. Segundo Silveira: “a aristocracia de alguns países europeus passou por uma espécie de refinamento de hábitos em virtude das alterações que ocorriam em sua composição como grupo social dominante. Na França, em particular, tais mudanças resultaram da mescla de camadas aristocráticas e burguesas e os cuidados com o comportamento tornaram-se cada vez mais necessários como meio de se distinguir. Passava-se, assim, da courtoisie – isto é, o modo de se comportar em corte, herdado da idade média – para os novos padrões da civilité.” O prestígio da cultura francesa em Portugal permitiu a influência, em território luso, dos novos padrões civilizados, que, como marcas de distinção de classe, encontraram condições favoráveis de propagação devido à estrutura do estado português, controlado por um reduzido grupo vinculado à monarquia (Faoro 1975, Silveira op. cit.)[87]. Pode-se considerar que a plena instalação do poder da monarquia foi aliada do processo civilizatório. A partir da segunda metade do século XVII, a concepção absolutista do estado foi solidificada em Portugal onde a estrutura administrativa lhe foi, então, propícia. A política do Marquês de Pombal, no início da segunda metade do século XVIII, foi formulada, portanto, nesse contexto de busca de civilidade. A medida pombalina de expulsar jesuítas é, por exemplo, vista por Lorde Kinnoull, embaixador inglês enviado a Lisboa em 1760, como de inspiração civilizatória. A política lingüística do Marquês de Pombal pode também ser considerada como uma das conseqüências da influência do processo civilizatório em terras lusitanas. Parece, então, que o uso da língua portuguesa era visto como critério de atribuição de civilidade, sendo inclusive aliado do poder absolutista. Essa valorização do idioma luso não se fez sentir apenas em relação às línguas indígenas. Também em comparação com o latim, a língua portuguesa passa a ser valorizada.

A instalação da ordem institucional de acordo com os interesses do absolutismo português e a reforma pombalina parecem, portanto, poder ser analisadas com reflexos da mentalidade do setecentos que restabeleceu, valorizando de forma diferente os modelos de convívio social. Essa interpretação dos fatos, gerada de acordo com os modelos teóricos da história das mentalidades (1997, Le Goff & Nora 1976)[88], torna inteligível, como se verá a seguir, o fato de a língua portuguesa ter suplantado uma de suas concorrentes na colônia. Discutir-se-á o papel de um acontecimento da história de Minas Gerais, a saber, a guerra dos Emboabas, em relação ao cerceamento da expansão da língua geral do sul.

No cenário descrito de busca de civilidade que descreve, o estado português buscou controlar mais de perto a colônia, o que se tornou preemente devido à descoberta, no final do século XVII, de ouro e diamante na região das Minas, para onde afluíram aventureiros de todas as regiões do reino e da própria colônia. Importava, então, para a coroa portuguesa estabelecer a ordem institucional numa região onde a ambição e o sonho de enriquecimento rápido justificavam o desapego às leis, a crueldade e todos os excessos. Foi essa realidade que teve de ser dominada pelo estado português e pelo discurso reformista e civilizador do século XVIII. O embate entre a civilidade e a barbárie vai perpassar todo o setecentos  mineiro, caracterizando muitos dos relatos a respeito da vida da capitania e do comportamento de seus habitantes (cf. Silveira op. cit.).Os esforços civilizatórios obtiveram certo êxito na capitania das Minas, o que pode ser comprovado [dentre outros aspectos] pela Inconfidência Mineira, que, como se sabe, foi influenciada pelas idéias da Ilustração, cujos elementos racionalistas foram, segundo Ávila (1967:118)[89], “trazidos da Europa pelos moços mineiros.”

Como já se disse, há um acontecimento na história da capitania das Minas que pode ser considerado como um “divisor de águas”, possibilitando a exposição da capitania à mentalidade do setecentos. Trata-se da guerra dos emboabas, ocorida no ano de 1709, que opôs, de um lado, os paulistas e, de outro, portugueses, mas também baianos, pernambucanos e outros (cf. Golgher 1982). Nesse conflito pelo controle da região das Minas, os paulistas, seus descobridores, foram derrotados pelos emboabas, apelido dado aos portugueses pelos paulistas. Silveira (op. cit.: 63) sugere que a imagem da galinha de plumagem está “ligada à crítica aos hábitos afetados e pretensamente refinados dos estrangeiros ante a rusticidade dos “indianizados” paulistas de então.” (311). Essa visão selvagem e rústica dos paulistas pode ser facilmente comprovada: eles eram majoritariamente bilingües, dominando a língua geral do sul e o português[90], e eram temidos, muitas vezes menosprezados, pela ferocidade e cobiça que expressavam (cf. Taunay 1975, Golgher op. cit.).

Diante desse quadro, o autor propõe que a vitória dos emboabas, ao permitir o estabelecimento da ordem institucional na região das Minas, que veio a se tornar, no transcorrer do século XVIII, a capitania mais importante da colônia, cerceou a expansão da língua geral do sul no Brasil. Assim, a dominação política daqueles que não falavam a língua geral da terra foi, provavelmente, decisiva na atribuição de prestígio ao idioma lusitano. Levando em conta tal hipótese, é possível afirmar, então, que as línguas gerais eram associadas com a barbárie enquanto a língua portuguesa era vista como a língua da civilização. O desprestígio das línguas indígenas é transparente em relatos de viajantes no início do século XIX. Se se compara agora a visão concernente às línguas indígenas na época de Anchieta com a emitida pelos viajantes no início do século XIX, fica evidente a mudança de mentalidade que interessa aqui. O contraste enfim entre a atitude dos jesuítas e a dos viajantes parece autorizar a seguinte conclusão: as línguas de base indígena serviram ao colonizador quando seu domínio se dava através da fé cristã, enquanto que o uso da língua portuguesa se tornou parte dos padrões civilizados necessários para o domínio do colonizador através do estado absolutista. Pode-se concluir assim que a atitude pode ser o mecanismo social que permite a manifestação lingüística da mentalidade.

 

O objetivo do texto de Venâncio (2001) é procurar avaliar os níveis de alfabetização referentes à cidade de Mariana setecentista, tendo em vista a relação desse fenômeno com os movimentos migratórios. Traça o autor inicialmente o perfil de Mariana Colonial: inicialmente, quanto à população livre, a maior parte da população marianense era composta por imigrantes; num segundo momento, a cidade deixa de receber adventícios. Quanto aos escravos, eram originalmente africanos, índios e asiáticos em sua grande maioria, depois os nascidos localmente predominaram.

Quanto à história da educação no Brasil colonial, até o presente momento, afirma que se tem restringido à análise das leis da criação ou do fechamento das instituições de ensino. A educação, no sentido da leitura e da escrita, ainda é um campo muito pouco explorado. Para conhecer essa dimensão oculta da vida colonial, é necessário explorar séries documentais ainda praticamente desconhecidas, como, por exemplo, livros de ingresso em irmandades leigas, uma vez que as irmandades eram um elemento fundamental nas cidades pré-industriais por conta de suas intensas atividades sociais. No Brasil, as irmandades se organizaram a partir de identidades étnicas, distinguindo os homens brancos em relação aos pardos e negros.

 

No século XVIII, os burocratas portugueses passam a exigir que os regulamentos (‘os compromissos’) das irmandades fossem regidos e devidamente aprovados pelo poder régio; além disso, tornam obrigatória a abertura de um livro de matrícula em que constassem o nome, lugar de residência e a assinatura do irmão. Através da última informação, é possível uma primeira avaliação, em Mariana Colonial, do número de indivíduos que sabiam desenhar, assinar ou simplesmente marcavam uma cruz entre o nome e o sobrenome.

Venâncio pesquisa duas irmandades situadas em freguesias rurais (Catas Altas e Barão de Cocais) e a Irmandade do Santíssimo Sacramento, em Mariana. O resultado revela uma elite com um perfil extraordinariamente culto para a época. Os altos índices de alfabetização devem-se ao fato de que 60% da elite de Mariana era formada por portugueses. Dessa forma, é possível sustentar que a alfabetização, entre os setores privilegiados da população de Mariana, foi uma variável relacionada à emigração de metropolitanos.

Para saber o índice de alfabetização entre negros, utilizou o autor o Livro de matrícula da irmandade de N.  Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Mariana. Os dados indicam que os nativos nascidos localmente, os ‘crioulos’, teriam maior chance de aprender a escrever do que homens e mulheres provenientes de sociedades africanas.

 

Ramos e Venâncio (2002) debruçam-se sobre os topônimos mineiros como uma fonte para a história social da língua portuguesa. Segundo os autores, se estamos interessados na história social de uma língua, a seleção lexical como objeto de investigação permitirá capturar, de modo mais transparente, a força dos fatores sócio-históricos. Desse modo, constitui o objetivo central do artigo identificar critérios adotados na escolha dos nomes das localidades, tendo em conta permanências e substituições. É objetivo também propor uma tipologia de base sócio-histórica para topônimos mineiros. Duas amostras compõem o corpus dos autores:

a) nomes de cidades mineiras ao longo dos séculos XVIII  e XX

b) nomes oficiais e populares de favelas de Belo Horizonte.

 

A comparação permitirá mostrar que, quanto maior a presença do Estado, menor a presença dos nomes descritivos. Do ponto de vista linguístico, o estudo permitirá explicitar que há sistematicidade na troca de nomes, o que confirmará a atuação de padrões de organização social sobre a escolha lexical. Dos 853 municípios mineiros, apenas 15% nunca sofreram alteração na respectiva designação. A hipótese inicial do trabalho é formulada da seguinte maneira: as alterações nos topônimos estariam relacionadas à tentativa de valorizar personalidades históricas. No entanto, ela não se confirmou: apenas 61 localidades têm o nome de personalidades (7,1%). É possível afirmar que a mudança de nomes de cidades mineiras estava, e ainda está, vinculada ao ‘apagamento’ de nomes religiosos. Na maior parte das vezes, isso ocorreu através da eliminação da referência ao santo padroeiro do lugar (Santa Rita de Cássia > Cássia; Santo Antônio de Coluna > Coluna). No período colonial, o abandono de nomes religiosos tinha outra origem: observava-se a tendência à substituição de nomes religiosos por topônimos que fazem referência à casa reinante portuguesa. Após o período colonial, em decorrência do processo da construção da identidade nacional, algumas designações religiosas foram substituídas em proveito de fatos ou de personagens  da  história  brasileira  (São João Del Rei  >  Tiradentes;    Coração de Jesus > Inconfidência). Esse traço nacionalista também se expressou através de substituições de nomes estrangeiros por nacionais.

Nos últimos 150 anos, 9,9% das localidades mineiras adotaram designações indígenas, reflexo de uma representação positiva do indianismo. Se o índio era considerado um elemento positivo, o mesmo não podem dizer em relação à população de origem africana. Houve um processo de apagameneto da memória africana na toponímia mineira. A modernização da onomástica desdobrou-se ainda na tendência de apresentar rigor na grafia das palavras, mudança orientada pela lei de 1938 (Oberava > Uberaba). Outra conseqüência da modernização foi o apagamento de nomes descritivos (localidades designadas por meio de nomes de animais, plantas e aspectos topográficos - geralmente com alguma conotação irônica. Um traço comum a todas essas designaçõses é serem de autoria do povo, traduzindo especificidades locais). Dos 384 topônimos analisados, quase todos tiveram seu nome reduzido. A ampliação dos nomes é um fenômeno raro, sendo registrada em apenas 18 localidades.

Os resultados da análise parecem exibir tendências contraditórias, pois tanto há abandono quanto adoção das três categorias apontadas (nomes religiosos, indígenas, de tradição popular). Mas essa contradição é aparente, uma vez que há um padrão regular na adoção de novos nomes. Para a comprovação disso, há que considerar as denominações intermediárias. A comparação dos dados leva a depreender o seguinte percurso:

 

nome descritivo > nome religioso > nome indígena > nome de pessoa > nome com sufixo - pólis ou - lândia.

 

Quanto às favelas, os nomes oficiais convivem simultaneamente com os nomes não-oficiais. O exame dos nomes das favelas vai mostrar tendência semelhante àquela observada em relação aos municípios: o nome oficial apaga marcas da tradição popular. Das 154 favelas atuais, 43,9% têm dois nomes. As denominações não-oficiais são descritivas. Já os nomes oficiais são, em sua maioria, de inspiração religiosa ou nacionalista.

 

 

3.4. REGIÃO SUL

 

O texto de Oliveira (2001) pretende ser, como diz o próprio autor, uma tentativa de escrever História e Lingüística, focalizando uma região e uma época específicas: o Brasil meridional de 1680 a 1830. É parte de um trabalho maior em andamento, o ‘Projeto Última Fronteira: problemas e perspectivas para uma sócio-história da língua portuguesa no Brasil Meridional (1680-1830)”, que encaminha a discussão sobre alguns pontos da Teoria do Conflito entre Gramáticas (TCG), como vem sendo desenvolvida por Kroch (1996)[91].

Segundo o autor, a compreensão do fenômeno a que chamamos ‘português brasileiro’ depende de entendermos que houve, por um lado, a aquisição desta língua por aloglotas, cuja representatividade no número total de habitantes foi muito grande e em certas partes do território maior do que em outras. A seguir, procura, apoiado em bibliografia da História, chegar a um quadro histórico da ocupação da Região Sul, identificando ali dois focos de expansão: um paulista e outro dos estrategistas da Coroa Portuguesa. Esses fatos fundadores permitem a construção de uma história portuguesa no Brasil merdional.

Os mapas produzidos pelo Projeto ALERS permitem relacionar características lingüísticas sincrônicas presentes na Região Sul com os ciclos históricos que determinaram a povoação dessa Região. Algumas isoglossas dividem quase que perfeitamente as áreas paulista e açoriana da colonização. O autor analisa os seguintes fenômenos para comprovar essa correlação: africação do /t/ antes do /i/; uso do ‘tu’ ou de ‘você’ no tratamento íntimo.

 

Aguilera (2002) começa o seu texto dando informações acerca do português paranaense no passado, através dos relatos de Auguste de Saint-Hilaire (1816-1822) e do General José Cândico da Silva Muricy (final do século XIX). A seguir, historia o percurso dos estudos dialetológicos sobre o português paranaense:

 

 

A partir de Silva Neto (1957), discute a autora a importância dos atlas linguísticos como fonte de dados diacrônicos de determinada língua[92]. A seguir, postula que a distribuição de variantes conservadoras, pelo território do Paraná Tradicional, isto é, das regiões povoadas entre os séculos XVII e XIX, abre perspectivas de associação com os movimentos das bandeiras paulistas, por meio da (a) manutenção de tupinismos e (b) palavras e expressões arcaicos e rurais setecentista ou oitocentista. A autora considera a proposta pioneira, uma vez que parte dos dados coletados na linguagem oral para subsidiar a pesquisa documental. A pesquisa constará das seguintes etapas: (a) levantamento das cartas lexicais que apresentam registros não padrão e que, do ponto de vista do falante urbano, seriam arcaicos e/ou rurais; (b) seleção das formas lexicais para comporem o corpus de investigação; (c) estudo e registro da etimologia das palavras selecionadas; (d) análise da correlação registro lexical x fato e momento histórico; (e) pesquisa em documentos da época para verificar a vitalidade ou não dessas formas; (f) elaboração de artigos de cunho filológico sobre o vocabulário rural paranaense e sua relação com o vocabulário português.

 

 

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VENÂNCIO, Renato Pinto. (2001). Migração e alfabetização em Mariana colonial. In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. (Org.). Para a história do português brasileiro. Primeiros estudos. v. II. t. 2. São Paulo: Humanitas/FAPESP. p. 391-399.

VITRAL, Lorenzo. (2001). Língua geral versus língua portuguesa: a influência do “processo civilizatório”. In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. (Org.). Para a história do português brasileiro. Primeiros estudos. v. III. t. 2. São Paulo: Humanitas/FAPESP. p. 303-315.

 

 

 

CAP. IV - CORPORA DO PROJETO PARA A

HISTÓRIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO DE 1997 A 2003

  

Afranio Gonçalves Barbosa (UFRJ)

afraniogb@letras.ufrj.br

 

Célia Regina dos Santos Lopes (UFRJ)

celiar@unisys.com.br

 

Introdução:

 

Este relatório enumera e sistematiza todos os materiais transcritos e/ou editados pelas equipes regionais do Projeto Nacional PHPB desde seu primeiro seminário, realizado na USP em 1997, até o primeiro semestre de 2003. Figuram aqui, primeiro, não só os trabalhos coletivos com corpora programados para os encontros nacionais do grupo, como também aqueles outros que as equipes regionais vêm publicando em suporte impresso ou eletrônico. Registram-se, igualmente, as produções individuais de seus membros, em geral contribuições espontâneas, livros ou partes de teses e dissertações que integram o quadro tipológico-textual que o PHPB deixa à disposição da comunidade científica. Cabe destacar o avanço significativo que o labor histórico de todos os integrantes do projeto proporcionou à qualidade dos resultados das investigações em diacronia sob diferentes olhares teóricos: edições boas e representativas fazem bons e representativos os maus e limitados dados lingüísticos.

 

I - Produção Coletiva em âmbito nacional:

 

1.1) Para o III Seminário Nacional do PHPB (Campinas-SP, 1999), as equipes regionais da Bahia, de Minas Gerais, do Paraná, de Pernambuco, do Rio de Janeiro, de Santa Catarina e de São Paulo editaram corpora locais com anúncios publicados em jornais brasileiros do século XIX. Todo esse material, totalizando 1643 anúncios, foi reunido sob forma de capítulos em:

 

GUEDES, Marymarcia & BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

 

1.2) Para o IV Seminário Nacional do PHPB (Teresópolis-RJ, 2001), as equipes regionais da Bahia, de Minas Gerais, do Paraná, de Pernambuco, do Rio de Janeiro e de São Paulo editaram corpora locais com cartas de redatores e cartas de leitores publicados em jornais brasileiros do século XIX. Todo esse material foi reunido sob forma de capítulos em:

 

BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

 

 

1.3) Para o V Seminário Nacional do PHPB (Ouro Preto-MG, 2002), as equipes da Bahia, Minas Gerais, Paraná e do Rio de Janeiro distribuíram eletronicamente edições de cartas manuscritas – de caráter público e privado – dos séculos XVIII e XIX. O material, detalhado na produção regional a seguir, será ampliado para o VI Encontro Nacional do PHPB (Bahia, previsto para 2004) e oportunamente publicado em versão impressa.

 

II - Produção Coletiva em âmbito regional:

 

2. 1 BAHIA

 

2.1.1) Página na rede mundial de computadores com corpora da equipe da Bahia: em fase final de construção. Informações e materiais por prohpor@ufba.br.

 

2.1.2) Publicação de textos oficiais setecentistas: os papéis de uma devassa e cartas acompanhadas com anexos de natureza variada – listas, certificados, certidões, dentre outros.

 

LOBO, Tânia (org.); FERREIRA, Permínio; GONÇALVES, Uílton; OLIVEIRA, Klebson (Colaboradores). (2001) Cartas baianas setecentistas. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP (Série Diachronica: fontes para a História da Língua Portuguesa,3).

 

2.1.3) Edição de Atas oitocentistas da administração privada escritas por negros africanos e brasileiros afro-descendentes. Material ao encargo de Tânia Conceição Freire Lobo, Klebson Oliveira e bolsistas IC/CNPq e PET – Edição de atas da Sociedade Protetora dos Desvalidos: contribuição para a escrita da história lingüística dos negros no Brasil. Prevista até julho de 2003 a edição de dois livros de Atas da SPD e outros documentos do século XIX. Distribuição eletrônica por prohpor@ufba.br.

 

2.1.4) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

 

CARNEIRO, Zenaide de Oliveira Novais; ALMEIDA, Norma Lúcia F. de; RIBEIRO, Ilza; ALVES, Juvanete Ferreira; BATISTA, Vanúzia; CARVALHO, Elaine de; MALAFAIA, Aldísia (2000). “Estado da Bahia” . In: GUEDES, Marymarcia & BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

 


2.1.5) Cartas publicadas em jornais do século XIX em:

 

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia; RIBEIRO, Ilza; CARNEIRO, Zenaide de Oliveira Novais; ALMEIDA, Norma Lúcia F. de. “Cartas em jornais oitocentistas da Bahia”. In: BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

 

2.1.6) Documentos oficiais dos séculos XVIII e XIX – certidões, testamentos, inventários, dentre outros – transcritos e em fase de edição por Zenaide de Oliveira de Novais e Norma Lúcia Fernandes de Almeida. Material distribuído eletronicamente por zenaide@uefs.br e analisado em:

 

CARNEIRO NOVAIS, Z.; ALMEIDA, N. L. F. de (2001) “Arquivos municipais do interior da Bahia: fontes para a história do português brasileiro”. In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia (org.) Para a história do português brasileiro: volume II – primeiros estudos. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP/FAPESP, tomo II, p. 500-529.

 

2.1.7 Cerca de 200 cartas pessoais escritas por 125 diferentes remetentes letrados e com influência na política brasileira. Material remetido de diversas localidades, como Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Cuiabá, São Paulo, Minas Gerais, do sul do Brasil e do exterior. Material distribuído eletronicamente por zenaide@uefs.br e analisado em:

 

CARNEIRO NOVAIS, Z.; ALMEIDA, N. L. F. de (2002) “Informes sobre corpus em fase de conclusão: cartas de homens ‘ilustres’ do século XIX(PB/Bahia)”. In: DUARTE, Maria Eugênia L.; CALLOU, Dinah. (org.) Para a história do português brasileiro: volume IV –  Notícias de corpora e outros estudos. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ/FAPERJ.

 

2.1.8 Transcrição diplomática de 26 documentos oficiais – certidões, inventários, testamentos e declarações – dos séculos XVII, XVIII e XIX. Material distribuído eletronicamente por zenaide@uefs.br e analisado em:

 

CARNEIRO NOVAIS, Z.; ALMEIDA, N. L. F. de (2002) “Notícias sobre o banco de textos de Feira de Santana e Cachoeira”. In: ALKMIM, Tânia Maria. (org.) Para a história do português brasileiro: volume III – Novos estudos. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, p. 465-488.

 

2. 2 MINAS GERAIS

 

2.2.1) Elaine Chaves e Mônica G. R. Alkmim. Publicação eletrônica com edição diplomático-interpretativa e fac-similada de mais de uma centena de cartas do século XIX – do Acervo Histórico Monsenhor Horta, localizado no Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto (MG). Material organizado em:

 

CHAVES, Elaine & ALKMIM, Mônica G.R. (org.) (2002) Cartas pessoais do século XIX:  Acervo Histórico Monsenhor Horta. Mariana: Instituto de Ciências Humanas e Sociais/UFOP, versão em CD-ROM. Informações por ramosjan@zaz.com.br.

 

2.2.2) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

 

ALKMIM, Mônica G.R.; BORGES, Júlia; RAMOS, Jânia; LEITE, Ana Maria; FREITAS, Miriam Lúcia V. de (2000). “Estado de Minas Gerais”. In: GUEDES, Marymarcia & BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

 

2.2.3) Cartas em jornais oitocentistas de Minas Gerais em:

 

RAMOS, Jânia; ALKMIM, Mônica. “Cartas em jornais oitocentistas de Minas Gerais”. In: BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

 

2.2.4) Documentos da administração privada: transcrição parcial do Livro de Termos da Irmandade do Rosário dos Pretos, Minas Gerais, século XVIII. Material distribuído eletronicamente por ramosjan@zaz.com.br e analisado em:

 

RAMOS, Jânia (2001). “Seleção do corpus para o estudo da língua portuguesa na Capitania de Minas Gerais no século XVIII”. In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia (org.) Para a história do português brasileiro: volume II – primeiros estudos. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP/FAPESP, tomo II, p. 423-434.

 

2. 3 PARANÁ

 

2.3.1) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

 

CYRINO, Sônia Maria Lazzarini (2000). “Estado do Paraná”. In: GUEDES, Marymarcia & BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

 

2.3.2) Cartas em jornais oitocentistas do Paraná em:

 

CYRINO, Sônia Maria Lazzarini. “Cartas em jornais oitocentistas do Paraná”. In: BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

 

2.3.3) Edição de 24 cartas pessoais do final do século XIX, sendo algumas de comércio, com a qualidade especial de ter-se identificado a naturalidade de todos os redatores: brasileiros. Material distribuído eletronicamente por oniryc@sercomtel.com.br.

 

2. 4 PERNAMBUCO

 

2.4.1) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

 

PESSOA, Marlos de Barros (2000). “Estado de Pernambuco”. In: GUEDES, Marymarcia & BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

 

2.4.2) Cartas em jornais oitocentistas de Pernambuco em:

 

PESSOA, Marlos de Barros. “Cartas em jornais oitocentistas de Pernambuco”. In: BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

 

2.4.3) Transcrição de textos da administração pública pernambucana do século XVII guardados no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa. Material distribuído eletronicamente por marlospessoa@bol.com.br.

 

2.4.4) Transcrição de textos da administração pública pernambucana dos séculos XVIII e XIX. Material distribuído eletronicamente por marlospessoa@bol.com.br.

 

2. 5 RIO DE JANEIRO

 

2.5.1) Página na rede mundial de computadores com corpora da equipe Rio de Janeiro: www.letras.ufrj.br/phpb-rj. Materiais literários e não-literários dos séculos XVIII e XIX: cartas pessoais, cartas das administrações pública e privada, peças populares; além de anúncios, cartas de redatores e de leitores publicados em jornais oitocentistas.

 

BARBOSA, Afranio Gonçalves; CALLOU, Dinah Maria Isensee & LOPES, Célia Regina dos Santos (2000). Corpora diacrônicos e sincrônicos do PHPB-RJ.  Rio de Janeiro: www.letras.ufrj.br/phpb-rj. Página do projeto Para uma História do Português Brasileiro (equipe Rio de Janeiro) na rede mundial de computadores.

 

2.5.2) Página na rede mundial de computadores com corpora da equipe Rio de Janeiro: www.letras.ufrj.br/nurc-rj. Transcrições de inquéritos do Projeto Norma Urbana Culta/RJ gravados, na década de 70, em três modalidades: diálogo entre informante e entrevistador (DID), elocuções formais (EF) e diálogo entre dois informantes (D2). Conta-se, também, de um corpus complementar para estudos em tempo real, gravado na década de 90 com informantes da de 70. (vide item 2.5.1).

 

2.5.3) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

 

CALLOU, Dinah Maria Isensee; AVELAR, Juanito Ornelas de; PORTELA, Kate Lúcia; FRANCO, Ana Luísa (2000). “Estado do Rio de Janeiro”. In: GUEDES, Marymarcia & BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

 

2.5.4) Cartas publicadas em jornais do século XIX em:

 

BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina; CALLOU, Dinah. “Cartas em jornais oitocentistas do Rio de Janeiro”. In: BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

 

2.5.5) Cartas pessoais do século XIX: 15 escritas por naturais do Rio de Janeiro, 3 de naturais de outros estados brasileiros, 4 escritas no Brasil sem identificação de naturalidade e 4 cartas escritas no Brasil por portugueses. Material Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

 

2. 6 SANTA CATARINA

 

2.6.1) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

 

OLIVEIRA, Gilvan Müler de (2000). “Estado de Santa Catarina” . In: GUEDES, Marymarcia & BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

 

2.6.2) Toda a produção da Série Filológica, edição crítica de fundos documentais de 1703 a 1830 do Arquivo Público do Estado de Santa Catarina (APE/SC) coordenada por Gilvan Müller de Oliveira. Informações por gilvan@ipol.org.br e análise:

 

CASTILHO, Ataliba T. de (Org.) (1998). Para a história do português brasileiro: Volume I – primeiras idéias. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, p. 211-227.

 

2. 7 SÃO PAULO

 

2.7.1) Página na rede mundial de computadores da equipe São Paulo: www.fflch.usp.br/dlcv/lport/ .Em breve, essa página contará com os documentos editados pela equipe.

 

2.7.2) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

 

CASTILHO, Ataliba Teixeira de; BERLINCK. Rosane de Andrade; GUEDES, Marymarcia; OLIVEIRA, Marilza de; MORAIS, Maria Aparecida C. R. Torres; MURAKAWA, Clotilde de Almeida Azevedo; TOLEDO NETO, Sílvio de Almeida; KEWITZ, Verena; MARINE, Talita de Cássia; ZAMBUZI, Luciana; KAWAKAMI, Taísa; BARROS, Chimena Meloni Silva de; BARDINI, Tatiana; EUFRADE, Franciane Maria de Godoy, DÓTELE, Kátia Regina; SILVA, Éster Cardoso da; OLIVEIRA, Lúcia Inês Freire de; MACHADO, Soraia Floriano; NÓBREGA, Marlene Assunção de; SZABO, Leda Cecília; FELICE FILHO, Renato H. de; MICHELETTI, Helena (2000). “Estado de São Paulo”. In: GUEDES, Marymarcia & BERLINCK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

 

2.7.3) Cartas em jornais oitocentistas de São Paulo em:

 

CASTILHO, Ataliba Teixeira de; MÓDOLO, Marcelo; OLIVEIRA, Marilza de; KEWITZ, Verena. “Cartas em jornais oitocentistas de São Paulo”. In: BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

 

III - Produção individual:

 

3. 1 BAHIA

 

3.1.1) Conjunto de cerca de 200 cartas particulares de enclausuradas no Convento de Santa Clara do Desterro editadas na tese:

 

LOBO, Tânia Conceição Freire (2001) Para uma sociolingüística histórica do português no Brasil. Edição filológica e análise lingüística de cartas particulares do Recôncavo da Bahia, século XIX. São Paulo: USP. Orientador: Professor Doutor Ataliba de Castilho.

 

3.1.2) Conjunto de cartas particulares a ser publicado em sua tese de doutoramento de Zenaide de Oliveira Novais Carneiro: Pronomes, com base no corpus “Cartas privadas da elite letrada do Brasil oitocentista (1807-1900) com identificação biográfica dos remetentes” (orientadora: Professora Doutora Charlotte Galves – UNICAMP; data provável da defesa: 1º. semestre de 2004). Informações por zenaide@uefs.br.

 

3.1.3) Edição fac-similada de documentos escritos por africanos e afro-descendentes na dissertação:

 

OLIVEIRA, Klebson (2003) Edição filológica e estudo lingüístico de documentos da Sociedade Protetora dos Desvalidos, uma irmandade de cor – século XIX. (orientadora: Professora Doutora Rosa Virgínia Mattos e Silva - UFBa e co-orientadora: Professora Tânia Conceição Freire Lobo).

 

3.1.4) Edição de documentos de administração privada coordenada por Ilza Maria de Oliveira Ribeiro – Cartas do Rosário dos Pretos do Pelourinho – Bahia, século XIX., colaboração de Ana Cristina Farias, Vanesca Bispo, Soraia Rebouças, Maria Margareth Costa. Material distribuído eletronicamente por ilzaribeiro@e-net.com.br.

 

3.1.5) Edição de documentos, em sua maioria cartas, da administração privada do Hospital da Santa Casa da Misericórdia da Bahia. Trabalho coordenado por Ilza Maria de Oliveira Ribeiro. Material distribuído eletronicamente por ilzaribeiro@e-net.com.br.

 

3. 2 PARAÍBA

 

3.2.1) Conjunto de 203 cartas oficiais dos séculos XVIII e XIX guardadas no Arquivo Histórico da Paraíba e editadas na dissertação:

 

FONSECA, Maria Cristina de Assis Pinto (2003). Caracterização lingüística de cartas oficiais da Paraíba dos séculos XVIII e XIX. Tese de doutorado (2 v.), Universidade Federal de Pernambuco, 215 p. (Orientador: Marlos Pessoa). Material distribuído eletronicamente por cristinassis@uol.com.br.

 

3. 3 RIO DE JANEIRO

 

3.3.1.1) Edição de 93 cartas pessoais manuscritas por mercadores portugueses radicados no Brasil na última década dos setecentos e reunidas em:

 

BARBOSA, Afranio Gonçalves. Para uma História do Português no Brasil: Cartas de mercadores do século XVIII. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP (Série Diachronica: fontes para a História da Língua Portuguesa). No prelo.

 

3.3.1.2) Edição de documentos oficiais (petições, textos anexos à devassa política e cartas) escritos no Rio de Janeiro ao final do século XVIII. . Distribuição eletrônica por afraniogb@letras.ufrj.br ou consulta direta à tese:

 

BARBOSA, Afranio Gonçalves (1999). Para uma História do Português colonial: aspectos lingüísticos em cartas de comércio. Tese de Doutorado em Língua Portuguesa: Faculdade de Letras/UFRJ. (Orientadora: Dinah Callou).

 

3.3.2) Edição de cerca de 60 cartas pessoais e oficiais escritas no Rio de Janeiro nos séculos XVIII e XIX editadas em:

 

RUMEU, Márcia Cristina de Brito. Para uma História da Língua Portuguesa no Brasil: formas de tratamento em cartas coloniais (título provisório). Dissertação de mestrado em Língua Portuguesa: Pós-graduação em Letras Vernáculas/Faculdade de Letras/UFRJ. (Defesa prevista para dezembro de 2003). (Orientadora: Professora Doutora Célia Regina dos Santos Lopes; co-orientador: Professor Doutor Afranio Barbosa). Informações por rumeu@bol.com.br.

 

3.3.3) Edição de documentos manuscritos diversos dos séculos XVIII e XIX: 5 cartas pessoais escritas no Rio de Janeiro (01 datada em 1720, 3 em 1833 e 1 em 1851); 01 relato histórico produzido no Rio de Janeiro em 1821 e 4 entremezes portugueses de 1706). Documentação editada em:

 

LOPES, Célia Regina dos Santos (2001). Documentos dos séculos XVIII e XIX: Cartas cariocas e peças portuguesas – Transcrição e fac-símile. Rio de Janeiro, UFRJ/FUJB.(versão em CD). Informações por celiar@unisys.com.br.

 

3.3.4) Edição de 41 cartas pessoais manuscritas de Cristiano B. Ottoni e Bárbara B. Ottoni a seus dois netos Christiano e Mizaelno período de 1879 a 1889 e reunidas em:

 

LOPES, Célia Regina dos Santos & MACHADO, Ana Carolina Morito (Org.) (2003) Cartas da Família Ottoni aos netos 1879-1889: corpora diacrônicos PB (fac-símile). Rio de Janeiro, UFRJ/PIBIC-CNPq. (versão preliminar em CD). Informações por celiar@unisys.com.br.

 

3.3.5) Edição de 17 entremezes portugueses do séculos XVIII e XIX que foram reunidos em:

 

LOPES, Célia Regina dos Santos, VIANNA, Juliana Barbosa de Segadas & MACHADO, Ana Carolina Morito (Org.) (2003) Peças Populares Portuguesas – 1783-1877: Corpora diacrônicos para estudos contrastivos. Rio de Janeiro, UFRJ/PIBIC-CNPq. (Versão preliminar em CD). Informações por  celiar@unisys.com.br.

 

3.3.6) Banco de dados de ter/haver em contextos de cinco linhas levantados em documentos do século XVII da administração pública: sesmarias do Convento do Carmo no Rio de Janeiro editados em:

 

ELEUTÉRIO, Sílvia Maria (2003). A variação ter/haver:documentos notariais do século XVII. Rio de Janeiro, UFRJ, Faculdade de Letras, 417fls. Mimeo. Tese de Doutorado em Língua Portuguesa. (Orientadora: Dinah Callou). Informações por aivelee@easynet.com.br.

 

3. 4 SÃO PAULO

 

3.4.1) Edição de 27 cartas particulares do século XIX (de 15 diferentes redatores) da correspondência passiva no fundo Washington Luís do Arquivo do Estado de São Paulo, material editado por:

 

KEWITZ, Verena (2002). A gramaticalização de ser e estar no período medieval e no século XIX. Dissertação de Mestrado: Filologia e Língua Portuguesa – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP. (Orientadora: Professora Doutora Marilza de Oliveira). Informações e distribuição por kewitz@matrix.com.br.

 

3.4.2) Edição de 14 cartas particulares do século XIX (diferentes autores) pertencentes à coleção particular, material editado por:

 

MÓDOLO, Marcelo (1998) Um corpus para a Diacronia do Português da Cidade de São Paulo. Dissertação de Mestrado, São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/ USP. (Orientador: Prof. Doutor Ataliba Teixeira de Castilho). Informações e distribuição por modolo@usp.br ou marcelomodolo@hotmail.com

 

3.4.3) Edição eletrônica de documentos oficiais dos séculos XVII e XVIII do Estado de São Paulo. Ver descrição dos materiais em: DUARTE, Maria Eugênia L.; CALLOU, Dinah. (org.) Para a história do português brasileiro: volume IV –  Notícias de corpora e outros estudos. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ/FAPERJ. Material publicado em:

 

MARIOTTO, Lia Carolina Prado Alves & TOLEDO NETTO, Sílvio de Almeida (org.) (2004) Documentos do ouro: corpus dos séculos XVII e XVIII. São Paulo, FFLCH-USP/FAPESP,CD-ROM. Informações por tolnet@osite.com.br ou flc@edu.usp.br

 

3.4.4) Cópia digitalizada de correspondências do século XX publicadas no livro:

 

ANDRADE, Mário de (1958) "Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira". Prefácio e notas de Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Organização Simões (Col. Rex) 62 pp. Digitalização feita por Marcos R. Sagatio, bolsista de iniciação científica da Fapesp. Informações e distribuição por modolo@usp.br ou marcelomodolo@hotmail.com

 

3.4.5) Cópia digitalizada de diários de viagem do século XVIII: "Diário da viagem de Moçambique para os rios de Sena" (1797-1798); "Instruções e diário de viagem da Vila de Tete, capital dos rios de Sena para o interior da África (1798)" . Diários de viagens oficiais ordenadas ao paulista Francisco José de Lacerda e Almeida, que estudara em Coimbra antes de se tornar funcionário da Coroa Portuguesa na qualidade de astrônomo da comissão de demarcação de limites territoriais, atuando no Brasil e em África. Textos copiados do livro:

 

LACERDA e ALMEIDA, Francisco José de (1944) Diários de Viagem. Notas e prefácio de Sérgio Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. 125 pp. Digitalização feita por Marcos R. Sagatio, bolsista de I. C. da Fapesp. Informações e distribuição por modolo@usp.br ou marcelomodolo@hotmail.com 

 

3.4.6) Seleção e digitalização de cartas do século XVI: Dez cartas dos primeiros jesuítas no Brasil, 58 pp. Trabalho feito por Marcelo Módolo a partir de cópia digitalizada de correspondências do século XVI publicadas no livro:

 

LEITE, Serafim (1954) Cartas dos primeiros jesuítas no Brasil (1538-1553). São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 3 volumes. Informações e distribuição por modolo@usp.br ou marcelomodolo@hotmail.com

 

IV – O quadro geral Corpora do PHPB.

 

O quadro geral dos textos disponibilizados, na íntegra, pelo PHPB permite vislumbrar a constituição de um corpus diacrônico do português distinto da simples soma de “papéis antigos” divididos por marcos seculares sem motivação histórica.[93] De fato, a separação por séculos – escritos setecentistas e oitocentistas – é a básica em nosso corpus em função do número de células tipológicas a serem construídas e em função, também, de impossibilidades reais, efetivas e intransponíveis como, por exemplo, a localização de materiais impressos no Brasil no século XVIII. Veja-se que, quando a distribuição cronológica está equilibrada, o material cobre ao menos três faixas de tempo dentro de um século, como vem a ser o caso dos textos veiculados por jornais oitocentistas. Investigações que se viabilizem cobrindo somente essa célula da amostra do PHPB podem estabelecer a diacronia de seus fenômenos dentro do século XIX, período em que a nação brasileira se rascunhava e se consolidava autônoma e independente no imaginário nacional.

Essa vantagem de um melhor recorte temporal, contudo, não é a principal vantagem do material ora proporcionado. Os corpora do PHPB, até onde seja possível, são fruto de um investimento especial tanto no tratamento filológico de fontes não literárias e literárias, quanto na busca de materiais que possam refletir a linguagem de diferentes segmentos sociais dentro e fora da esfera do poder oficial de cada fase da história brasileira. Mais que isso, os materiais do século XIX proporcionam um contraponto mínimo do contexto de sua produção.

Os pesquisadores podem controlar se os fenômenos lingüísticos em foco sofrem condicionamentos pela diferente sintonia em que se opera o ato de escrever. Se hoje, nossas opções de registros e fórmulas dependem da sintonia com o contexto geral de escritura, o mesmo se aplica ao passado, diferindo-se os valores que guiavam a pena. O texto de um redator contemporâneo, tenha ele o grau de instrução que tiver [94], assume opções distintas quando se trata de uma mensagem eletrônica para um amigo, ou de uma carta manuscrita para o mesmo amigo; de um escrito a ser publicado em um jornal ou em circular interna de uma agência bancária. Assim funciona para o século XIX no corpus geral do PHPB: cartas pessoais manuscritas podem ser comparadas àquelas escritas para serem publicadas em jornais. Nesse caso, portanto, manuscritos versus impressos é categoria significativa, é fator extralingüístico de controle fundamental.

O controle tipológico-textual, baseado nessa noção de sintonia com o contexto de produção, não se restringe ao século XIX e alcança, evidentemente, os demais períodos cobertos pelo corpus geral, como o século XVIII que começa a ser descortinado. Interfere, por exemplo, a diferente pressão sobre os redatores criada pelo fato de os textos terem sido escritos para serem lidos por um único receptor próximo – como no caso das cartas pessoais – ou por um receptor simbólico, inatingível– como no caso dos documentos destinados aos governadores coloniais ou ao próprio Imperador do Brasil. Apesar de representado por um funcionário-leitor de inferior hierarquia, como um oficial da burocracia palaciana, escrever a um governador exige cerimônias e modelos específicos aos textos a ele encaminhados. Esse contraponto pode ser recuperado no confronto entre documentos oficiais e documentos privados.

Se uma dada pesquisa exigir maior rigor no controle da sintonia de escritura, essas duas categorias podem ser desmembradas em três: administração pública, administração privada e documentos pessoais. Escrever para ser lido por uma autoridade dentro de uma instituição privada – da qual, muitas vezes, o próprio redator participa – segue diferentes esquemas e tradições de escritura em relação ao material encaminhado ao rei, bem como ao texto enviado a um amigo. Fosse numa ordem religiosa, num círculo literário ou entre homens de negócios, de acordo com o período, enfim, era no espaço institucional não público que se criaram condições de identificação de segmentos quase sempre sem registro e desconsiderados pela máquina oficial. Eram contextos histórico-sociais peculiares que produziram textos reveladores de marcas específicas.

Vem a ser esse o caso das irmandades religiosas de negros em Minas Gerais e na Bahia: dois dentre outros filões de especial valor abertos, respectivamente, para os séculos XVIII e XIX por diferentes equipes regionais do PHPB. De forma semelhante, ou seja, apresentando marcas de determinados segmentos sociais, existem documentos de caráter pessoal, por vezes trocados entre amigos ou parentes, que circularam em ambiente administrativo não institucionalizado que permaneciam submetidos a ritos e cerimônias de escritura diferentes tanto dos da máquina burocrática, quanto dos da circulação pessoal. Trata-se, por exemplo, das cartas trocadas entre mercadores portugueses radicados no Brasil e os donos de verdadeiras empresas intercontinentais não formalizadas que atuaram durante o período colonial.

Por outro lado, se a opção de controle tipológico de uma dada investigação que lance mão de nossos materiais não quiser considerar a administração privada como categoria de análise, os materiais das Irmandades deverão ser incluídos aos da categoria documentos oficiais, assim como as cartas de mercadores aos da documentos privados. O importante é não enviesar os resultados.

O quadro geral dos corpora assume essa tripartição tipológico-textual que se demonstrou produtiva como fator de controle extralingüístico em determinados estudos e a ela somam-se os textos literários e de jornais. O critério subjacente é o do modo de circulação dos textos: papéis que circulavam entre remetente e destinatário quando, de certo modo, um deles fosse pessoa jurídica oficial, pessoa jurídica não oficial, ou quando remetente e destinatário escrevessem na qualidade de pessoas físicas. Note-se que, no século XIX, o próprio jornal transforma-se em categoria pois funcionava, e até hoje funciona, como veículo para diferentes tipos de textos, imprimindo-lhes, contudo, a diferente sintonia de serem escritos para circulação pública geral.

Vale dizer que sempre haverá certas sobreposições de critérios, inevitáveis a qualquer tipologia. Dessa forma, os diários – quando não protocolares na administração, por exemplo, como os diários de bordo em navios oficiais e da marinha mercante – são colocados na categoria documentos particulares por seu caráter evidentemente pessoal, ainda que o documento não circule, pois não há um outro destinatário senão o próprio redator. De fato, o texto de um diário pessoal até pode circular, pois, apesar de não ter sido concebido para tal, por vezes a vontade humana é a de que o itinerário de quem redige fique registrado para além de sua própria existência, assumindo-se tacitamente a existência de um leitor potencial não coevo. Nesse caso, poder-se-ia considerá-lo documento particular pois o texto de um diário circula virtualmente na esfera pessoa-a-pessoa entre redator presente e o leitor futuro. Reflexões à parte, para classificar os diários basta seu caráter essencialmente pessoal ou administrativo.

Enfim, o leitor do presente, exatamente o deste relatório, conta, nas tabelas a seguir – e no quadro complementar com os materiais dos séculos XVI e XX copiados de livros – com uma visão ampla dos corpora reunidos e tratados nesses seis anos de trabalho do PHPB nacional. Para agilizar a recuperação das informações, consta em cada célula das tabelas a numeração do item deste relatório onde se encontra a descrição completa do material em foco. Para evitar que se perca de vista a autoria de cada produção, os usuários de qualquer um destes materiais não podem deixar de se referir às fontes sob forma de indicação bibliográfica, exatamente conforme o indicado em cada item. Fundamental mesmo é evitar a estagnação do conhecimento e agilizar o reconhecimento da produção científica de qualidade.

 

 

Quadro Geral

  

Tipologia textual

Século

XVII

Século

XVIII

Século

XIX

 

 Documentos

 da      

Administração  Pública

 

Bahia

burocracia oficial

(ver 2.1.8)

 

Pernambuco

burocracia oficial

(ver 2.4.3)

 

Rio de Janeiro

burocracia oficial

(ver 3.3.6)

 

São Paulo

burocracia oficial

(ver 3.4.3)

 

Bahia

burocracia oficial

(ver 2.1.2; 2.1.6, 2.1.8)

 

 

Paraíba

burocracia oficial

(ver 3.2.1)

 

 

Pernambuco

burocracia oficial

(ver 2.4.4)

 

 

Rio de Janeiro

burocracia oficial

(ver 2.5.1, 3.3.1.2, 3.3.2)

 

Santa Catarina

burocracia oficial

(ver 2.6.2)

 

São Paulo

burocracia oficial

(ver 3.4.3)

 

diários oficiais

(ver 3.4.5)

 

 

Bahia

burocracia oficial

(ver 2.1.6, 2.1.8)

 

 

Paraíba

burocracia oficial

(ver 3.2.1)

 

 

Rio de Janeiro

burocracia oficial

(ver 2.5.1, 3.3.2)

 

 

Santa Catarina

burocracia oficial

(ver 2.6.2)

 

 

Tipologia textual

Século

XVI

Século

XVII

Século

XVIII

Século

XIX

 

 Documentos

da

Administração Privada

 

São Paulo

Cartas da adm. jesuítica

(ver 3.4.6)

 

 

 

 

(em construção)

 

Minas Gerais

doc. Irmandades de negros

(ver 2.2.4)

  

Rio de Janeiro

cartas de mercadores portugueses

(Ver 2.5.1, 3.3.1.1)

 

 

Bahia

doc. Irmandades de negros

(ver 3.1.3, 3.1.4)

doc.

De Santas Casas

(ver 3.1.5)

 

 

  

Tipologia textual

Século

XVII

Século

XVIII

Século

XIX

Século

XX

 

 Documentos

Particulares

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(em construção)

 

Rio de Janeiro

cartas pessoais

(ver 2.5.1, 3.3.2,

3.3.3)

 

 

Bahia

cartas pessoais

(ver 2.1.7, 3.1.1, 3.1.2)

 

Paraná

cartas pessoais (ver 2.3.3)

 

Minas Gerais

cartas pessoais (ver 2.2.1)

 

Rio de Janeiro

cartas pessoais

(ver 2.5.1, 2.5.5, 3.3.2, 3.3.3, 3.3.4)

 

São Paulo

cartas pessoais

(ver 3.4.1, 3.4.2)

 

 

São Paulo

Cartas pessoais

(ver 3.4.4)

 

 

 

Tipologia textual

Século

XVII

Século

XVIII

Século

XIX

 

Textos

 literários:

 

 

(em construção)

 

Rio de Janeiro

peças teatrais portuguesas

(ver 2.5.1, 3.3.3, 3.3.5)

 

 

Rio de Janeiro

peças teatrais portuguesas

(ver 2.5.1, 3.3.5)

 

 

 

Tipologia textual

Século

XVII

Século

XVIII

Século

XIX

 

 Textos em Jornais:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Não existiam no Brasil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Não existiam no Brasil)

 

Bahia

anúncios (ver 1.1, 2.1.4)

cartas de redatores e cartas de leitores

(ver 1.2, 2.1.5)

 

Minas Gerais

anúncios (ver 1.1, 2.2.2)

cartas de redatores e cartas de leitores

(ver1.2, 2.2.3)

 

Paraná

anúncios (ver 1.1, 2.3.1)

cartas de redatores e cartas de leitores

(ver 1.2, 2.3.2)

 

Pernambuco

anúncios (ver 1.1, 2.4.1)

cartas de redatores e cartas de leitores

(ver 1.2, 2.4.2)

 

Rio de Janeiro

anúncios (ver 1.1, , 2.5.1, 2.5.3)

cartas de redatores e cartas de leitores

(ver 1.2, 2.5.1, 2.5.4)

 

Santa Catarina

anúncios (ver 1.1, 2.6.1)

 

São Paulo

anúncios (ver 1.1, 2.7.2)

cartas de redatores e cartas de leitores

(ver 1.2, 2.7.3)

 

 

 

CAP. V - PHPB: PLANEJANDO A CONTINUAÇÃO DO ACORDO

BRASIL / ALEMANHA

 

Ataliba T. de Castilho (USP,  CNPq)

Coordenador do Projeto CAPES/DAAD/PROBRAL 109/00 pelo lado brasileiro

Presidente da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina

 

           

Três anos e meio após a vigência do Projeto 109/00, integrado no Programa CAPES-DADD-PROBRAL, e esgotado o período de financiamento concedido por essas agências para o período de 2000-2003, uma pergunta natural que todos devemos estar nos fazendo é: “vamos parar por aqui, ou vamos continuar juntos”?

 

Este documento corporifica a opinião dos pesquisadores brasileiros, e é apresentado a este seminário de Blaubeuren para ouvir a opinião de nossos parceiros alemães. Anexado a ele, pode ser consultada a Bibliografia gerada pelo PHPB, um pouco lacunosa no que diz respeito a possíveis textos de nossos parceiros alemães que não chegaram ao nosso conhecimento.

 

Cabe inicialmente verificar se os subprogramas previstos em 1999, cujos resultados constam do corpo deste relatório, foram desenvolvidos com a mesma intensidade. Esses subprogramas foram enumerados na apresentação deste volume.

 

Uma primeira constatação diz respeito ao desigual tratamento desses itens. Pode-se afirmar que os tópicos 1 (Gramaticalização e tipologia lingüística) e 3 (Contacto, variação e normas lingüísticas) conheceram um considerável desenvolvimento, o que se deve à existência prévia, nos dois ambientes, de interesses voltados para eles. Já o tópico 2 (Tradições discursivas entre oralidade e escrita) permaneceu por um bom tempo representado pelas pesquisas do Prof. Marlos Barros Pessoa – pelo menos no que diz respeito a uma atuação mais cingida às idéias de Brigitte Schlieben-Lange – e às considerações filológicas de Heitor Megale, César Cambraia, Sílvio Toledo Neto e Afrânio Gonçalves Barbosa (este, integrado como apêndice ao presente Relatório). Uma nova frente teve início em 2002, com a participação de Helena Nagamine Brandão e Maria Lucia C.V.O. Andrade no V Seminário do PHPB, as quais exemplificaram como poderia ser uma Análise Diacrônica do Discurso.

 

A segunda constatação é que em seus primeiros 4 anos, o Acordo CAPES/DAAD/PROBRAL envolveu o conhecimento mútuo de pesquisadores brasileiros e alemães. É verdade que ambos os grupos praticamente não se conheciam, e que passaram a conviver em virtude dos seminários anuais e das missões de estudo e de trabalho – estas mais rarefeitas do que aqueles em seus resultados, visto que o mútuo benefício só pode ser notado nas universidades visitadas em ambos os países.

 

Acredito que a essa natural dificuldade somou-se certo desconhecimento dos procedimentos universitários de uns e outros, um aprendizado que teve início com a vigência do Projeto. Agrava-se esta perspectiva quando se constata que poucos dos pesquisadores brasileiros lêem textos publicados em alemão.

 

Mas o problema fundamental não está aqui. Não parece  possível aprofundar os trabalhos mútuos se ignorarmos que os lingüistas brasileiros envolvidos atuam exclusivamente na área da Lingüística Portuguesa, ao passo que os lingüistas alemães dedicam-se habitualmente a pelo menos três línguas românicas, por requisitos profissionais. Seu interesse continua a concentrar-se no francês, italiano e espanhol, notando-se também que as línguas românicas de pequena difusão (o catalão, o galego) têm despertado sua atenção. No panorama da “Nova România”, o espanhol da América tem atraído sua atenção bem mais que o português americano.

 

Esta última observação aconselha a que, com a necessária urgência, se agreguem hispanistas na continuação de nossos trabalhos. Não se trata apenas de dar atendimento a um evidente requisito dos parceiros alemães, e sim a de buscar uma interação entre brasileiros e hispano-americanos, uma ação política que já se desenvolve em duas frentes, de que tenho sido defensor em mais de uma ocasião.

 

Na primeira frente, precisamente no âmbito do PHPB, a busca dessa interação se manifestou já em seus momentos iniciais. Assim, no I Seminário do PHPB (São Paulo, 1997), sinalizou-se claramente o objetivo de associar os dois projetos, o já consolidado “História do Espanhol da América” e o nascente PHPB. Para pôr em marcha esse desideratum, naquele momento foi convidado o Prof. Adolfo Elizaincín, da Universidad de la República de Uruguay e integrante do primeiro projeto, a expor os resultados dessa atividade e a interagir com os brasileiros. Incluir o espanhol neste plano de expansão atende, portanto, igualmente aos interesses dos brasileiros, sobretudo aqueles mais tocados pela necessidade de uma aproximação com nossos vizinhos. Se isto representar a vontade de todos, poderíamos propor ao Prof. Elizaincín que procedesse às sondagens necessárias junto aos nossos vizinhos de diacronia. Vizinhos na geografia da América Latina, vizinhos nos departamento das universidades alemãs.

 

Na segunda frente, no âmbito da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina (ALFAL), sua atual diretoria criou a Comissão de Pesquisas em História do Português da América, atualmente coordenada por dois membros do PHPB, os Profs. Drs. Afrânio Gonçalves Barbosa e Célia Lopes, e pediu à coordenadora da pré-existente Comissão de Pesquisas em História do Espanhol da América, Profa. Dra. Elena Rojas, da Universidad de Tucumán (Argentina), que propusesse algum tipo de ação conjunta, à semelhança do que ocorre com várias das Comissões de Pesquisa da ALFAL. Só para lembrar a última das realizações neste domínio, a revista Lingüística 13 (2001) publicou os resultados das pesquisas luso-hispanoamericanas em Aquisição da Linguagem. As Comissões de Pesquisas em história do Espanhol e do Português, integradas na ALFAL, poderiam fornecer a moldura para a continuação (alargada) de nossos trabalhos.

 

A entrada dos colegas alemães hispanistas daria um reforço considerável a essa política, ampliando e consolidando uma relação triangular alemães-brasileiros-hispanoamericanos.

 

Mas quê temas teriam o potencial de interessar e inspirar essa ação ? Bem, aqui ingressamos no complicado terreno dos sonhos e dos projetos de cada um / “de cada quien”. Impossível avançar sem conhecer esses sonhos para explorar seu possível compartilhamento.

 

Ajudaria muito sondar o modo como estamos imaginando nossa atuação enquanto lingüistas no séc. XXI. Ora, justamente Antônio Carlos  Xavier e Suzana Cortez acabam de publicar um inquérito entre 18 lingüistas brasileiros[95]. Todos responderam às mesmas perguntas, a última das quais foi “quais os desafios para a Lingüística no séc. XXI”?

 

Eis aqui um quadro-síntese das respostas:

 

1.    Prosseguir nas análises do português e das línguas indígenas (pp. 48, 56, 128, 156), preparando-se obras de referência (gramáticas e dicionários), com o objetivo de promover uma interface com as ciências da computação (p. 76, 110, 199) e de entender melhor “esse dentro da linguagem, como ela funciona, como é mesmo sua gramática, que regras regem de fato uma língua”(p. 173). Impulsionar o caráter abstrato da Lingüística em sua caminhada das regras, que se situam no nível da observação, para os princípios, que são explicativos, e destes para as lei, inteiramente preditivas, refazendo a caminhada já percorrida pela Física (p. 121).

2.    Estimular o estudo sobre o passado do português, recuperando a história do português do Brasil (p. 111).

3.    Assumindo que “a linguagem é uma capacidade cognitiva” (p.187), aprofundar as relações entre língua e cognição, acelerando a agenda cognitiva  no que diz respeito às formas de pensar, à criação de gêneros (p. 129, 140), à gramaticalização das categorias cognitivas (p. 61), e ao diálogo da Lingüística com a Neurobiologia, a Psicologia, a Filosofia da Linguagem e a inteligência artificial (p. 192). Em suma, alargar a agenda da Lingüística, tornando mais sistemáticos seus contactos com a Neurologia, a Psicologia e outras ciências (p. 34), inserindo as pesquisas lingüísticas nas pesquisas experiencialistas da genética (p. 148).

4.    Retomar os pressupostos de várias teorias e modelos já elaborados, na tentativa de “verificar o que é possível conciliar [para] responder às grandes questões que se colocam sobre a linguagem” (p. 22). Estimular a pluralidade teórica (p. 70). Redefinir do objeto da Lingüística, retomando a linguagem como objeto, e não o sistema (p. 88). Estimular a Lingüística Aplicada, para tornar mais eficaz o ensino da língua materna e das línguas estrangeiras (p.90, 95).

5.    Ganhar espaço público, “saltar os muros da academia”, fazendo ouvir nossa voz nos grandes espaços institucionais (p. 70).

6.    Construir a história das idéias lingüísticas no Brasil (p. 157).

 

Essa manifestação dos lingüistas brasileiros – que precisaria ser comparada à dos romanistas alemães e hispanoamericanos – talvez nos possa ajudar na identificação dos próximos passos a dar. Precisaríamos, portanto, identificar os interesses destes colegas, por meio de algum tipo de questionário. Solicitarei à Profa. Cristina Altmann, coordenadora da Comissão de Pesquisas em Historiografia Lingüística da ALFAL, que estude essa possibilidade.

 

Do lado brasileiro, é clara a vontade de prosseguir o intercâmbio. Provavelmente a agenda de 2000 precisará sofrer algumas alterações, sejam aquelas sugeridas em Blaubeuren, sejam aquelas derivadas do questionamento mencionado acima. Mas sem dúvida há interesse em verticalizar a temática, desenvolvendo pesquisas de cunho teórico. Continua também a expectativa de que um número maior de interações sejam estabelecidas.

 

São estas as questões que trazemos ao debate em Blaubeuren.

 

 

Aspectos sincrônicos e diacrônicos do Português Brasileiro

Blaubeuren, 4-6 de julho de 2003.

 

 

CONCLUSÕES: PLANEJANDO A CONTINUAÇÃO DO ACORDO

BRASIL / ALEMANHA

 

Ataliba T. de Castilho (USP,  CNPq)

Coordenador do Projeto CAPES/DAAD/PROBRAL 109/00 pelo lado brasileiro

Presidente da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina

 

           

Três anos e meio após a vigência do Projeto 109/00, integrado no Programa CAPES-DADD-PROBRAL, e esgotado o período de financiamento concedido por essas agências para o período de 2000-2003, uma pergunta natural que todos devemos estar nos fazendo é: “vamos parar por aqui, ou vamos continuar juntos”?

 

Este documento corporifica a opinião dos pesquisadores brasileiros, e é apresentado a este seminário de Blaubeuren para ouvir a opinião de nossos parceiros alemães. Anexado a ele, pode ser consultada a Bibliografia gerada pelo PHPB, um pouco lacunosa no que diz respeito a possíveis textos de nossos parceiros alemães que não chegaram ao nosso conhecimento.

 

Cabe inicialmente verificar se os subprogramas previstos em 1999, cujos resultados constam do corpo deste relatório, foram desenvolvidos com a mesma intensidade.

 

Uma primeira constatação diz respeito ao desigual desenvolvimento desses itens. Pode-se afirmar que os tópicos 1 (Gramaticalização e tipologia lingüística) e 3 (Contacto, variação e normas lingüísticas) conheceram um considerável desenvolvimento, o que se deve à existência prévia, nos dois ambientes, de interesses voltados para eles. Já o tópico 2 (Tradições discursivas entre oralidade e escrita) permaneceu por um bom tempo representado pelas pesquisas do Prof. Marlos Barros Pessoa – pelo menos no que diz respeito a uma atuação mais cingida às idéias de Brigitte Schlieben-Lange – e às considerações filológicas de Heitor Megale, César Cambraia, Sílvio Toledo Neto e Afrânio Gonçalves Barbosa (este, integrado no presente Relatório). Uma nova frente teve início com a participação de Helena Nagamine Brandão e Maria Lucia C.V.O. Andrade no V Seminário do PHPB, as quais exemplificaram como poderia ser uma Análise Diacrônica do Discurso.

 

A segunda constatação é que em seus primeiros 4 anos, o Acordo CAPES/DAAD/PROBRAL envolveu o conhecimento mútuo de pesquisadores brasileiros e alemães. É verdade que ambos os grupos praticamente não se conheciam, e que passaram a conviver em virtude dos seminários anuais e das missões de estudo e de trabalho – estas mais rarefeitas do que aqueles em seus resultados, visto que o mútuo benefício só pode ser notado nas universidades visitadas em ambos os países.

 

Acredito que a essa natural dificuldade somou-se certo desconhecimento dos procedimentos universitários de uns e outros, um aprendizado que teve início com a vigência do Projeto. Agrava-se esta perspectiva quando se constata que poucos dos pesquisadores brasileiros falam a língua de seus parceiros alemães.

 

Mas o problema fundamental não está aqui. Não parece  possível aprofundar os trabalhos mútuos se ignorarmos que os lingüistas brasileiros envolvidos atuam exclusivamente na área da Lingüística Portuguesa, ao passo que os lingüistas alemães dedicam-se habitualmente a pelo menos três línguas românicas, por requisitos profissionais. Seu interesse continua a concentrar-se no francês, italiano e espanhol, notando-se também que as línguas românicas de pequena difusão (o catalão, o galego) têm despertado sua atenção. No panorama da “Nova România”, o espanhol da América tem atraído sua atenção bem mais que o português americano.

 

Esta última observação aconselha a que, com a necessária urgência, se agreguem hispanistas na continuação de nossos trabalhos. Não se trata apenas de dar atendimento a um evidente requisito dos parceiros alemães, e sim a de buscar uma interação entre brasileiros e hispano-americanos, uma ação política que já se desenvolve em duas frentes, de que tenho sido defensor em mais de uma ocasião.

 

Na primeira frente, precisamente no âmbito do PHPB, a busca dessa interação se manifestou já em seus momentos iniciais. Assim, no I Seminário do PHPB (São Paulo, 1997), sinalizou-se claramente o objetivo de associar os dois projetos, o já consolidado “História do Espanhol da América” e o nascente PHPB. Para pôr em marcha esse desideratum, naquele momento foi convidado o Prof. Adolfo Elizaincín, da Universidad de la República de Uruguay e integrante do primeiro projeto, a expor os resultados dessa atividade e a interagir com os brasileiros. Incluir o espanhol neste plano de expansão atende, portanto, igualmente aos interesses dos brasileiros, sobretudo aqueles mais tocados pela necessidade de uma aproximação com nossos vizinhos. Se isto representar a vontade de todos, poderíamos propor ao Prof. Elizaincín que procedesse às sondagens necessárias junto aos nossos vizinhos de diacronia. Vizinhos na geografia da América Latina, vizinhos nos departamento das universidades alemãs.

 

Na segunda frente, no âmbito da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina (ALFAL), sua atual diretoria criou a Comissão de Pesquisas em História do Português da América, atualmente coordenada por dois membros do PHPB, os Profs. Drs. Afrânio Gonçalves Barbosa e Célia Lopes, e pediu à coordenadora da pré-existente Comissão de Pesquisas em História do Espanhol da América, Profa. Dra. Elena Rojas, da Universidad de Tucumán (Argentina), que propusesse algum tipo de ação conjunta, à semelhança do que ocorre com várias das Comissões de Pesquisa da ALFAL. Só para lembrar a última das realizações neste domínio, a revista Lingüística 13 (2001) publicou os resultados das pesquisas luso-hispanoamericanas em Aquisição da Linguagem. As Comissões de Pesquisas em história do Espanhol e do Português, integradas na ALFAL, poderiam fornecer a moldura para a continuação (alargada) de nossos trabalhos.

 

A entrada dos colegas alemães hispanistas daria um reforço considerável a essa política, ampliando e consolidando uma relação triangular alemães-brasileiros-hispanoamericanos.

 

Mas quê temas teriam o potencial de interessar e inspirar essa ação ? Bem, aqui ingressamos no complicado terreno dos sonhos e dos projetos de cada um / “de cada quien”. Impossível avançar sem conhecer esses sonhos para explorar seu possível compartilhamento.

 

Ajudaria muito sondar o modo como estamos imaginando nossa atuação enquanto lingüistas no séc. XXI. Ora, justamente Antônio Carlos  Xavier e Suzana Cortez acabam de publicar um inquérito entre 18 lingüistas brasileiros[96][96]. Todos responderam às mesmas perguntas, a última das quais foi “quais os desafios para a Lingüística no séc. XXI”?

 

Eis aqui um quadro-síntese das respostas:

 

7.    Prosseguir nas análises do português e das línguas indígenas (pp. 48, 56, 128, 156), preparando-se obras de referência (gramáticas e dicionários), com o objetivo de promover uma interface com as ciências da computação (p. 76, 110, 199) e de entender melhor “esse dentro da linguagem, como ela funciona, como é mesmo sua gramática, que regras regem de fato uma língua”(p. 173). Impulsionar o caráter abstrato da Lingüística em sua caminhada das regras, que se situam no nível da observação, para os princípios, que são explicativos, e destes para as lei, inteiramente preditivas, refazendo a caminhada já percorrida pela Física (p. 121).

8.     Estimular o estudo sobre o passado do português, recuperando a história do português do Brasil (p. 111).

9.    Assumindo que “a linguagem é uma capacidade cognitiva” (p.187), aprofundar as relações entre língua e cognição, acelerando a agenda cognitiva  no que diz respeito às formas de pensar, à criação de gêneros (p. 129, 140), à gramaticalização das categorias cognitivas (p. 61), e ao diálogo da Lingüística com a Neurobiologia, a Psicologia, a Filosofia da Linguagem e a inteligência artificial (p. 192). Em suma, alargar a agenda da Lingüística, tornando mais sistemáticos seus contactos com a Neurologia, a Psicologia e outras ciências (p. 34), inserindo as pesquisas lingüísticas nas pesquisas experiencialistas da genética (p. 148).

10.  Retomar os pressupostos de várias teorias e modelos já elaborados, na tentativa de “verificar o que é possível conciliar [para] responder às grandes questões que se colocam sobre a linguagem” (p. 22). Estimular a pluralidade teórica (p. 70). Redefinir do objeto da Lingüística, retomando a linguagem como objeto, e não o sistema (p. 88). Estimular a Lingüística Aplicada, para tornar mais eficaz o ensino da língua materna e das línguas estrangeiras (p.90, 95).

11.  Ganhar espaço público, “saltar os muros da academia”, fazendo ouvir nossa voz nos grandes espaços institucionais (p. 70).

12.  Construir a história das idéias lingüísticas no Brasil (p. 157).

 

Essa manifestação dos lingüistas brasileiros – que precisaria ser comparada à dos romanistas alemães e hispanoamericanos – talvez nos possa ajudar na identificação dos próximos passos a dar.

 

Do lado brasileiro, é clara a vontade de prosseguir o intercâmbio. Provavelmente a agenda de 2000 não precisará ser alterada, mas sem dúvida há interesse em verticalizar a temática, desenvolvendo pesquisas de cunho teórico. Continua também a expectativa de que um número maior de interações sejam estabelecidas.

 

 

São estas as questões que trazemos ao debate em Blaubeuren.

 

ANEXO    PROJETO PARA A HISTÓRIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO